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quinta-feira, 7 de agosto de 2008


ATUALIDADES:
Estou em Gramado. Mando notícias.

Nunca esteve tão difícil ganhar dinheiro. Infelizmente minhas atividades, teatro e cinema, têm que ser subsidiados. São, no mundo inteiro. Com exceção dos Estados Unidos. Que sendo o país mais esperto do mundo, há mais de cem anos sacou que esta porra dá dinheiro, a cultura. Aqui não. Duzentos anos se passarão antes que nosso dirigente tenha a inteligência e a tranqüilidade suficientes para considerar a arte uma coisa útil. Os dirigentes, como os russos chamavam o Estado, são via de regra, porque não usar a palavra exata, burros. Burros imediatistas. No momento em que ascendem ao poder, esquecem o que foram fazer lá. E preocupam-se apenas, dedicam todo o seu tempo, em manter-se lá. Ou seja, arranjar verbas para o próprio cargo, para a própria instituição que comanda. De modo que está difícil ser artista no Brasil. Ganhando dinheiro. É preciso ter um certo nível como pessoa para compreender que a arte é necessária socialmente, essencial, e por isso, protegê-la. Difícil compreender que isso não passa de uma mínima obrigação de qualquer homem público. A realidade é essa, convenhamos. Vivemos politicamente abaixo do nível. Por mim, é preciso redescobrir um caminho que já tive muitas vezes. Exercendo uma atividade, ganhando patrocínios, humilhando e concedendo tudo o que é necessário, etc... Mas por outro lado, manter uma segunda atividade depende somente de mim. Esta é uma atitude de sobrevivência para qualquer ser pensante. Tô doido pra criar não mais o BOAA (Baixo Orçamento, Alto Astral) mas o filme ou a peça “Zero”. Auto-sustentável, se necessário, mais barato que os BOAA. Calcula-se a bilheteria possível e daí se deduz o orçamento. Para depois procurar pessoas que topem trabalhar assim. O orçamento será de 2 vinténs. Se forem bons artistas, ótimo. Senão, foda-se. O importante é fazer. Para não morrer de medo ou velho. O teatro é o último reduto da inteligência livre. É preciso prezar isso.
Vi “Copélia”. Fui levar as netas. Nunca tinha visto um ballet, nem no Teatro Municipal. Fui de avô, convicto. Eu também penso que nunca tinha visto Copélia. Das moças bailarinas, com sua feminilidade como não existe mais, sempre gostei. Aquele salto pirueta sempre tive vontade de dar. Mas fora isso, sempre achei muito chato o ballet clássico. A não ser pelo virtuosismo dos seus maiores intérpretes. Gostei da Copélia. Vantagens da idade avançada, curti valores que não tinha curtido antes. O ballet clássico desse tipo não é uma criação. É sempre uma recriação. Uma obediência à tradição. Disse Brecht: “Uma peça deve ser feita exatamente do mesmo modo que ela vem sendo feita nos últimos 2000 anos. Mesmo que tenha sido escrita ontem.” O ballet tem esse tipo de grandeza. Mesmo os bailarinos do Teatro Municipal que, segundo consta, são um bando de funcionários públicos invejosos e fofoqueiros, tomam ali, em meio à Copélia, o Estado de Graça da arte. Não há dúvida de como surgiu aquela arte. A culpa é dos passarinhos. Se uma alma boa, e os pássaros também, por que não os homens? A dança é uma atividade de protesto contra uma inexorável e repressora força: a força da gravidade. Quero escrever um ballet para a Debora Colker. Onde os bailarinos dancem palavras, frases, pensamentos, estórias, aventuras. E que a palavra pareça música e que a música, ela mesma, apareça apenas nos clímaces. Porque, afinal, música não é mais que a palavra, ela mesma, destilada nos tonéis da profundidade, voando assim por cima da inteligência, gerando a consciência nos céus da própria alma humana.
PASSADO:
PAPÉIS SOLTOS
25 ANOS
... tenho vergonha de qualquer análise do sofrimento por que é o sofrimento que me envergonha. Uma vez feita a escolha de viver ou meter uma bala nos cornos, ou pular destas janelas sempre tão perto, perde-se o direito de sofrer, sendo assim, como reage ante o fim do mundo quem sabe que o mundo já acabou?
... O mundo é belo. Esta verdade é tão inegável quanto estas minhas mãos, que batem com raiva na máquina e que eu gostaria de amputar. Por que não o suicídio? Por que não fazer deste sol que me fere a vista, o derradeiro? No dia em que eu morrer, a humanidade acaba. Canso, torno-me um ser sem músculos. Morrerei enfim?

(Já separado da Eliana, fiz minha primeira peça amadora. 25 anos. Chamava-se "Sétimo Ceu", adaptação de um dos mais românticos filmes mudos. A verdade é que sempre gostei do Teatro)

...Estou há doze dias da minha primeira estréia!
G. desce um pau em quem falar mal de mim. De vez em quando canso insuportavelmente desta gente barulhenta de teatro.
Comprei uma garrafa de piper.
Devo adaptar minhas peças para o cinema, me livrando assim, definitivamente, do teatro.
Por que não consigo nunca escrever teatro e sim tetaro? Como M. fica bem de calça comprida e blusa amarrada.
Preciso me curar do parasita que tenho nos pés, apanhado num chinelo de meu pai (Não me curei até hoje)

JÁ CASADO COM LEILA
26 ANOS, provavelmente.

Num caderno antigo encontro o telefone do Passarela...
Hoje de manhã quis muito ter meu passado de volta. Quis que Leila fosse Eliana, que seu Álvaro ainda estivesse vivo, que fossemos todos e passassemos slides.

Flashback da infância.

Quando eu era menino, uns 10 anos, meus pais tinham uma casa em Petrópolis, na rua Marquês de Paraná, 125. Havia 4 quartos. O meu variava, dependendo das pessoas que estavam hospedadas. O quarto de meus pais tinha uma varanda. Eu tinha asma. Na casa ao lado morava o Clarêncio, irmão da Clarice, por quem me apaixonei (eu me apaixonava sempre). No alto da rua havia a casa das meninas, moravam muitas lá. No jardim dos fundos tinha uma grande horta, que depois foi acimentada para fazer uma espécie de quadra de basquete. Costumávamos correr do portão até a garagem, apostando quem chegava primeiro. Havia uns quartos também em cima da garagem e era uma grande liberdade dormir lá, com os amigos. Na casa em frente morava o Alberto, que era mais velho, tinha um pai engenheiro que jogava cartas com meu pai. O Alberto de vez em quando organizava jogos de monopólio, mas não gostavam que eu jogasse porque eu era criança demais. No jardim do Alberto havia uma pequeníssima piscina onde me lembro que um dia caí.

Não há nada mais chato que um sonho. Não significam nada, nem para quem sonha. Qualquer dia alguém escreverá um livro muito importante chamado “A Interpretação dos Sonhos”. Na verdade, ainda não foi escrito esse livro. Freud apenas ensaiou.

Já adulto, sonhei com a Marquês de Paraná. As casas eram altas, no sonho, e as calçadas muito estreitas. Quando saí de casa, o ônibus quase me atropelou. O ônibus corria, quase perdendo o equilíbrio nas curvas e ameaçando destruir-se contra as casas. Eu sabia porém que o resto da cidade permanecia belo e largo e meu maior desejo era levar Leila para passear e conhecer Petrópolis, mas ela não queria ir. Preferia ficar jogando buraco com minha avó e minhas tias.
Nos meus tempos de dar festas em casa (dei muitas) brincávamos de muitos jogos, inclusive de "passar o anel" - sensualíssimo entre adultos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008



James Mason, a voz mais bonita do cinema, em "Dead Men Out", grande filme inglês de Caron Reed, que nunca consegui plagiar. Mas ainda conseguirei. Raridade, não existe em video.
ATUALIDADES:

Um Poder que Não Entendo

Continuo fazendo aos sábados o meu show. É um trabalho estranho, esse show. Tudo bem com sua proposta. Alta informalidade, repertório curioso, etc. Mas até hoje eu, que sou organizadíssimo em todos os trabalhos, não consigo organizar isso. Como se a bagunça fosse parte essencial do show. Enfim, está melhorando, mas até agora, nesta temporada tem sido espetáculos ruins. A gente canta mal, eu falo mal, a gente nunca sabe o que vem depois, ou seja, uma debilidade mental generalizada. E quando acaba o espetáculo, e mesmo durante, é bem claro que a platéia delira de prazer! Mesmo quando não está cheio. O espetáculo tem uma magia que não dá pra entender. Não é que as pessoas gostem, elas ficam agradecidas, encantadas, apaixonadas! E certamente eu não mereço tanto. Toda a equipe e meus amigos dizem que esse fenômeno tem vários motivos: O encanto de toda a equipe, o alto lance das cantoras, nossa cara de pau, ou melhor dizendo, auto-estima, ou melhor dizendo, liberdade e falta de culpa de errar tons, etc. Mas que o principal é o meu “carisma”... Reconheço que deve haver qualquer coisa assim, mas que porra é essa, o carisma? Quê que eu faço que é tão engraçadinho? Reconheço que as filosofias são hábeis e que tenho uma preocupação nobre de integrar-me o mais que possível com a platéia. Sentir-me como parte de um todo, espectadores e eu num mesmo instante e espaço, iguais. Enfim, reconheço que sinto bastante bem o “lado de lá”. Porém, enquanto isso, esqueço o texto, falo embolado, gaguejo... e no final sou tratado como um guru, ser especial, qualquer coisa assim, não entendo, não entendo. Gostaria que quem está lendo essa mensagem desesperada apareça no show e me explique o quê que é isso. A juventude, então, particularmente as meninas, me adoram! Não sei se como avô, como artista – mas será que me adoram mesmo? Elas dariam pra mim?




Preciso fazer uma mala direta das pessoas que seguem meu pensamento, minha cabeça é um turbilhão, um maremoto infernal. Porém, como não para, segue. Para cima. Porque para baixo dói muito. Dos grandes prazeres da vida quando você encontra alguém que tem por divertimento seguir seu pensamento. Como se anda por uma estrada. O dia em que eu conseguir fazer a mala direta dessas pessoas, serei um vencedor. Mas a timidez não permite que eu faça. Deveria haver uma secretária para isso. A delicadíssima Tati Muniz se oferece para descobrir quem são os meus seguidores. Esperem por seu email. Ou ofereçam-se para a lista.


O maior prazer de um artista é que vejam a sua obra. Maior que esse só existe um prazer: de que sigam a evolução de seu pensamento. Compare o atual com o anterior, descubra diferenças... em outras palavras, que façam com o autor aquilo que se faz com um namorado ou um filho. Uma pessoa amada. Uma vez descoberta esta tribo, saberei que não estou sozinho. E caminharíamos todos sem olharmos uns pros outros, em direção ao mar. Ouvindo uma música de Nino Rota no ar num novo eterno filme de Fellini...


Aceito a oferta da Tati. E mais, os voluntários que se apresentem para a lista.


PASSADO:

13/3/61
(24 anos, casado com Eliana há uns 3. Creio que casei aos 21. Casamento em plena decadência. Quem quiser entender melhor, "A Primeira Valsa". À venda nas boas livrarias.)



Resolvi levar adiante meus impulsos: trair Eliana a qualquer preço ou custo. Eliana me acusa de não ser "autêntico", odeio esta palavra. Anteontem tive de interromper meu diário subitamente e ontem não o escrevi. Hoje preciso escrever, senão acumula demais. Fazia um calor impressionante e eu estava imundo, louco para ir ao banheiro. Cheguei em casa às 5h, médico às 6h (psicanalista). Aflito para encontrar o telefone da Beatriz no catálogo, mas Eliana estava em casa. Me senti malíssimo e entrei no banheiro sem catálogo. Fiquei lá o tempo mínimo para por para fora o que me sobrava, peguei o telefone e telefonei.
No início gaguejei, depois assumi aquele ar paternal ridículo que uso ultimamente para me relacionar com as mulheres. Com Eliana sou tão inseguro. A verdade é que não tenho nenhuma razão para me sentir inseguro diante das outras mulheres. Também Cecília e Beatriz não são inteligentes. Não gaguejei propriamente: hesitei. Disse que a maior diferença entre o Domingos de hoje e o que ela conheceu, é que este é mais sincero, sem rodeios. Convidei-a para sair, alegando que tinha curiosidade de conhecê-la, que não tinha nenhuma idéia de quem ela realmente era. Tive a impressão de que ela não entendeu o que eu quis dizer. Não tive boa impressão sobre a inteligência de Beatriz. Pedi também a ela que não fizesse nenhuma cerimônia de recusar, usando a mesma sinceridade com que eu tinha feito o convite. Repeti pelo menos duas vezes que não sabia se ela tinha namorado, noivo, ou mesmo se era casada (sabia sim: o telefone era da casa dos pais dela).
Afinal pedi a resposta: podia ou não sair comigo. Ela disse: "Agora posso". Uma voz débil, fina, suave, mas quase inaudível. "Afinal você teve importância na minha vida". Para continuar a conversa embaraçosa, ela disse que outro dia tinha se lembrado muito de mim porque tinha visto o Ítalo Rossi, que ela achava parecido comigo e que estava estudando biblioteconomia ou bibliotecologia.
Perguntei então se ela podia sair comigo hoje. Ela disse que hoje não, muito nervosa. Que não podia, que ia sair depois da aula. Tive a impressão exata que era mentira. Achei que ela queria ir ao cabelereiro antes, ou que estava com uma espinha, coisa assim, então marquei para o sábado. Sábado é o pior dia, mas eu já tinha ido longe demais, não podia parar. Sábado para homem casado é quase impossível.
Não quero mais escrever hoje. Estou muito frio quanto ao que estou narrando e isto não é verdade.

Li o diário de Eliana, a primeira parte. É belíssimo. Belíssimo. Isto me incentivava para continuar escrevendo o meu. Joaquim chegou.
Fui obrigado a dedicar a primeira parte do dia inteiramente ao Joaquim. Ele está muito ruim, plena neurose. Almocei com ele. Eliana preferiu tomar banho e almoçar depois. Fizemos hora e fui com ele ao oculista. Joaquim perdeu os óculos.
Depois de deixá-lo tive um acesso de improdutividade. Passei na Feira do Livro, depois parei na Ladeira do Leme, estudando o ambiente para meu filme. Amanhã escreverei à máquina, minha mão me dói. De manhã fui ao analista discutir meus problemas sexuais.
São 4 da manhã. Venho, com Eliana, de longa permanência com Joaquim, coisa habitual agora. Temo que Joaquim se mate. Gostei da aula de Teatro!




ENCANTAMENTOS

(Quando me apaixonei pela mulher de um amigo, uma grande paixão, que não anotei nunca, porém apenas mais uma emanação do citador furor juvenil diante da C.E. )

Eu te olhava, você de um, eu do outro lado. Se você me olhava, eu tirava os olhos, não aguentava. Aí, sua miserável, você passou a não me olhar mais. Olhávamos para todas as outras pessoas. Nunca um para o outro. Era um jogo encantado, sabíamos mesmo sem querer saber, que naquela sala cheia só existíamos nós dois e a música.
Ataquei. Prendi meu olhar na tua direção, mas tentei não te ver. Os olhos fora de foco, como se eu estivesse pensando em mim! Você resistiu, ah, como você resistiu! Mas acabou me olhando, trêmula, como se eu tivesse deixado de te amar! Mas se eu te amarei para sempre. Vencedor e agradecido, fixei sem defesas meu olhar no teu. Por um momento cumprimentamo-nos, com vago sorriso. Ninguém percebeu. Teria sido mortal se alguém tivesse percebido.
Era de novo minha vez. Um vaso de flores perto de mim. Pequenas e amarelas, as flores. Botei uma entre os dedos e iniciei uma discussão absurda sobre um assunto qualquer, com alguém. A discussão tomou calor, era assim que eu queria, mas a flor não saiu dos meus dedos. Não olhei pra você, tentei (e até consegui!) ignorar tua presença. Você vingou-se imediatamente, entabulando uma conversa com D. sobre cães e gatos. Senti que era o momento exato! Mudei de poltrona e deixei a flor ao lado do cinzeiro. Instantes de ansiedade, mas quando olhei, te vi em minha poltrona, com a flor entre os dedos. Obrigado, te amo, te amarei sempre!
Foi então que P. tirou você para dançar e eu pus outra dose em meu copo e Jacques Brel começou a cantar. P. é meu únco rival verdadeiro, sei disso, era melhor que eu ignorasse o fato de você estar dançando com ele! Só que não pude controlar-me. Comecei a marcar o ritmo da música, estalando os dedos levemente. Depois, com deliberação, diminui o ritmo e quando olhei para teus pés, vi que eles obedeciam a mim, e não ao Brel, então tive menos ciúme.
Ó amor! Logo deixarei de te amar! Mas antes é preciso que você seja minha e que eu seja seu! Possuir você me faria imortal!

