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quarta-feira, 23 de junho de 2010

continuação do IP (Idiota Plástico)





O carro rolava por ruas escuras até o Galpão de S. Cristóvão. Era intrincado chegar lá. Sou ruim de caminho além do Rebouças. Passavam as luzes brancas dos postes e as vermelhas dos automóveis, enquanto e eu pensava no papo do IP. Aparentemente certo nas suas estocadas, IP falava apenas dos Artistas que não o são, que existem em todo lugar, não apenas na Arte Contemporânea. No Teatro não faltam simbólogos, defensores da liberdade, incompetentes teatrais, chocadores de burgueses e até cenógrafos sem peça.
Todo esse pessoal, por exemplo, que faz o “espetáculo” em vez de fazer a peça, do brilhante Gerald T. à turma que alguém chamou de “quinteto irreverente”(B. Lessa, Possi N., Ulisses, Gabriel V. e o próprio G. Tomas) eram mais ou menos isso, embora talentosíssimos, são alguma forma isso. Na minha opinião não fazem Teatro propriamente dito. Mas daí a dizer que não são artistas vai uma agressão. Tenho certeza que o mesmo acontece no cinema, na literatura etc. A Arte quando é clara, compreensível, diante da qual um homem de bem não precisa franzir o cenho, tende a ser maior, não há duvida. Mas a Arte Contemporânea não se propõe a isso, porra... Enfim eu continuava discutindo como IP. Mas só por dentro porque por fora eu falava com o Zé, precisava falar, sobre a Arte, enquanto rolava o carro:
-“A única coisa da qual se pode acusar a Arte é de não sê-lo.
A Arte, ela salta, melhor que o gato. Por cima da aparência.
E aquele que recebe a mensagem do Artista salta também, por cima do muro sensorial com que está acostumado a perceber o mundo, recebendo o recado no seu eu mais profundo.
Se alguém quem morrer, morrer mesmo de não ter jeito, toque para ele uma música de Mozart, ou mostre um quadro de Renoir, um bom filme... Se isto não salvá-lo, desista. O homem está morto.
É preciso observar com argúcia as relações entre a Arte e o Tempo.
O tempo da Arte é o tempo eterno, o tempo que não é tempo.
A Arte tenta resumir no tempo o funcionamento do mundo.
Pretende entender numa sinfonia, num quadro ou num livro a inteligência do Mundo.
Portanto deseja destruir o tempo, é inimiga do Tempo.
Há algo de francamente antagônico entre a Arte e o Tempo. Se toda a consciência conduz à compreensão de que tudo é movimento, sendo o Mundo puro fluxo... a Arte tenta fixar numa obra estática esta eterna mudança.
Algo existe dentro da contraditória Alma humana que não é Tempo, que
não é fluxo. É a isto que a Arte se refere!
Se o Tempo é realmente um Deus, como frequentemente parece, então a Arte é um movimento de pura rebeldia."
O carro fez uma curva fechada, derrapando pneus, o Zé estava com pressa de chegar, embora me ouvisse com atenção.
“Terá a arte algum valor objetivo?" -perguntava eu. “Ou seu julgamento será sempre subjetivo, sempre dependendo de um “eu gostei” e “eu detestei”. Multidões de filósofos ao longo do tempo debruçaram-se sobre esta candente questão. A arte tem um valor em si, intrínseco, evidentemente. Só porque não me ocorre outro exemplo, Shakespeare é representado hoje, como era há 100 ou 2OO anos atrás, na Rússia, na Suécia, na Indonésia, no Brasil. Shakespeare tem um valor intrínseco. Ele fala com a alma humana, diretamente, não importa em que época e em que lugar.”
Zé agora rodava por ruas que eu não conhecia e avisou que já estávamos chegando.
-“Uma obra de Arte não é boa porque dez pessoas gostam, um milhão ou apenas uma pessoa gosta. A Nona Sinfonia (prefiro pessoalmente o “Concerto para Violino”), a Vitoria de Samocracia, as flores de Renoir, os auto-retratos de Rembrandt, os filmes de Carlitos, a voz do Frank Sinatra e as milhares de obras de Arte que, enfim, permitem um homem viver, em vez de meter uma bala nos córneos... tem valor em si.
Mesmo que ninguém as tivesse visto jamais! Ainda assim seriam valorosas e imortais. São o patrimônio da Humanidade, enquanto a Humanidade existir serão magníficas obras de arte. E quando a humanidade não existir mais, tendo a Terra sido dominada pelas formigas, ainda assim –reconhecerão as formigas- serão magníficas obras de arte. Pois elas se referem ao Universo e a tudo que existe além dele. Enquanto alguma coisa houver, em vez de simplesmente haver nada, elas serão magníficas obras de Arte.
E não creiam que sejam tão raras. E tão difíceis de reconhecer. O homem que reconhece a obra de Arte chama-se o Artista. E tem muito artista por aí. Voce, com tuas nuvens de ferrugem, tua versão 2000 das paredes de Lascaux, é um deles. Toda geração que veio dos anos 60, que envolve nomes como Cilso, Gerchmann, Vergara, Antonio, Antonio Manuel, Barrio, e mais no mínimo duas dezena de outros também. Não é todo dia. mas de vez em quando acontece. E uma vez Artista, como torcedor do Flamengo, sempre Artista.”
O Zé delirava em calmo entusiasmo, como é de seu estilo:
-“Por que onde começa o abstracionismo e termina a figuração? A pintura ela mesma é uma abstração, a Arte é uma abstração, o mundo e a consciencia são abstrações.”
-“Todo delirio é real, este é o melhor modo de pensar, para evitar o psicanalista”-preconizei. Um homem abre os olhos e codifica o mundo. Não sei o que é um girassol. É uma flor esquecida, um pouco obesa e desajeitada, que está ali no jardim em meio a outras, com pessoas passando por perto, indo e vindo. Não sei bem o que é um girassol, mas quando vejo o girassol que Van Gogh pintou, então sim, eu compreendo o que é um girassol..." O grande acontecimento na História da Pintura é sem duvida o advento da Fotografia, que a libera da função documentária e aponta para o abstracionismo como caminho quase obrigatório. Apesar de que a Pintura, enquanto Arte, nunca documentou nada. Ela respondeu sempre a uma eterna inquietação da humanidade, que nos assalta desde pequeninos: será que o que estou vendo é o mesmo que voce vê? O que eu chamo de vermelho, é o mesmo vermelho teu? Tua VISÃO do mundo é igual a minha? É o mesmo mundo que vemos, habitamos, vivemos? São perguntas de criança e de gente grande também. Observando um bom quadro, vejo o que o pintor vê, ou viu, ou quis ver enquanto pintava. Pela Arte, devasso o indevassável outro, penetro no impenetrável do outro. Sei que para El Grego, o mundo era alongado verticalmente, que para Modigliani as mulheres tinham pescoços de girafa e para Cezanne o ar era azul. E assim me sinto menos só.”
-“A arte contemporânea -disse o Zé- ela se propõe uma tarefa nobre. A de trazer para o mundo não a representação de uma coisa existente mas sim algo de novo, que não existia antes. Ninguem precisa entender um quadro. É coisa para os olhos verem. Por que ninguém reclama de que não entende uma musica???"



Chegamos ao Galpão.
Era uma Fábrica abandonada, assustadoramente vasta e, porque não dizê-lo, muito misteriosa. Eu avançava cauteloso por aqueles lugares escuros, o Zé me orientando, enquanto subia escadas e aravessava alpendres em direção ao quadro de luz. Enquanto isso me falava do seu trabalho:

“As vezes recebo um galerista no meu ateliê e me recuso a vender certo quadro. Não está pronto, digo, o galerista discorda. Mas não vendo. O quadro tem primeiro de espantar a mim, não importa que espante os outros. Se não, não está pronto. Também não deixo levar para casa por uma semana para ver se combina com os móveis -você acredita que me pedem isso?

Este galpão eu saí procurando e aluguei para poder fazer meus “monstros comedores de margaridas”, que vou expor no MAM. Era uma velha fábrica abandonada, onde repousam, talvez para sempre, restos de tudo: Pneus, madeiras, grandes galões ou engradados, até restos de desfiles de Carnaval. Coisas sem valor e esquecidas. Animais também, tem aqui, cachorro velho, gato, cabra, até cobra. Também restos humanos. Umas pessoas suadas e sujas, de bernudas e sem camisa, que dormem por aqui. Aparecem de manhã, me pedem 1 real para tomar café, vão no botequim, depois voltam pra cá e ficam por aí o dia inteiro, quase invisíveis... Devem estar dormindo em algum canto.
Também eu fico aqui o dia inteiro, enquanto meus monstros, alguns já pendurados, se formam.

E em dizendo isso meteu a mão no quadro de luz e desceu uma chave.
Tudo se iluminou de repente.
E lá estava eu, no meio do galpão diante das telas penduradas, com cordas e roldanas.
Telas de talvez 5 metros de altura, por 6 de comprimento. Meia dúzia de telas, formando um conjunto realmente enorme, um canto de outro mundo.

