sábado, 22 de maio de 2010

CLIP: ABERTURA DO MEU PROGRAMA ATUAL "COISAS PELAS QUAIS VALE A PENA VIVER"

Todas as quartas-feiras, às 21h30, no Canal Brasil (66).

ATUALIDADE: ESTUDO DA DRAMATURGIA DE "WHATEVER WORKS"

(Se não quiser saber a história do filme, não leia este estudo!)



Os roteiros de W.A. têm a consistência de um romance literário. Não são do tamanho do filme. Isso porque ele joga habilidosamente com inimagináveis lapsos de tempo. Não faz uma economia em tramas paralelas. Mas tem uma noção aguda de que parte da estória é dramatizável, sendo o resto narrado por offs e imagens.
Esse filme recente dele, ‘Whatever Works’, leva essa técnica ao paradoxo. Ele vem desenvolvendo a trama e quando esta enfrenta um impasse, quando o resto da trama pode ser adivinhada pelo espectador, ele arma um lapso de tempo e narra o que aconteceu. No filme citado, temos:
1. A descrição do personagem. Utilizando como interlocutores amigos em mesa de bar, ou simplesmente a própria plateia. O personagem é armado com características muito especiais. O mau humor representado por Larry David é desesperado, tem síndrome do pânico, odeia as pessoas (a quem trata mal demais), mora num canto incompreensível de Nova York, um buraco de rato e escolheu, como meio de vida, ser professor de xadrez para crianças. Ele já quase ganhou o prêmio Nobel de física, que é o mesmo que ter ganho o prêmio Nobel de física. A sua principal característica, tratar a pontapés suas crianças e o resto das pessoas, é exercida com um mau humor exemplar. Diz na cara das pessoas que ele é um gênio e que elas são mediocridades ridículas. Observemos aqui o número de dados que o personagem tem para sua apresentação: são 6 dados absolutamente originais e longe do lugar comum. Ele é simpático, não gostaria ser assim com as pessoas, ou melhor, afirma suas posições mais para defender do que para atacar. É desnecessário dizer que antes de qualquer trama, o filme já é engraçado.
Ah, sim. O mais importante dos dados. Ele já tentou o suicídio uma vez, se jogando pela janela. Mas caiu sobre o toldo e não conseguiu morrer. É a presença da morte, imprescindível para a comédia.
Aí acontece a primeira trama. Absolutamente por acaso, ele é abordado na porta da escada por uma bela jovem, burra e desinformada, que diz que não tem onde dormir, que precisa de ajuda, e insiste até ele a levar para dentro de casa. Esta já é um elipse sobre o tempo em que ele conhece a moça e leva para o apartamento. Um cineasta normal levaria 15 minutos para descrever esse processo de persuasão. Allen leva 3. Dentro de casa, a primeira coisa que se pensa é que ele vai comer ela. Ledo engano. Allen trabalha pelo inesperado, e acontece o contrário. Ele não quer saber do amor, do sexo, nada. Está desiludido também nessa. Mas a moça dorme lá naquele dia no sofá da sala, ficam próximos, ele sente uma sensação agradável de calmaria que permaneceria se não fossem seus princípios.
O normal é que ele fique apaixonado, mas W. quer o imprevisível. A garota é que se oferece, apaixonada por ele, que é feio e velho. Como ele resiste, passam a conviver como dois amigos. W. precisa agora de um acontecimento que faça os dois se aproximarem. Ela encontra, para angústia do espectador, absolutamente por acaso, num esbarrão, um jovem da idade dela de botar respeito. Lindo, delicado, apaixonante e sexy. E convida ela pra sair. No que ela se oferece pra sair, sentimos que o Larry sente ciúmes, pois está precisando dela. Mas deixa ir e esconde qualquer reação.
Outro lapso de tempo. O que acontece entre ela e o rapaz, não vemos. Apenas imaginamos. Vemos só sua volta para casa, bêbada e, para surpresa de Larry, tendo detestado o jantar. Porque as pessoas são burras, não sabem das teorias sobre o mundo, que ela está acostumada a viver com um gênio, e diz que não quer mais sair com esse tipo de gente. Ele fica encantado e propõe o casamento.
A trama até aqui já seria suficiente para um filme. Mas W.A. está apenas no início. Ele não enfrenta a fase de recém casados deles. Tudo o que as cenas poderiam render já está dito no filme. Sua fulgurante inteligência permite-lhe perceber isso e dar um pulo no tempo para dois anos depois. Uma rápida narração, sabemos que eles estão felizes, mas que ele continua o mesmo pessimista de sempre. O que a incomoda alguma coisa. Ela quer que ele seja alegre.