(E foi então, que separado da Eliana, um dia descobri esta maravilha que é o Alcool. Lembro que bebi uns dois anos. Dormia uma noite, bebia dois dias. Os apartamentos acabaram, eu tinha dois, me mudei para o Bairro Peixoto e foi mais ou menos assim que Leila me encontrou. Talvez 26 anos?)



Essa moça da flor tem a minha idade. Somos amigos até hoje. Ou melhor, a mesma velha ranzinza e rejeitada continua encantadora. Não temos mais muito assunto. Ela chama-se, mentirei aqui, Lívia. Ainda não contei na minha obra o meu tórrido caso com ela. Era mulher de um amigo meu.

terça-feira, 29 de julho de 2008

ATUALIDADES:





Filósofo é diferente de um sábio. Um filósofo pode não ter nenhuma sabedoria, é amigo da sabedoria. Lei: "É preciso viver cada dia como se fosse o último."

Sempre acordo bem, de bom humor, agitado, resolvendo os problemas da véspera como se fossem simples. Hoje acordei diferente. Curioso, não sei o que foi que eu tomei, mas acordei com uma agitação fodida. Há muito tempo que quero criar o Grupo Fúria. Agora eu estou furioso. O motivo da minha fúria é o seguinte: Estou fazendo uma peça... uma não, estou fazendo duas, dez peças e dez filmes. Mas no momento estou fazendo uma peça chamada "Cabaré", no Canequinho, e escrevendo uma peça de teatro muito ambiciosa em parceria com o Luis Eduardo Soares, baseada numa história dele, sobre a violência e o crime organizado, essa coisa absurda que acontece no Brasil. Brasil primitivo e bárbaro. Os problemas que me enfurecem são dois. Na verdade, um. Eu jurei a mim mesmo que nesse ano eu tinha como meta me superar. 73 anos. 72 anos. Com o corpo todo enfraquecido, minado. Creio, há dois anos que não sei como está, não me examino. Mas a idade já me pesa bastante. Não estou me superando porra nenhuma, é dificílimo se superar. Mas pelo menos estou tentando, no momento estou tentando. Estou furioso. O motivo primeiro é o Cabaré, ou o Show, sei lá como aquilo se chama. "Os Sábados do Domingos". Está acontecendo a mesma coisa que aconteceu durante os cinco ou seis anos que faço esse show, diferentemente do que nos Cabarés que eu fiz no teatro acontecia. Lá era uma peça de teatro ensaiada e montada, esse show é mais um improviso. Estou saindo no prejuízo. Não é falta de gente, as pessoas adoram, eu sei como elas se sentem, eu já fiz esse show, é um acontecimento surpreendente, as pessoas ficam gratificadas com a liberdade do espetáculo, com a beleza das canções e das mulheres, etc, etc, etc. Ficam encantadas mas não vão e não levam as outras. Existem dois jeitos: melhorando o espetáculo, ou levando o público lá. Não necessariamente nessa ordem. Outra também que me enfurece é a minha outra peça que estou escrevendo com a Marcia Zanelatto, chama "Sangrenta Madrugada Sangrenta", pelo título já se vê o que é, e que está ótima, muito bem escrita, melhor do que qualquer um escreveria, porém ainda medíocre. É preciso mais loucura, mais loucura. Mais profundidade, mais acuidade, mais lembranças do que é a vida.



Bem, me acalmo. Não há nada demais. Eu não vou matar ninguém, não vou jogar ninguém de nenhum abismo. Vou me acalmar. Acalmo-me. Vejo o sol entrando oblíquo no meio da minha sala, são 7:30 da manhã. É uma bela manhã. Vou ler os jornais. Passar os olhos, que é o que se faz nos jornais. Mais do que isso seria demais desesperador. Para isso preciso dos meus óculos, onde estão os meus óculos?

São 15 para as 8. A Márcia chega às 9 para trabalharmos na peça. Tenho portanto uma hora, uma hora e pouco, para continuar essa loucura, ou melhor, essa fúria.

"Um PM foi morto com a mulher atingido com um tiro no rosto por um bandido em arrastão essa noite na Perimetral, em frente à Polícia Federal." "Domingo à noite duas mulheres foram assaltadas por menores que se passavam por malabaristas num sinal na Lagoa." "Nas ruas, jovens intimidam motoristas para lavar os vidros em troca de dinheiro". Frase: "Agora que passou, tudo está salvo, tudo está bem, pelo menos até o próximo assalto." Ass: Cora Ronai, jornalista, assaltada em arrastão sábado à noite em Botafogo.

Esse é o mundo no qual estou fazendo teatro e cinema.

Somente agüento ler as primeiras páginas dos jornais.

Nelson Sargento, que já foi meu amigo, pintou minha casa nos anos 60, ele era pintor de parede, lança mais um disco. Semana que vem no Canecão. Eu vou lá, eu vou lá. Detesto ir a show, mas eu vou lá. Ou senão ouço na internet o audio do samba-filme do Nelson Sargento com Zeca Pagodinho. www.oglobo.com.br/cultura.

Eu não vou agüentar essa fúria durante muito tempo. Esse é o problema da fúria. Depende do corpo, e o corpo não agüenta. Ainda mais aos 73 anos. Não estou me sentindo muito bem. Fúria mata. Não a quem a obedece, mas a quem a sente.

Falas do filme do "Batman", que eu detestei. Sobre o coringa: "nenhum saber, nenhuma ética, nada vai apagar o animal feroz que nos habita. Eu sou uma vanguarda." Ele diz pro Batman, no filme. "eu não quero te matar porque você me completa" "nada mais atraente do que a psicopatia inteligente" "e aí, pensamos: para que praticar o bem se ele não é mais possível? ele é uma invenção platônica iluminista nesse mundo sujo. E o mal? O mal virou uma necessidade social. Não dá mais para viver sem praticar o mal. O mal é um mecanismo de defesa. Para não denunciar o mal, vivemos dele."

Fala de Obama, antítese de Osama, ele diz:

"E Obama, agora ele surgiu cometendo o bem. Obama é uma antítese simétrica do Osama. Será que depois de uma década que Norma Mailer chamou de tempestade de merda a história deseja um espasmo de mudança para o bem?"

Osama, depois de Obama, depois de Batman, pode não apenas retirar o mal do mundo mas restaurar o bem perdido.

Interrompo a fúria porque meu coração bate forte e eu fico com medo de morrer. A fúria é maravilhosa, prazer imenso.

Fui à internet para me lembrar o que significa a palavra "atman". Significa a alma, mais ou menos. Na religião Hindu. Alma, eu, "you an atman" é o "eu sem alma". Ou seja, aquele integrado no todo. Me pergunto então o que será o Batman, o Catman, o Datman, o Fatman...







PASSADO:





3/1/61.

Sou um ignorante. Não me considerem um rapaz culto.
Estou lendo "Crime e Castigo" há cerca de três meses. Acho sensacional, linha a linha. Porque não leio mais? Não sei, mas devo saber. Reflito um instante.
Uma razão: quando eu leio minha vista cansa, fico com sono. Discutamos esse ponto: eu preciso comprar um par de óculos ou ler em horas menos avançadas da noite? Provavelmente preciso fazer as duas coisas.
Para isso preciso ir ao oculista. Para isso preciso de uma dose de paciência bastante grande. Sinceramente, não acredito que vá senti-la nos próximos tempos. Porque não leio de dia? No tempo em que eu andava de lotação bem que lia, viajante. Bem verdade que era pouco, ficava logo com enjôo. Agora tenho carro, não leio de dia para não perder tempo. Este argumento a primeira vista ridículo e improcedente talvez tenha procedência, senão vejamos: ou bem leio, ou bem trabalho (compreendo por trabalhar escrever, tratar dos meus filmes etc. Neste momento, por exemplo, estou trabalhando. Sei que a denominação não é própria, já que ninguém me paga e só o faço quando tenho vontade. Enfim, já me acostumei a ela. Bem verdade que no início foi um pouco para discutir com mamãe que insistia em me chamar vagabundo). Voltemos então: ou bem leio, ou bem trabalho. Por que não leio parte do dia e trabalho a outra parte? Não dá tempo. Nas poucas horas que me restam, preciso trabalhar, senão não fico famoso. Se quero ficar famoso? Não sei, mas responderei no próximo parágrafo.
A verdade é que gasto 90% do meu tempo em fazer nada, no máximo conversando.
E isso é assim, não tem jeito. Em nove décimos do dia, meus problemas pessoais não me permitem produzir.
Só se eu fosse louco, ou um porco, ou feliz, é que não seria assim.
Sofrer gasta tempo e eu sofro muito, juro que sofro, mas isso é assunto, para daqui há dois parágrafos, sendo assim, fico condenado a uma eterna ignorância. Não exagero: de Dostoievski, por exemplo, li "Crime e Castigo" (o primeiro volume quase inteiro), "Karamazoff" (metade do primeiro volume e "O grande inquisidor") e "Subsolo" (algumas frases). Adoro Dostoievski, como ele ninguém.

A terceira razão pela qual não leio é que gosto mais de escrever que de ler, por melhor que seja a leitura. Criar tornou-se um vício, é preciso saciá-lo e só disponho de 10% do dia. Mas isso não pode continuar assim. Preciso ler. É preciso chegar a uma solução. A única possível é me obrigar, terapeuticamente, a ler um livro por mês. Já tentei fazer isso, sem nenhum resultado.


(Este diário, continuação dos anteriores, é típico do final do meu primeiro casamento. Desencontros absolutos com Eliana, primeiras impotências, culpas terríveis e absolutamente infundadas quanto à Eliana, à minha mãe, a não ser culto, a querer ser artista. Invenções, bobagens criadas por um furor juvenil e pelos sustos diante da condição existencial - hoje igualmente assustadora.
Já tinha morrido "Seu Alvaro" com certeza, mas leia isto em "A primeira Valsa". Não devo ter me separado aos 21, comforme imagino e sim aos 24.)



Excertos de um possível livro denominado "Meu Deus, como sobrevivi?"

sábado, 26 de julho de 2008

PASSADO:


1958/22 anos/ durante a prova de Motores,
Faculdade Nacional de Engenharia:

Se vou ser um escritor, não sei, mas que a angústia constante e a paixão da escrita entraram em mim, disso tenho certeza. Minha inspiração vem quando chamo. A tinta azul, o papel branco... e o mundo desaparece. Somente fica comigo o que é belo ou irremediável e "minha alma se acalma nos versos que eu canto".

Um dos maiores aborrecimentos que tive aos 21/22 foi as bodas de prata de meus pais. Minha mulher, que odiava a sogra, resolveu transformar a questão de comparecer à missa das bodas numa querela religiosa radical. Os problemas, gravíssimos, eram da ordem de se sobe no altar ou se fica nos bancos da igreja, já que não acreditamos em Deus, se ajoelha com os outros ou não ajoelha etc. Incrível! Me pergunto se até hoje luto e sofro por problemas banais assim.

2/1/60. 24 anos

Tenho agora 24 anos. Este diário devia ter começado ontem. Seria mais simétrico. Para bem da verdade, devo explicar que não o fiz porque estava por demais desanimado para fazer qualquer coisa senão dormir.
No ponto final do parágrafo anterior parei e reli o que tinha escrito.
Essa atitude talvez não seja válida.
É preciso decidir o tom deste diário. É preciso resolver e declarar como e porque o escrevo.
Por que escrevo? Por várias razões. A principal é me fornecer um meio de meditação. Somente sei meditar em voz alta (evidentemente, usando um ouvinte) ou escrevendo. Poderia mesmo dizer, sem exagero, que meditar é para mim um ato anormal, ao qual a vida mais e mais me obriga. Meu estado interior natural é o absoluto vácuo.
Somente agora, com os 24 anos de idade, começo a aprender a juntar pensamentos de modo claro. Este vácuo porém é feito de caos e portanto me angustia. É preciso pensar. É preciso decidir, simplificar, metodizar. É preciso saber se sou contra ou a favor da pena de morte, se torço ou não pelo comunismo, até que ponto sou realmente um porco e, para isso, é preciso pensar.
Porque não excluo a possibilidade de outras pessoas lerem estas linhas, farei com que elas não contenham coisas por demais ligadas à minha vida íntima e sim paire no campo das idéias gerais. Outra vantagem importante das idéias gerais é obrigar-me a uma certa dignidade que me permite pensar melhor, e melhor encontrar-me. A parte de mim mais minha, aquela que se liga a meu cotidiano, ao meu passado e presente, me envergonha a tal ponto por sua fraqueza e superficialidade que não me permite falar dela. Tenho vergonha de mim? Tenho muita. É um dos meus sentimentos mais sinceros, menos intelectualizados.
Se meu diário não contém coisas íntimas, talvez não o devesse chamar de diário.
Mas se o escrevo um pouco cada dia?
Em todo caso, não chamo de diário, não chamo de nada.
Deixo em branco a linha do título, mas afinal, quero ou não ser lido? Não faço questão, a não ser por Eliana (minha mulher), é claro. Isso não impede que, em forma, eu me dirija a outros. Como já expliquei, o estilo, a dignidade.
Além do mais, não creio que esse escrito interesse a ninguém, certamente.
Ao público só se deve dar obras buriladíssimas. Assim mesmo eles não as entendem. Mostrar o meu íntimo a pessoas distantes me dá a sensação de ridículo. Eles não me conhecem, serão enganados. Não podem aquilatar o quanto eu gaguejaria para dizer essas coisas em lugar de escrevê-las, não podem saber que eu não os olharia nos olhos e, para terminar o assunto, vamos e venhamos: é ou não ridículo falar de modo firme, a não ser que se tenha morrido há ao menos um século?
Não devo porém, se o caso é psicanálise, riscar o que escrevo. Tudo deve ficar. O romântico, o dramático, o pretensioso, o falso e, assim sendo, descubro o título que faltava: Anotações sem risco, ou melhor, Anotações sem risco nem rumo.
Escrevo sem significação e canso, mas devo continuar, mesmo cansado (são 4 da manhã). Cansado, perco a pouca lucidez que tenho, fico mais ridículo ainda. Não digo nada, faço confusões. Não penso, estou cansado. Sinto dificuldade de falar.
Torno-me um imbecil. Minha boca fica mole, ensalivada como a dos imbecis. Minha cabeça, solidamente oca. Até meu sofrimento, meu querido e redentor sofrimento, até ele se amortece. Cansado, me anestesio, não sofro. Sou, mais que nunca, o porco.
Entretanto, repetindo Dostoieviski, nem um porco consegui jamais ser, tenho vocação somente. Muitas vezes - oh, quantas vezes! - quis enfrentar a porcaria, mas não consigo. Tenho em mim, também, sentimentos puros e nobres. Sentimentos ridículos, já que sou um porco, mas que me impedem de sê-lo.
Cansei, por hoje. Amanhã começo com a frase: "Sou um ingnorante", ponto que gostaria de esclarecer.

comentário feito anos depois (nota ao pé da página):

(Ou seja, eu era um menino neurótico de 24 anos, que ainda não tinha começado a viver, ou melhor, que vivia numa tormenta ridícula.
Um dia peguei um album de fotografias velhas, mergulhei nelas. Trabalhei muito e escrevi minha melhor peça, sobre minha infância ou o que fantasio dela. Chama-se "Do Fundo do Lago Escuro". Esse lapso entre os 10 anos de idade, no tempo "Do fundo ", até esses 24 anos esquisitos, também consegui contar uns pedaços. Comédia de adolescentes: "Somos todos do Jardim da Infância", depois transformado em " Era uma vez nos anos 50", depois numa quase saga panorâmica, "Os melhores anos das nossas vidas”, que em qualquer país com cinema daria um filme ótimo, à propósito - quem sabe ainda não faço? Otimismo.
Mas nem tudo eram comédias. Nesses 24 do diário acima eu já era casado e separado. Casei aos 21 e separei aos 23. Noivei aos 18 ou coisa assim. E isso é uma barra pesada que envolve meus primeiros encontros mais profundos com a Morte, o Amor e também com a Cultura, narrados na minha peça ainda inédita, mas já escrita há muito, chamada "A Primeira Valsa".