Por um momento eu não disse nada, sob o impacto daquela cena, a estranheza da experiência. Este momento se prolongou talvez por minutos, não sei. Os quadros eram muito bonitos e me silenciavam, assim como silenciavam o espaço. Devoravam-lhe o ar. E o pintor continuava a me contar coisas sobre seu trabalho. -“Cada quadro demora mais ou menos 90 dias para ficar pronto. Primeiro estendo a lona de caminhão. Depois coloco sobre ela, em camadas diferentes “a cabeleira”, a lã de aço, que vêm em bobinas que só eu tenho. Aí molho aquilo tudo (água) e espero a oxidação. Espero. Sem saber o que vai sair ali debaixo. Epero 30, 40 dias, dependendo das condições atmosféricas. Espero. Uma espera cega. Então retiro tudo e vejo o que a oxidação fez, o que resultou na lona. Então começo tudo de novo, desta vez exercendo certas escolhas. Coloco mais ali, menos aqui, cubro tudo de novo, de novo a cegueira. E espero o que a oxidação e o Tempo têm para me oferecer. Uns 90 dias depois descubro tudo e penduro. Eis o quadro, sobre o qual depois exerço outras modificações. Eis o quadro, instável, impermanente. O quadro. A espera é muito importante no meu trabalho, fica certamente impregnada nele. De alguma forma meu trabalho é sobre a Espera.


Mas a voz do Zé já soava para mim baixa e distante. Eu não ouvia mais as explicações, não tinha importância, os quadros não deixavam. Eu tinha sentimentos:

Memória, espera, Isolamento, Resto, Sobra, imperfeição, imprecisão ...Eram telas grandes, ou melhor, diante delas eu era pequeno. E me olhavam, abandonadas como todo resto. Os quadros eram a face férrea do mundo, a porta intransponível, a caverna do futuro, a cortina de ferro que impede o incêndio nos Teatros.
E devoravam meu tempo, minha vida, devoravam o meu abandono e o abandono daquele lugar. Súbito entendi o absolutamente título, aparentemente gratuito, que o Zé propunha... Eram monstros bobos. Comendo Margaridas. Margaridas do meu coração.

O Zé tambem estava calado, andava por ali a esmo, conhecia bem o lugar. O silêncio foi quebrado por mim:

-“Parabéns” -eu disse. Zé, é um bom trabalho. Só vendo, eu não fazia idéia. Não só seus quadros são gigantescos. As aventuras da Arte Contemporânea também. Aventura gigantesca...
Vocês são um bando de malucos, artistas, uns melhores, outros piores, mas todos experimentando na border line do ser humano. Brincalhões, sem medo de ser incopreendidos, de ser criticados por um idiota plástico qualquer... Uma turma elegante e charmosa, braviamente tentando livrar-se das teias poderosas do Realismo. Atacando com os dentes tudo que foi sacralizado, indo ao limite do esforço para entrar no perigoso curto-circuito com o inconsciente. As vezes acertando, na maior parte das vezes errando, mas sempre, tentando e tentando sempre a mais silenciosa, a mais meditativa das artes, uma arte talvez mais sublime que a própria sonora música: aquela que não existe no escuro, feita para a Luz e para o Olhar Humano. Bela aventura essa tal da Arte Contemporânea. Sem dúvida melhor do que trabalhar.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

INÉDITO: IPÊ


Atualmente não me sai da cabeça a vontade de fazer um filme realmente marginal. Com câmera dos amigos,câmera de telefone, máquina fotográfica etc, com um único carro da produção, e cinco pessoas no máximo da equipe, porque 5 é o que cabe em um carro. Já postei o "Balão" outro dia. E agora vai, ainda sem roteirização, o IPÊ: uma reflexão sobre a arte contemporânea... Em 2 sequências.


sequência 1:
O IDIOTA PLASTICO
Interior noite num
Restaurante de luxo da zona sul

encontrei o idiota plástico jogado no fundo de uma mesa de um restaurante, onde eu tinha marcado encontro com o pintor contemporâneo ze bechara. ip, o idiota plástico, é uma figura muito conhecida nos bares cariocas, depois das onze. gosto dele, do idiota plástico, apesar de que as vezes bebe muito e fica inconveniente. ou melhor, ele sempre bebe muito e fica inconveniente. mas é um solitário. era setembro de 98, eu tinha marcado um encontro com o zé. o zé preparava então a exposição que fez em outubro no mam, e queria de qualquer jeito que eu visse os trabalhos ainda no ateliê. tinha tido uma idéia sobre o titulo geral do trabalho e queria me consultar a respeito. mas tinha acabado de me celular para avisar que estava uma hora atrasado. estava esperando a babá para deixar a filha, motivo justo.não disse nada mas achei que o acaso tinha obrado bem aquela noite e sentei-me à mesa do idiota plástico. talvez ele pudesse me ensinar alguma coisa sobre a arte contemporânea que depois me ajudasse no papo com o ze. o idiota plástico, todo mundo sabe, agride compulsoriamente qualquer um que senta na mesa dele. pricipalmente artistas contemporâneos, mas tambem teatrógos, cineastas, poetas. seu oficio é esculhambar , agredir é o seu destino, não sei por que gosto dele. ele proprio se nominou:

IP - “Somos muitos no mundo plagiando Nelson Rodrigues, agora quero ser conhecido como o idiota plastico, mas podem me chamar de IP. Não que eu não tenha desmaiado na minha juventude com os meninos azul e rosa de Picasso, enlouquecido com Cezanne, Van Gogh foi pra mim mais que o Kirk Douglas, El Greco me inundou de mistério e até pintor eu já quis ser....Mas já não me agradei tanto de Klee e Mondrian...- confessa o IP abrindo seu sorriso de Jack (Nicholson) - e daí por diante a grande parte de tudo que fizeram me parece esquisito. Ou seja, sou um idiota plastico.” –disse ele dando um gole no seu Jack (Daniels) sem gelo.

IP -“Penso que o abstracionismo é um tipo de perversão.Ficar pintando coisa nenhuma, com tanta coisa bonita pra pintar, meu Deus, meu Deus...”

notei imediatamente que a garrafa de jack já estava pela metade. e que o nosso amigo devia andar solteiro , tal a acuidade com que examinava cada mulher que chegava ao bar. mas como não parava de falar, servi-me tambem do uisque e continuei ali, me distraindo:

IP - -“Gosto muito do trabalho do Bechara, não pensem que não gosto. Aquele menino vai longe.Cada vez mais quadros desse tipo valem milhões- continuou ele. Os ricos compram muito, para botar em hall de elevadores e até nas salas de visita- o que me faz pensar que a Arte Contemporânea é uma coisa inventada pelos Ricos. Como todo mundo sabe, os ricos são, de modo geral, imbecis. E sendo ricos têm necessidade de inventar novos brinquedos. Valores, para poder especular com eles , assim, divertir-se ricamente. É disso que vive a Arte Contemporânea. Jazz , rico tambem gosta muito. E Jazz é uma coisa chatissima. São artes pouco afirmativas, eu acho, então Rico gosta.” Ele estava realmente se esforçando para ser o mais desagradavel possivel. senti um leve arrependimento de ter sentado ali.. o ip notou, estremeceu de medo de ficar sozinho no bar e então , em vez de aliviar,atacou mais forte:

“Impostura,Dominguinhos.. A Impostura ronda o Arte Contemporânea. Nada contra. A impostura tem o seu lugar, cria uma turbulência saudavel.”.

“ Tem muito rico inteligente.”

“ Só aqueles que compram os quadros do Bechara”

A esta altura chegou o macarrão que I.P. tinha pedido e ele tentava come-lo com a maior dificuldade, porque não é facil filosofar e comer macarrão ao mesmo tempo. Uma mocinha morena, vestida de preto, com muitas pernas e outros pedaços de corpo clamando atenção, sentou-se numa mesa por perto. Só I.P não viu, preocupado que estava com a demolição da Arte Contemporânea:

“Mas quando eu leio no jornal ( só para citar um exemplo estrangeiro) que a ultima moda em Londres e cheat-art , o pintor pinta usando seu proprio cocô em vez de tinta e mais ,pinta com as mãos . Esse cara,famosérrimo, não me lembro o nome , tinha feito há alguns anos uma cabeça dele usando o próprio sangue que ia retirando aos poucos e que pra não coagular precisava de uma carissima parafernalia tecnica . Acho que chamava “blood head”. Agora fez um cheat-head, acho mais adequado. Depois não sei se lava as mãos ou expõe no museu. Ou seja , my God, quando ouço essas estórias tambem.empalideço e de novo reafirmo orgulhosamente minha idiotia plastica.E desculpe esse negocio do cocô, sei que não é assunto para restaurante”

Para mim, um ignorante do movimento recente dessas atividades,perguntei:-“Mas porque eles fazem isso? Certamente é para tentar a desmoralizacão do museu , questionar a autoridade do espaço oficial....

