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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Minha peça em vídeo, Uma brincadeira

ATUALIDADES


Essa "cennarium", que o link vai abaixo, promete revolucionar o teatro. E talvez seja mais importante do que parece. Eles estão filmando as peças com excelente equipamento, resultando em ótima imagem e som. é quase como se você estivesse no teatro vendo a peça. Claro que a energia do teatro é intransmissível, mas a peça está registrada. Aí você entra no site deles e "aluga" a peça, não sei bem como, e pode assistir durante um certo período de um ou dois dias. Depois, some do teu computador. Para isso, você paga uma pequena quantia, creio que no caso da minha peça "Do fundo do lago escuro" a taxa é de R$15,00. Que era o valor do "convite amigo". Bem, se isso funciona, e tem tudo para funcionar, não será preciso mais ler os textos, comprando os livros nas livrarias. O que se publica em teatro é pouquíssimo, livro de texto de teatro é considerado anti-comercial. E na verdade, o texto contém apenas uma parcela do significado da obra. Sendo o restante construído em cena pelos atores, no espetáculo. O fato de você ter a sua disposição o texto conforme foi montado é de importância decisiva. O teatro deixa de ser fugaz. Que sempre foi uma das suas características mais importantes. É uma verdadeira democratização do teatro. Entrem no site do "cennarium", aluguem minha peça, depois dêem sua opinião através desse blog. Olha, o negócio é de entusiasmar.


Detalhes do show

domingo, 4 de julho de 2010

ATUALIDADE: CARTAS MARCADAS

Toda comissão tem cartas marcadas. Não julga pelo mérito. Desde os festivais de cinema até aquela que resolve o orçamento nacional.

Ninguém pode garantir por exemplo o resultado de um festival. O festival é julgado por uma comissão e isso abre uma questão maior, sobre os males que assediam toda e qualquer comissão julgadora.

Primeiro, a individualidade de cada um dos jurados.
Nenhum filme agrada todo mundo. Se é informal, natural que os formais não gostem. Se é livre os reprimidos não gostarão. Se for muito pessoal será antagonizado pelos amantes do coletivo. Se tiver ótimo astral pode causar invejas. E observem! Tudo isso acontecerá independente da qualidade do filme...

Segundo, a relação pessoal dos jurados com os cineastas. Fulano pode achar que alguém é besta e que não reconheceu aquela festa. Enfim, que paquerou sua mulher... pode ter pessoas que se gostam ou não se gostam. Isso também independente da qualidade do filme.

Terceiro, o homem tem ideologias, um jurado também. Pode ser do centro, da esquerda, da direita, do Flamengo, do Fluminense, de cabeça para baixo ou para cima. Vai sempre defender sua ideologia acima da qualidade do filme em questão. Isso é o normal, eu também faço isso.

Em quarto e último, os jurados ficam amigos entre si. Já fui júri de festival, a gente sai com aquelas pessoas, vê filmes até a exaustão, ri com eles nos engraçados, dorme com eles nos chatos e fica amigo deles. Aí teu amigo acha que o melhor filme, ator ou roteiro é o chinês. Você acha o do Afeganistão. A outra tua amiga, que você tá paquerando, prefere de dez o do José Mojica Marins e sempre detestou essa besteira de Bergman e Fellini. Quem é você para dizer que eles estão errados? Você gosta deles, tomaram um porre juntos ontem de noite. Negociar! O jeito é negociar. Troco o ator do meu chinês pelo diretor do teu argentino. Inclusive pode acontecer, normalmente acontece, que um dos filmes é muito melhor do que os outros e deveria levar quase todos os prêmios. Se o mérito estivesse em jogo. Mas já pensou que situação embaraçosa, os outros todos chateadíssimos, sem estatueta nenhuma na mão e o vencedor com carrinho com dez estatuetas escandalosas?! É triste! E não pode, porque um festival tem que ser alegre. Os prêmios devem ser, na medida do possível, pulverizados. É uma questão de educação. Um pouquinho para cada um, assim todo mundo fica contente. Justiça social.
De modo que o resultado do júri, é uma pizza dessas cortesias e conveniências. Eu sei, já fui júri.
A única coisa que eu não gosto, fico chateado, acho injusto, é perder prêmio porque sou veterano. Sou veterano, fui ficando veterano à medida que os anos se passaram. E temo o preconceito. Já fez muito filme, já ganhou muito prêmio, não precisa mais.
O que é de uma sacanagem absurda. Além disso tenho 73 anos, estou começando agora, velhice é para os outros.
Um homem não pode ser castigado porque trabalhou demais.
Por exemplo os iniciantes, levam uma vantagem enorme. Porque eles não estão se repetindo. Só começam a se repetir no segundo! Outro dia eu estava pensando em redigir um protesto contra esse preconceito, mas desisti.
Fora isso, festival é sempre ótimo! Encontrar tantos amigos, tanta gente que gosta de cinema, coisas que segundo a estatística ninguém gosta...



E ótima notícia: de vez em quando as cartas marcam certo! Priscilla Rozenbaum acaba de ganhar um patrocínio da Eletrobrás para fazer sua segunda direção teatral, desta vez um Dostoievski belíssimo, adaptação assinada por mim. Presente de aniversário para que ela dirigisse! Aguardem.

PS.: É uma história de amizade emocionantérrima e foi dela que certamente mamaram em "Midnight Cowboy". Um dos amigos é baixinho e frágil (Dustin Hoffman) e o outro é ALTO, FORTE, EXTROVERTIDO, EXTREMAMENTE AMOROSO E TEM MENOS DE 25 ANOS. Para o pequenininho já temos um excelente ator que eu oportunamente direi quem é. Mas o outro não temos quem possa fazer a contento. Se você é ALTO, FORTE, EXTROVERTIDO, EXTREMAMENTE AMOROSO E TEM MENOS DE 25 ANOS, apresente-se mandando sua foto e ficha para blogdodomingos@gmail.com

domingo, 20 de junho de 2010

Agora ou Nunca




Caros colegas,

Minha peça “Do Fundo do Lago Escuro” só tem mais 2 apresentações: quarta às 21h e quinta às 21h30 no Teatro das Artes, Shopping da Gávea. A peça não seguirá carreira posto que tem cenário grande e um numeroso elenco, difícil de manter. Mas para mim super valeu à pena. Faço questão que vocês vejam. A peça é sobre minha infância e me fez viver uma aventura que só o teatro proporciona. Convivi intimamente nos últimos dois meses com meu pai, minha mãe, minha infância já muito esquecida. E na medida que eu ia entendendo estas pessoas, o teatro obriga entender, eu ia me reconciliando com elas. No final das contas esse trabalho me serviu de meio para reconciliação com a minha infância. E compreender melhor o dito famoso do meu amigo J. P. Sartre “Não importa o que o passado fez de mim, importa o que eu farei com o que o passado fez de mim”.

Quem precisar de desconto na bilheteria, responda esta postagem para entrar na lista amiga (R$15).


Abraços,

Domingos Oliveira.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ATUALIDADE


2. ATUALIDADE
Em pílulas

• Todo mundo diz que a Zona Portuária do Rio de Janeiro vai virar Broadway dentro de no máximo 2 anos. Muita gente investindo lá, muita gente ganhando dinheiro lá, é bem possível que seja sim. No Galpão da Ação e Cidadania, que é enorme, tem um espaço que foi denominado por cortesia do falecido Maurício Andrade, sucessor do Betinho, “Teatro Domingos Oliveira”. Deveria me meter lá para ficar rico daqui a 2 anos, mas é muito longe a Zona Portuária. Com o trânsito ruim, bate 1 hora da minha casa ou muito mais. Resumindo, não tenho tempo pra ficar rico. Não tenho tempo para nada a não ser criar coisas novas. Com ou sem patrocínios. Não agüento mais esperar patrocínios, não tenho tempo! O número de coisas que quero fazer antes de morrer demanda mais uns vinte anos de vida. A não ser que sem saber eu me chame Matusalém, não vai dar tempo. No momento escrevo uma peça nova denominada “Turbilhões”. Pra quê uma peça nova, se há outras na gaveta? Eu não quero saber, escrevo por escrever. Escrevo. Estou exatamente naquela fase que acho tudo muito ruim, que sou medíocre, que engano as pessoas há várias décadas, que não tem vocação eticétera e tal. Eu já começo a vislumbrar a cara dos personagens. Logo logo cessará a angústia do escritor tomando conta a alegria do escritor, cercado pelos seus personagens indagativos e curiosos, sem saberem ainda seu fim, coexistindo como existem aqueles que têm carne e osso. Uma nova turma terá sido posta no mundo e sentirei de novo o prazer desta maternidade.

• No Cinema, não perder Woody Allen - “Whatever Works”, cuja boa tradução seria “Passa a ser correto tudo aquilo que dá certo”. Gostei muito também de “Guerra ao Terror” dirigido pela ex-mulher do Cameron. Filme de macho. Não vejo um filme tão bom assim desde “Invasões Bárbaras”. O assunto é guerra enquanto droga, vício. O que é o único ponto de vista segundo o qual se pode compreendê-la. Fernandinha Torres não gosta, há quem não goste. Sempre com a mesma argumentação, que o final heroiza o personagem fazendo avançar sobre os perigos naquela roupa de astronauta-super-herói. Não concordo. O filme não tem nada de americanista ou de direita. O super-herói é um suicida que lembra Corisco de Glauber quando alguém o alcança no meio do sertão para avisar que as tropas estão chegando e que ele vai morrer. Othon Bastos, o Corisco, vira para ele e, depois de um instante, responde “Eu já morri”. É disso que a Bigelow fala, dos que vivem, embora nascidos, mortos.

• Me parece também imperdível, para quem tem interesse em cinema, o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”. O filme é centrado na feitura de “Quatrocentos Golpes” que traduziram como “Os Incompreendidos” e “No limite do fôlego” (À Bout de Souffle), primeiras obras dos amigos Godard e Truffaut. É imensa a influência dos dois no cinema que veio depois, inescapável. Eram dois homens muito diferentes, importantes na minha vida. Godard me ensinou a liberdade. Ele é um mestre nisso. O “Fôlego” não é um filme, é invenção de um novo cinema. Que, segundo o documentário, assustou o próprio Truffaut, que financiou parte do filme. Embora fosse um homem sem posses. Truffaut me ensinou a montar músicas clássicas em cenas cotidianas. E acima da inspiração livre desses homens, herdeiros de Rossellini, nasceu toda uma nova onda que quebra, espalha sua espuma nas praias da eternidade. Tem até o primeiro teste de Jean Pierre Leaud, onde ele conheceu Truffaut. Godard é homem mais duro, talvez por isso está vivo até hoje. Enquanto Truffaut já se foi há algum tempo. O filme mostra também como vive um jovem inteligente numa sociedade voltada para a cultura, ou melhor, para a arte, aquela que modifica gente e sociedade. Confesso que é de babar de inveja. O movimento liderado pelo Cahiers Du Cinema, uma simples revista de cinema que tinha de 10, 20, 30 rapazes ou velhos, todos com a cabeça fervendo, querendo conversar antes de discutir. Fazer o melhor cinema do mundo e, assim, mudá-lo. Hoje aqui ninguém discute mais. Ninguém vai ver o filme do outro. É cada um por si e o diabo por todos. Eu não consigo ver filmes brasileiros. Quando percebo a existência do filme já 2 ou 3 amigos vieram me dizer para eu não ir ver porque é muito chato. E em geral meus amigos estão com a razão. Mas se não vemo-nos, se não nos damos, estamos entregues ao governo, como agora. E os grandes artistas vão cuidar de coisas mais sérias entregando o Cinema para os industrialistas. Tristeza.
• A Nouvelle Vague provou (Rossellini, antes deles) que não é preciso uma boa técnica para atingir como um punhal o coração dos espectadores. Hoje há toda uma tendência de colocar a “boa técnica” como elemento essencial. O que é uma burrice, com mais muitas outras entre as quais vivemos. Que vivam bem os industrialistas! Que o Deus do dinheiro os proteja! Que os camelos passem pelo buraco da agulha! Que os ricos entrem no Reino dos Céus. Mas deixem lugar e concedam devido respeito ao Filme de Arte. Comunicativo, humano, necessário.

sábado, 22 de maio de 2010

ATUALIDADE: ESTUDO DA DRAMATURGIA DE "WHATEVER WORKS"

(Se não quiser saber a história do filme, não leia este estudo!)