ATUALIDADES:


O show do Canequinho todo sábado. Hoje tem. Gasta um tempo enorme prepará-lo, embora não tenha importância nenhuma e nem dê dinheiro. Em tudo, sou muito organizado. Não no show. Fico em dúvidas cadentes até a última hora para descobrir o que quero cantar, qual é a hora do show, etc. Fora isso, estou absorvidíssimo na minha mais recente peça: "O Confronto", ou "Sangrenta Madrugada Sangrenta", história policial de assassinatos e outras violências, da qual cismei em fazer uma leitura amanhã de manhã. Além disso, minha secretaria está uma bagunça, não respondo emails, perco oportunidades, etc. Portanto, ainda não é tempo de anunciar o fim do mundo, mas é de parar o post de hoje.

Mais uma pequena coisa: Experimentem ver o "Era Uma Vez", por sua conta e risco. Agora não vejam o "Batman", que é um saco. Nenhum instante de poesia.

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quinta-feira, 17 de julho de 2008


PASSADO

Ainda há muito o que dizer sobre a minha infância. Mas era preciso que eu ouvisse, entrevistasse meu primo distante, o Sergio, filho do tio Jackson, figura boêmia da família que tanto me marcou. Porém, o essencial está realmente contado em “Do fundo do lago escuro”. O essencial é que minha mãe Carmelita, mau grado às suas extraordinárias qualidades, compartilhava de um hábito social comum às famílias burguesas da época. Toda vez que lhe convinha, ela mentia, sem o menor escrúpulo. A família era toda assim. Para crianças, então, era comportamento habitual. A mentira. As mentiras da minha saudosíssima mãe fizeram com que eu menino chegasse a confundir o certo com o errado, o ilusório com o concreto. Mas, leia a peça. Que você compreenderá melhor. Assim sendo, fica combinado assim. Fico devendo da minha infância até encontrar o primo Sergio, que se perdeu na bruma do tempo, tal foi o estilhaçamento da família.
Para não ficar no vazio, avanço se bem que prematuramente para o fim da adolescência. Um dia preencho o buraco.

21 ANOS (1952)

Não que minha família não seja afetiva. É. Mas seu amor dedicam-no à "família" e não a seus membros. Generalizam. Garanto que têm dificuldade de distinguir um sobrinho do outro, um tio do outro. Por mim, tento tratar todos os homens da família como amigos que não vejo há muito tempo. Já com as mulheres procedo ainda com maior eficiência. Trato todas como se fossem mulheres. Das mais novas às mais velhas, elogio os vestidos e chego a beijar com certa (perdão) sensualidade. Na minha família as mulheres são muito mais importantes que os homens.

Hoje fui ao "Farolito". É um bar de prostitutas, daqueles fechados, que sempre me infundiram pavor. De qualquer modo, somente agora fiz os vinte e um anos necessários para me deixarem entrar. Passos inconfortáveis em direção ao bar, quatro ou cinco apenas. Era um lugar vermelho, obscuro. Pedi um uisqui e fiquei sentado lá sem me mover, até ninguém mais olhar para minha cara de menino. Não tinha muita gente, era dez horas da noite. Homem tinha um, mais cinco ou seis mulheres e os garçons. Duas juntas também no bar. A decoração podia ter sido bonita um dia, espanholas dançando e signos do zodíaco, pintados em vidros iluminados por trás. Nomes de "drinks" junto as datas limites de cada signo. Cheiro de desinfetante perfumado. Um homem na mesa tirou do bolso muitas balas e ofereceu, a mulher aceitou. Riram.

22 ANOS.
Descubro um papel rabiscado: "Conflitos a resolver". Creio que eu tinha 22 anos: Morar ou não fora do Rio?
Procurar as prostitutas?
Quero ou não Eliana de volta?
De procurar a Cecilia (por quem, casado e culpadíssimo, me apaixonei nas ladeiras de Petrópolis, no inverno. Ela era filha do prefeito! Nunca nos beijamos)
Devo dar a bunda como experiência?
Que fazer quanto à masturbação?


PRESENTE
Um homem que depois dos 40 não tem como preocupação principal a morte... é um imbecil. A frase não é minha, é de Tolstoi. Dizem que existiram civilizações em que a morte não era um assunto tão fora da vida, digamos assim. Mas aqui, fugimos dela o quanto podemos até chegar a uma idade em que se fugirmos é pior. Costumo dizer que o medo da morte é um luxo da juventude.
Li o último livro do Dráuzio Varella, “O médico doente”. Li é modo de dizer porque comecei a ler de noite, acordei às 5 da manhã para ler o resto. O Dráuzio, que mal conheço, porém é marido da Regina, que é muito amiga minha, é um sujeito formidável, como atestam seus livros. Honesto, corajoso, inteligente e solidário. Muito mais do que jamais sonhei ser! Um homem sem medo nem culpas. Profissionalmente é oncologista. Ou seja, alguém que vive na mesma cela que a Besta. “ Carandiru” foi aquele sucessão, o livro seguinte sobre os doentes terminais que ele conheceu como médico, “ Por um fio” era melhor ainda, mas ninguém teve coragem de ler. Deus me livre, diziam. Como se Deus livrasse alguém disso. O estilo do Dráuzio caracteriza-se por aquilo que poderíamos chamar de objetividade comovida, ele não faz rodeios, vai direto ao assunto, com rigor e a profundidade que somente homens sinceros podem ter. Este livro agora trata da sua própria experiência de morte. Dráuzio pegou febre amarela e correu grande risco de vida há pouco tempo atrás e relata isso no livro. Então, vejam senhores. Que manjar dos deuses! Um homem sem máscaras, sem medos ou vergonhas, com a objetividade de um médico nos fala das paragens perto da morte. Dando-nos a certeza que foi o vencedor posto que está escrevendo.
A palavra mais profunda sobre a morte até hoje tem me sido dita no final de “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, um livro realmente terrível. Ivan está na sua cama, de olhos fechados, sente as pessoas ao redor, ouve-as dizerem que ele morreu... e então, morre. Dráuzio vai muito mais longe que isso, é imperdível. O modo com que ele nos conta minuciosamente o processo pelo qual uma doença grave modifica os sentimentos e a consciência da vítima. É um médico, tem consciência de tudo. Sabe que muito provavelmente não sobreviverá. E descreve essa planície larga sem retorno nem avanço com uma precisão que somente pode ser chamada de poesia. De repente uma manhã, ele começa a melhorar, não tenta explicar porque, nem comenta o assunto. É como se ele tivesse sobrevivido por acaso. Deixa para o espectador descobrir e julgar se houve algo que o salvou. Nada aconteceu realmente. Dráuzio está bem e vive com Regina em São Paulo. Note-se apenas que no auge da doença, na véspera da melhora, delirante e confuso pela morfina e pela doença, Dráuzio compreende que morrer é fácil. Grande autor, grande livro.
Fora isso, vi um filme bom. Umas cópias piratas que meu técnico de computador coloca, à minha revelia é claro. Hulk é péssimo. Os outros blockbusters colocados também. Sobrou um no fim da lista, chamado Cinderela’s Man. Pelo título e pelos atores, os sempre desagradabilíssimos Russel Crowse e Renée (não sei dizer o sobrenome dela), tive certeza que era uma comédia da pior qualidade. Ledo engano. Os dois atores estão ótimos, como se tivessem encontrado finalmente seus personagens certos e trata-se de um drama de boxe passado em plena depressão econômica de 29, em NY. Olha, já teve muito filme bom de boxe, “Touro indomável”, inegavelmente uma obra prima e muitos outros. E muita gente que faz a cabeça com Stallone, Rocky. Sabem que esse filme é melhor? Pelo menos nas lutas de boxe... Nunca sofri tanto com os socos. Fui várias vezes à lona, junto com o simpatissíssimo Russel. E como dramaturgo me deslumbrava verificando mais uma vez que não existem histórias velhas. Apenas maus escritores e diretores. Esse filme, dirigido por Ron Howard (Apolo 13 e O Jornal), não tem gângsters, não tem porres de decadência, as apostas não têm tanta importância, porém o motivo pelo qual ele luta é a fome, a necessidade. De comer ou religar o aquecedor para que seu filho tussa menos no rigoroso inverno. O personagem baseado na vida real, apanha e dá por pura sobrevivência. E chega ao fundo do poço. Quando não tem mais saída, emerge vitorioso, bem... não vou contar o fim. Recomendo o filme. É da melhor estirpe do cinema comercial americano, que sempre prezou o homem nos seus sentimentos heróicos e nobres.
Por hoje, é só. A minha digitadora e amiga Marcia Z está exausta.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Atualidades
“A noviça rebelde”. Ingresso caríssimo, casa lotada, fortunas na bilheteria. Não se esperava menos do Max e do Moisés, donos do Teatro Casa Grande. Que peça deveria estrear o teatro? Escolheram a “Noviça”.
Eu fui levar minhas netas e tentar reviver o encantamento das minhas primeiras idas ao teatro. As meninas ficaram encantadas, isso eu esperava. Mas não esperava que eu mesmo ficasse encantado. Gostei. O valor das coisas depende da natureza do seu olhar. Vi de um jeito que gostei.
Não sei como explicar. Claro que é tudo de um mau gosto exemplar e que os atores, com exceção de alguns amigos, não fazem nada de um modo inimitável. Cada um tem seu microfone sem fio, as moças na cabeça e os homens de “Madonna”. De modo que aquele som sai em bloco, muito “sound and clear” e não se sabe que ator falou. Exatamente como num filme dublado. Os atores não representam teatralmente. Dizem o texto de um modo didático e falso, como numa dublagem. É tão especial que tentei imitar e não consegui.
No entanto, tudo está certo. O teatro tem dessas vantagens. Muitas vezes um espetáculo vulgar se representado de um modo vulgar, montado de modo vulgar, para uma platéia vulgar resulta absolutamente adequado, maravilhoso. Quase como se não fosse importante o que se diz ou que se faz no teatro e, sim, o jogo que se estabelece entre o palco e a platéia. São assim os espetáculos muito populares. Como, por exemplo, o recente “Rádio Nacional” e outros. A platéia adora, se diverte. Como na “Noviça”. Mais que isso, se emociona e aprende em certo nível.

Olhem, não quero tirar meu corpo fora, chorei em vários momentos. Particularmente no final. Mas comecei na cena do casamento, quando ela vem de noiva, o capitão Trapp, fardado, e entram as 7 criancinhas de damas e cavalheiros de honra.
Não quero tirar meu corpo fora. Por que gostei? Explico. Primeiro, a dramaturgia!!! É interessantíssima, fiquei com vontade de escrever uma coisa assim. É o que se poderia chamar de uma dramaturgia sinótica, não há tempo a perder com ela. É preciso deixar o tempo para as canções, concentrar nas canções todo o sentimento e profundidade. O texto é o mínimo, totalmente brechtiano, demonstrativo, distanciado e direto.
É melhor dar um exemplo.
Uma jovem babá, ex-noviça, apaixona-se por um capitão aristocrata, cujos filhos a adoram. No entanto, ela compreende que esse amor pode não ser bom para a família porque ela não é do mesmo nível social e decide voltar para o convento. Ainda que louca de paixão.
Como descrever isso? Muito simples. Se arma uma festa na casa, com os amigos aristocratas do capitão. Para escândalo de todos, o capitão a convida para jantar em sua mesa. Todos se retiram com desculpas esfarrapadíssimas e aí entra o número musical. O capitão dança uma valsa com a babá. O que é um barato, a música é linda, os passos de valsa, etc. A cena termina olhos nos olhos, por um rápido instante. É lindo!
Aí vem a criada e avisa que o jantar está na mesa. Ela diz que tem que mudar de roupa, obviamente para que ele saia e a deixe sozinha. Nesse momento entram as crianças e dizem a ela, sem rodeios que ela está apaixonada pelo papai, coisa que a noviça desconhecia.
E aí entra novo número musical. Com as crianças cantando com ela alegríssimas. Depois da cena aplaudida, é lindo!, desce um telão negro, aberto no meio, por onde vemos ela passar com a aparência antiga de noviça e uma mala na mão.
Música religiosa. Vemos a noviça chegar no convento, onde a madre superiora canta sua ária principal, chamada “Não tenha medo de amar e suba a montanha”, dando trinados agudíssimos que arrancam aplausos entusiasmados da platéia. É lindo!
Ou seja, nos diálogos, a interpretação dos atores e as informações. Nas canções, a emoção e a eventual profundidade. Você olha e vê que tudo aquilo foi planejado longamente. Que é um tipo de dramaturgia definido e afirmativo, como somente um país que venceu Hitler na guerra poderia produzir. O espetáculo parece gritar que Bush é um acidente na história do país.
Quando os atores acertam o tom, como é o caso de Fernando Eiras, magnífico, a coisa é admirável. Brecht puro.
Fico com vontade de escrever uma coisa assim.
Por que descrever o comportamento humano apenas com palavras? Por que não fazê-lo com canções ou danças? Que, na verdade, são artes mais populares posto que menos racionais.
Um musical, uma ópera, um balé, tem sua história contida num libreto. O mistério está em outra forma de expressão.
Debinha Colker quer que eu escreva para ela, quem sabe não faço um musical balé? Dançado em vez de cantado. Com um libreto da pesada, por exemplo, “O inimigo do povo”, de Ibsen.
Por enquanto, limito-me a recomendar sem conseguir explicar direito, uma ida ao Teatro Casa Grande. De preferência arranjando convite posto que ninguém vai pagar tão caro para assistir uma experiência de vanguarda como a que tentei descrever acima.
PS: A música não é muito boa, não há quem agüente por muito tempo aquele dó-ré-mi.

Passado
Eu, menino, mesmo antes de escrever qualquer linha, já dizia que era um escritor quando me perguntavam o que eu ia ser quando crescer. Depois, adolescente, tracei um plano para mim mesmo de descrever em peças de teatro ou filmes as diferentes fases da minha vida. Como se isso fosse útil para os outros. Essa insana convicção íntima de todo artista. Tive a felicidade de conseguir em parte realizar essa tarefa.
Com a infância, que é um assunto de agora nesse blog, foi fácil. Porque me recordo pouco. O essencial está na peça anteriormente citada, “Do fundo do lago escuro”. Eu não posso transmitir em palavras o que está posto ali, de modo que vocês terão de ler. Mas resumindo alguns pontos: trata-se de uma tarde no casarão de Botafogo, no fim dos anos 40, em que uma típica família brasileira se debate enquanto espera a noite num discurso de Carlos Lacerda, o mestre de direita da eloqüência política. Duas tramas seguem paralelas. Uma complicada, que envolve a matriarca da família e confusões financeiras. A outra, o menino Rodrigo, que não sabe mais o que é mentira ou verdade, posto que sua mãe mente todo o tempo, dizendo o que lhe é conveniente. Esse menino é perseguido por um primo mau, que tenta abusar dele.
Posso dizer aqui que meu primo tentou mas não me comeu. Só quase. E que a peça é muito bonita. E talvez até sobreviva a mim. Fora isso, fico devendo a esse blog poucas coisas da minha infância. Mas hoje não tenho tempo para escrever mais. Coloco apenas o poema que antecede a peça, que veio de um sonho de uma canção que fiz nos dias seguintes a ele.