-“ Mas eles vão ficar quanto tempo desmoralizando o museu ? Duchamp já fazia isso em 1926. Coisa mais antiga ! Eu é que não vou ver um quadro de merda. Entenda bem , Domingos, não tô dizendo que o pessoal não é legal , nem que tá fazendo de sacanagem. Mas não sei se são propriamente artistas, no sentido lato da palavra” ( apedrejou com firmesa, chegando ao ponto.) “Quer dizer são quase artistas ,mas não completamente( disse num esgar,, começando a reparar na garota de preto.)

-Reenchi meu copo, a situação era tensa, se o Zé estivesse ali começaria a ficar puto..Dizer para um cara que se acha artista que ele não é, é o mesmo que passar a mão na bunda da mãe dele. IP no entanto insitiu na tecla:

-“ Artistas, artistas propriamente, não são não. Têm outras profissões correlatas”.

-Prosseguiu IP, disposto a teorizar

- “São 6 (seis) categorias, segundo meus estudos”(disse tomando um gole de engasgar qualquer um. E declinou com o maior prazer, certo de estar dizendo um piadão.)


-“ Temos os (1) simbólogos,
(2)os novidadeiros evolutivos,
(3)os chocadores de burgueses
(4)os Defensores da Liberdade,
isto para não falar nos (5) incompetentes plásticos
nem nos os (6) cenógrafos sem peça.

- Achei curioso aquilo. Tendo a achar curioso qualquer coisa. Olhei para o relogio, o Zé devia estar chegando. .IP falava quase sem pausas e continuava a sorver uisque com macarrão. E, mais que isso, a morena começava a prestar atenção nele (IP fala alto). Pensei em ir esperar o Ze la embaixo,mas não fui, confesso, estava interessado na catilinaria do IP..

-“Vai lá, idiota, continua!”-disse. (Eu tinha intimidade para chama-lo apenas pelo primeiro nome. Ele continuou, com uma logica digna do velho Gert Bornhei)


-“É importante criar simbolos, sem eles não se pode entender o mundo de hoje. Exemplo barato: pinto com pó de sangue em vez de tinta. É sem duvida um simbolo obvio do meu tipo de entrega à arte. Boto o retrato de meu pai numa redoma de vidro, construo um livro sem palavras, boto um dado dentro de um novelo de lã. Simbolos,facilmente compreensíveis . Interessante. nada contra.
Apesar de que a arte,Arte, não faz isso”- fez um silencio perigoso ao mesmo tempo que notava a tatuagem que a morena tinha -
“A Arte não resume nada , não é simbolo de nada. Quando Beethoven faz a Pastoral, não descreve e explica a floresta, porem o espirito da Floresta, de todas as florestas. A essencia da Floresta. A verdadeira Arte, se é simbolo, é um simbolo do tôdo”

O IP de vez em quando falava bonito,de vez em quando até se emocionava, porisso era dificil manda-lo à merda.. Eu sorri tambem para a morena, e IP prosseguiu a catalogação:

-“Os novidadeiros evolutivos vendem a mãe por uma novidade, algo que antes ninguem fez ainda. Cortam um boi ao meio, põe um tubarão dentro de um aquario, se penduram com anzois no meio do salão, arrebentam o piso do salão. Repito, não fazem isso de sacanagem, eles têm uma filosofia. Acreditam realmente que a Arte sofre uma evolução- acho que foi Mondrian que veio com essa pela primeira vez- e que Deus os incumbiu desta missão. por isto. É um engano, evidentemente, por vezes fertil. Não tem sentido na Arte o conceito de progresso, não há evolução na Arte, há quatro mil anos ou hoje, para a Arte é o mesmo.”

“Os chocadores de burgueses talvez sejam os mais divertidos, moleques. Botam em exposição xoxotas coloridas, todo o arsenal dos Sex-shops, excrementos ,palavrões, todo tipo de ofensas a religião, moral, familia, civismo etc. Chocar burguês sempre foi um dos divertimentos maiores do artista, é um grande barato! Estou com vontade de fazer uma instalação com buracos indicando, “burgueses, dedos aqui”. Ai eles enfiam, levam um choque eletrico. Piada sem graça , eu sei.”.

Agora já quase irmão gemeo do J.Nicholson, IP convida a garota para sentar conosco. Ela aceita e imediatamente descobrimos quem é. Trata-se de uma modelo estudante de filosofia e participante de um grupo de estudos sobre colagem antropofágica, pele muito branca e bastante vulgar,embora gostosíssima.