Os roteiros de W.A. têm a consistência de um romance literário. Não são do tamanho do filme. Isso porque ele joga habilidosamente com inimagináveis lapsos de tempo. Não faz uma economia em tramas paralelas. Mas tem uma noção aguda de que parte da estória é dramatizável, sendo o resto narrado por offs e imagens.
Esse filme recente dele, ‘Whatever Works’, leva essa técnica ao paradoxo. Ele vem desenvolvendo a trama e quando esta enfrenta um impasse, quando o resto da trama pode ser adivinhada pelo espectador, ele arma um lapso de tempo e narra o que aconteceu. No filme citado, temos:
1. A descrição do personagem. Utilizando como interlocutores amigos em mesa de bar, ou simplesmente a própria plateia. O personagem é armado com características muito especiais. O mau humor representado por Larry David é desesperado, tem síndrome do pânico, odeia as pessoas (a quem trata mal demais), mora num canto incompreensível de Nova York, um buraco de rato e escolheu, como meio de vida, ser professor de xadrez para crianças. Ele já quase ganhou o prêmio Nobel de física, que é o mesmo que ter ganho o prêmio Nobel de física. A sua principal característica, tratar a pontapés suas crianças e o resto das pessoas, é exercida com um mau humor exemplar. Diz na cara das pessoas que ele é um gênio e que elas são mediocridades ridículas. Observemos aqui o número de dados que o personagem tem para sua apresentação: são 6 dados absolutamente originais e longe do lugar comum. Ele é simpático, não gostaria ser assim com as pessoas, ou melhor, afirma suas posições mais para defender do que para atacar. É desnecessário dizer que antes de qualquer trama, o filme já é engraçado.
Ah, sim. O mais importante dos dados. Ele já tentou o suicídio uma vez, se jogando pela janela. Mas caiu sobre o toldo e não conseguiu morrer. É a presença da morte, imprescindível para a comédia.
Aí acontece a primeira trama. Absolutamente por acaso, ele é abordado na porta da escada por uma bela jovem, burra e desinformada, que diz que não tem onde dormir, que precisa de ajuda, e insiste até ele a levar para dentro de casa. Esta já é um elipse sobre o tempo em que ele conhece a moça e leva para o apartamento. Um cineasta normal levaria 15 minutos para descrever esse processo de persuasão. Allen leva 3. Dentro de casa, a primeira coisa que se pensa é que ele vai comer ela. Ledo engano. Allen trabalha pelo inesperado, e acontece o contrário. Ele não quer saber do amor, do sexo, nada. Está desiludido também nessa. Mas a moça dorme lá naquele dia no sofá da sala, ficam próximos, ele sente uma sensação agradável de calmaria que permaneceria se não fossem seus princípios.
O normal é que ele fique apaixonado, mas W. quer o imprevisível. A garota é que se oferece, apaixonada por ele, que é feio e velho. Como ele resiste, passam a conviver como dois amigos. W. precisa agora de um acontecimento que faça os dois se aproximarem. Ela encontra, para angústia do espectador, absolutamente por acaso, num esbarrão, um jovem da idade dela de botar respeito. Lindo, delicado, apaixonante e sexy. E convida ela pra sair. No que ela se oferece pra sair, sentimos que o Larry sente ciúmes, pois está precisando dela. Mas deixa ir e esconde qualquer reação.
Outro lapso de tempo. O que acontece entre ela e o rapaz, não vemos. Apenas imaginamos. Vemos só sua volta para casa, bêbada e, para surpresa de Larry, tendo detestado o jantar. Porque as pessoas são burras, não sabem das teorias sobre o mundo, que ela está acostumada a viver com um gênio, e diz que não quer mais sair com esse tipo de gente. Ele fica encantado e propõe o casamento.
A trama até aqui já seria suficiente para um filme. Mas W.A. está apenas no início. Ele não enfrenta a fase de recém casados deles. Tudo o que as cenas poderiam render já está dito no filme. Sua fulgurante inteligência permite-lhe perceber isso e dar um pulo no tempo para dois anos depois. Uma rápida narração, sabemos que eles estão felizes, mas que ele continua o mesmo pessimista de sempre. O que a incomoda alguma coisa. Ela quer que ele seja alegre.
Aí batem na porta. Nesse momento em que não havia nada mais para dizer, é preciso trazer um personagem novo. Uma forte estória paralela. É a mãe da menina. Burguesa do interior, que chega na casa disposta a ficar. Quase desmaia quando vê o genro e o odeia com todas as forças. Aí também o escritor fica confortável para continuar. Ele não tem mais o que contar dessa mãe. Não duvida e dá um pulo no tempo.
Um ano depois. A mãe, que era uma reprimida do interior e crente, que abandonou o marido porque ele ficou com a melhor amiga dela, começa a dar pra todos os amigos do velho. Compreende a liberdade nova iorquina.
Aqui Allen tem de inventar uma nova. O engraçado dessa mãe insignificante que detesta o velho é evidentemente se perder, mas não. W.A. sai com uma surpreendente. Um dos amigos intelectuais dele acha as fotografias que ela tirou com uma máquina vagabunda geniais e a lança como uma artista plástica de assuntos eróticos. Ela faz um enorme sucesso, com vernissage e tudo. Seria normal que ela casasse com esse amigo descobridor de seu talento, mas A. prefere a surpresa. Ela casa com dois melhores amigos de Larry. É muito feliz com os dois.
Aqui não há elipse. Posto que há algo de imediato a acontecer. A chegada do marido. Pai da menina, conservador e interiorano! Acha um escândalo tudo, arma um banzé e acaba sendo expulso dali.
Sei que o funcionamento do filme não é a essência do poeta. O poeta necessita que todos os personagens sejam salvos, inocentes, joguetes da vida. Que ninguém seja culpado. De modo que agora começa a terceira trama com vigor, obedecendo a este plano.
Como salvar a menina? A mãe dela que detesta o Larry e vice versa, arranja um ator gostosão e irresistível que arma condições para que ela traia o Larry. Essa corte é tão romântica que compreendemos que ela não poderá resistir. Beija-o, apaixonada. A cena seguinte é dolorosa e da máxima coerência. A menina vai contar para Larry que está apaixonada por outro. Sabemos que Larry sofrerá muito. Mas por que ter pressa para fazer este desenlace se o gancho é tão forte? Quando ela vai falar pro Larry, cortamos para o pai burguês, desesperado, num bar. Ele começa a ter uma conversa com um homem que parece gay. O homem nota que ele se interessa pelo assunto. Ele conta que sempre detestou trepar com mulher e uma nova estória de amor surge. O pai revela-se um gay enrustido, para alegria do seu companheiro de bar. Depois desse hiato genial, voltamos para o apartamento de Larry e a moça diz pra ele que ama outro. Larry não pode trair sua filosofia, não tem um ataque de ciúme desesperado. Sabe que os encontros amorosos são impossíveis por muito tempo. Deixa ela ir, fazendo o espectador chorar.
O filme não descreve a falta que ele sente dela nos dias seguintes. Resume a narrativa em dois planos. Um mostra Larry em casa, triste, e o outro mostra uma janela cheia de vitrais contra a qual Larry se joga impetuosamente, suicidando-se. Mas uma comédia não pode acabar assim. Nem que seja por cortesia ao espectador, Larry falha no segundo suicídio. Cai em cima de uma mulher que passava. Ele não sofre nada e a mulher se arrebenta toda.
Elipse, quatro semanas depois. Num hospital, ele conversa com a mulher que “o amparou”, e sentimos claramente que eles foram feitos um para o outro. O absurdo da situação não incomoda Allen. Ele sabe que o acaso comanda a vida.
Na última cena, somente resta fazer um happy end total e, sem pudor, Allen coloca o rompimento do ano novo. Todos estão felizes. A mãe com os amigos, o pai bichíssima com seu companheiro, a menina completamente apaixonada pelo ator e Larry, comovido com o encontro com seu novo amor, essa mulher culta, inteligente, etc.
Mas não pensem que acabou. O poeta vive em busca do poema. É preciso que algo seja dito no final do filme que ilumine todo o resto. Allen Larry David avisa a todos que tem uma multidão do outro lado da tela olhando eles. Ninguém acredita. Ele fala então com a platéia, sem atrapalhar a festa, dizendo que é preciso aproveitar a vida, dar todo o seu amor, etc., e que ele é o único daquela turma que tem a visão do todo. Dentro e fora da tela. É formidável.

PS.: Tenho vontade de dar um Curso de Dramaturgia em um teatro. Os alunos sentam na plateia e ficam olhando. Eu no palco, dito por uma digitadora um peça, conforme faço de verdade. Uso toda a plateia como colaboradora. Aproveitando algumas ideias, dividindo angústias e glórias etc. E o Curso é isso.

sábado, 17 de janeiro de 2009

DOGMA FÚRIA


Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2009
Casa de Cultura Laura Alvim

O DOGMA DO FÚRIA

1. Fazer com que o DOGMA FÚRIA se transforme em padrão de qualidade. O DOGMA não é obrigatoriamente uma declaração de pobreza.



2. Todo grupo tem de ter seu líder. Ou diretor. O diretor, no caso, Domingos Oliveira, não é um cargo. É uma função. A função de ter a última decisão sobre qualquer assunto que concerne ao grupo. O diretor é uma pessoa eleita pelo grupo pra realizar essa indispensável função.



3. O caso de discordância inconciliável do grupo com seu diretor representará para nós um momento de alegria, posto que representa a criação de um novo grupo (que deverá chamar-se Fúria 2) representado por outro diretor.



4. As aulas, palestras, transmissão de conhecimentos e até notas de ensaio feitas pelo diretor do Grupo Fúria devem ser lições de liberdade e conter sinceramente a máxima de Nietzsche, “quem for meu discípulo que não me siga”.



5. O ator tem a obrigação de seguir, mesmo discordando, as instruções do diretor. Fazer com toda a entrega duas ou três vezes. Se ainda assim discordar, deve criar uma contenda séria com o diretor. Chegam a um acordo ou mesmo a destruição do projeto. Não queremos por aqui atores obedientes.



6. Há algo no ator que depende do que ele é. Os invejosos, autopiedosos, excessivamente competitivos serão naturalmente excluídos do grupo.



7. No grupo é exigido gentil e respeitoso convívio social. O ensaio de teatro já é uma representação. Todos os problemas pessoais, tudo o que impede o bom funcionamento teatral, deve ser deixado na porta do teatro. O ânimo de um depende do ânimo do outro. Assim sendo esperado um sorriso, cumprimentos gerais a todos, por mais falso que isso seja.



8. O mais importante do teatro é o ator. Depois o autor. Por último, o diretor.



9. O personagem não existe. O que existe é a pessoa do ator. Se transforma em representação através da livre de todas as capacidades humanas. A imaginação. O teatro é primado na imaginação.



10. O ator. Embora secundário, posto que trabalha em função do texto e do diretor, deve ser a base do processo. É ele quem vive a mais transcendental aventura. É ele que, através da generosidade, cria um vínculo com a platéia.



11. A finalidade máxima do teatro é resgatar o sonho e formamos todos uma consciência só. De que a consciência coletiva existe. Quando um ator consegue entrar na mesma freqüência de pensamentos da platéia, o milagre se dignifica. A utopia é alcançada.



12. Como organização, o Grupo Fúria concede o segundo lugar de importância aos que trazem o dinheiro necessário para fazer o espetáculo, seja através de patrocínios ou quaisquer outros processos, para que o teatro seja possível. A função de lotar o teatro será oficializada e nomeada no Grupo Fúria. Esta equipe (envolve a divulgação, a feitura e controle do orçamento e muitas outras coisas) deve ser escalada com a máxima atenção e rigor do grupo. O que não impede que assumam também funções de ator e etc.



13. O Grupo Fúria admite as limitações da democracia. Lá não são todos iguais. No que diz respeito à divisão de cotas. Serão respeitadas as importâncias dos seus trabalhos, recompensar a todos igualmente é sempre uma meta para ser atingida. Porém raramente é uma coisa justa e funcional. No caso atual, 50% da bilheteria vai para a cooperativa e 50% para fundos do grupo, o que permitem trabalhos futuros. Todos os captadores ou lotadores de sala terão uma comissão proporcional ao resultado.