“No fundo do lago escuro
uma bolha de ar puro
vem um dia ter comigo
o passado mais antigo
tão fugaz quanto querido
Foi um gesto, uma cor, um grito
uma queda no infinito
qualquer coisa que não sei
uma promessa de paz
de alguém que muito amei
de quem não me lembro mais
No mergulho mais profundo
na direção mais certa
tiro o mundo dos meus ombros
e descanso finalmente
entre os escombros do fundo
Nada sendo e sendo tudo
Boquiaberto e mudo”

Ok, pessoal. Escrevo mais amanhã! Obrigado pelos comentários.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ATUALIDADES

Peter Brook está no CCBB com peça de Beckett.
Não sou um fã de Albe, Pinter nem, confesso encabulado, desse mestre de todos: Beckett. Ele escreveu uma ótima peça, “Esperando Godot”. Na hora certa. Depois permaneceu batendo na mesma tecla, penso como poeta do Brasil, do absurdo tedioso, da denúncia vazia. Quem não sabe que o homem sofre dessas coisas? Não são pontos de chegada. E sim, de partida, para algo melhor. Porém muita gente boa gosta, principalmente a geração logo anterior à minha, para quem o senso do absurdo foi uma revelação. Eu não me toco com essa literatura, perdão. Me parece que já fui e já voltei.
Mas possivelmente estou errado. Não devo ter dado a devida atenção.

Se me perguntam o que estou fazendo, respondo: “Você tem tempo pra me ouvir?”
Se eu me pergunto o que estou fazendo, respondo nada. Escrever é quase não fazer nada, tenho escrito muito. Enquanto espero amaldiçoados patrocínios. Fazer envolve contar com os outros. É corporal. Estou com dois filmes prontos, ótimos: “Juventude” e “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, esperando patrocínio para lançamento. Para mim, já foram feitos há décadas. O prazer que resta é dar de vez em quando uma festa para alguns amigos e mostrar na TV. Sem a Priscilla na sala, é claro. Que esta não agüenta mais. Estou com duas peças prontas, ótimas: “Apocalipse, Segundo Domingos Oliveira” e a mais recente, “Confronto”, na qual caio na vala comum e falo das relações do Poder com o Crime Organizado. Pelo menos não tem um tiro. São todos longe da cena. Tem também um roteiro pronto. O melhor que escrevi na vida. Chama-se “Inseparáveis”, também esperando, adivinha o quê? Enquanto isso, para não morrer de tédio aos 71, monto meu show no Canequinho. Um show em que canto e danço. Ou seja, absoluta piração. Tudo piora com a idade. Mas não é que a cabeça fica melhor? Não só mais criativa e profunda. Também mais eficiente. E escrever, reconheço, é uma forte droga. Quando uma peça ou filme te possui, você não é ninguém.

Quero, cada vez mais, ter uma linha de trabalho que não dependa dos livros. Espetáculos ou filmes dimensionados para pagarem os custos e, se forem ótimos, dar um bom lucro. Esse dimensionamento na prática é apavorante. Você vai sendo reduzido a zero, pressionado ao zero, muitas vezes passando para o outro lado. Ou seja, pagando para trabalhar. Mas um homem sempre tem que ter sua segunda linha de trabalho, usando uma palavra gasta, independente.

Estreou o filme formidável. “Escafando e a Borboleta”. Não vejam, ninguém merece.

Hoje acordei sem nenhuma modéstia. Meu programa de televisão “Todos os Homens do Mundo” é, de longe, o melhor programa de entrevista que a televisão brasileira jamais fez. O do prêmio da academia, recentemente exibido, era hilário e montamos um agora de “Tangos e Tragédias”, também muito bom. Estamos vivos, espertos, Priscilla e eu. Mas o programa não repercute! Ninguém telefona no momento que termina, nem comentam no jornal. Provavelmente porque o Canal Brasil tenha pouca audiência, talvez por causa de uma certa Lei Áurea da nossa sociedadezinha atual: Se é bom, elogiar. Se é ruim, denunciar. Se é ótimo, destruir, arrasar. Não me incomodo com isso, não. Mas acho engraçado. O programa vai ao ar na quarta-feira, quarta que é dia de jogo.

Agora, na minha sétima década, penso demais na morte, cometo essa tolice. Acho que tenho pouco tempo, etc. Impressão essa que é desmentida todas as manhãs. Pela lucidez com que acordo, não importa qual a noite anterior. A sensação de que algo interessantíssimo se inicia. Hoje nasceu Enrico, filho de Renata Paschoal. Não conhece a Renata? Não sabe o que está perdendo. Disse de manhã ao telefone para o pai palavras de sempre: “Agora você não é mais um ponto solto no espaço. Você faz parte de uma linha que se estende infinitamente para o futuro e que, para o passado, vai até os protozoários. Parabéns, pai. Agora sua vida não é mais sua.”





PASSADO:



Estou tentando fechar meus recuerdos, minha infância. Cada um tem o Amacord que merece. É pouca coisa, porque todo o resto está contado na minha peça "Do Fundo Do Lago Escuro". E eu não vou ficar aqui repetindo. Se lá está melhor, vocês podem ler. Porém talvez haja algo que não está registrado. Gostaria de falar sobre a foto que vai abaixo, tirada em 1907. Na qual, portanto, todos estão mortos há muito tempo.

Farei isso na próxima postagem. Nessa coloco minha emoção quando esrevi o "Do Fundo Do Lago Escuro" e li num teatro. Leiam, é uma bela estória.



DO FUNDO DO LAGO ESCURO
Eu não escrevei uma linha da peça. Eu ouvi vozes com timbres diferentes e tudo era lançado de cá para lá, por duas vezes saí correndo do escritório com medo de certas coisas que eu não sabia e que a peça estava revelando.
O grosso do trabalho foi feito durante uns três meses, aproveitando um tempo no qual a TV, por causa de um desentendimento, me deixou inativo, de castigo. Me contam que foram três meses, porque, na verdade, não tenho idéia. Foi muito rápido escrever o “Lago”. Uma vida inteira, porém muito rápido. Lenita me conta que eu fiquei muito distante de tudo, embora aparentemente normal. Que somente saía do escritório para comer e que qualquer coisinha fazia vir lágrimas aos olhos. Isto é, o escritor. Com uma dignidade que absolutamente eu não tenho...
Antes de começar, andei tomando alguns “impulsos” que hoje me parecem ter tido importância. A peça nasce de um sonho. Um dia tive um sonho muito intenso, porém sem nenhuma “narrativa”. Uma sensação avassaladora, de alguma coisa muito antiga e muito amada, de uma coisa pedida para sempre. Acordei chorando, mobilisadíssimo e alguns dias depois (ou no mesmo dia) fiz uma canção, no violão, a canção que antecede a peça. Depois se passaram alguns anos antes que eu pudesse enfrentar esta “peça sobre minha infância”.
Na verdade tudo o que um escritor escreve é mentira. Como observou Fellini, a mentira é a alma do negócio. Tudo é mentira, por mais vivido ou “autobiográfico” que seja. O escritor sempre mistura muitas coisas em apenas uma, inventa muito, corrige muito o mundo. Permeia com benevolência todas as deformações causadas pela individualidade da sua visão do mundo. E, nesta medida, tudo é verdade.
Para começar juntei todas as fotos que tinha da infância. Eram algumas, o suficiente para um álbum. Fiz o álbum, com uma meticulosidade religiosa,. Transformei-me em objeto de estudo, de observação. Passava horas olhado os fundos das foto, tentando compreender as manchas, sentir as texturas, respirar os ares. Demorei um bom tempo fazendo isso. E antes de lançar-me à máquina, reli, como quem toma o fôlego, a “Longa Jornada” de O’Neill.
Terminando o texto, encontrei no concurso do SNT, sob pseudônimo. Não tinha muita esperança de ganhar. Era talvez a primeira vez que eu havia escrito sem realmente pensar, por nem um momento, em agradar a qualquer tipo de platéia ou leitor. Foi para mim. Eu escrevi pra mim. Dedicado a Lenita e a Mariana, por todo amor que lhes tenho.
A peça não somente ganhou o concurso como agradou aos mais exigentes. Praticamente todas as companhias importantes do Rio quiseram montá-la. Logo depois do concurso entreguei os direitos de representação para Fernanda Montenegro, por motivos claríssimos: “Mocinha” permitirá que Fernanda mostre sua sempre surpreendente grandeza.
Li a peça em voz alta, apenas uma vez, no Teatro Ipanema, numa madrugada, pouco depois do prêmio do concurso. Tinha umas 30 pessoas lá, quarenta talvez. Algumas eram muito queridas: Lenita, Iva de Albuquerque, Susana Faini, Carlos Gregório, Solie Eich e várias outras. Havia um dado curioso à respeito. O texto ganhou o prêmio de melhor COMÉDIA, embora fosse obviamente um drama. Isto se deveu, segundo informações internas, ao fato de não poder dar o prêmio de drama a uma peça que não fosse diretamente “política”, etc, enfim, essa besteira já conhecida de todos. Quando comecei a ler a peça, porém, comecei a verificar que realmente aquilo era engraçado! Eu estava muito emocionado e quanto mais eu me emocionava, por algum caminho estranho, mais engraçada ficavam certas frases da peça. Antes do fim do primeiro ato, suspeitei que não conseguiria chegar ao fim. A voz embargava a cada momento, os olhos marejavam, eu estava emocionadíssimo. Foi quando percebi que minha “platéia” compartilhava da exata emoção. Muitos olhos brilhavam olhando para mim... Não tenho dúvida sobre o que fazer, soltei a emoção, como as rédeas de u cavalo. Li chorando, até o fim da peça. Às vezes o papel ficava até molhado. Chorávamos todos, as vezes rindo muito. Foi inesquecível. Se por mais não fosse, apenas esse momento teria valido o esforço de escrever a peça. Me lembrarei deste dia até o último dos meus momentos. Foi o dia em que eu pude chorar. Chorar, porque estava entre amigos.

Domingos Oliveira, fim de 1979.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ATUALIDADES:


O jornal da manhã é sempre eloqüente. Demonstração do nosso país. Sem lei e sem sentido. Leio tudo o que posso, fotografo, e constato cada vez que um grande romance, peça ou filme poderia sair em qualquer uma daquelas notícias. A vida não começa em lugar nenhum. E sim em todos os lugares. Já a morte tem endereço.
Não penso em outras coisas esses dias senão na minha peça "de violência". Baseado na história de Luis Eduardo Soares, de parceria com Marcia Zanelatto. Todo escritor sabe. Há um momento em que a peça deixa de ser escrita pelo autor e bota o autor para escrever por ela. Comanda. Então tece, reina, despoticamente. Estamos chegando a esse momento. No "Sangrenta Madrugada Sangrenta". Decidimos trabalhar amanhã e apresentar uma versão grossa e feia para o Luis Eduardo no fim de semana. Depois conto mais sobre esse processo. O fato é que minhas meditações de sonhos noturnos têm ido todos em direção em entender o que é isso, o PODER. Não é o dinheiro que importa. É o Poder. Dinheiro é apenas o instrumento. Pelo Poder os homens matam, levam vidas inúteis, fazem maldades. E por ele, se suicidam. Na escala de valores da nossa sociedade, o Poder está no campo mais alto, sem dúvida. E cada vez mais. E qual é a graça do Poder? Que encanto irresistível é esse, pelo qual o homem se destrói alegremente? De que serpente é esse veneno? Não responderei suas perguntas. Quem sou eu para respondê-las? Porém me atrevo a bordar observações a respeito.
O medo domina a condição humana. E não sem razões. O próprio infinito diante do qual nos encontramos é terrivelmente apavorante, nada que o homem possa entender, realmente. E também a morte, etc, etc.
Esse medo torna todo o tempo o homem o lobo do homem. Mas deixo esse assunto na superfície. E volto ao ponto. Somente um outro homem mais poderoso do que você pode te matar. Então é preciso que você seja o mais poderoso dos homens.
Enfiados numa caverna na montanha, os primeiros homens vêem, apavorados, trovões e relâmpagos. Trancados em nossas megalômanas cidades, fazemos o mesmo.
Pode também ser lembrado que o Poder é uma nostalgia do Império Romano. Só pode citar um deles. Poder de vida ou morte do outro homem, o levantar e descer do polegar letal. Menos que isso, não é ainda o poder.
A última observação, creio que mais profunda que as anteriores, vem do irônico Kissinger. Que uma vez perguntado sobre o fascínio do poder, respondeu: "Bem, é afrodisíaco. Talvez esteja aí todo o segredo."
E agora saio do blog para pensar nos meus personagens. Ou melhor, deixar que eles pensem em mim.
Até a volta.


PASSADO:

Denuncio que eu não separei direito a infância da pré-adolescência. Que é diferente. Porque começam a sair dos pauzinhos misteriosas gotinhas brancas. No próximo post ainda quero dizer algo sobre minha esquecida infância.

Depoimento do meu amigo DINO:
(a pré-adolescência, o início da adolescência ainda extratos da série: "Como Sobrevivi")

Domingos ficava horas no telefone com ela naquela conversa amorosa, eles tiveram de fato um início de namoro, muito distante ainda fisicamente. Domingos ficava horas no telefone e eu enchia o saco dele para que ele largasse o telefone e viesse jogar xadrez, jogávamos muito nessa época, e jogamos pôquer, a boite do santuário nessa época existia a pleno vapor. Domingos tinha uma característica quando falava ao telefone que ele pegava qualquer coisa que você botasse na frente dele, então nós pegamos uma moeda com uma pinça, a esquentamos numa vela, até ao rubro, e deixamos ela na frente do Domingos. Bom, ele deu o maior berro (Domingos conversava com a Vitória). Ele ficou com o Dutra tatuado no dedo polegar. Alguns anos antes (13) tinha um cara que sentava atrás do Domingos, chamava-se Kleber, ele levantava os cotovelos do Domingos sutilmente e batia com eles na carteira no meio da aula e o Domingos não podia gritar. Também por ele ser baixinho.
E nós tínhamos um colega muito alto, um tcheco, tinha morado na China, e numa aula de inglês que era a última nós trocamos os casacos dos dois. E ficamos esperando. Quando o Domingos vestiu o casacão caímos na gargalhada. O professor ficou danado e acabou expulsando o Domingos, que era um bom aluno de inglês e tudo. Eu me acusei e acabei tendo de copiar não sei quantas frases.
Por outro lado tinha minhas brigas com Domingos, eu dava petelecos nele, enchia o saco, ele uma vez sacudiu a caneta tinteiro em cima de mim, me manchou todo, eu chamei ele pra briga, mas não dava preu brigar com o Domingos, porque eu era muito maior.
Ele namorou a Vitória mas um namoro muito pouco físico, deu uns beijinhos. Ela tinha uma casa em Nogueira, onde hoje mora minha ex-mulher, a Loly, e nós ficávamos em Petrópolis e íamos visitá-la. Ela tinha aquela irmã que era uma gracinha, eu ficava alucinado por ela e ela não me dava a menor bola. A vitória era cheia de frescurinha, não deixava segurar na mão direito. Houve uma festa em que o Garcia foi e aconteceu o segunite: dois garotos discutiram e desceram pra brigar na rua e nós todos descemos para ver. O Garcia desceu pela escada, eu desci com o Heitor pelo elevador, nós começamos a assistir a briga e de repente parou um táxi e saltou um homem adulto e o Garcia que vinha descendo correndo as escadas viu quando esse homem se aproximou de um dos brigões e puxou o cara de cima do outro. Esse homem era baixinho atravancado, usava terno. O Garcia vendo esse estranho agarrar o amigo dele pegou o embalo e deu um pontapé na cara do sujeito, o cara caiu no chão, de costas perto de mim e do Heitor, assim a uns dois metros e eu vi quando ele meteu a mão na altura da cintura. Eu disse pro Heitor que ele ia puxar uma carteira que ele era da polícia, mas o cara puxou uma arma, deu três tiros, as balas pegaram a um palmo da minha cabeça. Saí correndo no quarteirão e peguei a cena por trás, o cara ainda com a arma na mão. Ele fugiu, saiu a reportagem no jornal. Ele atirou assustado, pra se defender, porque o Garcia quando jogou ele no chão, partiu pra cima dele. Isso foi dois anos antes do Garcia morrer assassinado, só que foi a facadas.
Uma coisa que acontecia naquela época, era a figura do penetra. De repente, numa festa de família, entravam uns oito cafajestes sem serem convidados e passavam a mão na bunda das meninas, enfim, obrigavam que as pessoas se metessem em brigas. Um pouco para impressionar as meninas e também para nos protegermos e nos prepararamos para esse tipo de briga, nós começamos a fazer alteres, o que no caso do Domingos era patético, porque ele tinha um desvio na coluna, uma escoliose, e ele tinha um professor, o Bastiu (campeão mundial de haltererofilismo) depois virou yoga, ele pendurava Domingos numa esteira pra esticar a coluna dele. Não foi um longo período, mas foi um período onde o Domingos saiu-se muito mal. Paralelamente a isso nós tínhamos duas outras atividades esportivas: nós jogávamos sinuca no Cib, isso era um cacife meu, pois para jogar nos bares tinha que ter mais de 18 anos, e o meu tio era presidente do clube e deixava a gente jogar lá. Domingos jogava pessimamente, como aliás até hoje. Ele ficava distraído, gostava de jogar mas nunca ganhava, tinha o xadrez, o pôquer e também o basquete. Nós criamos um clube de basquete, o BAZUCA basquete clube, a primeira vez que o Domingos apareceu lá no Cib para nós jogarmos basquete ele veio de sapato de verniz preto, ficou todo mundo olhando aquela figura. E tinha o Paulinho que era alto mas que também era um péssimo esportista. Bom esportista era o Heitor, e eu também mau esportista mas bom competidor. O Domingos não era competidor nem o Paulinho. Uma vez o Paulinho pegou a bola e fez cesta contra, todo convicto. Nós ficamos olhando, ele indo na direção contrária com a bola quicando, muito alto, e a gente com vontade de dar porrada nele.
Domingos hoje é muito melhor do que foi. Ele tinha muito problema: água fria, areia, tinha asma, medo de dormir no escuro, ele gritava. Ele teve uma ligação com a mãe muito nociva, muito tumultuada. Ele foi um camarada muito frágil, baixinho, asmático, não nadava por causa da água fria, não ficava descalço, não pisava na areia. Ele fazia parte do nosso time de basquete, a gente se divertia. Nós tínhamos só uma camisa do time. A verdade é que a gente dava valor, não tínhamos a fartura que esses meninos tem hoje.