Agora IP só falava com ela, mas sem perder o fio da meada:
-“Os defensores da liberdade são igualmente uma gente formidavel! Posso colocar alguns elefantes com pinceis na tromba pintando paredes, ou entrar nu na galeria e fazer xixi num chão verde e amarelo, ou mostrar minha bunda pendurada na escotilha de uma nave espacial.. É a afirmação que um Artista pode tudo, que nada lhe é proibido, que a mais brilhante regra antiga não é nada para ele,que, enfim, que sua liberdade é total, como queria Sartre! Isso é bacana. É o que fez Godard com o Cinema, livrando assim para todo o sempre a cara dos cineastas de muitas chateações...
Tento colaborar, pela primeira vez:
“-Existem dois tipos de liberdade : a Liberdade 1 em que o artista prova que tudo lhe é permitido. E a Liberdade 2 , onde o Artista, porque assim exige a sua liberdade, porque quer, entrega toda a massaroca de liberdade 1...aos outros, ao publico. A Liberdade 1 gerou inumeras formidaveis obras de Arte, mas Maiores e mais genuinas provêm sem duvida da Liberdade 2.”
-“ Godard é maravilhoso, mas nunca será Fellini ou Dostoievski! “- continua IP bastante agressivo, do ponto em que estava, como se eu não tivesse dito nada.Dessa vez quase que falando diretamente para as coxas da dama de preto, ele tenta concluir:
- “A grande parte da Arte Contemporânea que vejo nos museus ( aonde vou pouco, porque é muito chato) são mais lições de liberdade que obras de Arte propriamente ditas. É importante dar lições liberdade,num mundo tão reprimido , mas, alem de ser muito chato. não é Arte!!! Nada contra .E gosto muto do trabalho do Bechara, pode dizer pra ele Aquela coisa da lã de aço enferrujado muito interessante..Não pode cortar o dedo, que dá tétano.”
A modelo está fascinada, concorda , ri . IP icentivado redobra:
“-Ensina o Ferreira Gullar, conhecido até bem pouco tempo como “o gatão”, que foi Picasso o culpado do inicio de toda zona! No dia em que colou num quadro um selo postal, afirmando assim que nem tudo que está num quadro foi o pintor que fez. Assim agindo, transformou o quadro em objeto. Passo pelo bosque – será que tem um bosque por aqui?- e vejo uma pedra bonita. Trago e coloco na exposição, ganho o prêmio. O artista é aquele que faz? Mas não é tambem o que acha? Duchamp ,quase que imediatamente trouxe o urinol . Nada mais correto, Duchamp é um gênio. Se arte é objeto , objeto é arte. A faxineira da Galeria esquece num canto a vassoura e o balde, a exposição abre e ela ganha o primeiro prêmio. Já tem vinte pessoas reunidas ao redor.
IP está decidido a liquidar o macarrão teimoso que cai do garfo. Fala mesmo de boca cheia:
“Os incompetentes plasticos”- diz ele, tentando desenhar uma caricatura da garota na toalha da mesa – “O pintor figurativo tem de saber desenhar, entrar numa intimidade muito maior que a dos médicos com a anatomia humana. São estudos árduos, mais que isso, que exigem vocação. Mamãe uma vez me bota um professor particular desenho, eu não tenho jeito,é dinheiro jogado fora, que me resta? O abstracionismo. Será o abstracionismo uma incompetencia? Será que eles são abstratos porque não sabem fazer o figurativo? A arte conceitual ( não tenho nem direito de usar esta expressão tecnica, sou um idiota plastico) , aquela que leva o artista a criar quando “tem uma boa idéia”...é mais um “mind game” que propriamente ela mesma, a Arte. São trabalhos criados a partir de um tesão intelectual. Ao passo que a outra,a Arte eterna, provém sempre de um irresistivel desejo. Como aquele que um homem tem por sua mulher amada”.
Bem, com essa ele comeu a garota, ficou decidido ali! IP pediu a conta sem cafe, riscou a caricatura que não conseguiu fazer e finalizou calmamente:
“- E os cenografos sem peça, que é a turma das instalações. Empilham bodes em engradados, passam videos como na MTV, , esticam fios, enchem o lugar de quinquilharias curiosas, fazem salas de paredes brancas vazias só que as paredes se movem um pouquinho. Parque de diversões pouco eletrizantes.. Cenarios., por vezes bonitos cenarios . Que ficariam melhor com uma peça de Teatro ali dentro, se autor tivesse a paciencia de escrever. Apesar de que Teatro é uma coisa chatissima.”- disse , dessa vez olhando fundo nos MEUS olhos..
Bom. Aquilo era demais. Resolvi defender os artistas plasticos, em nome do Bechara que não estava atrasado e sim atrasadissimo. -“Chatissimo é você” - falei. Não precisa de peça porque não é Teatro.! Uma boa instalação é uma experiencia estética,sensorial, que prescinde de narrativa, é uma experiencia medidativa , sem carater espetacular...Quanto aos simbolos, é uma coisa interessante. Eles chamam de pintar pensamentos. Se eu olho para o novelo de lã que sei ter um dado dentro(Duchamp) , sou obrigado o a pensar imediatamente na complexidade da vida ( novelo) tendo em seu bôjo o acaso (dado). Ou qualquer leitura parecida , mas não muito diferente disso”.
Daí em diante começou um tiroteio:
IP -EnTão porque o Duchamp não diz isso logo para voce em vez de botar no museu?
DO -Porque é mais indireto me provocar a ideia em mim que me dizer!.
IP -Grandes coisas
DO -O que?
IP -. Não vamos comparar isso a um ceu de El Greco por amor de Deus”.
DO -Não estou comparando. E os novidadeiros?. Que que voce tem contra a novidade?O novo tem que ser buscado. Ele estimula, alegra.
IP -Novidade loja é que tem de Ter, pra vender melhor. Coisa pra mulher desocupada. Artista prefere o perene.
DO -Quanto a chocar os burgueses, é uma demanda social,obrigatoria, senão eles permanecem dormindo.
IP -E roncam muito.
DO -Os defensores da liberdade ampliam horizontes, liberam costumes.Quanto a não saber desenhar, isso é muito relativo. Michelangelo disse que Velasquez desenha mal...
IP -Picasso disse que aos 14 pintava como Rafael.
DO - Que ficar esculhambando as coisas com palavras é muito facil, IP! .Tudo é facilmente esculhambavel com palavras, voce que é um especialista sabe!. Quadro tem de ver, instalação tem de ver, é pro olho. Voce vai aos museus e galerias? Voce vê essas coisas que voce esculhamba?
IP responde pagando a conta, a parte dele naturalmente:-“ Nunca , é claro !Não tenho saco de ir a Museu, só ouço falar. Mas do trabalho do Zé Bechara eu gosto”.
Quando vi , estavamos descendo a escada do restaurante em desabalada corrida , eu atras de IP e da morena branca, sendo que agora era eu que falava sem parar:”- Idiota,voce é mesmo um idiota. Em primeiro lugar voce está generalizando Alem disso voce toma como referência uma Arte que o mundo já consagrou,para falar de uma arte de hoje que o olho comum ainda não teve tempo de digerir!”
IP -“O trabalho do Zé é ótimo, balbuciava varias vezes IP, entre um degrau e outro.”Nunca vi ,mas é ótimo”
DO -“Degas, Monet, Pizarro, Manet levaram dez anos tentando convencer a critica e o publico, do valor do se trabalho. Se voce vivesse no inicio do século, IP, estaria dizendo os impressionistas não são, realmente artistas...
IP -“Jamais . O trabalho do Zé é ótimo, dá um beijo nele.”. Já chegavamos lá fora , o manobreiro estava pegando o carro do IP, a modelo branca tatuada sempre na frente. Discuti por honra da firma até eles entrarem no carro:
DO -“Qualquer um pode reduzir a nada qualquer coisa, aqueles borrões vermelhos de Matisse e seus peixes deformados, os erros de escala de Goya,...
“Da janela do carro , IP pediu desculpas: “Domingos, não vai se zangar comigo, acho voce o maior, dizem que voce faz o melhor Teatro do Rio de Janeiro e eu não sei viver sem voce , embora eu nunca vá ao Teatro, porque fora voce, o Teatro é chatissimo”
Nesse momento ele acendeu os farois .Que incidiram sobre uma figura conhecida e sorridente: O Zé tinha chegado. Ele tambem conhecia o IP, quen não conhecia ? Veio cumorimentar:
-“Ô Domingos, desculpe o atrazo. Tá bom IP?”
-“Tô ótimo. Conhece a minha prima – a morena sorriu sacana –Eu tava agora mesmo batendo um papo otimo ai com teu amigo e dizendo que teu trabalho ta cada vez melhor.”
-“Obrigado. Vou te convidar pra proxima exposição”
- “Voce conhece a estoria do Robert Mitchum? – disse o IP , olhando para mim e colocando a chave na ignição. Robert Mitchum,aquele ator de Hollywood dos anos 50 que ficou famoso porque foi o primeiro cara preso por fumar maconha?”
“Não conheço, ”- disse o Bechara, sem entender bem.“Vou contar pra voces, porque tem tudo a ver com a conversa que eu tava tendo como o Domingos.. Numa entrevista pediram ao R. Mitchum pra falar da profissão do Ator. Ele então disse que era uma profissão muito dura, onde se ganha pouco, não são respeitados horarios de trabalho, voce tem sua privacidade invadida, fica exposto à critica de qualquer idiota como eu, não tem garantias na velhice...mas enfim, é melhor do que trabalhar!”
Rindo muito e a morena tambem, arrancou o carro.. O Zé tambem tinha achado muita graça, eu graça nenhuma.
-Esse IP, impagavel.... Te alugou muito?
-Muito, mas foi interessante.
-Que cara séria, Domingos! Como é, vamos ou não vamos a S. Cristovão? Voce tá de carro? Vamos no meu carro.

SEQUÊNCIA 2 NA PRÓXIMA POSTAGEM

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Material da Bravo!





















Blog
Outro dia compreendi o que é um blog. Por isso eu resolvi aceitar este por um mês.
É uma coisa muito mais importante do que eu tenho pensado. É um jeito das pessoas seguirem o pensamento das outras. Do jeito que ele é. Descontínuo. Desordenado. Casual. É uma espécie de diário do escritor do blog. Selecionado aquilo que pode interessar a todos. E a meta do blog é “fazer amigos e influenciar pessoas”, título de um livro do meu tempo que fez um sucesso danado, acho que foi o primeiro de auto-ajuda. Dale Carnegie.

Arte
Também eu tenho vontade de escrever um livro de auto-ajuda, confesso. Só não gosto da expressão. Toda arte ajuda. É para isso que a arte existe, para ajudar. Se vejo um filme ou uma peça que não aprendo nada, que não me faça viver melhor, acho ruim o filme ou a peça. Duvido muito do pessimismo. Em geral, ele pode ser resolvido na psicanálise. Não é uma atitude filosófica, é uma fraqueza. Claro que o otimismo não pode ser cego, a glória não pode esquecer o terror. Entre esses dois oscilamos, pêndulos com alma. Mas ultimamente vejo com grande freqüência filmes e peças que não contém nenhum rastro de esperança, nenhuma indicação de saída. Não é arte isso.

Dramaturgia


Águas turvas
Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque não sejam filósofos.
Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)
Cinema
Não vejo um filme bom há muito tempo, ando exigentíssimo.
Estou muito interessado nos italianos contemporâneos. Pelo menos alguns deles fazem lembrar o grande cinema italiano, filmando em Cine Cittá e tudo.
Gosto muito de L’ultimo Baccio, (“O último beijo”), Um Cuor ALtrove” (“Coração para amar”) e recentemente “Estamos bem sem você”. Os dois primeiros estão em cineclubes. Vejam. Fora isso, o Bardén no filme dos Cohen, é a melhor figura do mal que o cinema já criou. O filme é ótimo, exibe excelente cinematografia, embora turve as águas no final. Poderia ser um grande filme.E NÃO ACRDEITO M ‘VIDA DOS OUTROS”,FAJUTISSIMO É humilhante ser cineasta brasileiro. TENHO DOIS FILMES PRONTOS EM CASA
Dança

O último Débora Colker é interessantérrimo. Buscando descrever a contemporaneidade, a danada pesquisou durante dois anos os gestos tortos e movimentos assimétricos, criando um espetáculo “cruel”, de grande audácia e beleza. Mas já saiu de cartaz. A companhia vai para o Japão, lotam teatros aqui e no exterior. Não é para qualquer um. Claro SÃO abominados por grande parte do pessoal da dança conceituaL LOCAL.
Currículo
Me parece que o blog, afinal, filho do site, deve conter currículo do bloguista. Nasci em 36 (não faça a conta de quantos anos eu tenho),
sofri um bocado na mão da minha mãe possessiva, a saudosíssima Carmelita. Aos 13, 14 anos comecei a fazer teatro no colégio. Minha primeira peça data de 48. Ou seja, há exatamente 50 anos. Ninguém a conhece de modo que a publico aqui para fechar esse primeiro dia de blog. Não leve a mal. Hoje em dia me esforço muitíssimo para que minha obra não pareça séria. Mas jovem eu professava também o esporte espiritual PREDILETO da juventude: a auto-piedade. Mas leiam!!! Achei o original outro dia. GOSTEI, o rapaz tem talento.