14. O Grupo Fúria não é uma fábrica de teatro. É uma fábrica de arte. A arte é a finalidade. Acreditamos no valor social da arte. Acreditamos que sem arte é a barbárie. Que é uma atividade de utilidade pública. E exigimos ser tratados como tal. Posto que somos artistas.



15. O sucesso será para nos uma preocupação secundária. A arte pela arte é o objetivo final. Somente artistas de experiência ou excepcional talento podem definir o que é a arte ou não.



16. O Grupo Fúria almeja a permanência. A sua obrigação principal é que todos os membros do grupo estejam todo o tempo num processo de feitura teatral. O grupo tem princípios dos quais todos devem compartilhar. Princípio 1: Terminar tudo aquilo que começa. O Grupo Fúria não se reduzirá a produção de espetáculos. Criará também continuamente outros movimentos culturais. Cojita-se para o próximo fevereiro uma série de leituras / performances de textos que têm possibilidades de ser o próximo espetáculo do grupo e de planos pessoais de Domingos Oliveira dos quais, de alguma forma, o grupo possa tomar parte.



17. O teatro é o último reduto da inteligência livre. Muito mais comprometido do que a TV ou o cinema. O teatro é o púlpito, é o palanque das idéias revolucionárias. Sempre foi assim desde Castro Alves.



18. O grupo deve, todo ele, unir-se no esforço de conseguir patrocínio para o grupo. A moldes que outros grupos possuem.



19. O grupo planeja e data suas estréias independente dos patrocínios. Não se pode depender de fatores aleatórios. Tendo dinheiro, fazemos. Não tendo, fazemos também.



20. Fazem parte do Grupo Fúria todos os atores, técnicos e participantes do Apocalipse e mais todos aqueles que acompanharam Domingos Oliveira ao longo da vida em sua carreira artística. A lista completa dos nomes será publicada aqui brevemente.
Muitas e muitas coisas ainda estão faltando nessa primeira versão do DOGMA.



21. Por isso, paramos no item 21 comemorando assim a maioridade do Grupo Fúria.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Meu distribuidor me telefona uma semana antes do Festival do Rio acabar, transmitindo o interesse dos jornalistas em dar uma página para uma entrevista conjunta. Eu e um menino de vinte anos, aluno da PUC, que estava dizendo ser igualzinho a mim. Desconversei. Não quis dar a entrevista botando fogo nesse modismo petista de opor veteranos a principiantes, etc.
Não consigo ver o fato de ter feito muitos filmes como um defeito. Porém no dia marcado fui rente feito pau quente para o Odeon assistir o filme do menino, do "Dominguinhos". Quase não consegui entrar, de tão cheio que estava. A juventude da PUC, solidária. Preferi o segundo andar, e de repente me descobri num cinema lotado, muito mais gente do que no meu filme, de jovens animados e lindos... Mas como não tenho medo de fantasmas, comecei a ver o filme com boa vontade. Era incrível. O cara filmava igualzinho a mim! Usava o mesmo tipo de linguagem baseada em Truffaut e Godart, mesmos planos, mesmos movimentos e enquadramentos, lentes! E muito mais que isso, o menino não ultrapassava, como eu, os limites da sua própria vivência. Sua câmera não é racional. Ela é intuitiva. E por isso, o filme fluia como os filmes meus. Comecei a ficar animadíssimo. A ponta de inveja foi desaparecendo com a emoção que o filme me causava. É o seguinte: uma moça que chega na primeira sequência para acabar um namoro. E namorado e namorada caminham e sentam pelos jardins da PUC discutindo o indiscutível. Sim, porque eles se amam! Não há o menor motivo para eles se separarem a não ser o de serem jovens e, por isso, terem de sofrer de amor. Uma estrutura muito semelhante ao excelente "Antes do Amanhecer". Durante a conversa, encontram um colega, depois um grupo de colegas, não acontece muita coisa. No melhor momento do filme eles vão fazer xixi, cada um no seu banheiro, e lá dentro choram. Depois saem sorridentes, pimpões, e seguem conversando. Em palavras que, às vezes, a gente não entende, porque está por fora dos videogames, das ideosincrazias típicas da juventude.
Fui cumprimentar o diretor menino no hall. Era uma figura estranhíssima. Todo coberto de casacos e barbas e bigodes, mais baixo que eu e revelando, por trás do "disfarce", os olhos inteligentes e jovens. Tive vontade de despi-lo de toda aquela fantasia para ver como ele é. Parece bonito. Mas não pude que também nesse caso particular, ele age como eu. Qualquer situação perigosa boto logo um terno e gravata e se possível cachecol. Mateus apertou a minha mão com a sua fria, gaguejava de nervoso. Senti imediatamente que para ele eu era um ícone.
Os adolescentes do filme de Mateus têm o mesmo gênero dos outros em todo o mundo. Como explicar? É uma cara blazer de quem já conhece tudo e não tem nada a ver com nada disso, uma ironia constante, um constante "tudo bem, tudo ótimo, eu não sou daqui" e achando divertido. Estes mesmos adolescentes são retratados na obra prima de Gus Van Sant, "Paranoid Park". Van Sant é mais velho e consgue estabelecer a explicação desse comportamento diferente. Quando um deles precisa do mundo (pais, professores, namoradas) eles nunca estão lá. O mundo é mais carente que eles, pobres rapazes e moças sem direção e sem emprego. De modo que resta apenas fingir que você não ligou, que nada tem importância, etc. O filme de Van Sant é magnífico. Jamais depois disso falei com os jovens do mesmo modo.
O filme do Mateus não é tão bom assim mas se iguala na verdade e seus depoimentos. O menino sabe filmar. Nasceu sabendo. Não parece que ele saiba muita coisa mais. Perguntei ao redor quem era a sua mãe na suspeita que poderia ser um filho bastardo meu. Mas é só uma brincadeira. Ficamos amigos e está fazendo uma assistência de direção de meu curso e montagem que estréia em Janeiro: "O Apocalipse Segundo Domingos Oliveira".
Mateus tem a insegurança natural inevitável. Evita se meter, evita dar opiniões, outro dia me perguntou o que faz um assistente de direção. Respondi: Como você? Tem de descobrir o que faz. O assistente faz o que ele percebe que é preciso. Quero dizer, baseado na minha experiência no assunto, que Mateus é como o digital. Veio para ficar. Ele é um general do exército que marchará sobre nossas cabeças. Sabe filmar, o que é muito raro entre nós. Longa vida, Mateus Souza!


Ass. Dominguinhos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ATENÇÃO, ATENÇÃO!!!


Atenção, atenção, meus companheiros bloguistas. Esta semana o blog não será renovado por dois motivos: primeiro, porque a partir da semana que vem, quarta-feira, 22, ele passa a funcionar além desse endereço, através do blog da Revista Bravo!, tendo assim maior visibilidade. Segundo, porque ando ocupadíssimo, me desculpe, peguei a gripe Obama, além do que meus filmes passam em sessão dupla no Festival de São Paulo! Apareçam todos, paulistas, se puderem. Cada filme passa três vezes, horários no jornal. "Juventude" e na sessão seguinte "Todo mundo tem problemas sexuais". Sensacional!!! Não vejo sessão dupla desde o Cinema Crispim, em pulgueiro de Botafogo, dos tempos de Tom Mix. Só que dessa vez não vai ter filme-em-série, que pena!

Até já, divirtam-se com os filmes e votem em mim! Porque o juri popular dá prêmio em dinheiro!!!!

sábado, 11 de outubro de 2008

Postagem Especial




Comunico aos meus bloguistas e blogueiros (bloguista é quem lê e blogueiro é quem faz, fica combinado assim?)

Caríssimos blogueiros,

É com imenso prazer que anuncio que o DVD de "Carreiras", depois de um ano de atraso e muitas brigas está finalmente nas locadoras! E um filme sensacional, com Priscilla Rozenbaum radiante baseado na melhor peça de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha).
Trata-se de uma longa noite de loucuras onde a personagem "Ancora" de um famoso jornal de Tv joga tudo para o alto, cheira em cena 19 carreiras de cocaína e, pela manhã, resolve sua vida de um modo surpreendente.

Vejam e me escrevam com as suas opiniões.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O grande esforço humano é justificar a própria vida. Provar que ela vale a pena ou que tem alguma utilidade. Ou alguma chance de eternidade. Então, inventamos turbilhões dos mais variados, ando sendo sorvido pelo meu um pouco em demasia. Em que grau de ilusão deve um homem viver? Na que ele quiser. Porém o mais longe possível da realidade. Para mim esse mês, inventei um aniversário, Festival do Rio etc. E vou dar um curso. De teatro. Exatamente isso. Um curso para dizer tudo o que sei, um curso para montar uma peça depois (“O Apocalipse, segundo Domingos Oliveira”). Um curso para tirar um grupo de atores com maior disponibilidade, atores jovens, como faz Antunes, o Théâtre du Soleil e a galera do Flamengo. Meus atores prediletos (Priscilla, Ricardo, Dedina, Orã, as Clarices Derziê e Niskier etc) são hoje gente madura, com dificuldades de tomar compromissos. Cada um com seus problemas e projetos. Raramente dei cursos práticos. Penso que não dá nunca para fazê-lo conseqüentemente mas com a peça a encenar, aí faz mais sentido.
Grupo nunca quis ter. Grupo é família. E família já tenho. Mas agora mudei de idéia. Está na hora de ter o meu grupo, independente, constante. Se algum dos atores ou atrizes tentar me colocar na posição de pai, o que acontece sempre com os grupos, mando-os à merda e pronto. De modo que está fundado o Grupo Fúria, gosto dessa palavra, Fúria. Acho que é necessária no teatro e na vida. Fúria. Fúria.
Aqui segue o release deste novo trabalho, na íntegra.

WORKSHOP DE
DOMINGOS OLIVEIRA
NOVEMBRO DE 2008

CRIAÇÃO DO GRUPO FURIA
O workshop tem por finalidade compor todo o elenco da peça inédita “O apocalipse segundo Domingos Oliveira”. Uma comédia filosófica que ficará em cartaz durante os três primeiros meses do verão carioca de 2009, na Casa de Cultura Laura Alvim.

Domingos Oliveira, famoso diretor de cinema e teatro, sempre quis ter um grupo dele, um grupo contínuo, porque acredita, como todo homem sério do palco, que o melhor teatro virá sempre do trabalho em grupo.
Comemorando seus 72 anos, Domingos decide montar seu grupo oficial. O
GRUPO FÚRIA
O Grupo Fúria pretende ter uma atividade contínua, dialética e intensa. Certamente terá relevância no futuro próximo do Teatro Brasileiro.
Os atores com quem Domingos sempre trabalhou, Priscilla Rozenbaum, Ricardo Kosovski, Clarice Niskier, Dedina Bernardelli, Clarisse Derzié Luz, Bernardo Jablonski, Pedro Cardoso e muitos outros, são desde já membros honorários do grupo e formarão um natural conselho consultivo para suas atividades.
Faz parte do dever cultural do verdadeiro homem de teatro juntar em torno de si os melhores talentos que, por juventude ou outra circunstância qualquer ainda não estão inseridos no mercado e se possível reuni-los a talentos já reconhecidos que desejam aprimorar sua técnica.
Para encontrar essa preciosa gente, Domingos decidiu fazer a primeira peça do Grupo sem nenhum dos seus habituais companheiros de cena. E sim retirar o elenco (11 atores) e a equipe (13 técnicos e assistentes) de um workshop que ministrará durante o mês de novembro, com encontros preliminares na segunda quinzena de outubro.
Será um workshop intensivo e conseqüente com 10 horas de carga horária semanais. Aos sábados, domingos e quintas feiras. Esse workshop terá o título de LIÇÕES DE LIBERDADE.
Posto que a Liberdade é a maior característica da arte de Domingos. Ele pretende, uma vez terminado o workshop e a peça que os alunos estejam devidamente preparados para permanecer no Grupo Fúria ou mover-se sozinhos, criando seus próprios grupos.
Assim sendo o programa do workshop Lições de Liberdade conta com um total de 40 horas de duração e abrangerá várias facetas da atividade teatral: As noções principais da produção, da criação, da manutenção do espetáculo, da direção teatral, iluminação, figurino, cenário, divulgação, etc e, em particular, da arte da interpretação e da dramaturgia. Para teatro e cinema. Ou seja, o resumo das técnicas e filosofias do seu trabalho.
Terminado o workshop, o diretor decidirá segundo critérios previamente anunciados, quais os alunos que ocuparão as 24 funções da montagem de “O Apocalipse Segundo Domingos Oliveira,” uma peça inédita da qual ele mesmo fará o protagonista.