Nós tínhamos uma amizade muito profunda, amávamos as mesmas meninas, mas naturalmente a gente também se sacaneava. O Heitor já conseguia ir ao cinema com uma, dava umas bolinadas, a gente morria de inveja. Tinha também aquela piada do Berkel: Tem uma alemãzinha, linda, que pra dar uma trepada nela não custa quase nada, ela é uma gracinha, você topa? O cara ficava alucinado, "porra me leva me leva", o cara levava você por uma rua, por outra, até depois de meia hora chegava num prédio que tinha uma farmácia embaixo e dizia é aqui, aí entrava na farmácia e se pesava, você ia e se pesava também aí o cara te perguntava, e aí gostou de trepar na Berkel, você ficava confuso, Berkel era a marca da balança, quer dizer uma sacanagem, o cara todo arrumado, perfumado, ansioso pela trepada com a alemãzinha, morrendo de medo.
A noite saíamos para comer pizza, tomávamos muita cachaça e as conversas giravam sempre em torno das meninas, claro. Aí eu fiz uma viagem, não me lembro bem para onde eu fui, mas quando eu voltei, Domingos estava namorando uma menina aparentemente mais beijoqueira, chamada Nazareth. O pai dela era almirante, foi diretor do Loyd, ela tinha dois irmãos que eram verdadeiras feras. Só que o Domingos não levou durante muito tempo esse namoro. Era evidente que ele namorava a Nazareth não porque estivesse apaixonado por ela mas porque ela foi a menina que lhe deu bola. Ele rompeu com ela e voltou ao período das paixões inacessíveis. Mas nessa época já conseguíamos alguma reciprocidade, não das meninas que queríamos, mas de outras. O Domingos tinha uma amiga chamada Rachel Levy, que é amiga minha inclusive e que tinha um pai muito rico nós íamos ao Quitandinha, ela tinha um belíssimo ap lá, e nos servia coisas. Eu me lembro que uma vez a gente comeu um melão espanhol inteiro, servia bebida, coca-cola com cachaça, saint peterguine, e o Quitandinha tinha um bar embaixo, o Quitandinha era um lugar deslumbrante, era uma loucura, os bailes, os bailes de carnaval ia a Kim Novak, o teatro Silveira Sampaio, a piscina térmica.
A Rachel tinha uma amiga de corpo bonito mas feinha, boca feia, dentes feios. E a Rachel me disse que ela queria me namorar, mas eu como sempre estava apaixonado por outra inacessível, a Suzana, e então a Rachel falou com o Domingos, que começou a namorar a tal feinha. Acontece que ela era uma moça muito carente e que imediatamente permitiu uma permissividade sexual até para compensar sua insegurança e eu fiquei putérrimo de ter perdido essa. Só não treparam porque o Domingos não quis, respeitou a virgindade dela, essas merdas. Só que o Domingos tinha uma angústia, porque ela não era a amada. Havia a busca pela mulher total, aquela que reunisse o amor e o sexo. Domingos e Beatriz era aquela coisa nitidamente incompleta.
Aqui caminhamos para os 17 anos, a escolha da profissão. Domingos resolveu fazer engenharia, Paulinho engenharia, Heitor medicina e eu, direito. Domingos mudou de colégio, do 2º para o 3º ano foi para o Guanabara, que era um colégio de passagem para o pré-vestibular, uma baderna, ninguém ia a aula e eu fiquei no Anglo-Americano (o único). Mas mesmo assim nos encontrávamos sempre. Apesar de estudarmos para o vestibular, nessa época arranjamos uma mesa de ping-pong e colocamos na boite do santuário.
Minha mãe tinha uma amiga, cuja filha andava um pouco conosco e era apaixonada por mim e eu naturalmente não tinha o menor interesse por ela mas por uma outra que devia ser noiva, não me dava bola, enfim, e essa moça que se chamava Irene tinha uma amiga que deu uma festa e fomos, o Domingos, eu e o Heitor. Essa amiga se chamava Eliane, era uma baixinha, estava de boina, muito bonitinha, fumava, era avantgarde, e nós três ficamos interessados nela e houve uma competição amigável entre nós, eu tive um flerte com ela, ela se apaixonou pelo Heitor e o Domingos gostava dela, e no frigir dos ovos ela acabou namorando o Domingos. Mas ele namorava a Beatriz. Criou-se um triângulo. O Domingos na verdade não assumia a Beatriz como sua namorada, tinha uma certa vergonha dela, porque ela era feinha, ele mais usava ela pra sacanagem. Mas ela era apaixonadíssima pelo Domingos. Eu ficava numa situação muito chata porque ele vinha falar comigo, aquelas coisas. Eliana era muito ciumenta e não sabia da existência da Beatriz. Uma vez na minha casa o Domigos estava esperando a Eliana chegar e aí chegou a Beatriz. O Domingos acabou rompendo com a Beatriz de uma maneira meio drástica, radical, ela tentou o suicídio, aos 16 anos. Ela chegou a propor ao Domingos que ficasse com a Eliana mas continuasse com ela que ela aceitava assim mesmo mas o Domingos não quis.
E no meio disso tinha o vestibular que nos levaria a uma mudança substancial e também começava a acontecer as correspondências amorosas, o fato maravilhoso da gente amar uma garota e ser correspondido, ser amado por ela.


Mas essas últimas estórias já fazem parte de uma peça minha que teve três títulos e foi meu primeiro sucesso. No próximo post falo dessa peça, cada um tem o 'Amacord' que merece.

Domingos.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Escrevendo Apressado

PRESENTE, OU MELHOR, ATUALIDADE:

Um blog é o modo mais eficiente de você descobrir que ninguém tem interesse em comentar as coisas que você pensa. Uma lição de humildade e, ao mesmo tempo, é uma fonte de rejeição. Mas não ligo, não. É o rascunho da minha biografia!!!

De repente acordo me sentindo um idiota, insatisfeito com minha vida profissional atual. Não faço nem teatro nem cinema há um tempão. Faço projetos. Entro e reentro em Leis, Certidões, Editais, ou seja, não faço nada, realmente, enquanto gasto meus dias. Em verdade, eu tenho escrito muito, leia a terceira parte desse blog que começa hoje. Mas pra quem faz teatro ou cinema, escrever não é nada, vamos e venhamos. Sei que é o mais importante de tudo. Mas não é “fazer”! Ou seja, não é nada. E é tão fácil cair no abismo das realidades. Peças e filmes precisam de patrocínios que são ariscos. Enquanto há uma multidão de idiotas correndo atrás desses. Quero ser um dos poucos na calçada da corrida de São Silvestre, atrás do tal do dinheiro que, aos 70, ainda não sei bem pra que serve. Quero dizer que, como ateneio há muito tempo e esqueci. Um homem precisa ter dois tipos de atividade. Uma que depende do mundo e outra que só depende dele mesmo. Vou começar a ensaiar. Não sei o quê, mas vou.

Peço desculpas ao leitor do blog por estar escrevendo pouco. É que estou ocupadíssimo com mil bobagens. A verdade é que não podemos relaxar. Temos de ter um contacto e um diálogo constante com a própria morte para não ficar fazendo besteira na vida.

Na minha última postagem, dei, sem querer, um pulo na minha biografia. Estou na infância, como ir ao Municipal com a Ângela??




PASSADO:

Diário dos primeiros anos, que não escrevi, mas poderia ter escrito: (extrato da Série "Como Sobrevivi?")

25 de março de 1946 (10 anos)
Estou estudando no Anglo-Americano. O colégio é imenso. Hoje na fila fiquei chateado, parece que sou mesmo meio baixinho mas ainda posso crescer muito.
28 de março de 1946
Todo mundo ficou olhando quando o chofer chegou para me buscar. Acho que sou o garoto mais rico daqui.
31 de março de 1946
Que alegria, meu Deus, pegar o bonde andando! A gente tem que correr do lado, segurar e pular. Não é difícil mas se a gente errar o tombo é feio. Isso sem contar que pode ser fatal.
5 de abril de 1946
Finalmente comprei minha coleção de "Guri". Não quero que ninguém mexa, vou guardar em cima do armário. Combinei comigo mesmo, que só vou ler de dois em dois dias, que é pra durar para sempre.
18 de setembro de 1947
Ganhei do Miguel no jogo de Bulica. Fiquei tão contente que dei uns palitos franceses da merenda para ele.
Porque mamãe não troca o guardanapo da minha merendeira? Está simplesmente nojento, todo manchado de guaraná.
20 de outubro de 1947 (11 anos)
Ouvi mamãe comentando com papai que se eu não melhorar da asma não vamos passar as férias em Petrópolis. Preciso ficar bom. Se ao menos eu pudesse suportar a água fria, poderia tentar a natação.
31 de outubro de 1947
A coisa mais importante do dia foi que finalmente consegui ouvir no rádio o tal Dorival Caymmi. É muito bom realmente, tem um vozeirão.
25 de junho de 1948
Estou apaixonado pela Carmem mas não sei porque ela nunca me sorri. Acho até que ela faz cara de enjôo quando me vê. Será que é porque eu sou baixinho?
2 de agosto de 1948
Estou com ódio do Prof. Leon. Isso não se faz. Ele sabe que eu não posso com água fria mas mesmo assim me obrigou a mergulhar com os outros. É um absurdo! Como se já não bastasse o torcicolo que ganhei pulando o cavalo de pau fazendo o tal movimento "peixinho". Todo mundo rindo de mim. O idiota acredita que faz parte da nossa educação física, passar correndo por cima da barriga dos outros. Eu odeio essas aulas.
27 de agosto de 1948
Não sei se foi o Paulinho ou o Heitor. Mas um dos dois melou o banco do carro todo. Sujou o terno do meu pai e quem teve que ouvir fui eu. Assim não vai dar pra continuar dando carona.
8 de novembro de 1948 (12 anos)
Só tem um aluno melhor do que eu. É o Garcia. Só que ninguém gosta dele e todo mundo gosta de mim. Se eu quiser, eu barro ele nas notas.
5 de janeiro de 1949
Já tenho muitos amigos aqui em Petrópolis. O Alberto é mais velho mas é meu amigo assim mesmo. Só não gosta muito é que eu jogue monopólio com ele. Disse que eu sou meio criança. Ele é que é mais velho. O pai dele é engenheiro e joga cartas com o meu pai.
Também estou amigo do Clarêncio, que mora aqui do lado. Acho que me apaixonei pela irmã dele, a Clarice. Não sei se ele vai gostar. Acho melhor não deixar ele descobrir, por enquanto.
10 de janeiro de 1949
Estou muito humilhado. Não sei porque essas coisas acontecem comigo. Estava muito bem olhando a casa, da varanda do quarto de minha mãe, quando vi o Alberto na casa dele e resolvi ir até lá. Ele estava ocupado e me pediu que esperasse um pouco. Então resolvi passar no jardim onde fica aquela piscininha e não sei como fiz, mas escorreguei e caí, de roupa e tudo. Atravessei correndo pra casa mas acho que as meninas que moram ali em cima me viram todo molhado, porque ouvi as gargalhadas delas. Como é que eu vou sair amanhã? Graças à Deus a Clarice não viu.
15 de janeiro de 1949
Zé Roberto pegou uma perereca na horta e trouxe para dentro de casa. Mamãe ficou possessa. Não sei se papai disse só para tranquilizar mamãe mas parece que ele vai mandar cimentar a horta e construir uma quadra de basquete. Não se se eu vou gostar.
5 de agosto de 1949
Hoje o Dino, aquele garoto de óculos, me deu para ler um conto que ele escreveu chamado "Coisas de Importância". É muito bom, ele é um escritor. Falei para ele entrar para o Clube Literário Barão de Macaubas. Afinal, tem pouca gente nesse colégio realmente interessada em literatura, música e cinema. Os imbecis só pensam em esporte. Vai ser bom ficar amigo do Dino, ele é alto e é mais um para me proteger do Garcia, pois seu eu for contar com seu Carvalho, estou perdido. Ele não inspeciona nada, o Garcia anda aí ameaçando todo mundo e ele não faz nada. Até o Prof. Medeiros veio me pedir conselhos sobre como agir com o Garcia. Ele agora se masturba dentro da sala de aula. Isso ainda vai acabar mal.
12 de agosto de 1949
Heitor, Paulinho, Eu e Dino fomos ao Metro ver um filme de ficção científica: "Destination: Moon".
15 de agosto de 1949
Vovó Sinhá me mata se descobrir que estamos nos reunindo no santuário que ela armou aqui em casa. É atualmente meu lugar preferido, com todas aquelas velas e aquele clima de escondidinho. A gente fica horas ali depois da escola ouvindo discos e conversando assuntos importantes. O Dino batizou o lugar de "Boite do Santuário". Vovó mata a gente se descobrir.
O Anglo-Americano tem as meninas mais lindas do Brasil! São deusas gregas de coxas de fora fazendo ginástica. Vamos todos explodir de tanto amor por elas.
29 de agosto de 1949
Tio Jackson hoje deu um trote memorável na vovó. Ele, de costas para ela, falava numa linha os maiores absurdos. E ela, no telefone do lado, gritando, xingando, sem perceber o que estava acontecendo. Nós rolamos de rir. Foi muita cara de pau do tio Jackson.
No jantar, tia Judith estava muito bonita. Até o Heitor comentou comigo que ela deve ter sido uma moça linda. Só acho que ela tem um olhar meio triste. Deve ser por causa dessa coisa de não ter marido direito.
30 de agosto de 1949
Passamos a tarde toda na Boite treinando dança. É importante saber dançar bem, as mulheres dão valor. Ouvimos Doris Day, Harry James, Nora Ney, Dick Farney e Lucio Alves.



(na próxima postagem: "como o mundo me vê", opinião do meu amigo Dino sobre minha pessoa.)