Aí batem na porta. Nesse momento em que não havia nada mais para dizer, é preciso trazer um personagem novo. Uma forte estória paralela. É a mãe da menina. Burguesa do interior, que chega na casa disposta a ficar. Quase desmaia quando vê o genro e o odeia com todas as forças. Aí também o escritor fica confortável para continuar. Ele não tem mais o que contar dessa mãe. Não duvida e dá um pulo no tempo.
Um ano depois. A mãe, que era uma reprimida do interior e crente, que abandonou o marido porque ele ficou com a melhor amiga dela, começa a dar pra todos os amigos do velho. Compreende a liberdade nova iorquina.
Aqui Allen tem de inventar uma nova. O engraçado dessa mãe insignificante que detesta o velho é evidentemente se perder, mas não. W.A. sai com uma surpreendente. Um dos amigos intelectuais dele acha as fotografias que ela tirou com uma máquina vagabunda geniais e a lança como uma artista plástica de assuntos eróticos. Ela faz um enorme sucesso, com vernissage e tudo. Seria normal que ela casasse com esse amigo descobridor de seu talento, mas A. prefere a surpresa. Ela casa com dois melhores amigos de Larry. É muito feliz com os dois.
Aqui não há elipse. Posto que há algo de imediato a acontecer. A chegada do marido. Pai da menina, conservador e interiorano! Acha um escândalo tudo, arma um banzé e acaba sendo expulso dali.
Sei que o funcionamento do filme não é a essência do poeta. O poeta necessita que todos os personagens sejam salvos, inocentes, joguetes da vida. Que ninguém seja culpado. De modo que agora começa a terceira trama com vigor, obedecendo a este plano.
Como salvar a menina? A mãe dela que detesta o Larry e vice versa, arranja um ator gostosão e irresistível que arma condições para que ela traia o Larry. Essa corte é tão romântica que compreendemos que ela não poderá resistir. Beija-o, apaixonada. A cena seguinte é dolorosa e da máxima coerência. A menina vai contar para Larry que está apaixonada por outro. Sabemos que Larry sofrerá muito. Mas por que ter pressa para fazer este desenlace se o gancho é tão forte? Quando ela vai falar pro Larry, cortamos para o pai burguês, desesperado, num bar. Ele começa a ter uma conversa com um homem que parece gay. O homem nota que ele se interessa pelo assunto. Ele conta que sempre detestou trepar com mulher e uma nova estória de amor surge. O pai revela-se um gay enrustido, para alegria do seu companheiro de bar. Depois desse hiato genial, voltamos para o apartamento de Larry e a moça diz pra ele que ama outro. Larry não pode trair sua filosofia, não tem um ataque de ciúme desesperado. Sabe que os encontros amorosos são impossíveis por muito tempo. Deixa ela ir, fazendo o espectador chorar.
O filme não descreve a falta que ele sente dela nos dias seguintes. Resume a narrativa em dois planos. Um mostra Larry em casa, triste, e o outro mostra uma janela cheia de vitrais contra a qual Larry se joga impetuosamente, suicidando-se. Mas uma comédia não pode acabar assim. Nem que seja por cortesia ao espectador, Larry falha no segundo suicídio. Cai em cima de uma mulher que passava. Ele não sofre nada e a mulher se arrebenta toda.
Elipse, quatro semanas depois. Num hospital, ele conversa com a mulher que “o amparou”, e sentimos claramente que eles foram feitos um para o outro. O absurdo da situação não incomoda Allen. Ele sabe que o acaso comanda a vida.
Na última cena, somente resta fazer um happy end total e, sem pudor, Allen coloca o rompimento do ano novo. Todos estão felizes. A mãe com os amigos, o pai bichíssima com seu companheiro, a menina completamente apaixonada pelo ator e Larry, comovido com o encontro com seu novo amor, essa mulher culta, inteligente, etc.
Mas não pensem que acabou. O poeta vive em busca do poema. É preciso que algo seja dito no final do filme que ilumine todo o resto. Allen Larry David avisa a todos que tem uma multidão do outro lado da tela olhando eles. Ninguém acredita. Ele fala então com a platéia, sem atrapalhar a festa, dizendo que é preciso aproveitar a vida, dar todo o seu amor, etc., e que ele é o único daquela turma que tem a visão do todo. Dentro e fora da tela. É formidável.