ORAÇÃO DIANTE DE UM FILHO MORTO

De Domingos J. S. de Oliveira

Escrito em maio de 58.

À Bolinha,
Que me levou um pedaço de mim.

CASA DE CAMPONESES.
AMANHECEU. A MÃE ARRUMA A MESA DA PRIMEIRA REFEIÇÃO.
ENTRA O FILHO, SENTA-SE PARA COMER.

MÃE – Ainda não. Espere seu pai.

O MENINO TEM UMA ATIRADEIRA EM VOLTA DO PESCOÇO. A MÃE TIRA E PENDURA NUM PREGO DA PAREDE.
ENTRA O PAI, DESPE E PENDURA O CASACO DE TRABLHO. SENTA-SE À MESA.
OS TRÊS BAIXAM A CABEÇA.

PAI – Senhor
À ti agradecemos a comida que nos dás hoje
E também as forças que nos deste para tirá-la da tua terra
E também a terra
Bem como a casa
E a paz que sobre ela reina.

COMEM A REFEIÇÃO RAPIDAMENTE.
O MENINO ACABA PRIMEIRO, LEVANTA-SE E VAI APANHAR A ATIRADEIRA. O PREGO É ALTO PARA ELE. PULA UMA VEZ, OUTRA. NA TERCEIRA SEU PEQUENO CORPO ESTREMECE E ELE CAI. A MÃE CORRE, O PAI TAMBÉM, TOMAM-NO NOS BRAÇOS,S ACODEM, CHAMAM, MAS É EM VÃO. O PAI COLA O ROSTO NO SEU PEITO.

PAI – O coração parou!

MÃE- Meu filho!

PAI – Morreu...

A CENA APAGA-SE AOS POUCOS.
ACENDE-SE AOS POUCOS, MAS NÃO TOTALMENTE. É NOITE E O CORPO DO FILHO MORTO JAZ NO CHÃO, CENTRO DO PALCO. O SILÊNCIO É VARADO PELO PRANTO CONTÍNUO.

MÃE – Morreu...

PAI – Morreu...

MÃE – Meu único filho. O único

PAI – Eu não posso acreditar.

MÃE – Morreu.

PAI – Morreu.

MÃE – Sem ele...

PAI – Se tivéssemos um outro...

MÃE – Por que, meu Deus, por quê?

PAI – Deus!

MÃE – Nunca pensei!

PAI – Eu também, nunca pensei.

MÃE – Ele sabe o que faz.

PAI – Estou tão cansado...

MÃE – Queria guardar... as coisas que eram dele...

MÃE – Logo o levarão.

PAI – Temos pouco tempo...

PAI – Nunca apensei que fosse tão pouco.

MÃE – Meu filho! Sozinho, morto, sozinho!

PAI – Coragem.

MÃE – Deus sabe o que faz.

PAI – Temos de nos convencer que é verdade, que ele morreu.

MÃE – Meu filhinho, tão pequeno... Por que ele, senhor? Porquê? (CHORA)

PAI – Que fiz eu, senhor? Sempre fui como tu querias. As coisas eu amei, sempre que pude. As crianças, os animais, teu mundo, os pobres, todos eu amei. Que mais, senhor. Que mais podia eu fazer?

MÃE – Nosso filho está no céu, perto dele, perto do Senhor.

PAI – No céu.

MÃE – Um dia o veremos.

SILÊNCIO.

PAI – Senhor, perdoa-me, se levanto minha voz para duvidar de Ti. Mas é preciso que me ajudes, porque eu perdi meu filho. Quero acreditar, senhor, no campo verde que nos prometeste, onde brincam as crianças mortas ao lado de Teus anjos. Mas, senhor, três coisas somente fazia esta criancinha na vida: comia, dormia e m amava. Comida Teus campos têm, e muita. Sono, Tu mesmo o ninarás. Mas eu, Senhor, eu? Isso Tu não podes dar! Levai-me então, senhor, levai-me também!

MÃE – Ó vida... desgraçada... sem paz.

PAI – Por que me tiraste o que é meu? O que fiz?

CHORAM MUITO, PORÉM CADA VEZ MENOS, ATÉ O SILÊNCIO

MÃE – Não quero, marido, não quero viver sem ele.

PAI – Eu também não.

SILÊNCIO.

MÃE – Talvez... depois... nos encontraremos os três, no céu.

PAI – Não, mulher. Ele morreu. Nunca mais o veremos.

MÃE – Coragem, marido. Ainda temos um ao outro.

PAI – Mas continuar a viver... sem meu filho... será a tristeza até o fim.

MÃE – Não é possível que seja só isso.

PAI – Você acredita no céu?

MÃE – Nãos ei.

PAI – Eu não acredito.

RELÂMPAGO E TROVÃO. A FÚRIA DOS ELEMENTOS OS AÇOITA. A MÃE CAI AJOELHADA INDEFESA, MAS O PAI ENFRENTA.

PAI – Não temo, senhor! Um filho morreu! Não temo! Eu não acredito, não temo!

O TROVÃO DIMINUI DE INTENSIDADE.

PAI – Como pude eu um dia acreditar na tua bondade, na tua arrogante sabedoria, eu, que tenho um filho morto nos braços! Não peço uma vida feliz, Senhor! Sou um homem humilde. Eu peço, senhor, o inferno! Se é isso que tu queres! Que rasguem minha carne, que minha voz se transforme num uivo, que as pessoas que eu amo me desprezem, me cuspam no rosto, mas DEIXA-ME AMAR, SENHOR! Afasta de mim a Morte, a Morte que me tira os mus... eu não quero morrer, Senhor. Mesmo sem um filho, quero viver. Tenho minha mulher, que me ama. Por ela eu quero viver. Mas também ela, senhor, e Tu sabe, também ela eu deixarei um dia submissa a Teus pés. Tenho meu campo, ainda por cultivar. Quanto mais nada eu tiver, a ele darei meus esforços. Se a chuva inundá-lo, se um fogo descuidado comer a colheita, me fizer recuar e trancar-me na mais pequena parte da minha casa, ainda assim não me queixarei. Enquanto para uma pedra eu puder olhar, e lembrar que com ela brincou meu filho, nele tocou minha mulher, passou o arado com que eu arava meu campo, não me queixarei. Será aí que tu virás, com tua mão pesada, me esmagares! E dirás: toma, a treva, é tua! Não, senhor, não creio nos teus campos verdes (são tão pequenos e escuros os meus).

LUZES SE APAGAM.
LUZES SE ACENDEM. AMANHECE. CANSADOS, DIANTE DO CORPO, O PAI E A MÃE.

MÃE – Há algum tempo passou por aqui um viajante, desses que correm o mundo, e me contou uma história. Ele viajara por uma terra tão rica e tão boa que tudo nasce nela sem que seja preciso plantar uma semente.

PAI – Nossa terra também é boa.

MÃE – Se nossa terra fosse boa assim, não precisaríamos trabalhar tanto. Lá, todos vivem bem. O mais pobre tem seu campo.

PAI – Toda minha vida eu trabalhei.

MÃE – Mas já me sinto cansada...

PAI – Não deve existir terra nenhuma. Esses viajantes sem profissão mentem muito.

MÃE – Talvez exista. Já foi verdade tanta coisa em que não acreditávamos.

PAI – Talvez.

SILÊNCIO.

MÃE – AMANHECEU.

PAI – Estou tão cansado.

SILÊNCIO.

PAI – O corpo me dói.

MÃE – Vai descansar um pouco. Vem.

ELA LEVANTA, AJUDA-O A LEVANTAR-SE E SAI COM ELE. NO PALCO FICA O PEQUENO CORPO MORTO.

(PANO)

Blog 2
Essa é minha segunda postagem neste blog. Sabem que ele já me foi útil? Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

passado. O início.
AQUELE HOMEM, isto é Domingos Oliveira, isto é, eu - aquele homem nasce num dia 28 de setembro de 1936, em Botafogo, na Rua da Matriz, cidade do Rio de Janeiro.






Dizem que se recusava a respirar o ar do mundo, embora fosse devidamente espancado pelo parteiro. Que então foi atirado numa bacia. De onde um instante depois retirado por um tio médico que, mediante inesperado, vigoroso e certeiro golpe de mão espalmada, concedeu-lhe o direito de viver. Parto portanto tortuoso, ao qual a mãe sobreviveu a duras penas, segundo os relatos familiares.

De minha infância não recordo nada.
E desperto para o mundo da minha própria consciência apenas na adolescência, aos 15 ou dezesseis anos de idade.