FUTURO:

Estou escrevendo uma parceria com Luiz Eduardo Soares e Marcia Zanelatto. Finalmente caí na vala comum dos escritores falando sobre violência policial e segurança pública. Estamos com 2/3 da primeira versão e estou obcecado. A peça começa a ter vida própria.



Estou escrevendo mais uma versão do meu show para estrear em julho, no Canequinho. Vai ser aos sábados, alternando dois títulos: "Pra Quem Gosta de Mim" e "História Pessoal do Samba".

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Primeira postagem independente

PRESENTE ou ATUALIDADES:

Ler um jornal todos os dias de manhã é uma tarefa dura do homem civilizado. Para realizá-la bem é preciso duas horas ou mais. E há quem gaste seu tempo nisso. Por mim, na maior parte dos dias leio apenas a primeira página e os “Cadernos B”s. Uma vez me ausentei por mais de um mês e quando voltei o mundo não tinha avançado muito. Confesso, sou daqueles que ainda acredita que o mundo avança. É que o movimento cotidiano vai e volta, vai e volta como as marés. Avança pouco mas é muito intensa. Irresistivelmente interessante.
Leitura do jornal de hoje, esse sábado frio no Rio:
As células-tronco ganharam 25 milhões para pesquisa e deve começar a funcionar no mês que vem. Já não era sem tempo. Minha desconfiança dos médicos é apenas comparada à minha confiança na medicina. Se der certo essa célula-tronco, vamos ter de levar a sério uma suspeita que sempre tive: Não somos mortais. Estamos mortais.
O Álvaro Lins foi solto. Está livre como um garotinho. Quem liberou foi a Assembléia Legislativa, que tem 33 de seus 70 deputados respondendo a processos de corrupção. Corporativismo não se discute. Não resta dúvida. A importância de um político é medida pelo seu grau de impunidade. Mas de qualquer modo, é muito bom ver a polícia funcionando bem, pelo menos no que diz respeito aos inimigos. O Governo Lula contém esses mistérios. Não legalizou a maconha, mas pode ser dito que legalizou a corrupção, na sua atitude contra (ou será a favor?) os mensalões e outras barbaridades. Ele está procurando punir com uma justiça inédita os inimigos. Já é muita coisa. Ao mesmo tempo que infantiliza o país, minimizando o valor da ética através de um populismo radical, cuida bem da economia e capricha na Polícia Federal. Obrigando os homens sérios a proclamar, contrariados. Talvez seja melhor assim. Afinal esse Lula não é de todo mau.
O jornal de São Paulo não coloca o caso “Álvaro” sequer na primeira página. Como que provando a sua indiferença provinciana. Por favor, paulistas, não se ofendam. Não tenho nada contra provincianismo. É melancólico, poético. Porém no Brasil só quem não aspira à Nova York e ao Texas é o Rio de Janeiro. O centro do mundo é onde você está.
Fora isso, um livro que parece ótimo tenta explicar como Paulo Coelho chegou a ser o que é. Paulo é meu amigo. Posso quase dizer isso. Diz-se bruxo. Eu acredito que seja. Posto que somente assim se explica seu hiper-extraordinário sucesso. Agora esse livro tenta explicar de outra forma. Através de um tenaz desejo de fama e dinheiro. Seja como for, ninguém chega onde ele chegou à toa. Gosto do Paulo. Sempre gostei. E de alguma forma me identifico, pobre aprendiz. Colocando no quadro de cortiça em frente à minha mesa uma pérola do seu comportamento profissional.
“Programação Literária para o ano de 1965: Comprar todos os jornais do Rio, em dia de semana. Verificar sessões Literárias, respectivos encarregados e diretores desses jornais. Enviar composições aos encarregados e carta explicativa aos diretores. Entrar em contato telefônico com eles, indagando que dia que o escrito sai. Informar aos diretores quais são as minhas ambições. Arranjar pistolão para publicação. Repetir a operação com as revistas.”
Bravo, bruxo amigo. A obsessão é sempre admirável.







PASSADO:

Levando em conta eu, como sobrevivi?
(crônica que escrevi quando era ghost-writer de Napoleão Moniz Freire na "Tribuna da Imprensa”, com uns 26 anos, creio)

Tinha doze ou treze anos quando gostei de Ângela. Ela era interna no colégio, ou seja, maçã do paraíso. Era proibidíssimo conversar com as "internas" no recreio, entrar no "estudo" das "internas" e muitas coisas mais.
Eu estava apaixonado pela Carmem, que era amiga da Ângela e não era interna. Porém um dia a Ângela sorriu e troquei de paixão em um átimo. Talvez porque a Carmem não me sorrisse nunca e, pelo contrário, fizesse cara de enjôo quando eu aparecia.
Meia hora antes do recreio começar eu já ficava nervosíssimo. Minto. Eu ficava nervoso na hora de sair para o colégio, às sete da manhã. Me vestia sempre o melhor possível, no que meus colegas achavam uma graça enorme. Um dia ganhei um cachecol de seda branca, para usar com o smoking, com franja branca nas pontas. Fui para o colégio de cachecol, no primeiro dia que amanheceu mais frio.
A grande agonia eram os dias de "ginástica". Eu tinha de sair de casa às seis, penteado com gumex e de cachecol, além de penteadíssimo. Trocava o calção, fazia a ginástica mas depois não tomava banho, senão ia despentear o cabelo.
Tinha ginásticas que a Ângela assistia. Era terrível. Peito pra fora, barriga pra dentro, confesso que meu físico não era tão bonito quanto eu precisaria. O pior é que as internas só assistiam a parte final, que ou era "peixinho" ou era basquete. "Peixinho" é um salto que a gente tem de dar por cima de um cavalete, não importa com quanto medo esteja. A boa técnica ordena mergulhar resolutamente, apoiar primeiro nas mãos e depois rolar numa cambalhota. Jamais apoiar diretamente com a cabeça, exatamente o que fiz e justo quando Ângela estava olhando (será que ela viu?).
O basquete na verdade eu não conseguia nunca pegar na bola. A não ser quando meu fiel amigo Herculano, num gesto de generosidade, me entregava quase em mão. No dia que Ângela estava assistindo o basquete, pedi por amor de Deus a Herculano que me desse um passe. Embora a partida estivesse duríssima, Herculano traiu sua posição de capitão de time e me deu o passe. Nunca devia ter feito isso. Fiquei nervoso. Abracei a bola e saí correndo em direção ao campo mais livre, sem notar que não era o do adversário. Meus contendores ficaram perplexos. Graças a Deus não teve tanta importância porque errei a cesta.
Um dia tomei coragem e resolvi que tinha de dizer a Ângela que a amava com paixão e loucura. Mas para isso a gente tinha de sair junto. Onde ir? Não tive dúvida, considerei que o lugar certo era a ópera. Convidei Ângela para ir comigo à Ópera. Ela aceitou! Então fomos. Ao Municipal, ver "La Boheme".
Meu primeiro grande problema foi saber se a Ópera era imprópria até dezoito anos. Se fosse, tudo estaria perdido. Pedi a mamãe para telefonar. A Ópera era imprópria até catorze, Deus seja louvado.
Mamãe emprestou o carro, com chofer e tudo. Botei o cachecol e fui buscar A-n-g-e-l-a. Ela estava linda, me esperando na porta, a mãe dela na janela.
“Quem sou? Sou um poeta. Que coisa faço? Escrevo. E como vivo? Vivo!” Rodolfo cantava isso, de pulmões abertos, para Mimi. Eu, solidário, emocionadíssimo. Num repente de audácia, fiz a vida imitar a arte e peguei na mão de Ângela! Ângela tirou a mão. Peguei de novo. Ela tirou de novo. No intervalo comprei balas.
"Quando me vou, sozinha pela rua.” Segundo ato. Eu não estava entendendo muito bem a estória da ópera, essa é que é a verdade. Em italiano. De repente todos ficaram tuberculosos. Antes do terceiro ato, era minha última chance de me declarar.
Intervalo outra vez. Ângela foi ao toalete. Eu me aproximei de uma das sacadas do teatro e olhei as luzes da rua longínqua. O vento frio, as pessoas passando. Rolou a lágrima, veloz e parou, ainda no rosto.
Falando rápido, enquanto as luzes apagavam, disse tudo. Foi mais fácil que eu pensava. Eu tinha tudo pronto: "gosto de você" (melhor que "te amo"), "vou ser o homem mais feliz do mundo se você gostar de mim, se você gosta de mim deixa pelo menos eu ser seu amigo e, se der, confidente".
Ângela então me falou do namorado dela. Um rapaz parecido com o Tony Curtis, segundo ela. Se ela não gostasse do Tony Curtis, gostaria de mim - disse Ângela - eu tinha tudo, tudo que uma menina podia querer... Além do que, eu era muito moço e o Tony Curtis já tinha vinte anos.
Bonita a área final! Mimi morre e Rodolfo grita seu nome como se estivesse enterrando uma faca no peito!
Outro dia vi Ângela na rua. Reconheci. Conversamos dois minutos, antes de aparecer um ônibus que ela tomou. Não é que Ângela acabou casando com o Tony Curtis?! Tem dois filhos. Eu disse que gostaria muito de conhecê-los.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Material da Bravo!





















Blog
Outro dia compreendi o que é um blog. Por isso eu resolvi aceitar este por um mês.
É uma coisa muito mais importante do que eu tenho pensado. É um jeito das pessoas seguirem o pensamento das outras. Do jeito que ele é. Descontínuo. Desordenado. Casual. É uma espécie de diário do escritor do blog. Selecionado aquilo que pode interessar a todos. E a meta do blog é “fazer amigos e influenciar pessoas”, título de um livro do meu tempo que fez um sucesso danado, acho que foi o primeiro de auto-ajuda. Dale Carnegie.

Arte
Também eu tenho vontade de escrever um livro de auto-ajuda, confesso. Só não gosto da expressão. Toda arte ajuda. É para isso que a arte existe, para ajudar. Se vejo um filme ou uma peça que não aprendo nada, que não me faça viver melhor, acho ruim o filme ou a peça. Duvido muito do pessimismo. Em geral, ele pode ser resolvido na psicanálise. Não é uma atitude filosófica, é uma fraqueza. Claro que o otimismo não pode ser cego, a glória não pode esquecer o terror. Entre esses dois oscilamos, pêndulos com alma. Mas ultimamente vejo com grande freqüência filmes e peças que não contém nenhum rastro de esperança, nenhuma indicação de saída. Não é arte isso.

Dramaturgia


Águas turvas
Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque não sejam filósofos.
Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)
Cinema
Não vejo um filme bom há muito tempo, ando exigentíssimo.
Estou muito interessado nos italianos contemporâneos. Pelo menos alguns deles fazem lembrar o grande cinema italiano, filmando em Cine Cittá e tudo.
Gosto muito de L’ultimo Baccio, (“O último beijo”), Um Cuor ALtrove” (“Coração para amar”) e recentemente “Estamos bem sem você”. Os dois primeiros estão em cineclubes. Vejam. Fora isso, o Bardén no filme dos Cohen, é a melhor figura do mal que o cinema já criou. O filme é ótimo, exibe excelente cinematografia, embora turve as águas no final. Poderia ser um grande filme.E NÃO ACRDEITO M ‘VIDA DOS OUTROS”,FAJUTISSIMO É humilhante ser cineasta brasileiro. TENHO DOIS FILMES PRONTOS EM CASA
Dança

O último Débora Colker é interessantérrimo. Buscando descrever a contemporaneidade, a danada pesquisou durante dois anos os gestos tortos e movimentos assimétricos, criando um espetáculo “cruel”, de grande audácia e beleza. Mas já saiu de cartaz. A companhia vai para o Japão, lotam teatros aqui e no exterior. Não é para qualquer um. Claro SÃO abominados por grande parte do pessoal da dança conceituaL LOCAL.
Currículo
Me parece que o blog, afinal, filho do site, deve conter currículo do bloguista. Nasci em 36 (não faça a conta de quantos anos eu tenho),
sofri um bocado na mão da minha mãe possessiva, a saudosíssima Carmelita. Aos 13, 14 anos comecei a fazer teatro no colégio. Minha primeira peça data de 48. Ou seja, há exatamente 50 anos. Ninguém a conhece de modo que a publico aqui para fechar esse primeiro dia de blog. Não leve a mal. Hoje em dia me esforço muitíssimo para que minha obra não pareça séria. Mas jovem eu professava também o esporte espiritual PREDILETO da juventude: a auto-piedade. Mas leiam!!! Achei o original outro dia. GOSTEI, o rapaz tem talento.









ORAÇÃO DIANTE DE UM FILHO MORTO

De Domingos J. S. de Oliveira

Escrito em maio de 58.

À Bolinha,
Que me levou um pedaço de mim.

CASA DE CAMPONESES.
AMANHECEU. A MÃE ARRUMA A MESA DA PRIMEIRA REFEIÇÃO.
ENTRA O FILHO, SENTA-SE PARA COMER.

MÃE – Ainda não. Espere seu pai.

O MENINO TEM UMA ATIRADEIRA EM VOLTA DO PESCOÇO. A MÃE TIRA E PENDURA NUM PREGO DA PAREDE.
ENTRA O PAI, DESPE E PENDURA O CASACO DE TRABLHO. SENTA-SE À MESA.
OS TRÊS BAIXAM A CABEÇA.

PAI – Senhor
À ti agradecemos a comida que nos dás hoje
E também as forças que nos deste para tirá-la da tua terra
E também a terra
Bem como a casa
E a paz que sobre ela reina.

COMEM A REFEIÇÃO RAPIDAMENTE.
O MENINO ACABA PRIMEIRO, LEVANTA-SE E VAI APANHAR A ATIRADEIRA. O PREGO É ALTO PARA ELE. PULA UMA VEZ, OUTRA. NA TERCEIRA SEU PEQUENO CORPO ESTREMECE E ELE CAI. A MÃE CORRE, O PAI TAMBÉM, TOMAM-NO NOS BRAÇOS,S ACODEM, CHAMAM, MAS É EM VÃO. O PAI COLA O ROSTO NO SEU PEITO.

PAI – O coração parou!

MÃE- Meu filho!

PAI – Morreu...

A CENA APAGA-SE AOS POUCOS.
ACENDE-SE AOS POUCOS, MAS NÃO TOTALMENTE. É NOITE E O CORPO DO FILHO MORTO JAZ NO CHÃO, CENTRO DO PALCO. O SILÊNCIO É VARADO PELO PRANTO CONTÍNUO.

MÃE – Morreu...

PAI – Morreu...

MÃE – Meu único filho. O único

PAI – Eu não posso acreditar.

MÃE – Morreu.

PAI – Morreu.

MÃE – Sem ele...

PAI – Se tivéssemos um outro...

MÃE – Por que, meu Deus, por quê?

PAI – Deus!

MÃE – Nunca pensei!

PAI – Eu também, nunca pensei.

MÃE – Ele sabe o que faz.

PAI – Estou tão cansado...

MÃE – Queria guardar... as coisas que eram dele...

MÃE – Logo o levarão.

PAI – Temos pouco tempo...

PAI – Nunca apensei que fosse tão pouco.

MÃE – Meu filho! Sozinho, morto, sozinho!

PAI – Coragem.

MÃE – Deus sabe o que faz.

PAI – Temos de nos convencer que é verdade, que ele morreu.

MÃE – Meu filhinho, tão pequeno... Por que ele, senhor? Porquê? (CHORA)

PAI – Que fiz eu, senhor? Sempre fui como tu querias. As coisas eu amei, sempre que pude. As crianças, os animais, teu mundo, os pobres, todos eu amei. Que mais, senhor. Que mais podia eu fazer?

MÃE – Nosso filho está no céu, perto dele, perto do Senhor.

PAI – No céu.

MÃE – Um dia o veremos.

SILÊNCIO.

PAI – Senhor, perdoa-me, se levanto minha voz para duvidar de Ti. Mas é preciso que me ajudes, porque eu perdi meu filho. Quero acreditar, senhor, no campo verde que nos prometeste, onde brincam as crianças mortas ao lado de Teus anjos. Mas, senhor, três coisas somente fazia esta criancinha na vida: comia, dormia e m amava. Comida Teus campos têm, e muita. Sono, Tu mesmo o ninarás. Mas eu, Senhor, eu? Isso Tu não podes dar! Levai-me então, senhor, levai-me também!