RESUMO

Valor do curso: R$ 1.000,00.
Forma de pagamento: metade na inscrição, metade cheque pré-datado para data do fim do curso.
Os alunos selecionados começarão imediatamente a ensaiar no Teatro Laura Alvim o “Apocalipse”. Em caso de grande número de alunos, cogita-se a criação de standins para alguns papéis, em caso de necessidade. O curso também dá direito a colocações de estágios na área técnica. Ou seja, serão selecionados para a temporada da peça:

11 ATORES
5 STAND-INS
2 CONTRA-REGRAS
1 CAMAREIRO
3 ILUMINADORES
2 ASSISTENTES DE DIREÇÃO
1 ASSISTENTE DE DIVULGAÇÃO
2 ASSISTENTES CENOGRAFIA
1 ASSISTENTE FIGURINO
1 ASSISTENTE ADMINISTRAÇÃO
OUTROS CARGOS POSSÍVEIS

Critério de Seleção:
Estes possíveis 35 alunos (aproximadamente) passam a se denominar o GRUPO FÚRIA.

Currículum do curso: (Resumo da filosofia e técnica de Domingos Oliveira)

O curso acontecerá a um currículum maleável, segundo as características do grupo, mas sempre com a finalidade precípua de PREPARAR UM ELENCO QUE POSSA ENSAIAR E ESTREAR UMA PEÇA EM 1 MÊS. Isto, porém, não invalida a existência de um currículum básico:
- semana 1: Noções básicas.
O que é isto: A Filosofia?
O Teatro?
O Personagem?
A arte de representar?
O Artista?
Leituras da peça a ser encenada.
- semana 2: O Básico Stanislavskiano:
Vôo rápido rumo à história do teatro.
Concentração
Contacto
Circunstanciação
Exercícios práticos sobre esses assuntos, leituras da peça experimentando os atores em vários papéis.
- semana 3: Prova escrita
Noções de dramaturgia.
Os truques para o ator contemporâneo: Artaud, Brecht, Stanislavski, técnicas circenses.
Condições espirituais necessárias para um ator
Primeira tentativa de seleção.
- semana 4:
Vôo detalhado das funções técnicas: a luz, o som, o espetáculo.
A Arte da TemporadaDefinição final de papéis e ficha técnica

PASSADO
Fiquei de contar a história desse retrato. Minha árvore genealógica. O passado é uma terra de ninguém, onde somente cabem heróis, grandes figuras. Entrevistei meu irmão Zé que tem mais memória que eu.
Essa foto é de 1906, a mais antiga que eu tenho. No centro, o filho mais velho, Olímpio, que veio a ser médico. Cercado pelo pai e a mãe, o poderoso Zé Pereira e Dona Sinhá (Eulália). A esquerda de Eulália, Lulu, Dadinha e Zeca (na ponta). A direita de Zé Pereira, Carmelita, minha mãe, Beata, a mais velha, e Raimundo. Todos morreram há muito tempo, grande arte é a fotografia.

Esta é certamente uma foto de estúdio. Onde aparecem 4 filhos e 4 filhas, são 8. Parece que tem mais um, que morreu muito jovem. A partir da próxima postagem, conto a história de cada um. Ou melhor, aquilo que restou na memória minha e de meu irmão.
Muitos anos depois da morte, todo homem é uma lenda.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

ATUALIDADES:

Começa hoje o Festival de Cinema do Rio. Que exibe 4 centenas de filmes. Um belo sinal da magnífica paranóia do simpaticíssimo Marcelo Mendes e sua patota do Estação. Eles foram todos cineclubistas. Agora transformados em exibidores, porém mantendo sua fidelidade à rataria de cinemateca. Que Deus conserve o Grupo Estação.
Tanto filme assim dá vontade de ver todos, o que não é humanamente possível. Ou não ver nada. Só de raiva. E é impossível evitar a pergunta: Com tanto filme, pra quê que eu vbou fazer mais um? Quero dizer, mais dois? Posto que sou o único cineasta brasileiro ou estrangeiro que tem 2 filmes estreando no festival. Até eu me orgulho da minha produtividade. E um detalhe importante: tem prêmio de Júri Popular! E nessa seria ótimo contar com vocês. Olha, a coisa funciona assim: No dia seguinte da estréia só para convidados o filme passa de manhã no cinema Odeon. A preços populares, sessão concorridíssima. No dia seguinte deste, tem 2 sessões em cinemas da Zona Sul. Nessas 3 últimas, você pode votar (Razoável, Bom, excelente, etc.) E se vocês acharem o filme excelente, eu ganho o júri popular. Entenderam bem ou querem que eu explique? As sessões do Juventude (meu filme com Paulo José e Aderbal Freire-Filho) são:

Sessão Popular no Odeon - DIA 30 DE SETEMBRO (TERÇA-FEIRA) 13H30 (o filme tem 80' de duração).

Sessão Estação Vivo 3 Gávea - DIA 1 DE OUTUBRO (QUARTA) 13H30 E 20H20 (não me acostumo com esse tipo de horário. Antigamente cinema era 2, 4, 6, 8...)

Já que o tempo é de eleições, votem em mim. Um cineasta limpo.
Fora de brincadeira, pessoal. Apareçam lá e depois me digam o que vocês acharam.
Meu segundo filme, "Todo Mundo Tem Problemas (Sexuais)" é Hours Concours. Passa lá pelo dia 8 de novembro e eu aviso mais perto.
A propósito, vi, depois de prolongada resistência, o filme do Claudio Assis, o notório "Baixio das Bestas". Não vi antes porque me diziam que era muito violento e agressivo, etc. E eu não vejo propósito para fazer filmes para exibir esses sentimentos. Além disso o Claudio é um tipo de enorme simpatia, parecendo amigo de um copo, sempre assusta um pouco depois de uma famosa agressão ao Hector Babenco durante uma entrega de prêmios, enfim, isto não tem importância, pertence ao passado. Para surpresa minha, gostei muito do filme. Gostaria que isso chegasse ao Claudio. É violento e agressivo. Mas por trás de tudo aquilo sobrevive um emocionado e inspirado poeta. E além disso, um dramaturgo. Coisa rara entre nós. As imagens são belas e bem enquadradas, revelando que a natureza não tem nada a ver com a maldade humana. E a cena da chuva, no final do filme, é um final de alta dramaturgia. Desolado e desesperado, o filme acaba numa nota menor, como acontece em muitas grandes sinfonias. Revelando inexoravelmente a compaixão do autor por seus personagens. Seu motivo de realizar a obra: um pedido de socorro para que acabem para sempre os baixios das bestas. Gostei, Claudio.


PASSADO:
Meu primeiro trabalho publicado é um conto premiado num concurso da Tribuna da Imprensa em 17 de março de 1963. O autor assina Domingos José Soares de Oliveira. E tinha 27 anos. Comecei tarde. O conto provinha de um exercício de um curso de teatro. Depois conto essa história. Meu analista da época me pediu que eu permitisse seu uso num congresso como narrativa inconsciente de um processo de nascimento! Sei lá se é isso, mas é bonitinho.
Que vai para o blog.

O TÚNEL

Estou no escuro, depois de tantas semanas, meses talvez, dentro deste lugar. Sei que estou numa enorme caverna. Mas não me lembro como vim parar aqui. Sei somente que, de vez em quando, essa escuridão tão pesada dá lugar a uma intensa claridade. É como se o Sol estivesse há poucos metros de mim. Mas não sinto calor. Somente este frio, ao qual já começo a me acostumar.
Quando a luz acende, meus olhos doem tanto tanto que os cubro com as mãos para não ver. Mas ela é tão intensa, que atravessa tudo. Abro então os olhos. Às vezes, por vontade própria, às vezes, porque me obrigam. Numa delas, insisti em apertar minhas mãos contra o rosto. Recebi, então, violenta chicotada que me causou uma ferida que vai, reta, de meu rosto até minha perna. Outra vez, foi uma facada, desferida em minha coxa. Não consigo nunca, quando abro os olhos, ver de onde vem o castigo.
Quando a luz acende, o que vejo é que estou numa imensa caverna, sem nenhuma saída possível. No chão, estou sozinho, mas, nas paredes e no teto, incrustados, debatem-se homens e mulheres. Alguns estão mutilados. Da última vez que a luz acendeu, tive a impressão de que as paredes tendem a absorvê-los, tendo até alguns já desaparecido.
Durante muito tempo me preocupei em saber se a luz acendia com regularidade ou não. Tentei, então, contar, lentamente e sempre do mesmo modo, enquanto estava no escuro. Uma vez, cheguei a mil e pouco, outra, a apenas duzentos e cincoenta, e outra, a quatrocentos. Não sei, porém, se isso significa alguma coisa, pois tenho a impressão de que não consigo controlar bem a velocidade da contagem. Além disso, estou tão cansado! De vez em quando adormeço, e talvez a luz já tenha acendido enquanto eu dormia.
A luz não acende há muito tempo. Uma idéia me assalta e atemoriza. Temo ter ficado cego, por alguma razão. Que ela já tenha acendido. Que esteja acesa agora, neste exato momento, e que eu não possa vê-la porque estou cego, por alguma razão. Penso assim, porque sinto meus olhos arderem. Além disso, não consigo ver realmente nada, por mais que me esforce. Será possível existir escuridão tão absoluta?
Da última vez que vi a caverna, notei, ao longe, se bem que não possa afirmá-lo, uma mancha escura que me pareceu a boca de um possível túnel. Logo, a luz apagou, antes que eu pudesse ao menos orientar-me. Desde então, estou tentando achar o túnel.
Primeiro, andei muito, na direção que julguei correta, procurando a parede da caverna. Nunca pensei que fosse tão longe e o chão tão irregular, o que me fez tropeçar sempre. Machuquei-me. Sim, estou nu.
Agora, palmilho a parede, úmida, em alguns lugares cortante. Encosto meu rosto contra ela e acho agradável. Permaneço assim muito tempo.
Achei o túnel! Realmente, é um buraco cavado na rocha e posso sentir que tem pouco mais que um metro de largura. É mais alto do que minha mão pode alcançar. Penetro, então, com muita cautela. Súbito, minha cabeça bate no teto. Verifico, então, tateando, que a altura do teto diminui rapidamente. Agora, já sou obrigado a me abaixar, e cada vez mais.
As pontas de meus dedos, que vão na minha frente, encontram, formações cilíndricas, estalactites, como uma harpa. O túnel tem agora pouco mais de meio metro de largura e, no máximo, um e meio de altura. Penso então que ele diminuirá sempre e não terá saída. Resolvo tentar a passagem, quebrando as estalactites. Tento primeiro arrancá-las, separá-las, com as mãos. Não consigo, são fortes. Experimento então um pontapé e quebro uma. Depois outra e outra. Consigo então passar, embora tenha de virar de costas. Logo, me oriento na direção certa.
O túnel baixa seu teto, cada vez mais. Quero, pela primeira vez, voltar, porém, noto, olhando para a frente, qualquer coisa como uma vaga luminosidade. Também o ar me parece um pouco mais leve e talvez eu sinta menos frio. A esperança de que o túnel me conduza à liberdade me reanima.
Meu próximo passo encontra o vazio. Sim, há um buraco na minha frente e todo cuidado é pouco. Ajoelho-me, perto da borda, para examiná-lo melhor. Minha mão não consegue tocar a outra borda. Experimento jogar dentro dele um pedaço de estalactite. É tão fundo que não ouço nada, além do silvo da estalactite cortando o ar. Fico apavorado, quero desistir, mas a tênue claridade me obriga a continuar. Junto às paredes do túnel, pequenas saliências, pouco maiores que meu pé, ladeiam o buraco. Poderei passar, andando de pernas abertas, caso queira correr o risco.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