PS.: Tenho vontade de dar um Curso de Dramaturgia em um teatro. Os alunos sentam na plateia e ficam olhando. Eu no palco, dito por uma digitadora um peça, conforme faço de verdade. Uso toda a plateia como colaboradora. Aproveitando algumas ideias, dividindo angústias e glórias etc. E o Curso é isso.

MANIFESTO SOBRE A ARTE

Primeira postagem DO NEW BLOG

INÉDITO: MANIFESTO SOBRE A ARTE




“Eu não sei o que é o amor. Mas se vejo um bom filme sobre o amor, aí eu sei o que é o amor. Não sei o que é a guerra. Mas se eu vejo um bom filme de guerra, eu sei o que é a guerra. Não sei bem o que é um girassol, flor estranha e amarela. Mas quando eu vejo um girassol que Van Gogh pintou, aí eu sei o que é um girassol. Não é preciso entender da vida para compreender a Arte. É preciso entender a Arte para saber da vida.”

Existem ideias deletérias que são extremamente difundidas. Uma delas é achar que o julgamento da Arte é subjetivo. Que considerar um filme ou uma peça uma obra de arte é questão de gosto. Isto não é verdade. É uma mentira deslavada e indecente. Os artistas, as crianças e os apaixonados, os inocentes e, porque não dizê-lo, aqueles que foram dotados de verdadeira inteligência... Estes sabem perfeitamente o que é a Arte e o que não é.

No início, era um divertimento. Divertir-se é necessário. A rotina enlouquece. Porém, nessa matéria, muitas atividades ganham do show business. Futebol, carnaval, as mais variadas festas, etc. Uma obrigação sagrada do Poder público é acessar ao cidadão seu divertimento.

Depois (ou terá sido antes?) surgiu uma coisa chamada Arte. Note-se que isso tudo aconteceu em tempos imemoriais. Pertence à essência da humanidade. A Arte, desde as mãos impressas na parede da caverna até o melhor filme da semana passada, apareceu com um poder novo tão ou mais essencial que o divertimento. A Arte ensina aos homens o que é a vida. Ela elogia e exalta as melhores capacidades do ser humano. A honestidade, a espiritualidade, a cidadania, etc. É a Arte que defende as grandes ideias que construíram a civilização humana. A ética, o amor e o pertencimento, etc.

No início, a Arte foi sustentada pelos reis e imperadores. Eles não puderam deixar de perceber que aquilo melhorava o caráter dos homens. Tornava-os mais inteligentes e produtivos, o que era uma coisa justificável em si. Como dizia, rugindo, o leão da Metro: “Ars gratia Artis”, “Arte pela Arte”. No passar geral dos séculos, o entretenimento descobriu que, se ele contivesse arte, seria mais rentável. E aí apareceram as indústrias de cinema, os empresários de teatro, do livro, da música e etc. Creio que foi um acidente de percurso. A Arte, dada sua notória e singular importância, não deve depender do mercado para existir.

Li recentemente que o diretor do departamento cultural da Inglaterra esteve no Brasil e disse coisas surpreendentes de tão óbvias. Coisas que mostram o quanto nos desgarramos, talvez irreversivelmente, do caminho certo. Disse, por exemplo, que deveríamos voltar ao Ministério da Educação e Cultura, posto que essas duas idéias estão ligadas: “Pela simples razão de que você só pode esperar o desenvolvimento cultural de uma sociedade se isso vier acompanhado de uma educação eficaz, que desperte, nas crianças, a apreciação pela arte.” E, igualmente: “É claro que vemos a cultura como algo, por si, importante, mas consideramos natural trabalhar em conjunto com nossos colegas da educação. Só assim conseguimos envolver as crianças em nossos projetos.” E conclui com uma frase que pode causar má impressão a primeira vista: “Política não deve ser feita para os artistas”. Creio que sei o que o Sr. Michael Elliott quer dizer com isso. Penso que o Estado não deve produzir filmes, peças, ou outras obras de arte. Que essa tarefa pertence à iniciativa privada. Que cabe aos Governos, isto sim, cuidar da infra-estrutura da atividade, para que todos possam exercê-la, o maior número possível de pessoas.
O que é a infra-estrutura? Deixemos que o próprio M.E. dê seu exemplo modesto: “Neste momento, estamos trabalhando no direito de cada criança ter cinco horas semanais de atividades culturais. Elas vão aos museus, os museus vão às escolas, enfim, têm experiências com as instituições de cultura nacionais.” Que movimento faz o Brasil nesse sentido? Nenhum.