Esta sensação de borracha-passada-nos-anos, de treva baixada sobre os luminosos-primeiros-dias, é como sinto o início da minha vida. Esparsos instantes acendem-se na memória perdida:

Mãos descarnadas de uma empregada preta e velha,chamada Olivia, baixadas sobre um prato cheio de feijão preto e arroz, para retirar o excesso de caldo sem deixar cair o feijão e arroz. Feijão e arroz que eu seria obrigado a comer. E que comeria, aterrorizado, certo de estar ingerindo a própria doença das mãos descarnadas, envenenando-me.Com o estômago revoltado como até hoje me revolto

A figura de um jardineiro imenso e vigoroso, que me dizia e convencia, ao mesmo tempo que exigia segredo, ser todo o cimento do jardim (o jardim era enorme todo coberto de cimento-ai minha cabeça! - a tampa do subterrâneo, onde viviam os jacarés famintos, que podiam ser vistos através dos ralos, se alguém tivesse coragem de olhar. E eu certamente não tinha !

Os pratos separados. Os talheres separados. O primo Carlinhos, que ia morrer de tuberculose, de quem eu não podia chegar perto, senão também eu ia morrer. Mas que um dia me foi permitido olhar. De longe, na varanda. Sentado na cadeira de vime branco, pálido e espiritual, de olhos translúcidos e bondosos enquanto os de minha mãe marejavam. E o primo Carlinhos me olha, belo, com olhar que não era o da Morte e sim da Bondade. E a o de minha mãe que me pega pelo braço, para me tirar dali.

Meu avô José, mais nobre e querida das memórias ! José que um dia ficou rico com os lucros de uma fábrica de barbantes. O José Pereira, de bigodes opulentos e másculos. Roubava-me da minha mãe, para minha alegria, e me levava para dormir com ele. Na cama imensa do lençol com perfume , do colchão macio que dava vontade de pular. O avô José.

Que me ensinou a rezar e a cantar para a santa, onde a caixinha de música repetia: avê, avê, avê Mariá ... Eu ajoelhado,ele me ensinando a botar juntas minhas mãos, em prece.








PRESENTE
Outro dia entrevistei Felipe Hirsh, o famoso diretor de teatro. Vi alguns de seus espetáculos. São admiráveis sem dúvida, do ponto de vista técnico e plástico. Ele é um verdadeiro mestre. Mas nunca me agradou inteiramente. Por causa dos textos, ou melhor, dos temas dos textos. Como vários outros diretores de vanguarda, seus textos sempre versaram sobre os valores duros da vida. Tédio, falta de sentido, a incomunicação, a inexistência do verdadeiro amor etc. E muito pouca ou nenhuma esperança. Pois é. Detesto esse tipo de texto. Por mais valores outros que eles possam ter. Porque creio que a arte é uma coisa da vida. É auto-ajuda, para ajudar a viver. É diversão e ensinamento, como dizia Brecht. Se uma peça ou um filme, um quadro ou um livro, não me ensinam a viver melhor, não os considero grande arte. É queixume, auto-piedade, lamentação. Às vezes belo mas não é arte. Sei que esse é um ponto de vista radical, porém sou um velho turrão. Penso assim e pronto.
Agora, no último Felipe Hirsch, “Não sobre o amor”, fiquei numa situação difícil. Adorei o espetáculo. Achei mesmo que talvez fosse o espetáculo mais bonito que já vi na vida. Equiparável apenas a alguns de Antunes ou Aderbal. Mas o texto tinha aquele negócio, aquela desesperança que não me interessa. Então, decidi entrevistar o Hirsch. Encontro um rapaz de 36 anos, para mim, um menino. Simpaticíssimo, humaníssimo, inteligente e inspirado. Seu discurso nada tinha a ver com aquilo que me desagradava no espetáculo. Então, tomei coragem e abri o jogo. Disse: Felipe, não gostei do texto. Nem de outros que você montou. Por que você não gosta de textos que apontem mais para o alto das montanhas, a grandeza do homem, a esperança, etc?
Há muito tempo eu queria fazer essa pergunta para os chamados diretores herméticos de vanguarda.
Por que você não faz, por exemplo, uma comédia comovente com todo o talento que você tem?
Felipe estava me olhando muito sério desde que comecei a pergunta. Então pegou no braço e me deu uma resposta histórica, exatamente o que eu queria ouvir. Subi pelas paredes de prazer e compreendi mais por que esses diretores geniais não escolhem bons textos. Felipe disse: Domingos, eu chego lá! E que por enquanto eu sou muito moço, sofro muito, a vida ainda me é difícil. Então trabalho com vários temas, o exílio, a solidão, o desamor, etc. Mas pretendo chegar um dia a ter um tema só em todas as minhas peças. Esse que você falou aí: o amor!
Estou convencido que o Hirsch se já não é, será um dos maiores diretores brasileiros de todos os tempos. Um homem que não mente. 120


Se Deus existe, o problema é dele. (Edu, coração de ouro)



Terceiro Post.

Presente.

Acabo de verificar que parte da minha postagem não entrou no blog. De modo que começo com elas.


Dramaturgia

}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque eu sejam filósofos
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Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)


Uma divida
Hoje começa uma homenagem que O Tablado resolveu me fazer. São 24 turmas lá. Todos vão montar somente textos meus, até o final do ano. O título da brincadeira é: “Investigação Sobre o Artista Acima de Qualquer Suspeita”. Pretendem fazer isso nos anos seguintes, com outros autores. Achei bacana. Não dá dinheiro, mas é uma honra, sem dúvida. Mais que isso, é a chance de ver como bate nos jovens toda essa escrivinhação que fiz ao longo da vida.
O jovem de hoje é muito diferente do da minha geração. “Em 68 jovens lutavam por ideais. Hoje, lutam por emprego.” Dizem os jornais. Repletos de estudos sobre o 68. Também eu tenho vontade de escrever sobre isso. A Revolução Hippie foi o evento social mais importante ocorrido na humanidade desde 1917. E ele ainda não foi realmente contado. Expressou-se em música divina, sem dúvida, mas não afirma nem em peça nem livro realmente bons sobre o assunto. É quase um segredo. Something Unspoken. O Bertolutti sobre o assunto, que não me lembro o nome, fui ver correndo. Mas quase não toca no assunto. O que houve ali, em 68, ou melhor, de 68 a 72, 73, foi uma tomada de consciência das potencialidades humanas. Da existência do paraíso. Da possibilidade concreta de mudar o mundo. De definir, apontar, destruir a mente formatada, o preconceito e a mentira, naquele tempo chamado de “caretice”. Era sério o negócio. E muito bonito!
Como tudo o que é bom, dura pouco. E não deixou saudades. Deixou esperanças. Pontos de reflexão. O novo pensamento, que nem um bom nome tem, o melhor é Contracultura, que parece coisa acadêmica, chegou ao Rio de verdade nos fins de 70. 68, pra nós, não tem barricadas na rua. E sim ato institucional.
Mas isso talvez não tenha sido mau. Quem viveu a colorida Contracultura em meio ao cinza-chumbo do golpe, pôde vê-la com uma especial nitidez.
Tento não ter vontade de escrever mais peças. Já bastam as que tenho prometido a mim mesmo. Mas sou até hoje hippie. Sei o que foi aquilo. Vou ter de contar, uma hora dessas. Da tempestade de besteiras que a esquerda, o Socialismo, cometeu, talvez a maior tenha sido a não-compreensão de que a Contracultura não é o seu oposto, e sim sua única continuação possível.
“Oh, boy. Você vai ter de carregar esse peso.”


Vi um filme ótimo em área 1 (DVD). Que não aconselho a ninguém ver. É uma porrada. Eu não sofria assim com um filme desde o “Dançando no Escuro”, que é outro insuportável. Estou falando do “O Escafando e A Borboleta”. É genial. Você vai sofrendo, sofrendo, com a certeza de que algo de bom vai acontecer... e não acontece! Então você apaga a televisão, está na hora de dormir. E sua alma está devorada, consumida. Acho que bons filmes não tinham o direito de ser assim. Em “Roma, Cidade Aberta”, por exemplo, o padre morre torturado e fuzilado. Mas atrás das grades do jardim, há crianças olhando. Que depois saem pela estrada da vida. Uma vez vi em Nova York (!!!) uma sessão dupla de cinema. Acabava “Roma, Cidade Aberta” e imediatamente começava “La Estrada”. Eram gente boa, Fellini e Rossellini. Embora acho que seja insidiosa com essa coisa da esperança. “Escafando” tem duas cenas tão bonitas que quase compensam a infinita dor. A da enfermeira que faz “falar” com um olho só, fala da compaixão. Depois outra, com o pai (Max Von Sidow) comenta diretamente a miséria da condição humana. Gostei muito do filme. Mas não aconselho ninguém a ir ver. Se eu não tivesse visto, não veria.


Passado:
Tenho 10 anos, ou oito.
Minha mãe doente. Ausente. O pânico, o medo. O momento em que me permitem vê-la, sem me aproximar. Minha mãe num porta entreaberta. Ela olha para mim, aponta,ela chora. No chão, quase debaixo da cama, aquilo que me lembro como uma bacia cheia de sangue. E fecham a porta, porque é impressionante para uma criança. Alguém me explica a doença de minha mãe. É um irmãozinho, que se perdeu, mas eu não tinha ouvido falar que ela estava grávida!