PRESENTE:

Plano L.A.:
(Los Angeles ou Laura Alvim?)
Vou ocupar, a partir de dezembro, o teatro Laura Alvim. Pretendo fazer um movimento cultural fundado na dramaturgia. Na arte de contar histórias. A dramaturgia não são leis impostas, não é nenhuma caretice. É essencial. Uma boa peça ou filme e, pelas piores e melhores pessoas, têm sido desprezada ou subestimada. Um artista de talento nato pode compor uma música genial ou pintar um excelente quadro. Mas não escrever uma excelente peça de teatro ou um bom roteiro, se não estudar um pouco. O teatro e seus derivados são atividades racionais. Demanda um estudo. Estudo daquilo que é comum a todas as peças que adoramos no teatro, modificaram as nossas vidas, nos deram grande prazer. Isto é a dramaturgia.
Penso que há alguns modos de ensinar a dramaturgia. Penso, igualmente, que é mais uma arte que uma ciência, a dramaturgia deve ser ensinada por quem escreve. Um dos meus cursos pretende propor a uma pequena platéia de alunos escolhidíssimos que assistam e paticipem da escrita de uma peça por mim, na frente deles, consultando as suas opiniões e minhas dúvidas. É difícil entender em aulas teóricas a beleza da dramaturgia. Uma outra forma eficiente que me dá vontade de experimentar é aquela inventada por Antunes Filho, o "pronto para usar" (prêt a porter). Que propõe transformar os próprios atores em dramaturgos.
Um terceiro modo eficiente de aprender a arte narrativa é, sem dúvida, a análise de bons filmes ou peças, uma investigação a posteriori dos caminhos que o autor seguiu para obter as grandes emoções.
Uma boa aula não é aquela em que o aluno aprende com o mestre. E sim aquela em que ele tira as dúvidas que ele já tem. Que ele usa o mestre para aprofundar as dúvidas que ele já tem.
A dramaturgia, como a arte de representar, é uma coisa muito difícil de aprender nos livros. É preciso da prática, do contato com quem faz bem.
Em janeiro, pretendo montar no teatro minha mais elogiada peça, ecrita há 25 anos atrás, meu relato de infância, "Do Fundo do Lago Escuro". Li a peça ontem. Como se não fosse minha, passou tanto tempo... Achei uma obra prima. Talvez até sobreviva a mim. (a auto-estima nada tem a ver com vaidade. Não é um sentimento arrogante, e sim, embora pareça paradoxal, com a humildade. Somente gostando do que se faz você pode gostar dos outros, e do que eles fazem.) Somente mestres podem ser discípulos.
Para esta peça, me faltarão atores. Possivelmente haverá teste. Ou melhor, haverá um pretexto para a primeira reunião da desprendida turma do Grupo Fúria... Claro que será uma festa.

72 ou 27?
Na noite de 27 para 28 faço 72 anos. O Tablado, desde o início desse ano, faz um estudo sobre minha obra. Todos os professores usaram textos meus nas suas aulas. O que muito me lisongeia e honra. Sendo assim, propuseram também me oferecer uma festa de aniversário, para a qual não posso convidar os blogueiros, posto que quem convida é O Tablado. Segundo a programação, faz parte da festa uma "palestra", um papo posterior com jovens alunos. Falar com a juventude é sempre um ato de responsabilidade. Afinal, eles morarão na casa do futuro, que eu jamais conhecerei. Afinal são eles o exército que marchará sobre minha cabeça. Além disso, são todos bonitinhos e gostosinhos, revoltados, curiosos. Então fico na dúvida sobre o teor dessa fala de 60 minutos. Pensei: "As 10 melhores idéias da Filosofia." Isso seria interessante. Pensei: "Os 12 princípios que regem a minha vida", também isso seria interessante. Mas como tenho que optar, acho que escolherei algo mais direto: uma palestra chamada "Meu Ofício é Dizer o que Penso". Frases, se não me engano de Pascal, que plajeio constantemente. Opinião sobre, digamos, cinco assuntos que interessam aos jovens de qualquer idade.
Por exemplo:

1) A Luta Profissional.
2) Como Encontrar o Amor da Sua Vida.
3) Sexo é o Maior Divertimento.
4) O Grande Mistério da Arte.
5) A Morte: Ser ou Não Ser.
Se você quiser assistir isso, procure alguém dO Tablado que possa te convidar. Porque, em princípio, está lotado.
Evidentemente seguir-se-ão canções cantadas pelos Tabladenses e outros amigos, em homenagem aos meus 27.375 dias bem vividos.
obs. Não posso convidar para O Tablado, porém posso e insisto aos meus amigos fiéis, compareçam à sessão popular do filme "Juventude", no Festival do Rio. É a platéia dessa sessão que decide o voto popular de melhor filme. Vou precisar de vocês furiosamente.


PASSADO:
Não é importante saber se um homem acredita ou não em Deus. O importante é saber se ele acredita no paraíso.

Depoimento sobre a primeira vez em que estive no Paraíso. Fazem 36 anos.

Estive no paraíso
e voltei.
O Paraíso é o mundo como ele é.
Como será um dia, para todos os homens.
Estive primeiro numa praia.
de onde trago notícias:
o mar é sólido
a areia é gente
é mulher amada
foi para descansar que deitei sobre ela
então compreendi que a desejava.
Olhei ao redor e veio o mundo
em tempo algum
posto que o tempo não existe
sendo cada conformação da existência
apenas um instante consagrado da Criação.
Haviam muitas pessoas ao redor
todas nascidas ontem do macaco
perplexas, perdidas, pobres
andando sem rumo sobre a areia sábia.
Ajoelhei pela falta de forças
(o conhecimento consome)
e chorei de alegria
já que eu era parte daquela beleza
não podendo ser
Eu sem Ela
e sem mim
Ela.
O Paraíso pode ter ruas
no fundo de uma delas encontrei, súbito
O Sol!
O Sol é o Deus do homem. Há certamente deuses maiores
mas isso não é nada que um homem possa adorar.
O sol mora no fundo de uma gruta macia de sombra.
É verdade que um homem cega se olhar, de frente, o Sol?
Depois, mais tarde, quando eu entrei na água e não quis mais sair
o sol veio para minhas mãos em concha
brincou como criança
dançou, fez formas tão alegres
já era meu igual.
Também na água eu vi um abraço de dois amantes.
Entre seus corpos muitos rios corriam, cascatas
e nas paredes haviam musgos.
Meus ouvidos ouviram muitos ruídos
ruídos do mundo
também ouviram Música
ruído dos homens.
Estive no paraíso e voltei
sei
o que são os homens
são pobres crianças loucas.
É impossível deixar de amar qualquer um deles.
O amor é a alma do Real
a energia que une os átomos
é o Estado Natural
O desamor é a loucura.
No final da tarde senti a velocidade do Planeta, da Terra
Soube que voava com ela, uma vertigem
mãe espaçonave em direção ao infinito
Não há porque temer o infinito
o navio é seguro e somos nós
que o guiamos.
Estive no Paraíso e voltei
Não posso mais esquecer de que sou parte
Sou parte do paraíso
Não há volta para o conhecimento.
E, no Paraíso, no centro, encontrei o Amor
O amor é a alma do paraíso
Vi o corpo da mulher
seus músculos, suas vísceras, sua pele e olhos
a máquina perfeita do corpo da mulher amada
(um corpo tem montanhas, gramas, areias, mares
a beleza é um corpo!)
Estive no paraíso e voltei.
Agora sei que ele existe.
Ficou portanto traçado o rumo do meu destino.
terei de trilhar o caminho de volta
o árduo caminho iluminado durante o que resta de minha existência
eterna.

Não esqueçam de ler o meu outro BLOG.
Onde deixo meu Legado, para possíveis parcerias...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

ATUALIDADES:

Primeira:


Não sei se é a informalidade que busco nesse espetáculo há muitos anos.
Não sei se é a alegria que nos causa ao fazê-lo.
Não sei se é o repertório.
Ou se funciona como uma lição de liberdade para o espectador que, no fundo, gostaria de ser do teatro.
E não sei se há uma ternura que emana disso tudo.
Sei que o espetáculo do Canequinho, com todos os seus defeitos e acidentes de percursos, está tocando na minha meta final quanto a ele, que sempre foi chegar ao teatro-festa.
As pessoas se divertem muito, invadem o palco e ficam dançando no final por longo tempo e vêm me agradecer emocionadas pelas filosofias.
Detesto me auto elogiar. Mas acho que cheguei lá!
No TEATRO FESTA!
Faltam 3 sábados. E kaput! A vida segue.

ps. Se algum de vocês conhecer um possível patrocinador, leve. É baratinho o patrocínio. E o nome da empresa fica ligado ao acontecimento mais alegre dessa cidade. O espetáculo está saindo por falta de patrocinador (muita gente no palco, muito convidado na platéia...) . Não que não tenha, mas é que não sabemos procurar.


Segunda:

De Gus Von Saints. Nunca tinha ligado o nome à pessoa. Vi o "Kurt Cobain" e detestei. Achei vago, incompreensível. Mas agora pego na prateleira o "Paranoid Park" e caio de quatro. É uma obra prima! Fala dos jovens de hoje como nunca ouvi alguém falar.
Os jovens de hoje de classe média são, mais que tudo, figuras introvertidas. Falam pouco, em geral num dialeto próprio inacessível aos pais não-iniciados. Ele está sempre bem, normal, indiferente, na sua. Parece que ele já viveu tudo muitas vezes. E que mora atrás de um tapume onde está pixado "ninguém se aproxima". São uns amores, porém inatingíveis. Nem o sexo parece entusiasmá-los a ponto de fazer cair-lhe a máscara. Ele é bonito, entediado, parecido com os Beatles, ou melhor, com o Lennon, que morreu assassinado. Não julgam o mundo, não têm opinião, não são dali. Por quê? De onde são, afinal? Por quê?
Os jovens me adeiam, zombam de mim ou têm medo?
As respostas a essas perguntas quando são feitas com compaixão verdadeira surgem claras. Os jovens não falam porque não têm o que dizer dentro de um mundo tão complexo. Os jovens não falam porque têm medo de dizer besteiras, algo que os prejudique. O jovem é indiferente porque não tem lugar no mundo. Os jovens não são amigos dos pais porque os pais são tão fodidos que não podem protegê-los. E ele, sem jamais confessar isso, grita "socorro" internamente. Não há ideais para seguir, guerras para lutar, mesmo um emprego é dificílimo (talvez isso seja o principal). De modo que um adolescente hoje perde-se em suas fantasias.
"Paranoid Park" é muito melhor do que o "Elephant", embora sejam quase o mesmo filme. Diretor genial, poeta de sensibilidade, Von Saints olha de perto não um serial killer, mas um garoto comum que qualquer um de nós gostaria de ter como filho. Mas que não conseguimos proteger dos atalhos muitas vezes cruéis da existência.
Dizem que o final ideal de um filme ou uma peça tem que conter algo que o filme inteiro não teve. E que lance uma luz para trás. Um poderoso foco retrovisor que ilumina a estória inteira. O final de "Paranoid Park", numa época em que os de vanguarda odeiam a dramaturgia, é uma obra prima dramatúrgica. Quando ele queima as cartas na lareira, revela pungentemente para o espectador sensível... que não é capaz de amar. Era isso desde o início. Compreendemos tudo.
É um grande filme. Agora estou procurando rever "Drugstore Cowbói", "Garotos de Programa" etc. Pensei que Von Saints fosse jovem também. Nada, tem 60 e poucos. Puta velha. Não sei como não o percebi antes.