Ao mesmo tempo, na mesma página do jornal, o Secretário de Cultura de São Paulo João Sayad afirma, para escândalo dos industrialistas: “Na Secretaria de Cultura nosso foco são as Artes. Não estamos preocupados com a educação (...) Também não queremos fazer turismo. Somos pressionados para atrair o turismo, mas nosso foco é a arte. Também não estamos preocupados nem com economia nem com emprego.” Palavras raras vindas de quem vem. Dr. Sayad, o Sr. está com toda razão. Somente a Arte salva, sem a Arte não há salvação. Precisamos encontrar entre nós quem defenda a Arte. Quem saiba reconhecê-la.

Nas concorrência atuais, nas Leis da renúncia fiscal, a Arte não tem nenhum valor. Conta pontos os outros financiamentos que você obteve, apoios, etc, etc, e, naturalmente, se os atores são famosos ou midiáticos. E, o que é mais indignante, quanto você obteve de lucro no seu último filme. Mentalidade que seria adequada se estivéssemos falando de bananas.

O Governo produzir filmes através de suas estatais ou outras renúncias fiscais é injusto, quase imoral. Como posso concorrer lado a lado com o filme igual ao meu, se este já tomou do Governo milhões, ou dezenas de milhões, e eu nada? Diria o Governo: “Mas somos nós que sabemos o que convém ao público assistir.”
O Governo financiar a ponta do processo: filmes, peças, livros, dança, etc., é um absurdo. E mais, um absurdo autoritário e dirigista. Só pode ser explicado um sistema desses se pensarmos no Poder que isto confere aos burocratas do Governo. Burocratas, por mais brilhantes que sejam, não tem a menor capacidade de julgar a Arte. Isto cabe a especialistas. A moral dos executivos e burocratas é sempre a mesma. Rejeitar o novo e antagonizar o revolucionário. E pregar o certo é dar ao público espetáculos que eles já viram. Dar ao público o que ele “quer”. Não é sua função. Sua função é dar ao povo o que ele precisa.

Ouço o riso desagradável dos industrialistas: “Nunca saberemos o que é ou não é Arte. Como poderemos compor uma comissão julgadora isenta?” Não quero responder essa pergunta idiota, qualquer criança, qualquer alma livre, sabe o que é Arte. Deixo de novo a resposta para o M. Elliott: “Repassamos recursos para o Arts Council, que é a agência responsável pelo desenvolvimento das atividades artísticas. Neste caso, damos os recursos e debatemos as prioridades, mas não interferimos nas decisões do Arts Council e no destino do dinheiro. (...) A influência do Governo sobre as decisões das instituições é cada vez menor, até porque os membros do Arts Council têm grande expertise, e temos investido na formação desses líderes no setor cultural.” Existem artistas e até uns poucos intelectuais envolvidos, capazes de julgar o que é bom e o que é ruim, como Arte. Negar essa existência é mais um recurso dirigista.

A Lei Rouanet não deve ser modificada. Deve ser extinta, bem como todas as outras do incentivo fiscal. Devia ser criado, para o bem do Brasil, um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, com notório e comprovado saber. Sei que esse tipo de modificação social tem muitos antagonistas, “os tiranos detestam a Arte”. Entretanto, necessita um longo tempo para ser implementado. Mas não seria uma boa ideia começar???

Lamento dizer que não há detalhes errados na atual legislação do cinema, teatro, etc. Lamento dizer que está tudo errado. E o primeiro homem lúcido que tentar corrigir essa situação de erro, será, em futuro próximo, um herói da Pátria.