O portão, mil vezes olhado, por onde chegará meu avô (ou seria meu pai?) ,com o presente. O presente nosso da casa dia. Talvez fossem balas de côco.

E um dia, quando já não existia meu avô, vão sair meu pai e minha mãe para uma festa. Vestem-se de gala e aparecem, lindos, como nunca os vi, mas eu não quero que eles vão embora, menino chato. Choro, grito, esperneio. E quanto mais choro, grito e esperneio, mais corro o perigo do abandono. E quanto mais corro perigo, mais importante se torna o jogo, mais insuportável é suportar que meus pais saiam para a festa. Enfim, jogo a vida, e perco. E o choro vira soluço, e depois já nem cansa mais.

Que terei eu feito de tão errado? Escorregado pelo corrimão da escada da sala grande? Onde ninguém ia, onde o mármore do chão parecia um espelho, se não parecesse com o tabuleiro de xadrez? Não sei, não lembro da falta. E depois, como teria eu ido parar exatamente ali, naquele corredor escuro e amedrontador que conduz à capela, no coração da casa? Talvez estivessem me obrigando a caminhar ali, por aquele corredor, em direção à capela, simplesmente porque eu não quisesse e me recusasse a ir lá. Eu tinha tanto medo da capela, e dos santos dentro do santuário, por trás do vidro. Daquele lugar sem janelas, no coração e no centro da casa, onde todos tinham de ajoelhar-se naquela cadeira engraçada e grená, que não era para sentar e sim para ajoelhar. Onde ninguém falava alto e, ao menor descuido, ao leve acaso, Deus castigava? Me lembro apenas do corredor, que mil passos não atravessariam. De meu pai que me arrastava pela mão, e eu perdia o equilíbrio, e berrava, e ele mandava calar... e me batia, para que eu parasse de chorar! E doia tanto, era horrível a dor, posso senti-la até hoje. A mão dele em mim, doía e ardia, mais do que eu podia suportar. Talvez me furava e quebrava. Talvez me matava, em direção à capela. Meu pai, uma criatura tão bondosa e doce. Devem tê-lo enlouquecido, para que ele chegasse a me tratar assim, de modo tão covarde.

Havia um chofer bigodudo, seu Corrêa, português, que me falava umas tremendas sacanagens.

E houve o dia que eu não quis ficar no colégio. Meu avô José já tinha morrido há algum tempo, o luto ainda imperava na familia. Ele próprio tinha comprado para mim os quadradinhos com letras e eu logo pude perceber o mundo que havia por trás daquilo. Minha avó (é dos poucos contatos reais que me lembro ter tido com ela), ensinou-me uma ou duas vezes como brincar com aqueles quadradinhos. O “beabá” é para mim uma recordação mágica.


(Sempre tenho a impressão que recordações de infância não interessam absolutamente a ninguém. Mas continuarei a colocá-las aqui no blog. Que afinal, ninguém precisa ler, maravilha tecnológica! Minha infância eu já contei, em síntese, na profundidade. Numa peça chamada “Do Fundo Do Lago Escuro”. Essa vocês devem ler. Tem na livraria. A arte é a vida sem as partes chatas.)



segunda-feira, 19 de maio de 2008

Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

Presente:
Vi ontem no DVD o velho “12 Homens e Uma Sentença”. Pecinha bem feita para televisão por Reginaldo Ross nos anos 50. Era impressionante a dramaturgia do início da TV americana. O “One Hour Play”. Quatro ou cinco escritores notáveis, dos quais o patrono chamava Paddy Chaievsky, de quem hoje pouca gente se lembra ou conhece. É uma espécie de Neo-Realismo Norte Americano que tive a oportunidade de dirigir na TV, ainda em preto e branco. Chaievsky tem um filme famoso, “Martin”, que é a história de um açougueiro, uma história de amor, com o qual Ernest Borgnine ganhou um Oscar. Aconselho também vivamente “O Grande Negócio”, “Despedida de Solteiro”. Ninguém tem esses textos. Mas tem em inglês. É bom ler pra lembrar como se escrevia bem. A “Peça de Uma Hora” foi o ramo mais nobre na TV e depois desapareceu, preterido pelas novelas e minisséries cada vez mais longas ou, quando muito, séries, que são os gêneros bastardos por obrigar o escritor a ser prolixo. Por anular o poder da síntese. Nem sabemos mais o que é isso. A nova geração, que eu saiba, escreve mal por falta de dramaturgia. Que jovem bom anda escrevendo, profunda e simplesmente? Verdadeira e interessantemente? Ninguém, penso. Mas estou doido para mudar de opinião.

Sobre a nova geração, os que têm menos de 25, há muito o que discutir. Nos jornais pode ser lido que os jovens de 68 lutavam por idéias e os de hoje por emprego. Realmente é impressionante. Os sensíveis são bastante raros e os produtivos quase inexistentes. Penso que o sonho não acabou. Mas os jovens não sonham.
Escrevo essas linhas de velho com espírito de provocador, é claro. Me parece também que assim como falta no jovem de hoje a ânsia do conhecimento e o desejo artístico, falta-lhe também por extensão o desejo sexual. No que posso ver ao meu redor sexo anda bem fora de moda, particularmente entre os jovens. Vejo cada menina por aí sem namorado... No meu tempo, não tinha disso não. Eram dez fazendo fila. No meu tempo um “quer trepar comigo” suscitava uma resposta, um “sim” ou um “não’. Atualmente a resposta parece ser “trepar contigo? Para quê?”...
Não me acusem por esses sentimentos. Estamos num blog. São provocações.

A vida de todo mundo tem fases, marcadas por isso ou por aquilo. Tive por ambição, desde jovem, escrever uma peça ou fazer um filme sobre cada uma das fases da minha vida. Tive a felicidade de quase conseguir alcançar esta meta. “Do Fundo Do Lago Escuro” contém a essência da minha criança. “Os Melhores Anos Das Nossas Vidas” da minha adolescência. “A Última Valsa” da minha passagem para a idade adulta. Meus amores estão espalhados por vários filmes, de “Todas As Mulheres Do Mundo” à “Separações”. E também, disfarçadamente, todas as outras peças e filmes...
Mas tem pelo menos uma fase sobre a qual não escrevi ainda e sinto cada vez mais vontade e obrigação de fazê-lo. Que é a época que vai entre 68 e 72, quando já com quase 40 anos virei hippie, da melhor estirpe, andava de jaqueta verde, botas longas e rabo de cavalo. E acreditava na Contracultura como salvação do mundo. Durou pouco, mas foi bom.
Hoje penso que vivi uma Contracultura muito especial. Vianinha dizia que eu era “o verdadeiro hippie”. Lendo esses jornais todos sobre 68, não encontro eco do que eu senti. O grande livro ou filme da Contracultura ainda não foi escrito ou filmado. Talvez haja rastros disso em “Easy Rider” e “2001” e outros pouquíssimos. Claro que a música retratou os tempos. Com grandeza. Mas só. “Seja razoável, exija o impossível”, “a imaginação no poder”, “drop out”, são palavras que pedem para ser pichadas. Existirão palavras assim hoje em dia?

Não admito que ninguém que lê esse blog pense que sou um saudosista ou um pessimista. Esses dois sentimentos são burros. Minha frase principal nunca foi pichada em nenhum muro, é: “Tenho uma noção profunda da minha extrema felicidade. Mesmo quando estou triste de querer morrer, tenho uma extrema noção da minha profunda felicidade.”



PASSADO:

Um dia me prepararam e me mandaram para o colégio e eu não quis ir, e chorei. Isso lembro-me bem !
As freiras que, sisudas e malcheirosas, receberam-me de minha mãe e me levaram para dentro do colégio.
É como a imagem refletida do espelho quebrada (deveria existir uma palavra única para esta imagem, tão comum a todos os delírios). É assim, “não-inteira”, que me recordo da sala do colégio das freiras. Imensa e muito clara, com gravuras fascinantes, cavalos pastando perto de uma árvore em um verde gramado. Uma beleza complexa, imensa e amedrontadora, fascinante mas que não me pertencia, assim eu me lembro da sala do colégio.
A falta da minha mãe, insuportável - com os olhos eu procurava quem pudesse substituí-la, um rosto de mãe no meio das freiras, mas não encontrava. Em meio a tudo isto, como se não bastasse meu sofrimento, ainda queriam que eu brincasse com as outras crianças, mas o sol queimava, talvez fizesse mal, talvez me matasse o sol. Foi quando veio a hora de dormir. As janelas se fecharam, o escuro tombou sobre a sala. Uma freira me agarrou e me pôs numa cama, um berço, onde eu deveria ficar imóvel, dormir. Como podia, se tinha medo? Medo?
Depois o pátio, hora do recreio e subitamente, na porta do colégio, no portão de ferro intransponível que me separava do mundo, surge meu avô paterno! O outro avô, o avô que estava vivo, o pai do meu pai, vovô Odorico!!! Eu pedi a ele, implorei, que me levasse embora, para casa. Corri para o portão, escapando das mãos vigorosas das freiras, desobedeci, me subverti e corri para o portão, para implorar... porém meu avô me respondeu com aquele mesmo sorriso que meu pai teve todo tempo que viveu. Um sorriso de quem não pode se meter, do humilde criado, mas quem manda é o patrão e foi embora meu avô. E as freiras de novo me devoraram.
Na manhã seguinte procurei diretamente minha avó, a matriarca e dona do dinheiro, e disse a ela (premeditadamente, tudo tinha sido planejado: "Minha avó, se meu avô fosse vivo, eu não ia ao colégio, ele não ia deixar.” Então todos se comoveram, e... nunca mais me mandaram para o colégio! Estudei anos dentro de casa, com uma professora particular, D. Adalgisa. Todo o curso primário eu fiz em casa, com excelentes notas.