Terceira:

O assunto é política de cinema. Saiu uma nota sobre mim na coluna da Monica Bergamo da Folha de São Paulo que teve repercussão, mas que não corresponde às minhas idéias. É a já velha estória do "Edital do Filme Pronto", da necessidade do "Ministério da Arte". Não quero gastar blog com um assunto tão árido, de modo que simplesmente reproduzo aqui o que eu mandei pra Folha:



CONTRA A DEMOCRACIA

O cinema é o resumo de um país. Ser brasileiro já é ser artista. Poderíamos exportar tanta arte quanto sapatos. Creio que não há nenhum detalhe errado na legislação atual do cinema brasileiro. Porque está tudo errado.
A palavra cultura hoje em dia está desgastada. Significa qualquer coisa. Futebol, televisão, artesanato, esporte, isto está certo. São as emanações criativas do nosso povo brasileiro. Igualmente desgastada está a palavra Arte. Sempre ligada, equivocadamente, a certo elitismo. Ambas consideradas de alguma forma pela maior parte dos homens do poder como lazer e diversão. Ora, num país pobre como o nosso não é possível gastar muito dinheiro em lazer e diversão. Assim sendo, a Cultura/Arte tem a menor verba do orçamento público. Errado. A Arte é formação de caráter, como a cultura, porém tem outros objetivos e poderes. A arte é a mãe da ética, da solidariedade, da honestidade, da cidadania, nasce na pobreza como na riqueza. É um regulador da sociedade sem a qual é a barbárie.
Como não podemos concorrer nos orçamentos, a única chance do cinema brasileiro no mercado externo talvez seja o filme de ARTE, filme de conteúdo. Diversão enquanto ensinamento. A arte é locomotiva. O que seria do Cinema Novo sem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da retomada sem “Central do Brasil”, do Teatro sem Nelson Rodrigues ou Antunes Filho? Da música sem Jobim? São as obras dos bons artistas que elevam a importância da atividade cultural. O problema brasileiro não é a FOME, nem a violência, nem a corrupção nem a impunidade, e sim a indiferença quanto a esses crimes. Ocorre portanto no interior da alma humana. Somente através da Arte estes inimigos podem realmente ser combatidos, somente a Arte tem força e vocação para alcançar esse tipo de região. A violência não funciona.
Tentemos descrever o CAOS em que normalmente vive o cineasta brasileiro. Que é, como o sertanejo, antes de tudo um forte. Faz um filme de três em três anos, quando em geral já perdeu a vontade de fazê-lo. Então logo percebe que, por melhor que seja o seu filme, as rendas provindas da bilheteria são ínfimas. As cartas estão marcadas. O cineasta brasileiro precisa dos patrocínios como um bebê do leite da mãe.
Este patrocínio vem das citadas “leis de renúncia fiscal”, e quase sempre vão, pelos caminhos conhecidos, para os que têm padrinhos fortes; os mais convencionais; os que têm atores da TV reconhecíveis pelos patrocinadores; e o que é mais grave, para os filmes de alto-orçamento de preferência sem intenção artística. Dinheiro atrai dinheiro. E são os empresários que decidem que filmes devem ou não ser feitos.
Estes realizadores patrocinados auferem grossas fatias do orçamento (que já foi inflacionado pra isso) como pagamento do seu trabalho. Eles também não estão errados. Precisam sobreviver durante a longa espera do novo financiamento.
O dinheiro vai também para os filmes intelectuais, sofisticados e complicados que visam principalmente ganhar o mercado externo com nosso exotismo. São os chamados “filmes de festival” e raras vezes para filmes comunicativos como “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, “Os Dois Filhos de Francisco”, “Tropa de Elite”, “Meu nome não é Johnny” e poucos outros. Raras exceções. Em resumo, os filmes de baixo orçamento ficam no vermelho por ter tido pouco lançamento. Os de alto orçamento ficam no vermelho porque o gasto no lançamento é grande demais. Não é negócio pra ninguém, muito menos para o governo, que dá um passo para a frente e dois atrás, no sentido do estabelecimento na indústria de cinema brasileiro. As leis baseadas em renúncia fiscal têm em dois deletérios efeitos imediatos: a) Inflacionam o mercado insuportavelmente, já que o dinheiro não sai do bolso do produtor. b) Divorciam gravemente o filme do seu público. Não importa agradar a platéia e sim ao patrocinador, de quem depende essencialmente.
A diversidade e a descentralização são as maiores virtudes numa política cultural. Em meio a tantas opções, onde deve ser colocado o dinheiro público???
É hora da imaginação no poder. Antes que seja tarde. O que deve ser feito?
1. O governo saber que o destino do Cinema Brasileiro não pode ser resolvido por terceiros. É como terceirizar a polícia ou o a saúde pública.
Cinema é Arte, coisa especializada, da qual só entende os artistas, auxiliados talvez por uns poucos economistas e técnicos interessados no assunto. A prática de colocar burocratas frios e racionais, como no caso do último conselho, sem consultar as bases artistas é inacreditável. Apenas mais um reflexo do autoritarismo do poder atual. E depois o Governo tem de saber que dinheiro público não deve em princípio patrocinar filmes como meta principal.
Filmes são final de processo. Ponta de iceberg. O esporte já sabe disso há muito tempo. Não patrocina jogos, patrocina atletas.
O dinheiro público tem de ser usado naquilo que democratiza o fazer cinematográfico e beneficia a todos. Ou seja, na infra-estrutura da atividade. O que é isso? Ora, qualquer grupo de meia dúzia de profissionais experientes, reunidos algumas horas em torno de uma mesa é capaz de responder essa pergunta sem auxílio de institutos de pesquisa: Reserva de mercado, adicional de renda, criação de mercados alternativos, etc. E, mais que tudo, incentivo e recursos para o artista brasileiro de talento. Em particular, de talento agregador. Este sim, é a infra-estrutura da infra-estrutura. O centro, o fulcro. Claro que a produção de filmes tem que continuar, talvez sendo financeiramente a maior destinação do fundo. Parece estar sendo criado. Alguns filmes de alto ou baixo orçamento incentivam, de um modo ou de outro, toda a atividade. E portanto fazem parte da infra-estrutura.
Descrevemos acima a situação absurda do atual cinema brasileiro. Refratária a novidades, a mente conservadora impede a revolução mais por ceticismo que por autoritarismo. Ela não acredita que o mundo possa mudar.
O que importa fazer filmes num país pobre como o nosso?
Importa apenas fazer bons filmes.
Este trabalho crê que a Democracia é ainda o melhor sistema apesar de seus cruéis defeitos. Ser contra a iniciativa privada é, como sabemos, uma atitude nada democrática. Deveria haver uma linha muito especial de patrocínios para filmes independentes, feitos com recursos próprios. Do próprio bolso, filmes de risco. Sem usar o Governo. Isso significa que o produtor faz o filme por conta própria, livre na criação, e apresenta posteriormente um resultado para as autoridades competentes. Se o filme for considerado útil, de ótima qualidade, o produtor é ressarcido imediatamente das despesas feitas. Podendo assim, realizar o seu trabalho com continuidade. Coisa muito semelhante ao “Capture Venture”, política que está se difundindo nas grandes corporações mundiais e que tem tido incrível êxito em seus investimentos. Medidas assim criariam a indústria cinematográfica. É o “Edital do Filme Pronto”. Em minhas modestas limitações, tenho lutado por essa causa óbvia em muitas instâncias. Me ouvem sempre com atenção, compreendem que tenho razão. Mas nenhuma providência é tomada nesse sentido. Ao contrário. Se um filme chega a ser exibido num festival em cópia digital não pode mais concorrer a editais de finalização e lançamento! É evidente a antipatia da atual legislação pelo filme livre e independente. Não sei a que se deve esse sentimento. É talvez como o do pai que não quer largar os filhos crescidos, um apego natural ao poder.

Domingos Oliveira


ps do blog: Temos de voltar a esse assunto. Nossa legislação sobnre cinema e teatro é autoritária e não ouvem os profissionais que entendem do assunto. Defendem idéias próprias. Muitas delas desastrosas. Enfim, sinal dos tempos.



PASSADO:


Hoje não tenho vontade de falar no passado. Sou "Sartreano". 'Não importa o que o passado fez de mim, e sim o que eu farei com o que o passado fez de mim'. Tenho pelo passado uma simples curiosidade. Embora ele seja uma caixa de surpresas. De Pandora. Revelador, passado revelador. Adianto apenas que tive um encontro longo com meu irmão mais moço, que tem a memória melhor que a minha, e soube me contar a história das fotos no tom com que Garcia Márquez escreveu "Cem Anos de Solidão". Nossos mortos do passado são todos mitos de uma mitologia particular. Também nós seremos mitos, daqui a pouco. Embelezados, adorados, simplificados.

No blog que vem inicio a minha mitologia, ilustrada por fotos.



LEGADO 2:


Meu legado fez sucesso. Meu amigo Joffily e o leitor Bayão demonstraram indícios de pegar o bastão na corrida. Sendo assim, provoco um pouco: aumento o "LEGADO 2".


{Uma mulher com dois amantes. Um muito mais velho e outro muito mais moço que ela. Penso que é uma tragédia. Que o velho planeja matar o moço, que por sua vez, planeja matar o velho, afinal são loucamente apaixonados pela mesma mulher. No desenrolar do crime, é ela quem morre primeiro. O jovem morre também. E fica quem não devia ficar: O velho sobrevive. Ou talvez seja uma comédia.}

A cena mais promissora inicialmente é o encontro do velho, chamemos Henrique com o jovem, chamemos Felipe, digamos numa mesa de bar. Os dois estão com seus assassinatos planejadíssimos e encontram-se para tentar convencer um ao outro de largar a mulher, digamos Lucille. Porque ambos inconfessadamente detestam a idéia de se tornarem assassinos. Estão evitando isso.
Talvez esse encontro seja observado de longe por Lucille que aí toma conhecimento de que os dois sabem de tudo.


Mais um (chamemos LEGADO 3):

A mulher que casou com um homem respeitoso porque ele era respeitoso. E continuou sendo, depois de casado. Então ela é amante de um amigo do filho, um poeta. É o casal educado, que não existe mais. Não se separam nunca, porque são educados. São casais que vivem mal muito bem.



fim do post:



ontem fui ver o "Linha de Passe". Walter Salles e Daniela Thomas. Antes de tudo, que gente agradável! Quanta classe na estréia! Finos, educados, artistas de verdade. Tinham umas 2000 pessoas lá. Não consegui falar com o Waltinho (que admiro e amo muitíssimo), mas consegui mandar recado por Daniela (pessoa tão fascinante que tenho muita vontade de conhecer melhor). "Diga pra ele que o filme de vocês é grave. Uma Via Crucis." Daniela sorriu e foi embora. Esses fazem um cinema que orgulha o Brasil.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008


ATUALIDADES:

Acabo de chegar do Festival de Gramado. Ah, festivais...
São muito divertidos, vidas à parte, regras simples do jogo. Passa um filme, espera o resultado do júri, cruza com muitas moças bonitas, vai às festas, bebe muito, e no dia seguinte da premiação, vai embora. São adoráveis essas vidas curtas que aquela outra, maior mas nem tanto, nos confere!
Esse Festival em Gramado foi realmente interessante. Quanto menos não seja por ter posto em confronto dois filmes realmente antagônicos. No sentido da compreensão da arte. Um deles ótimo, mas sofrido, revoltado contra a vida, negro, e basicamente difícil de entender, com cenas desnecessárias, outras excessivas, sem nenhuma preocupação com a clareza. Um outro, igualmente meritoso, otimista, claro, falando das glórias da vida, não do seu terror, sem nenhum ocultamento ilícito da dor humana. Essa lunaridade e solaridade divide as pessoas espectadoras radicalmente. Sempre participei mais desta, minha arte sempre considerada uma arte menor pelos sofridos e angustiados poetas lunares. Não, retiro esta metáfora. A lua é um satélite lindo. Digamos melhor, os confiantes na glória ou os terroristas da denúncia demolidora. Dessa vez éramos eu e o talentosíssimo Matheus Nachtergale, chamado por muitos de "o galo da noite" (nacht - gale). O Festival não conseguiu nos desunir, abraçávamo-nos ternamente no fim da madrugada do prêmio, cantando canções ao piano. Mas esse tipo de luta é, sem dúvida, essencial.
O Festival fez-me também refletir sobre as Comissões. As Comissões Julgadoras são uma das mais importantes células da democracia. Estão por toda a parte. Julgam desde o lançamento do país até os prêmios de Gramado. É uma Instituição portanto importante e muito problemática. Alguém mais inteligente que eu deveria escrever a respeito. Dessa vez, em Gramado, tivemos uma comissão super digna. Nobre, mesmo. Liderada pela cineasta Ana Carolina. Mas é impressionante como as melhores comissões têm dificuldades de julgar pelo único critério que seria válido, a meritocracia. Já fui júri de festival, sei como acontece. Uma Comissão é influenciada por 1) A PERSONALIDADE DE CADA JURADO. Os quietos não gostarão dos filmes barulhentos, os violentos não gostarão dos filmes calmos, os comunistas não gostarão dos filmes burgueses e os que tem a alma angustiada não gostarão de filmes esperançosos - sendo que isto independe da qualidade da obra em julgamento. 2) AS IMPLICÂNCIAS OU PREFERÊNCIAS POR ESTE OU OUTRO DIRETOR. Por causa de acontecimentos anteriores. Alguém pisou o pé de alguém, comeu a mulher, esnobou, falou mal do amigo de alguém, passou sem cumprimentar - e isto não tem nada a ver com a qualidade da obra. 3) NATURALMENTE, AS IDEOLOGIAS. Você pode ser da esquerda, do centro, da direita, de cima, debaixo, e julgará os filmes segundo o partido a que se filiar - e isto não tem nada a ver com o mérito da obra. 4) NATURALMENTE, A NEGOCIAÇÃO. É preciso compreender isso. Você viu dezenas de filmes com aquelas mesmas pessoas. 2, 3 por dia. Você só vê os filmes com aquelas mesmas pessoas. De modo que você acaba ficando amigo delas. É inevitável. Seu amigo prefere o filme japonês enquanto você é louco pelo diretor argentino. Ele prefere o ator caribenho e você tem certeza que o filme americano é que é a obra de arte. Enfim, você negocia. Troca o japonês pelo caribenho, etc. No final, é um grande conchavo - que nada tem a ver com o valor da obra, enquanto arte. Como se não bastasse... 5) VOCÊ TEM QUE, NA MEDIDA DO POSSÍVEL, RESPEITAR A MÍDIA E FAZER A MÉDIA. Não fica bem num festival dar muitos prêmios para um determinado filme, mesmo que seja uma invulgar obra de arte, deixando os outros candidatos, que viajaram tanto para chegar ali, ir embora de mãos vazias, sem nada para mostrar em casa. De modo que o prêmio deve ser o mais estilhaçado possível, entende? Para que o maior número de pessoas saia contente porque, afinal, festival é uma coisa alegre. Não há júri, por mais digno e inteligente, que escape dessas pressões. Ou melhor, tradições. De modo que você deve ficar muito contente quando ganha um prêmio, mas não deve ficar muito triste quando o perde. O único detalhe lamentável é que o espectador normal que não foi ao festival vê aquele filme premiadíssimo, que é na verdade uma droga, perdão, não muito interessante... e acha que o cinema brasileiro é uma droga sem perdão!
Terminando, devo dizer que foi uma maravilha ser ovacionado durante cinco minutos por mil e duzentas pessoas emocionadas no final do meu filme, "Juventude" - isto é independente do valor da obra.

Vou dar uma entrevista no MIS (Museu de Imagem e de Som) “para a posteridade”. A entrevista é amanhã, dia 20. Vou ser entrevistado por um bando de gente sobre a minha, entre parênteses, vida. Ou seja, ridículo. Juro que não estou levando a sério, mas é mais um modo de organizar a biografia que eu não sei se escreverei. Apareça lá. Acho que a entrada é franca, mas vale a pena conferir. Já me pediram que eu dividisse a minha vida em fases. Pensei que só a lua fizesse isso. Mas em todo caso, tentei. Marcos? Mulheres, claro. “Sou aquilo que as mulheres que eu amei fizeram de mim.” (J. Moreau) E também alguns trabalhos. Dizem os caubóis americanos que o homem tem o direito de uivar para a lua três vezes na sua vida: quando ele encontra a mulher amada, quando lhe nasce um filho e quando dá certo aquele negócio em que ninguém acreditava.


PASSADO:

10,11 anos de idade - Infância até entrar para o colégio o Admissão

1958, 22 anos - Adolescência até o primeiro casamento com Eliana Penafiel

Entre o primeiro e o segundo casamento, noção da morte e da cultura e muito álcool

1962, 26 anos - Primeiras peças profissionais de teatro, “Sétimo Céu” e segundo casamento: Leila Diniz

1966, 30 anos - Entre o fim do casamento com Leila e o sucesso do filme “Todas as mulheres do mundo”

1967, 31 anos - Entre o sucesso e o casamento com Nazareth Ohana (mãe da Claudia)

1971, 34 anos - Casamento com Nazareth, “Edu coração de ouro”, tempo de dívidas e ir a bancos, débâcle financeiro.

Fim do casamento com Nazareth e começo com Lenita Plonczinski.

1973, 36 anos - Casamento com Lenita, ácido lisérgico, vida na natureza durante 10 anos, emprego na TV Globo durante 21 anos intermitentes. Morte de Leila, nascimento de Mariana

1975, 39 anos - Volta para o Rio, retomando o teatro. Jacarepaguá, depois na Barra.

1978, 42 anos - Morte de Nazareth.

1979, 43 anos - Produtor e diretor de teatro. Séries de televisão. Prêmio com “Do fundo do lago”

1980, 44 anos - Fim do casamento com Lenita

1981, 45 anos - Muitos conflitos e casos amorosos até o encontro com Priscilla em final de 1981. Retomada do teatro com “Ensina-me a viver”

46 anos, 1982 - Casamento com Priscilla Rozenbaum

1991, 55 anos - Fase de separação com a Priscilla, por 1 ano

1992, 56 anos - Segue-se uma grande produção de peças, cerca de três por ano, entre sucessos como Confissões de adolescente, e culminando com “Todo mundo tem problemas” e “Separações” em 2000, aos 64 anos.

grande fase! 1994 a 2001 - Estadia de 6 anos no Teatro Planetário

1998, 62 anos - Retomada do cinema com “Amores”, em produção contínua até a atualidade. Encontro com Betinho e a ação da cidadania, da qual faço parte até hoje.

2000, aos 64 anos - Primeira neta

2002, 66 anos - Sucesso de Separações no cinema

2003, 67 anos - “A casa dos Budas Ditosos”

2004, 68 anos - “Feminices”

2005, 69 anos - “Carreiras”

2008, 71 anos - “Juventude” e “Todo mundo tem problemas Sexuais”. Escrevendo teatro e cinema: “Inseparáveis” e “Sangrenta madrugada sangrenta”

Domingos Oliveira está vivo e bem e mora no Leblon, Rio de Janeiro. Casado com Priscilla Rozenbaum há 26 anos, tem uma filha, Maria Mariana. 3 netas e um neto. Clara, Laura, Gabriel e Isabel. Tem muitos amigos e é popular. Seu nome está ligado a cerca de 150 títulos estreados. Ele nunca trabalhou em nada que não gostasse. “Não dou a ninguém o direito de dizer que teve uma vida melhor que a minha. E nem de que é mais feliz do que eu. Porque a grande alegria da vida é saber que se tem uma alma e, maior alegria ainda, saber que é possível melhorá-la”. (Platão)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008


ATUALIDADES:
Estou em Gramado. Mando notícias.

Nunca esteve tão difícil ganhar dinheiro. Infelizmente minhas atividades, teatro e cinema, têm que ser subsidiados. São, no mundo inteiro. Com exceção dos Estados Unidos. Que sendo o país mais esperto do mundo, há mais de cem anos sacou que esta porra dá dinheiro, a cultura. Aqui não. Duzentos anos se passarão antes que nosso dirigente tenha a inteligência e a tranqüilidade suficientes para considerar a arte uma coisa útil. Os dirigentes, como os russos chamavam o Estado, são via de regra, porque não usar a palavra exata, burros. Burros imediatistas. No momento em que ascendem ao poder, esquecem o que foram fazer lá. E preocupam-se apenas, dedicam todo o seu tempo, em manter-se lá. Ou seja, arranjar verbas para o próprio cargo, para a própria instituição que comanda. De modo que está difícil ser artista no Brasil. Ganhando dinheiro. É preciso ter um certo nível como pessoa para compreender que a arte é necessária socialmente, essencial, e por isso, protegê-la. Difícil compreender que isso não passa de uma mínima obrigação de qualquer homem público. A realidade é essa, convenhamos. Vivemos politicamente abaixo do nível. Por mim, é preciso redescobrir um caminho que já tive muitas vezes. Exercendo uma atividade, ganhando patrocínios, humilhando e concedendo tudo o que é necessário, etc... Mas por outro lado, manter uma segunda atividade depende somente de mim. Esta é uma atitude de sobrevivência para qualquer ser pensante. Tô doido pra criar não mais o BOAA (Baixo Orçamento, Alto Astral) mas o filme ou a peça “Zero”. Auto-sustentável, se necessário, mais barato que os BOAA. Calcula-se a bilheteria possível e daí se deduz o orçamento. Para depois procurar pessoas que topem trabalhar assim. O orçamento será de 2 vinténs. Se forem bons artistas, ótimo. Senão, foda-se. O importante é fazer. Para não morrer de medo ou velho. O teatro é o último reduto da inteligência livre. É preciso prezar isso.
Vi “Copélia”. Fui levar as netas. Nunca tinha visto um ballet, nem no Teatro Municipal. Fui de avô, convicto. Eu também penso que nunca tinha visto Copélia. Das moças bailarinas, com sua feminilidade como não existe mais, sempre gostei. Aquele salto pirueta sempre tive vontade de dar. Mas fora isso, sempre achei muito chato o ballet clássico. A não ser pelo virtuosismo dos seus maiores intérpretes. Gostei da Copélia. Vantagens da idade avançada, curti valores que não tinha curtido antes. O ballet clássico desse tipo não é uma criação. É sempre uma recriação. Uma obediência à tradição. Disse Brecht: “Uma peça deve ser feita exatamente do mesmo modo que ela vem sendo feita nos últimos 2000 anos. Mesmo que tenha sido escrita ontem.” O ballet tem esse tipo de grandeza. Mesmo os bailarinos do Teatro Municipal que, segundo consta, são um bando de funcionários públicos invejosos e fofoqueiros, tomam ali, em meio à Copélia, o Estado de Graça da arte. Não há dúvida de como surgiu aquela arte. A culpa é dos passarinhos. Se uma alma boa, e os pássaros também, por que não os homens? A dança é uma atividade de protesto contra uma inexorável e repressora força: a força da gravidade. Quero escrever um ballet para a Debora Colker. Onde os bailarinos dancem palavras, frases, pensamentos, estórias, aventuras. E que a palavra pareça música e que a música, ela mesma, apareça apenas nos clímaces. Porque, afinal, música não é mais que a palavra, ela mesma, destilada nos tonéis da profundidade, voando assim por cima da inteligência, gerando a consciência nos céus da própria alma humana.
PASSADO:
PAPÉIS SOLTOS
25 ANOS
... tenho vergonha de qualquer análise do sofrimento por que é o sofrimento que me envergonha. Uma vez feita a escolha de viver ou meter uma bala nos cornos, ou pular destas janelas sempre tão perto, perde-se o direito de sofrer, sendo assim, como reage ante o fim do mundo quem sabe que o mundo já acabou?
... O mundo é belo. Esta verdade é tão inegável quanto estas minhas mãos, que batem com raiva na máquina e que eu gostaria de amputar. Por que não o suicídio? Por que não fazer deste sol que me fere a vista, o derradeiro? No dia em que eu morrer, a humanidade acaba. Canso, torno-me um ser sem músculos. Morrerei enfim?

(Já separado da Eliana, fiz minha primeira peça amadora. 25 anos. Chamava-se "Sétimo Ceu", adaptação de um dos mais românticos filmes mudos. A verdade é que sempre gostei do Teatro)

...Estou há doze dias da minha primeira estréia!
G. desce um pau em quem falar mal de mim. De vez em quando canso insuportavelmente desta gente barulhenta de teatro.
Comprei uma garrafa de piper.
Devo adaptar minhas peças para o cinema, me livrando assim, definitivamente, do teatro.
Por que não consigo nunca escrever teatro e sim tetaro? Como M. fica bem de calça comprida e blusa amarrada.
Preciso me curar do parasita que tenho nos pés, apanhado num chinelo de meu pai (Não me curei até hoje)

JÁ CASADO COM LEILA
26 ANOS, provavelmente.