A Cultura é a coisa mais importante na vida de um país. É ela que engrandece os homens, tornando-os dignos e moralmente poderosos.
Porém citemos algo perigoso, mas que não pode deixar de ser colocado.
A Cultura não é Arte, embora o oposto seja verdadeiro.
Num país ignorante como o nosso a Cultura se confunde obrigatoriamente com a Educação, já que nos falta a mínima.
Por outro lado, a Arte não. O brasileiro pode, teoricamente, ser o melhor poeta do mundo, o melhor pianista do mundo, o melhor orador, embora jamais possa ser o primeiro homem a pisar em Marte.
Que importância tem a Arte, se não faz pão nem derruba governos? Muito difícil explicar. O artista sabe que é a atividade mais importante do homem. Que não tem nada de elitista, ao contrário.
Os artistas sabem disso, muita gente sabe disso, mas para quem não sabe é muito difícil explicar, falta-nos a Pedagogia.
Talvez porque realmente não seja uma noção que cabe apenas em palavras, porém tentemos. O mais pobre dos mendigos entoa sua canção na calada da noite, o mais feroz dos bandidos dança seu tango, todas as pessoas vêm as novelas por causa da pitada de arte que ainda há nelas, multidões acorrem nos fins de semana aos cinemas, aos teatros. As novas publicações nas livrarias são extraordinariamente freqüentes, fazendo-nos perguntar “Quem afinal lê aquilo tudo?” A Arte é uma fome. Da alma humana. Seu melhor anti-depressivo, importantíssimo na prevenção do enlouquecimento geral.
Sem a Arte, a humanidade logo cederia aos encantos da sua própria brutalidade.
A Arte nasce na pobreza como na riqueza, trata-se de uma atividade de interesse público exatamente como a policia, a saúde pública ou o exército. Tem que ter apoios do governo, naturalmente, posto que não visa lucros materiais e sim espirituais, porém a sua importância inegável somente pode não ser sentida por aqueles que vivem em constante e selvagem competição.
O que seria do Cinema Novo sem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da retomada sem “Central do Brasil”, do Teatro sem Nelson Rodrigues. São as obras artísticas e autorais que elevam a importância social e econômica das atividades culturais.
No entanto a Arte é vista muitas vezes como entretenimento, recreio de adultos. E os artistas somente conseguem se aproximar dos poderosos na época das eleições, quando as verbas ficam mais generosas. É preciso pensar muito bem no uso do dinheiro público para apoio à Cultura. Cultura, hoje em dia, é qualquer coisa. Futebol é Cultura, televisão é Cultura, artesanato, show de strip tease...
Não estou insinuando que deva ser criado o Ministério da Arte, estou afirmando isso.
Apenas por exemplo, todo apoio dado aos filmes e as peças estão errados politicamente, porque o dinheiro público não pode ser usado na ponta visível do iceberg. Não adianta despriorizar o eixo Rio-São Paulo, o princípio do auxilio está errado. Temos hoje um Cinema e um Teatro que tenta agradar não o seu público, mas a seus patrocinadores.
Não sei como as coisas foram parar aí, muito provavelmente pelos caminhos da vaidade e da vontade do poder. Mas é hora de mudar. Se o governo quer popularizar a Arte, que convoque um colegiado de artistas de indubitável mérito para que estes descubram e nutram os maiores talentos do país sem distinção de cor, raça ou local. O esporte aprendeu isso há muito tempo, não patrocinam jogos e sim jogadores. O que importa fazer filmes ou peças num país pobre como o nosso? Importa apenas fazer bons filmes e boas peças.
E para isso é preciso agir sobre a infra-estrutura, saber onde estão os talentos novos, apoiar os velhos talentos, que são os mestres inegáveis. Criar o Ministério da Arte, ou a Secretaria da Arte. Todas as pessoas do Cinema sabem que as portas do mercado internacional somente poderão ser abertas através dos filmes de autor. Todas as pessoas de Teatro sabem que embora o empresário patrocinador ou o dono do Teatro exija muitas vezes a presença de um astro da televisão, a única coisa que garante sucesso é a peça boa. Agir sobre a infra-estrutura não é a delicia das vaidades. É preciso descer a mina, sujar-se de terra ingloriamente, para armar uma sólida base que permita que em todos os lugares a Arte floresça.
E por favor não venham dizer que eles não sabem o que é a infra-estrutura. No caso do Teatro é a inclusão desta Arte no ensino básico, é a diminuição do preço do ingresso através de adicionais dados pelo governo, é apoiar os grupos e as companhias independentes, é armar o circuito nacional, é trabalhar na formação de platéias e técnicos, etc, etc, etc... E é, principalmente, defender o Artista verdadeiro. Pedra angular de tudo.
No caso do Cinema a infra-estrutura é modificar o esquema de exibição de filme brasileiro tornando assim menos aviltante a concorrência com o produto estrangeiro. Criar o circuito nacional do cinema brasileiro, uma larga reserva de mercado, investir em formação de artistas/ técnicos, baratear o custo do ingresso, etc, etc, etc... Enfim, uma série de medidas importantíssimas com as quais atualmente ninguém se preocupa.
Com o dinheiro existente na atividade, poderíamos obter resultados muito maiores se agíssemos nesta direção certa. O problema é e sempre será o fato de que agir sobre a infra estrutura significa humildade e cidadania. Não traz poder nem votos. Além de tornar muito difícil qualquer dirigismo ou cerceamento da liberdade de expressão.