MÃE – Ó vida... desgraçada... sem paz.

PAI – Por que me tiraste o que é meu? O que fiz?

CHORAM MUITO, PORÉM CADA VEZ MENOS, ATÉ O SILÊNCIO

MÃE – Não quero, marido, não quero viver sem ele.

PAI – Eu também não.

SILÊNCIO.

MÃE – Talvez... depois... nos encontraremos os três, no céu.

PAI – Não, mulher. Ele morreu. Nunca mais o veremos.

MÃE – Coragem, marido. Ainda temos um ao outro.

PAI – Mas continuar a viver... sem meu filho... será a tristeza até o fim.

MÃE – Não é possível que seja só isso.

PAI – Você acredita no céu?

MÃE – Nãos ei.

PAI – Eu não acredito.

RELÂMPAGO E TROVÃO. A FÚRIA DOS ELEMENTOS OS AÇOITA. A MÃE CAI AJOELHADA INDEFESA, MAS O PAI ENFRENTA.

PAI – Não temo, senhor! Um filho morreu! Não temo! Eu não acredito, não temo!

O TROVÃO DIMINUI DE INTENSIDADE.

PAI – Como pude eu um dia acreditar na tua bondade, na tua arrogante sabedoria, eu, que tenho um filho morto nos braços! Não peço uma vida feliz, Senhor! Sou um homem humilde. Eu peço, senhor, o inferno! Se é isso que tu queres! Que rasguem minha carne, que minha voz se transforme num uivo, que as pessoas que eu amo me desprezem, me cuspam no rosto, mas DEIXA-ME AMAR, SENHOR! Afasta de mim a Morte, a Morte que me tira os mus... eu não quero morrer, Senhor. Mesmo sem um filho, quero viver. Tenho minha mulher, que me ama. Por ela eu quero viver. Mas também ela, senhor, e Tu sabe, também ela eu deixarei um dia submissa a Teus pés. Tenho meu campo, ainda por cultivar. Quanto mais nada eu tiver, a ele darei meus esforços. Se a chuva inundá-lo, se um fogo descuidado comer a colheita, me fizer recuar e trancar-me na mais pequena parte da minha casa, ainda assim não me queixarei. Enquanto para uma pedra eu puder olhar, e lembrar que com ela brincou meu filho, nele tocou minha mulher, passou o arado com que eu arava meu campo, não me queixarei. Será aí que tu virás, com tua mão pesada, me esmagares! E dirás: toma, a treva, é tua! Não, senhor, não creio nos teus campos verdes (são tão pequenos e escuros os meus).

LUZES SE APAGAM.
LUZES SE ACENDEM. AMANHECE. CANSADOS, DIANTE DO CORPO, O PAI E A MÃE.

MÃE – Há algum tempo passou por aqui um viajante, desses que correm o mundo, e me contou uma história. Ele viajara por uma terra tão rica e tão boa que tudo nasce nela sem que seja preciso plantar uma semente.

PAI – Nossa terra também é boa.

MÃE – Se nossa terra fosse boa assim, não precisaríamos trabalhar tanto. Lá, todos vivem bem. O mais pobre tem seu campo.

PAI – Toda minha vida eu trabalhei.

MÃE – Mas já me sinto cansada...

PAI – Não deve existir terra nenhuma. Esses viajantes sem profissão mentem muito.

MÃE – Talvez exista. Já foi verdade tanta coisa em que não acreditávamos.

PAI – Talvez.

SILÊNCIO.

MÃE – AMANHECEU.

PAI – Estou tão cansado.

SILÊNCIO.

PAI – O corpo me dói.

MÃE – Vai descansar um pouco. Vem.

ELA LEVANTA, AJUDA-O A LEVANTAR-SE E SAI COM ELE. NO PALCO FICA O PEQUENO CORPO MORTO.

(PANO)

Blog 2
Essa é minha segunda postagem neste blog. Sabem que ele já me foi útil? Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

passado. O início.
AQUELE HOMEM, isto é Domingos Oliveira, isto é, eu - aquele homem nasce num dia 28 de setembro de 1936, em Botafogo, na Rua da Matriz, cidade do Rio de Janeiro.






Dizem que se recusava a respirar o ar do mundo, embora fosse devidamente espancado pelo parteiro. Que então foi atirado numa bacia. De onde um instante depois retirado por um tio médico que, mediante inesperado, vigoroso e certeiro golpe de mão espalmada, concedeu-lhe o direito de viver. Parto portanto tortuoso, ao qual a mãe sobreviveu a duras penas, segundo os relatos familiares.

De minha infância não recordo nada.
E desperto para o mundo da minha própria consciência apenas na adolescência, aos 15 ou dezesseis anos de idade.

Esta sensação de borracha-passada-nos-anos, de treva baixada sobre os luminosos-primeiros-dias, é como sinto o início da minha vida. Esparsos instantes acendem-se na memória perdida:

Mãos descarnadas de uma empregada preta e velha,chamada Olivia, baixadas sobre um prato cheio de feijão preto e arroz, para retirar o excesso de caldo sem deixar cair o feijão e arroz. Feijão e arroz que eu seria obrigado a comer. E que comeria, aterrorizado, certo de estar ingerindo a própria doença das mãos descarnadas, envenenando-me.Com o estômago revoltado como até hoje me revolto

A figura de um jardineiro imenso e vigoroso, que me dizia e convencia, ao mesmo tempo que exigia segredo, ser todo o cimento do jardim (o jardim era enorme todo coberto de cimento-ai minha cabeça! - a tampa do subterrâneo, onde viviam os jacarés famintos, que podiam ser vistos através dos ralos, se alguém tivesse coragem de olhar. E eu certamente não tinha !

Os pratos separados. Os talheres separados. O primo Carlinhos, que ia morrer de tuberculose, de quem eu não podia chegar perto, senão também eu ia morrer. Mas que um dia me foi permitido olhar. De longe, na varanda. Sentado na cadeira de vime branco, pálido e espiritual, de olhos translúcidos e bondosos enquanto os de minha mãe marejavam. E o primo Carlinhos me olha, belo, com olhar que não era o da Morte e sim da Bondade. E a o de minha mãe que me pega pelo braço, para me tirar dali.

Meu avô José, mais nobre e querida das memórias ! José que um dia ficou rico com os lucros de uma fábrica de barbantes. O José Pereira, de bigodes opulentos e másculos. Roubava-me da minha mãe, para minha alegria, e me levava para dormir com ele. Na cama imensa do lençol com perfume , do colchão macio que dava vontade de pular. O avô José.

Que me ensinou a rezar e a cantar para a santa, onde a caixinha de música repetia: avê, avê, avê Mariá ... Eu ajoelhado,ele me ensinando a botar juntas minhas mãos, em prece.








PRESENTE
Outro dia entrevistei Felipe Hirsh, o famoso diretor de teatro. Vi alguns de seus espetáculos. São admiráveis sem dúvida, do ponto de vista técnico e plástico. Ele é um verdadeiro mestre. Mas nunca me agradou inteiramente. Por causa dos textos, ou melhor, dos temas dos textos. Como vários outros diretores de vanguarda, seus textos sempre versaram sobre os valores duros da vida. Tédio, falta de sentido, a incomunicação, a inexistência do verdadeiro amor etc. E muito pouca ou nenhuma esperança. Pois é. Detesto esse tipo de texto. Por mais valores outros que eles possam ter. Porque creio que a arte é uma coisa da vida. É auto-ajuda, para ajudar a viver. É diversão e ensinamento, como dizia Brecht. Se uma peça ou um filme, um quadro ou um livro, não me ensinam a viver melhor, não os considero grande arte. É queixume, auto-piedade, lamentação. Às vezes belo mas não é arte. Sei que esse é um ponto de vista radical, porém sou um velho turrão. Penso assim e pronto.
Agora, no último Felipe Hirsch, “Não sobre o amor”, fiquei numa situação difícil. Adorei o espetáculo. Achei mesmo que talvez fosse o espetáculo mais bonito que já vi na vida. Equiparável apenas a alguns de Antunes ou Aderbal. Mas o texto tinha aquele negócio, aquela desesperança que não me interessa. Então, decidi entrevistar o Hirsch. Encontro um rapaz de 36 anos, para mim, um menino. Simpaticíssimo, humaníssimo, inteligente e inspirado. Seu discurso nada tinha a ver com aquilo que me desagradava no espetáculo. Então, tomei coragem e abri o jogo. Disse: Felipe, não gostei do texto. Nem de outros que você montou. Por que você não gosta de textos que apontem mais para o alto das montanhas, a grandeza do homem, a esperança, etc?
Há muito tempo eu queria fazer essa pergunta para os chamados diretores herméticos de vanguarda.
Por que você não faz, por exemplo, uma comédia comovente com todo o talento que você tem?
Felipe estava me olhando muito sério desde que comecei a pergunta. Então pegou no braço e me deu uma resposta histórica, exatamente o que eu queria ouvir. Subi pelas paredes de prazer e compreendi mais por que esses diretores geniais não escolhem bons textos. Felipe disse: Domingos, eu chego lá! E que por enquanto eu sou muito moço, sofro muito, a vida ainda me é difícil. Então trabalho com vários temas, o exílio, a solidão, o desamor, etc. Mas pretendo chegar um dia a ter um tema só em todas as minhas peças. Esse que você falou aí: o amor!
Estou convencido que o Hirsch se já não é, será um dos maiores diretores brasileiros de todos os tempos. Um homem que não mente. 120


Se Deus existe, o problema é dele. (Edu, coração de ouro)



Terceiro Post.

Presente.

Acabo de verificar que parte da minha postagem não entrou no blog. De modo que começo com elas.


Dramaturgia

}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque eu sejam filósofos
.
Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)


Uma divida
Hoje começa uma homenagem que O Tablado resolveu me fazer. São 24 turmas lá. Todos vão montar somente textos meus, até o final do ano. O título da brincadeira é: “Investigação Sobre o Artista Acima de Qualquer Suspeita”. Pretendem fazer isso nos anos seguintes, com outros autores. Achei bacana. Não dá dinheiro, mas é uma honra, sem dúvida. Mais que isso, é a chance de ver como bate nos jovens toda essa escrivinhação que fiz ao longo da vida.
O jovem de hoje é muito diferente do da minha geração. “Em 68 jovens lutavam por ideais. Hoje, lutam por emprego.” Dizem os jornais. Repletos de estudos sobre o 68. Também eu tenho vontade de escrever sobre isso. A Revolução Hippie foi o evento social mais importante ocorrido na humanidade desde 1917. E ele ainda não foi realmente contado. Expressou-se em música divina, sem dúvida, mas não afirma nem em peça nem livro realmente bons sobre o assunto. É quase um segredo. Something Unspoken. O Bertolutti sobre o assunto, que não me lembro o nome, fui ver correndo. Mas quase não toca no assunto. O que houve ali, em 68, ou melhor, de 68 a 72, 73, foi uma tomada de consciência das potencialidades humanas. Da existência do paraíso. Da possibilidade concreta de mudar o mundo. De definir, apontar, destruir a mente formatada, o preconceito e a mentira, naquele tempo chamado de “caretice”. Era sério o negócio. E muito bonito!
Como tudo o que é bom, dura pouco. E não deixou saudades. Deixou esperanças. Pontos de reflexão. O novo pensamento, que nem um bom nome tem, o melhor é Contracultura, que parece coisa acadêmica, chegou ao Rio de verdade nos fins de 70. 68, pra nós, não tem barricadas na rua. E sim ato institucional.
Mas isso talvez não tenha sido mau. Quem viveu a colorida Contracultura em meio ao cinza-chumbo do golpe, pôde vê-la com uma especial nitidez.
Tento não ter vontade de escrever mais peças. Já bastam as que tenho prometido a mim mesmo. Mas sou até hoje hippie. Sei o que foi aquilo. Vou ter de contar, uma hora dessas. Da tempestade de besteiras que a esquerda, o Socialismo, cometeu, talvez a maior tenha sido a não-compreensão de que a Contracultura não é o seu oposto, e sim sua única continuação possível.
“Oh, boy. Você vai ter de carregar esse peso.”


Vi um filme ótimo em área 1 (DVD). Que não aconselho a ninguém ver. É uma porrada. Eu não sofria assim com um filme desde o “Dançando no Escuro”, que é outro insuportável. Estou falando do “O Escafando e A Borboleta”. É genial. Você vai sofrendo, sofrendo, com a certeza de que algo de bom vai acontecer... e não acontece! Então você apaga a televisão, está na hora de dormir. E sua alma está devorada, consumida. Acho que bons filmes não tinham o direito de ser assim. Em “Roma, Cidade Aberta”, por exemplo, o padre morre torturado e fuzilado. Mas atrás das grades do jardim, há crianças olhando. Que depois saem pela estrada da vida. Uma vez vi em Nova York (!!!) uma sessão dupla de cinema. Acabava “Roma, Cidade Aberta” e imediatamente começava “La Estrada”. Eram gente boa, Fellini e Rossellini. Embora acho que seja insidiosa com essa coisa da esperança. “Escafando” tem duas cenas tão bonitas que quase compensam a infinita dor. A da enfermeira que faz “falar” com um olho só, fala da compaixão. Depois outra, com o pai (Max Von Sidow) comenta diretamente a miséria da condição humana. Gostei muito do filme. Mas não aconselho ninguém a ir ver. Se eu não tivesse visto, não veria.


Passado:
Tenho 10 anos, ou oito.
Minha mãe doente. Ausente. O pânico, o medo. O momento em que me permitem vê-la, sem me aproximar. Minha mãe num porta entreaberta. Ela olha para mim, aponta,ela chora. No chão, quase debaixo da cama, aquilo que me lembro como uma bacia cheia de sangue. E fecham a porta, porque é impressionante para uma criança. Alguém me explica a doença de minha mãe. É um irmãozinho, que se perdeu, mas eu não tinha ouvido falar que ela estava grávida!

O portão, mil vezes olhado, por onde chegará meu avô (ou seria meu pai?) ,com o presente. O presente nosso da casa dia. Talvez fossem balas de côco.

E um dia, quando já não existia meu avô, vão sair meu pai e minha mãe para uma festa. Vestem-se de gala e aparecem, lindos, como nunca os vi, mas eu não quero que eles vão embora, menino chato. Choro, grito, esperneio. E quanto mais choro, grito e esperneio, mais corro o perigo do abandono. E quanto mais corro perigo, mais importante se torna o jogo, mais insuportável é suportar que meus pais saiam para a festa. Enfim, jogo a vida, e perco. E o choro vira soluço, e depois já nem cansa mais.

Que terei eu feito de tão errado? Escorregado pelo corrimão da escada da sala grande? Onde ninguém ia, onde o mármore do chão parecia um espelho, se não parecesse com o tabuleiro de xadrez? Não sei, não lembro da falta. E depois, como teria eu ido parar exatamente ali, naquele corredor escuro e amedrontador que conduz à capela, no coração da casa? Talvez estivessem me obrigando a caminhar ali, por aquele corredor, em direção à capela, simplesmente porque eu não quisesse e me recusasse a ir lá. Eu tinha tanto medo da capela, e dos santos dentro do santuário, por trás do vidro. Daquele lugar sem janelas, no coração e no centro da casa, onde todos tinham de ajoelhar-se naquela cadeira engraçada e grená, que não era para sentar e sim para ajoelhar. Onde ninguém falava alto e, ao menor descuido, ao leve acaso, Deus castigava? Me lembro apenas do corredor, que mil passos não atravessariam. De meu pai que me arrastava pela mão, e eu perdia o equilíbrio, e berrava, e ele mandava calar... e me batia, para que eu parasse de chorar! E doia tanto, era horrível a dor, posso senti-la até hoje. A mão dele em mim, doía e ardia, mais do que eu podia suportar. Talvez me furava e quebrava. Talvez me matava, em direção à capela. Meu pai, uma criatura tão bondosa e doce. Devem tê-lo enlouquecido, para que ele chegasse a me tratar assim, de modo tão covarde.

Havia um chofer bigodudo, seu Corrêa, português, que me falava umas tremendas sacanagens.