Num caderno antigo encontro o telefone do Passarela...
Hoje de manhã quis muito ter meu passado de volta. Quis que Leila fosse Eliana, que seu Álvaro ainda estivesse vivo, que fossemos todos e passassemos slides.

Flashback da infância.

Quando eu era menino, uns 10 anos, meus pais tinham uma casa em Petrópolis, na rua Marquês de Paraná, 125. Havia 4 quartos. O meu variava, dependendo das pessoas que estavam hospedadas. O quarto de meus pais tinha uma varanda. Eu tinha asma. Na casa ao lado morava o Clarêncio, irmão da Clarice, por quem me apaixonei (eu me apaixonava sempre). No alto da rua havia a casa das meninas, moravam muitas lá. No jardim dos fundos tinha uma grande horta, que depois foi acimentada para fazer uma espécie de quadra de basquete. Costumávamos correr do portão até a garagem, apostando quem chegava primeiro. Havia uns quartos também em cima da garagem e era uma grande liberdade dormir lá, com os amigos. Na casa em frente morava o Alberto, que era mais velho, tinha um pai engenheiro que jogava cartas com meu pai. O Alberto de vez em quando organizava jogos de monopólio, mas não gostavam que eu jogasse porque eu era criança demais. No jardim do Alberto havia uma pequeníssima piscina onde me lembro que um dia caí.

Não há nada mais chato que um sonho. Não significam nada, nem para quem sonha. Qualquer dia alguém escreverá um livro muito importante chamado “A Interpretação dos Sonhos”. Na verdade, ainda não foi escrito esse livro. Freud apenas ensaiou.

Já adulto, sonhei com a Marquês de Paraná. As casas eram altas, no sonho, e as calçadas muito estreitas. Quando saí de casa, o ônibus quase me atropelou. O ônibus corria, quase perdendo o equilíbrio nas curvas e ameaçando destruir-se contra as casas. Eu sabia porém que o resto da cidade permanecia belo e largo e meu maior desejo era levar Leila para passear e conhecer Petrópolis, mas ela não queria ir. Preferia ficar jogando buraco com minha avó e minhas tias.
Nos meus tempos de dar festas em casa (dei muitas) brincávamos de muitos jogos, inclusive de "passar o anel" - sensualíssimo entre adultos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008



James Mason, a voz mais bonita do cinema, em "Dead Men Out", grande filme inglês de Caron Reed, que nunca consegui plagiar. Mas ainda conseguirei. Raridade, não existe em video.
ATUALIDADES:

Um Poder que Não Entendo

Continuo fazendo aos sábados o meu show. É um trabalho estranho, esse show. Tudo bem com sua proposta. Alta informalidade, repertório curioso, etc. Mas até hoje eu, que sou organizadíssimo em todos os trabalhos, não consigo organizar isso. Como se a bagunça fosse parte essencial do show. Enfim, está melhorando, mas até agora, nesta temporada tem sido espetáculos ruins. A gente canta mal, eu falo mal, a gente nunca sabe o que vem depois, ou seja, uma debilidade mental generalizada. E quando acaba o espetáculo, e mesmo durante, é bem claro que a platéia delira de prazer! Mesmo quando não está cheio. O espetáculo tem uma magia que não dá pra entender. Não é que as pessoas gostem, elas ficam agradecidas, encantadas, apaixonadas! E certamente eu não mereço tanto. Toda a equipe e meus amigos dizem que esse fenômeno tem vários motivos: O encanto de toda a equipe, o alto lance das cantoras, nossa cara de pau, ou melhor dizendo, auto-estima, ou melhor dizendo, liberdade e falta de culpa de errar tons, etc. Mas que o principal é o meu “carisma”... Reconheço que deve haver qualquer coisa assim, mas que porra é essa, o carisma? Quê que eu faço que é tão engraçadinho? Reconheço que as filosofias são hábeis e que tenho uma preocupação nobre de integrar-me o mais que possível com a platéia. Sentir-me como parte de um todo, espectadores e eu num mesmo instante e espaço, iguais. Enfim, reconheço que sinto bastante bem o “lado de lá”. Porém, enquanto isso, esqueço o texto, falo embolado, gaguejo... e no final sou tratado como um guru, ser especial, qualquer coisa assim, não entendo, não entendo. Gostaria que quem está lendo essa mensagem desesperada apareça no show e me explique o quê que é isso. A juventude, então, particularmente as meninas, me adoram! Não sei se como avô, como artista – mas será que me adoram mesmo? Elas dariam pra mim?




Preciso fazer uma mala direta das pessoas que seguem meu pensamento, minha cabeça é um turbilhão, um maremoto infernal. Porém, como não para, segue. Para cima. Porque para baixo dói muito. Dos grandes prazeres da vida quando você encontra alguém que tem por divertimento seguir seu pensamento. Como se anda por uma estrada. O dia em que eu conseguir fazer a mala direta dessas pessoas, serei um vencedor. Mas a timidez não permite que eu faça. Deveria haver uma secretária para isso. A delicadíssima Tati Muniz se oferece para descobrir quem são os meus seguidores. Esperem por seu email. Ou ofereçam-se para a lista.


O maior prazer de um artista é que vejam a sua obra. Maior que esse só existe um prazer: de que sigam a evolução de seu pensamento. Compare o atual com o anterior, descubra diferenças... em outras palavras, que façam com o autor aquilo que se faz com um namorado ou um filho. Uma pessoa amada. Uma vez descoberta esta tribo, saberei que não estou sozinho. E caminharíamos todos sem olharmos uns pros outros, em direção ao mar. Ouvindo uma música de Nino Rota no ar num novo eterno filme de Fellini...


Aceito a oferta da Tati. E mais, os voluntários que se apresentem para a lista.


PASSADO:

13/3/61
(24 anos, casado com Eliana há uns 3. Creio que casei aos 21. Casamento em plena decadência. Quem quiser entender melhor, "A Primeira Valsa". À venda nas boas livrarias.)



Resolvi levar adiante meus impulsos: trair Eliana a qualquer preço ou custo. Eliana me acusa de não ser "autêntico", odeio esta palavra. Anteontem tive de interromper meu diário subitamente e ontem não o escrevi. Hoje preciso escrever, senão acumula demais. Fazia um calor impressionante e eu estava imundo, louco para ir ao banheiro. Cheguei em casa às 5h, médico às 6h (psicanalista). Aflito para encontrar o telefone da Beatriz no catálogo, mas Eliana estava em casa. Me senti malíssimo e entrei no banheiro sem catálogo. Fiquei lá o tempo mínimo para por para fora o que me sobrava, peguei o telefone e telefonei.
No início gaguejei, depois assumi aquele ar paternal ridículo que uso ultimamente para me relacionar com as mulheres. Com Eliana sou tão inseguro. A verdade é que não tenho nenhuma razão para me sentir inseguro diante das outras mulheres. Também Cecília e Beatriz não são inteligentes. Não gaguejei propriamente: hesitei. Disse que a maior diferença entre o Domingos de hoje e o que ela conheceu, é que este é mais sincero, sem rodeios. Convidei-a para sair, alegando que tinha curiosidade de conhecê-la, que não tinha nenhuma idéia de quem ela realmente era. Tive a impressão de que ela não entendeu o que eu quis dizer. Não tive boa impressão sobre a inteligência de Beatriz. Pedi também a ela que não fizesse nenhuma cerimônia de recusar, usando a mesma sinceridade com que eu tinha feito o convite. Repeti pelo menos duas vezes que não sabia se ela tinha namorado, noivo, ou mesmo se era casada (sabia sim: o telefone era da casa dos pais dela).
Afinal pedi a resposta: podia ou não sair comigo. Ela disse: "Agora posso". Uma voz débil, fina, suave, mas quase inaudível. "Afinal você teve importância na minha vida". Para continuar a conversa embaraçosa, ela disse que outro dia tinha se lembrado muito de mim porque tinha visto o Ítalo Rossi, que ela achava parecido comigo e que estava estudando biblioteconomia ou bibliotecologia.
Perguntei então se ela podia sair comigo hoje. Ela disse que hoje não, muito nervosa. Que não podia, que ia sair depois da aula. Tive a impressão exata que era mentira. Achei que ela queria ir ao cabelereiro antes, ou que estava com uma espinha, coisa assim, então marquei para o sábado. Sábado é o pior dia, mas eu já tinha ido longe demais, não podia parar. Sábado para homem casado é quase impossível.
Não quero mais escrever hoje. Estou muito frio quanto ao que estou narrando e isto não é verdade.

Li o diário de Eliana, a primeira parte. É belíssimo. Belíssimo. Isto me incentivava para continuar escrevendo o meu. Joaquim chegou.
Fui obrigado a dedicar a primeira parte do dia inteiramente ao Joaquim. Ele está muito ruim, plena neurose. Almocei com ele. Eliana preferiu tomar banho e almoçar depois. Fizemos hora e fui com ele ao oculista. Joaquim perdeu os óculos.
Depois de deixá-lo tive um acesso de improdutividade. Passei na Feira do Livro, depois parei na Ladeira do Leme, estudando o ambiente para meu filme. Amanhã escreverei à máquina, minha mão me dói. De manhã fui ao analista discutir meus problemas sexuais.
São 4 da manhã. Venho, com Eliana, de longa permanência com Joaquim, coisa habitual agora. Temo que Joaquim se mate. Gostei da aula de Teatro!




ENCANTAMENTOS

(Quando me apaixonei pela mulher de um amigo, uma grande paixão, que não anotei nunca, porém apenas mais uma emanação do citador furor juvenil diante da C.E. )

Eu te olhava, você de um, eu do outro lado. Se você me olhava, eu tirava os olhos, não aguentava. Aí, sua miserável, você passou a não me olhar mais. Olhávamos para todas as outras pessoas. Nunca um para o outro. Era um jogo encantado, sabíamos mesmo sem querer saber, que naquela sala cheia só existíamos nós dois e a música.
Ataquei. Prendi meu olhar na tua direção, mas tentei não te ver. Os olhos fora de foco, como se eu estivesse pensando em mim! Você resistiu, ah, como você resistiu! Mas acabou me olhando, trêmula, como se eu tivesse deixado de te amar! Mas se eu te amarei para sempre. Vencedor e agradecido, fixei sem defesas meu olhar no teu. Por um momento cumprimentamo-nos, com vago sorriso. Ninguém percebeu. Teria sido mortal se alguém tivesse percebido.
Era de novo minha vez. Um vaso de flores perto de mim. Pequenas e amarelas, as flores. Botei uma entre os dedos e iniciei uma discussão absurda sobre um assunto qualquer, com alguém. A discussão tomou calor, era assim que eu queria, mas a flor não saiu dos meus dedos. Não olhei pra você, tentei (e até consegui!) ignorar tua presença. Você vingou-se imediatamente, entabulando uma conversa com D. sobre cães e gatos. Senti que era o momento exato! Mudei de poltrona e deixei a flor ao lado do cinzeiro. Instantes de ansiedade, mas quando olhei, te vi em minha poltrona, com a flor entre os dedos. Obrigado, te amo, te amarei sempre!
Foi então que P. tirou você para dançar e eu pus outra dose em meu copo e Jacques Brel começou a cantar. P. é meu únco rival verdadeiro, sei disso, era melhor que eu ignorasse o fato de você estar dançando com ele! Só que não pude controlar-me. Comecei a marcar o ritmo da música, estalando os dedos levemente. Depois, com deliberação, diminui o ritmo e quando olhei para teus pés, vi que eles obedeciam a mim, e não ao Brel, então tive menos ciúme.
Ó amor! Logo deixarei de te amar! Mas antes é preciso que você seja minha e que eu seja seu! Possuir você me faria imortal!

(E foi então, que separado da Eliana, um dia descobri esta maravilha que é o Alcool. Lembro que bebi uns dois anos. Dormia uma noite, bebia dois dias. Os apartamentos acabaram, eu tinha dois, me mudei para o Bairro Peixoto e foi mais ou menos assim que Leila me encontrou. Talvez 26 anos?)



Essa moça da flor tem a minha idade. Somos amigos até hoje. Ou melhor, a mesma velha ranzinza e rejeitada continua encantadora. Não temos mais muito assunto. Ela chama-se, mentirei aqui, Lívia. Ainda não contei na minha obra o meu tórrido caso com ela. Era mulher de um amigo meu.