Fica assim demonstrado que a Cultura e a Arte são coisas muito diferentes, com objetivos diferentes. Não é então estranho que estejam no mesmo Ministério? A Cultura está muito mais perto da Educação do que da Arte. No entanto, tem seu Ministério, tendo a Educação o dela. Proposta ao candidato vencedor: um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, eleitos pela classe e periodicamente renovado. Quem fizer isso estará fazendo História. Porque o Brasil é um país de Artistas, ser brasileiro já é meio que uma Arte. Com um bom Ministério da Arte poderíamos exportar tanta Arte quanto sapatos. (O cinema é a segunda renda externa dos E.U.A)

Um país sem artistas não se preza.

O Governo tenta livrar-se do assunto, batata quente. Repassou a responsabilidade do desenvolvimento da Cultura e da Arte brasileira para os empresários e banqueiros, através da lei Rouanet e outras isenções fiscais. Comportamento violento. Esta tarefa é dele, Governo, inalienável. Mesmo porque os banqueiros e empresários, coitados, não entendem nada do assunto, vão ao cinema uma vez por ano e ao Teatro rarissimamente, quando a mulher exige.

Proposta para o candidato vencedor: extinguir imediatamente a lei Rouanet e congêneres, que lei de incentivo fiscal no Brasil não funciona desde a Sudene. Dando um jeito de entregar esses recursos ao Ministério da Cultura e, naturalmente ao bem vindo recém fundado Ministério da Arte!



Domingos Oliveira
Rio, 22 de maio de 2010.

ps.: Bato a cabeça contra a parede com essa ideia já há uns anos. Um dia me ouvem.

A PARTIR DAQUI, SEGUEM POSTAGENS ANTIGAS (ENTRE 26 DE MAIO DE 2008 A 17 DE JANEIRO DE 2009)

sábado, 17 de janeiro de 2009

DOGMA FÚRIA


Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2009
Casa de Cultura Laura Alvim

O DOGMA DO FÚRIA

1. Fazer com que o DOGMA FÚRIA se transforme em padrão de qualidade. O DOGMA não é obrigatoriamente uma declaração de pobreza.



2. Todo grupo tem de ter seu líder. Ou diretor. O diretor, no caso, Domingos Oliveira, não é um cargo. É uma função. A função de ter a última decisão sobre qualquer assunto que concerne ao grupo. O diretor é uma pessoa eleita pelo grupo pra realizar essa indispensável função.



3. O caso de discordância inconciliável do grupo com seu diretor representará para nós um momento de alegria, posto que representa a criação de um novo grupo (que deverá chamar-se Fúria 2) representado por outro diretor.



4. As aulas, palestras, transmissão de conhecimentos e até notas de ensaio feitas pelo diretor do Grupo Fúria devem ser lições de liberdade e conter sinceramente a máxima de Nietzsche, “quem for meu discípulo que não me siga”.



5. O ator tem a obrigação de seguir, mesmo discordando, as instruções do diretor. Fazer com toda a entrega duas ou três vezes. Se ainda assim discordar, deve criar uma contenda séria com o diretor. Chegam a um acordo ou mesmo a destruição do projeto. Não queremos por aqui atores obedientes.



6. Há algo no ator que depende do que ele é. Os invejosos, autopiedosos, excessivamente competitivos serão naturalmente excluídos do grupo.



7. No grupo é exigido gentil e respeitoso convívio social. O ensaio de teatro já é uma representação. Todos os problemas pessoais, tudo o que impede o bom funcionamento teatral, deve ser deixado na porta do teatro. O ânimo de um depende do ânimo do outro. Assim sendo esperado um sorriso, cumprimentos gerais a todos, por mais falso que isso seja.



8. O mais importante do teatro é o ator. Depois o autor. Por último, o diretor.



9. O personagem não existe. O que existe é a pessoa do ator. Se transforma em representação através da livre de todas as capacidades humanas. A imaginação. O teatro é primado na imaginação.



10. O ator. Embora secundário, posto que trabalha em função do texto e do diretor, deve ser a base do processo. É ele quem vive a mais transcendental aventura. É ele que, através da generosidade, cria um vínculo com a platéia.



11. A finalidade máxima do teatro é resgatar o sonho e formamos todos uma consciência só. De que a consciência coletiva existe. Quando um ator consegue entrar na mesma freqüência de pensamentos da platéia, o milagre se dignifica. A utopia é alcançada.



12. Como organização, o Grupo Fúria concede o segundo lugar de importância aos que trazem o dinheiro necessário para fazer o espetáculo, seja através de patrocínios ou quaisquer outros processos, para que o teatro seja possível. A função de lotar o teatro será oficializada e nomeada no Grupo Fúria. Esta equipe (envolve a divulgação, a feitura e controle do orçamento e muitas outras coisas) deve ser escalada com a máxima atenção e rigor do grupo. O que não impede que assumam também funções de ator e etc.