E houve o dia que eu não quis ficar no colégio. Meu avô José já tinha morrido há algum tempo, o luto ainda imperava na familia. Ele próprio tinha comprado para mim os quadradinhos com letras e eu logo pude perceber o mundo que havia por trás daquilo. Minha avó (é dos poucos contatos reais que me lembro ter tido com ela), ensinou-me uma ou duas vezes como brincar com aqueles quadradinhos. O “beabá” é para mim uma recordação mágica.


(Sempre tenho a impressão que recordações de infância não interessam absolutamente a ninguém. Mas continuarei a colocá-las aqui no blog. Que afinal, ninguém precisa ler, maravilha tecnológica! Minha infância eu já contei, em síntese, na profundidade. Numa peça chamada “Do Fundo Do Lago Escuro”. Essa vocês devem ler. Tem na livraria. A arte é a vida sem as partes chatas.)



segunda-feira, 19 de maio de 2008

Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

Presente:
Vi ontem no DVD o velho “12 Homens e Uma Sentença”. Pecinha bem feita para televisão por Reginaldo Ross nos anos 50. Era impressionante a dramaturgia do início da TV americana. O “One Hour Play”. Quatro ou cinco escritores notáveis, dos quais o patrono chamava Paddy Chaievsky, de quem hoje pouca gente se lembra ou conhece. É uma espécie de Neo-Realismo Norte Americano que tive a oportunidade de dirigir na TV, ainda em preto e branco. Chaievsky tem um filme famoso, “Martin”, que é a história de um açougueiro, uma história de amor, com o qual Ernest Borgnine ganhou um Oscar. Aconselho também vivamente “O Grande Negócio”, “Despedida de Solteiro”. Ninguém tem esses textos. Mas tem em inglês. É bom ler pra lembrar como se escrevia bem. A “Peça de Uma Hora” foi o ramo mais nobre na TV e depois desapareceu, preterido pelas novelas e minisséries cada vez mais longas ou, quando muito, séries, que são os gêneros bastardos por obrigar o escritor a ser prolixo. Por anular o poder da síntese. Nem sabemos mais o que é isso. A nova geração, que eu saiba, escreve mal por falta de dramaturgia. Que jovem bom anda escrevendo, profunda e simplesmente? Verdadeira e interessantemente? Ninguém, penso. Mas estou doido para mudar de opinião.

Sobre a nova geração, os que têm menos de 25, há muito o que discutir. Nos jornais pode ser lido que os jovens de 68 lutavam por idéias e os de hoje por emprego. Realmente é impressionante. Os sensíveis são bastante raros e os produtivos quase inexistentes. Penso que o sonho não acabou. Mas os jovens não sonham.
Escrevo essas linhas de velho com espírito de provocador, é claro. Me parece também que assim como falta no jovem de hoje a ânsia do conhecimento e o desejo artístico, falta-lhe também por extensão o desejo sexual. No que posso ver ao meu redor sexo anda bem fora de moda, particularmente entre os jovens. Vejo cada menina por aí sem namorado... No meu tempo, não tinha disso não. Eram dez fazendo fila. No meu tempo um “quer trepar comigo” suscitava uma resposta, um “sim” ou um “não’. Atualmente a resposta parece ser “trepar contigo? Para quê?”...
Não me acusem por esses sentimentos. Estamos num blog. São provocações.

A vida de todo mundo tem fases, marcadas por isso ou por aquilo. Tive por ambição, desde jovem, escrever uma peça ou fazer um filme sobre cada uma das fases da minha vida. Tive a felicidade de quase conseguir alcançar esta meta. “Do Fundo Do Lago Escuro” contém a essência da minha criança. “Os Melhores Anos Das Nossas Vidas” da minha adolescência. “A Última Valsa” da minha passagem para a idade adulta. Meus amores estão espalhados por vários filmes, de “Todas As Mulheres Do Mundo” à “Separações”. E também, disfarçadamente, todas as outras peças e filmes...
Mas tem pelo menos uma fase sobre a qual não escrevi ainda e sinto cada vez mais vontade e obrigação de fazê-lo. Que é a época que vai entre 68 e 72, quando já com quase 40 anos virei hippie, da melhor estirpe, andava de jaqueta verde, botas longas e rabo de cavalo. E acreditava na Contracultura como salvação do mundo. Durou pouco, mas foi bom.
Hoje penso que vivi uma Contracultura muito especial. Vianinha dizia que eu era “o verdadeiro hippie”. Lendo esses jornais todos sobre 68, não encontro eco do que eu senti. O grande livro ou filme da Contracultura ainda não foi escrito ou filmado. Talvez haja rastros disso em “Easy Rider” e “2001” e outros pouquíssimos. Claro que a música retratou os tempos. Com grandeza. Mas só. “Seja razoável, exija o impossível”, “a imaginação no poder”, “drop out”, são palavras que pedem para ser pichadas. Existirão palavras assim hoje em dia?

Não admito que ninguém que lê esse blog pense que sou um saudosista ou um pessimista. Esses dois sentimentos são burros. Minha frase principal nunca foi pichada em nenhum muro, é: “Tenho uma noção profunda da minha extrema felicidade. Mesmo quando estou triste de querer morrer, tenho uma extrema noção da minha profunda felicidade.”



PASSADO:

Um dia me prepararam e me mandaram para o colégio e eu não quis ir, e chorei. Isso lembro-me bem !
As freiras que, sisudas e malcheirosas, receberam-me de minha mãe e me levaram para dentro do colégio.
É como a imagem refletida do espelho quebrada (deveria existir uma palavra única para esta imagem, tão comum a todos os delírios). É assim, “não-inteira”, que me recordo da sala do colégio das freiras. Imensa e muito clara, com gravuras fascinantes, cavalos pastando perto de uma árvore em um verde gramado. Uma beleza complexa, imensa e amedrontadora, fascinante mas que não me pertencia, assim eu me lembro da sala do colégio.
A falta da minha mãe, insuportável - com os olhos eu procurava quem pudesse substituí-la, um rosto de mãe no meio das freiras, mas não encontrava. Em meio a tudo isto, como se não bastasse meu sofrimento, ainda queriam que eu brincasse com as outras crianças, mas o sol queimava, talvez fizesse mal, talvez me matasse o sol. Foi quando veio a hora de dormir. As janelas se fecharam, o escuro tombou sobre a sala. Uma freira me agarrou e me pôs numa cama, um berço, onde eu deveria ficar imóvel, dormir. Como podia, se tinha medo? Medo?
Depois o pátio, hora do recreio e subitamente, na porta do colégio, no portão de ferro intransponível que me separava do mundo, surge meu avô paterno! O outro avô, o avô que estava vivo, o pai do meu pai, vovô Odorico!!! Eu pedi a ele, implorei, que me levasse embora, para casa. Corri para o portão, escapando das mãos vigorosas das freiras, desobedeci, me subverti e corri para o portão, para implorar... porém meu avô me respondeu com aquele mesmo sorriso que meu pai teve todo tempo que viveu. Um sorriso de quem não pode se meter, do humilde criado, mas quem manda é o patrão e foi embora meu avô. E as freiras de novo me devoraram.
Na manhã seguinte procurei diretamente minha avó, a matriarca e dona do dinheiro, e disse a ela (premeditadamente, tudo tinha sido planejado: "Minha avó, se meu avô fosse vivo, eu não ia ao colégio, ele não ia deixar.” Então todos se comoveram, e... nunca mais me mandaram para o colégio! Estudei anos dentro de casa, com uma professora particular, D. Adalgisa. Todo o curso primário eu fiz em casa, com excelentes notas.

O fascínio dos quadrados de madeira com o desenho das letras. A suspeita do mundo que havia por trás daquilo. O prazer, válido em si, de compreender e controlar as combinações das letras, de unir a elas um significado. A atividade lógica de aprender a ler. Imensa alegria, primeira alegria adulta.




Quarta postagen:


terça-feira, 27 de maio de 2008

PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE

Hoje me despeço do Blog da Bravo!. Mas gostei da coisa. Está me parecendo um bom modo de rascunhar a minha biografia conforme expliquei na postagem anterior.
Eu uma vez fiz um espetáculo chamado “Pra Quem Gosta de Mim”, título que não deixou dúvidas. Pois bem, o Blog me parece também um modo de descobrir quem são meus discípulos, fãs, admiradores, amigos, que andam por aí e eu não sei. Um modo de fazer a minha mala direta afetiva. Por esses dois motivos, continuo, fora da Bravo!, a quem sou muito agradecido pelo ensinamento blogueiro. Meu novo blog é

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

As despedidas, dizem com razão os ingleses, quanto mais curtas, melhores. Porém, como eu não sou inglês, farei essa especialmente longa.

PRESENTE
Breno Silveira.

Breno Silveira é o diretor de “2 Filhos de Francisco”. Que deu 6 milhões de espectadores. Um bom filme brasileiro atual dá 80 mil espectadores. Um mau filme brasileiro vulgar popularesco atual pode chegar a 1 milhão de espectadores. E o Breno não é vulgar nem popularesco nem mal intencionado nem manipulador. Ao contrário. É um rapaz fino e bem nascido. Que, não sei como, tem sua consciência de artista identificada com as classes menos privilegiadas, ou seja, usando uma palavra horrivelmente gasta, com o povo. Em consonância com a sociedade em que vive, poderia ser dito assim. Fazer um filme com a dupla caipira de qualidade musical possivelmente duvidosa e contendo tramas altamente sentimentais, para não dizer sentimentalóide, tem todas as características de uma atitude picareta. Breno teve uma idéia original sobre o assunto. Inteligentemente desviou a atenção da dupla popular para a história do pai deles. E os filhos de Francisco estouraram. Agora havia de sair para um segundo filme. O que fazer quando seu primeiro deu 6 milhões de espectadores? É certo no mundo inteiro, mas no Brasil é certíssimo, que ninguém pode fazer dois sucessos seguidos. Depois do primeiro as marretas intelectuais e midiáticas levantam-se, prontas para baixar a porrada. Seu segundo filme, mesmo que seja uma obra prima, será considerado pior do que o primeiro. O valor da novidade na nossa sociedade é imenso. A atriz novata que arrebenta numa novela só vai fazer sucesso de novo daqui há dez anos, quando esquecerem o sucesso inicial. O cineasta tem que construir uma obra para ser “novo” de novo. Aconteceu exatamente assim comigo e nos meus 70 anos de batida nunca havia acontecido diferente. É comum dizer, porém verdadeiro, que não vai ser preciso matar seu leão de cada dia. Mas a alma bondosa e generosa de Breno conseguiu vencer seu espírito sofisticado e internacional, resolveu fazer o “Era Uma Vez”. Quando ele me disse do que se tratava, quase caí para trás: Um “Romeu e Julieta” na favela. Um menino favelado apaixona-se por uma menina da Vieira Souto, seu romance não é permitido na sociedade e acabam morrendo os dois, baleados pela polícia. Não podia haver nada mais banal. “O roteiro trará um tratamento original, uma visão nova”, pensei. Li o roteiro. Além de banal era absolutamente previsível. Sem nenhuma novidade. No entanto ali já conhecia o mistério com o qual desejo fechar essa primeira parte do meu blog. Era um roteiro escrito com tanta sinceridade, tanta boa vontade, tanto romantismo, tanto amor ao próximo, que não era possível dizer que era um roteiro ruim. Embora fosse. Ontem vi o filme. Tudo é realizado com muito capricho, porém do modo esperado. Sem novidade de linguagem, previsível, banal. E no entanto é ótimo! Um gol de placa capaz até de quebrar a “maldição do segundo filme”. Chorei como uma vaca nos vinte minutos finais. Embora soubesse exatamente o que ia acontecer. Se uma obra alcança esse nível de emoção, é uma obra de arte. A gente que não respeita o seu próprio pranto, incrível. Se um filme me faz chorar, é um bom filme. Que eu não sou idiota, não choro com besteira. É o amor que Breno tem com suas criaturas que realiza esse milagre. Fenômeno curiosíssimo que vocês poderão verificar nos cinemas daqui a pouco tempo. Dispam-se de todos os seus preconceitos, comprem sua entrada e venham chorar com Breno Silveira nas dores básicas do mundo do amor. A arte tem caminhos que a própria razão desconhece.


PASSADO

Então um dia quis o impossível. Desejei captar e estar presente ao momento exato em que passava de acordado para dormindo! Ter consciência da perda de consciência, foi o que desejei muito criança ainda. E o estado de alerta que esta pesquisa me obrigava, me impedia de dormir. E no entanto eu não queria abrir mão do jogo. Me dava tanto medo! Não poder colocar sobre meu domínio este instante mágico... No qual eu perdia o domínio de mim mesmo e, dominado pela inconsciência do sono, tornava-me um ser desprotegido, do qual os maiores perigos podiam aproximar-se sem que eu ao menos me desse conta. E nessa beira de delírio tive muitas noites, talvez anos de insônia. Foi através dessa experiência que tive minha primeira noção da Morte.

(Depois, muito muito mais tarde escrevi uma peça sobre minha infância, através de muitos processos e um vigor de escritor que absolutamente não tenho mais, escrevi "Do fundo do lago escuro". Então penetrei brabo nesta terra escura da minha infância. Descobrindo lá uma assustadora e inesperada sensualidade, entre muitas outras coisas.
Sobre meu avô paterno, o da porta com grades, pouco escrevi. Mas talvez tudo que sabia. A velhice dele foi interessantíssima, totalmente louco, gagá. E naquele tempo era vergonhoso ser louco. O trabalho chama-se "A ordem natural das coisas”, um roteiro premiado de cinema que não filmei nunca mas que ficou sob a forma de um especial de Tv, sem duvida dos melhores que fiz.
Tenho também uma fonte fértil, se alguma hora quiser escrever sobre aquela gente que me viu nascer. Que é uma foto de toda família da minha mãe, foto onde ela deve ter uns 3 anos . São 1O pessoas naquela foto e sei muita lenda sobre aquela gente toda. Mas não creio que ninguém se interesse por isto)


Me lembro do dia em que peguei o bonde andando pela primeira vez. Que alegria. E do dia em que ouvi Caymmi pela primeira vez e a coleção de "Guri" que comprei e botei em cima do armário, uma pilha enorme, da qual eu só me permitia ler dois dias, economizando o prazer.

Certa vez subi sem querer a escada do vestuário das meninas internas. Nunca dei sorte com elas, era cruelmente desprezado.
Mas no "show" do colégio, primeiro e único pois depois ninguém conseguiu organizar outro, eu dançava com todas as meninas no final, apoteose de teatro revista. Até hoje a música me vem ao ouvido: "Nós voltamos a apresentar, este show para você!". Eu dançava, até com a Carmem, que tinha um namorado muito mais velho.
Minhas músicas prediletas eram "Good Night Sweetheart" (que minha mãe falou que era música do noivado dela) e "Jambalaya".

Minha primeira investida como produtor teatral foi a montagem de "O dote", de Artur Azevedo. Confesso que com a finalidade precípua de beijar a Ângela, conforme mandava a rubrica. Deus, como eu amava a Ângela! Tenho certeza que não tenho mais a menor idéia do quanto eu amava a Ângela! Que não me dava a menor bola, claro. Eram tempos violentos: o Garcia se masturbava dentro da sala de aula. O prof. Medeiros um dia me pediu conselhos sobre o que fazer com ele! Já o professor de inglês, recém chegado ao Brasil, pedia autógrafos aos alunos. O Prof. Leon, de educação física, tentava introduzir a esgrima ela própria no curriculum. A culhoneira voadora passara por cima do tabique e caía com estrondo e escândalo na sala das meninas. E um dia, de repente, Heitor apareceu com uniforme de interno. Eu tinha uma maleta de ferro que prendia direitinho o guaraná, que derramava num guardanapo nojento com os palitos franceses que mamãe botava. E o Miguel jogava bulica comigo. Bulica, Comigo. E havia o inspetor, que se chamava seu Carvalho.


(OBS. Como vê o querido leitor, AMARCORD e mãe não era só Fellini quem tinha. Todo mundo tem. Até o próximo blog, me acompanhem que eu vou longe....)

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