13. O Grupo Fúria admite as limitações da democracia. Lá não são todos iguais. No que diz respeito à divisão de cotas. Serão respeitadas as importâncias dos seus trabalhos, recompensar a todos igualmente é sempre uma meta para ser atingida. Porém raramente é uma coisa justa e funcional. No caso atual, 50% da bilheteria vai para a cooperativa e 50% para fundos do grupo, o que permitem trabalhos futuros. Todos os captadores ou lotadores de sala terão uma comissão proporcional ao resultado.



14. O Grupo Fúria não é uma fábrica de teatro. É uma fábrica de arte. A arte é a finalidade. Acreditamos no valor social da arte. Acreditamos que sem arte é a barbárie. Que é uma atividade de utilidade pública. E exigimos ser tratados como tal. Posto que somos artistas.



15. O sucesso será para nos uma preocupação secundária. A arte pela arte é o objetivo final. Somente artistas de experiência ou excepcional talento podem definir o que é a arte ou não.



16. O Grupo Fúria almeja a permanência. A sua obrigação principal é que todos os membros do grupo estejam todo o tempo num processo de feitura teatral. O grupo tem princípios dos quais todos devem compartilhar. Princípio 1: Terminar tudo aquilo que começa. O Grupo Fúria não se reduzirá a produção de espetáculos. Criará também continuamente outros movimentos culturais. Cojita-se para o próximo fevereiro uma série de leituras / performances de textos que têm possibilidades de ser o próximo espetáculo do grupo e de planos pessoais de Domingos Oliveira dos quais, de alguma forma, o grupo possa tomar parte.



17. O teatro é o último reduto da inteligência livre. Muito mais comprometido do que a TV ou o cinema. O teatro é o púlpito, é o palanque das idéias revolucionárias. Sempre foi assim desde Castro Alves.



18. O grupo deve, todo ele, unir-se no esforço de conseguir patrocínio para o grupo. A moldes que outros grupos possuem.



19. O grupo planeja e data suas estréias independente dos patrocínios. Não se pode depender de fatores aleatórios. Tendo dinheiro, fazemos. Não tendo, fazemos também.



20. Fazem parte do Grupo Fúria todos os atores, técnicos e participantes do Apocalipse e mais todos aqueles que acompanharam Domingos Oliveira ao longo da vida em sua carreira artística. A lista completa dos nomes será publicada aqui brevemente.
Muitas e muitas coisas ainda estão faltando nessa primeira versão do DOGMA.



21. Por isso, paramos no item 21 comemorando assim a maioridade do Grupo Fúria.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Meu distribuidor me telefona uma semana antes do Festival do Rio acabar, transmitindo o interesse dos jornalistas em dar uma página para uma entrevista conjunta. Eu e um menino de vinte anos, aluno da PUC, que estava dizendo ser igualzinho a mim. Desconversei. Não quis dar a entrevista botando fogo nesse modismo petista de opor veteranos a principiantes, etc.
Não consigo ver o fato de ter feito muitos filmes como um defeito. Porém no dia marcado fui rente feito pau quente para o Odeon assistir o filme do menino, do "Dominguinhos". Quase não consegui entrar, de tão cheio que estava. A juventude da PUC, solidária. Preferi o segundo andar, e de repente me descobri num cinema lotado, muito mais gente do que no meu filme, de jovens animados e lindos... Mas como não tenho medo de fantasmas, comecei a ver o filme com boa vontade. Era incrível. O cara filmava igualzinho a mim! Usava o mesmo tipo de linguagem baseada em Truffaut e Godart, mesmos planos, mesmos movimentos e enquadramentos, lentes! E muito mais que isso, o menino não ultrapassava, como eu, os limites da sua própria vivência. Sua câmera não é racional. Ela é intuitiva. E por isso, o filme fluia como os filmes meus. Comecei a ficar animadíssimo. A ponta de inveja foi desaparecendo com a emoção que o filme me causava. É o seguinte: uma moça que chega na primeira sequência para acabar um namoro. E namorado e namorada caminham e sentam pelos jardins da PUC discutindo o indiscutível. Sim, porque eles se amam! Não há o menor motivo para eles se separarem a não ser o de serem jovens e, por isso, terem de sofrer de amor. Uma estrutura muito semelhante ao excelente "Antes do Amanhecer". Durante a conversa, encontram um colega, depois um grupo de colegas, não acontece muita coisa. No melhor momento do filme eles vão fazer xixi, cada um no seu banheiro, e lá dentro choram. Depois saem sorridentes, pimpões, e seguem conversando. Em palavras que, às vezes, a gente não entende, porque está por fora dos videogames, das ideosincrazias típicas da juventude.
Fui cumprimentar o diretor menino no hall. Era uma figura estranhíssima. Todo coberto de casacos e barbas e bigodes, mais baixo que eu e revelando, por trás do "disfarce", os olhos inteligentes e jovens. Tive vontade de despi-lo de toda aquela fantasia para ver como ele é. Parece bonito. Mas não pude que também nesse caso particular, ele age como eu. Qualquer situação perigosa boto logo um terno e gravata e se possível cachecol. Mateus apertou a minha mão com a sua fria, gaguejava de nervoso. Senti imediatamente que para ele eu era um ícone.
Os adolescentes do filme de Mateus têm o mesmo gênero dos outros em todo o mundo. Como explicar? É uma cara blazer de quem já conhece tudo e não tem nada a ver com nada disso, uma ironia constante, um constante "tudo bem, tudo ótimo, eu não sou daqui" e achando divertido. Estes mesmos adolescentes são retratados na obra prima de Gus Van Sant, "Paranoid Park". Van Sant é mais velho e consgue estabelecer a explicação desse comportamento diferente. Quando um deles precisa do mundo (pais, professores, namoradas) eles nunca estão lá. O mundo é mais carente que eles, pobres rapazes e moças sem direção e sem emprego. De modo que resta apenas fingir que você não ligou, que nada tem importância, etc. O filme de Van Sant é magnífico. Jamais depois disso falei com os jovens do mesmo modo.
O filme do Mateus não é tão bom assim mas se iguala na verdade e seus depoimentos. O menino sabe filmar. Nasceu sabendo. Não parece que ele saiba muita coisa mais. Perguntei ao redor quem era a sua mãe na suspeita que poderia ser um filho bastardo meu. Mas é só uma brincadeira. Ficamos amigos e está fazendo uma assistência de direção de meu curso e montagem que estréia em Janeiro: "O Apocalipse Segundo Domingos Oliveira".
Mateus tem a insegurança natural inevitável. Evita se meter, evita dar opiniões, outro dia me perguntou o que faz um assistente de direção. Respondi: Como você? Tem de descobrir o que faz. O assistente faz o que ele percebe que é preciso. Quero dizer, baseado na minha experiência no assunto, que Mateus é como o digital. Veio para ficar. Ele é um general do exército que marchará sobre nossas cabeças. Sabe filmar, o que é muito raro entre nós. Longa vida, Mateus Souza!


Ass. Dominguinhos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ATENÇÃO, ATENÇÃO!!!


Atenção, atenção, meus companheiros bloguistas. Esta semana o blog não será renovado por dois motivos: primeiro, porque a partir da semana que vem, quarta-feira, 22, ele passa a funcionar além desse endereço, através do blog da Revista Bravo!, tendo assim maior visibilidade. Segundo, porque ando ocupadíssimo, me desculpe, peguei a gripe Obama, além do que meus filmes passam em sessão dupla no Festival de São Paulo! Apareçam todos, paulistas, se puderem. Cada filme passa três vezes, horários no jornal. "Juventude" e na sessão seguinte "Todo mundo tem problemas sexuais". Sensacional!!! Não vejo sessão dupla desde o Cinema Crispim, em pulgueiro de Botafogo, dos tempos de Tom Mix. Só que dessa vez não vai ter filme-em-série, que pena!

Até já, divirtam-se com os filmes e votem em mim! Porque o juri popular dá prêmio em dinheiro!!!!

sábado, 11 de outubro de 2008

Postagem Especial




Comunico aos meus bloguistas e blogueiros (bloguista é quem lê e blogueiro é quem faz, fica combinado assim?)

Caríssimos blogueiros,

É com imenso prazer que anuncio que o DVD de "Carreiras", depois de um ano de atraso e muitas brigas está finalmente nas locadoras! E um filme sensacional, com Priscilla Rozenbaum radiante baseado na melhor peça de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha).
Trata-se de uma longa noite de loucuras onde a personagem "Ancora" de um famoso jornal de Tv joga tudo para o alto, cheira em cena 19 carreiras de cocaína e, pela manhã, resolve sua vida de um modo surpreendente.

Vejam e me escrevam com as suas opiniões.