O fascínio dos quadrados de madeira com o desenho das letras. A suspeita do mundo que havia por trás daquilo. O prazer, válido em si, de compreender e controlar as combinações das letras, de unir a elas um significado. A atividade lógica de aprender a ler. Imensa alegria, primeira alegria adulta.




Quarta postagen:


terça-feira, 27 de maio de 2008

PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE

Hoje me despeço do Blog da Bravo!. Mas gostei da coisa. Está me parecendo um bom modo de rascunhar a minha biografia conforme expliquei na postagem anterior.
Eu uma vez fiz um espetáculo chamado “Pra Quem Gosta de Mim”, título que não deixou dúvidas. Pois bem, o Blog me parece também um modo de descobrir quem são meus discípulos, fãs, admiradores, amigos, que andam por aí e eu não sei. Um modo de fazer a minha mala direta afetiva. Por esses dois motivos, continuo, fora da Bravo!, a quem sou muito agradecido pelo ensinamento blogueiro. Meu novo blog é

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

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As despedidas, dizem com razão os ingleses, quanto mais curtas, melhores. Porém, como eu não sou inglês, farei essa especialmente longa.

PRESENTE
Breno Silveira.

Breno Silveira é o diretor de “2 Filhos de Francisco”. Que deu 6 milhões de espectadores. Um bom filme brasileiro atual dá 80 mil espectadores. Um mau filme brasileiro vulgar popularesco atual pode chegar a 1 milhão de espectadores. E o Breno não é vulgar nem popularesco nem mal intencionado nem manipulador. Ao contrário. É um rapaz fino e bem nascido. Que, não sei como, tem sua consciência de artista identificada com as classes menos privilegiadas, ou seja, usando uma palavra horrivelmente gasta, com o povo. Em consonância com a sociedade em que vive, poderia ser dito assim. Fazer um filme com a dupla caipira de qualidade musical possivelmente duvidosa e contendo tramas altamente sentimentais, para não dizer sentimentalóide, tem todas as características de uma atitude picareta. Breno teve uma idéia original sobre o assunto. Inteligentemente desviou a atenção da dupla popular para a história do pai deles. E os filhos de Francisco estouraram. Agora havia de sair para um segundo filme. O que fazer quando seu primeiro deu 6 milhões de espectadores? É certo no mundo inteiro, mas no Brasil é certíssimo, que ninguém pode fazer dois sucessos seguidos. Depois do primeiro as marretas intelectuais e midiáticas levantam-se, prontas para baixar a porrada. Seu segundo filme, mesmo que seja uma obra prima, será considerado pior do que o primeiro. O valor da novidade na nossa sociedade é imenso. A atriz novata que arrebenta numa novela só vai fazer sucesso de novo daqui há dez anos, quando esquecerem o sucesso inicial. O cineasta tem que construir uma obra para ser “novo” de novo. Aconteceu exatamente assim comigo e nos meus 70 anos de batida nunca havia acontecido diferente. É comum dizer, porém verdadeiro, que não vai ser preciso matar seu leão de cada dia. Mas a alma bondosa e generosa de Breno conseguiu vencer seu espírito sofisticado e internacional, resolveu fazer o “Era Uma Vez”. Quando ele me disse do que se tratava, quase caí para trás: Um “Romeu e Julieta” na favela. Um menino favelado apaixona-se por uma menina da Vieira Souto, seu romance não é permitido na sociedade e acabam morrendo os dois, baleados pela polícia. Não podia haver nada mais banal. “O roteiro trará um tratamento original, uma visão nova”, pensei. Li o roteiro. Além de banal era absolutamente previsível. Sem nenhuma novidade. No entanto ali já conhecia o mistério com o qual desejo fechar essa primeira parte do meu blog. Era um roteiro escrito com tanta sinceridade, tanta boa vontade, tanto romantismo, tanto amor ao próximo, que não era possível dizer que era um roteiro ruim. Embora fosse. Ontem vi o filme. Tudo é realizado com muito capricho, porém do modo esperado. Sem novidade de linguagem, previsível, banal. E no entanto é ótimo! Um gol de placa capaz até de quebrar a “maldição do segundo filme”. Chorei como uma vaca nos vinte minutos finais. Embora soubesse exatamente o que ia acontecer. Se uma obra alcança esse nível de emoção, é uma obra de arte. A gente que não respeita o seu próprio pranto, incrível. Se um filme me faz chorar, é um bom filme. Que eu não sou idiota, não choro com besteira. É o amor que Breno tem com suas criaturas que realiza esse milagre. Fenômeno curiosíssimo que vocês poderão verificar nos cinemas daqui a pouco tempo. Dispam-se de todos os seus preconceitos, comprem sua entrada e venham chorar com Breno Silveira nas dores básicas do mundo do amor. A arte tem caminhos que a própria razão desconhece.


PASSADO

Então um dia quis o impossível. Desejei captar e estar presente ao momento exato em que passava de acordado para dormindo! Ter consciência da perda de consciência, foi o que desejei muito criança ainda. E o estado de alerta que esta pesquisa me obrigava, me impedia de dormir. E no entanto eu não queria abrir mão do jogo. Me dava tanto medo! Não poder colocar sobre meu domínio este instante mágico... No qual eu perdia o domínio de mim mesmo e, dominado pela inconsciência do sono, tornava-me um ser desprotegido, do qual os maiores perigos podiam aproximar-se sem que eu ao menos me desse conta. E nessa beira de delírio tive muitas noites, talvez anos de insônia. Foi através dessa experiência que tive minha primeira noção da Morte.

(Depois, muito muito mais tarde escrevi uma peça sobre minha infância, através de muitos processos e um vigor de escritor que absolutamente não tenho mais, escrevi "Do fundo do lago escuro". Então penetrei brabo nesta terra escura da minha infância. Descobrindo lá uma assustadora e inesperada sensualidade, entre muitas outras coisas.
Sobre meu avô paterno, o da porta com grades, pouco escrevi. Mas talvez tudo que sabia. A velhice dele foi interessantíssima, totalmente louco, gagá. E naquele tempo era vergonhoso ser louco. O trabalho chama-se "A ordem natural das coisas”, um roteiro premiado de cinema que não filmei nunca mas que ficou sob a forma de um especial de Tv, sem duvida dos melhores que fiz.
Tenho também uma fonte fértil, se alguma hora quiser escrever sobre aquela gente que me viu nascer. Que é uma foto de toda família da minha mãe, foto onde ela deve ter uns 3 anos . São 1O pessoas naquela foto e sei muita lenda sobre aquela gente toda. Mas não creio que ninguém se interesse por isto)


Me lembro do dia em que peguei o bonde andando pela primeira vez. Que alegria. E do dia em que ouvi Caymmi pela primeira vez e a coleção de "Guri" que comprei e botei em cima do armário, uma pilha enorme, da qual eu só me permitia ler dois dias, economizando o prazer.

Certa vez subi sem querer a escada do vestuário das meninas internas. Nunca dei sorte com elas, era cruelmente desprezado.
Mas no "show" do colégio, primeiro e único pois depois ninguém conseguiu organizar outro, eu dançava com todas as meninas no final, apoteose de teatro revista. Até hoje a música me vem ao ouvido: "Nós voltamos a apresentar, este show para você!". Eu dançava, até com a Carmem, que tinha um namorado muito mais velho.
Minhas músicas prediletas eram "Good Night Sweetheart" (que minha mãe falou que era música do noivado dela) e "Jambalaya".

Minha primeira investida como produtor teatral foi a montagem de "O dote", de Artur Azevedo. Confesso que com a finalidade precípua de beijar a Ângela, conforme mandava a rubrica. Deus, como eu amava a Ângela! Tenho certeza que não tenho mais a menor idéia do quanto eu amava a Ângela! Que não me dava a menor bola, claro. Eram tempos violentos: o Garcia se masturbava dentro da sala de aula. O prof. Medeiros um dia me pediu conselhos sobre o que fazer com ele! Já o professor de inglês, recém chegado ao Brasil, pedia autógrafos aos alunos. O Prof. Leon, de educação física, tentava introduzir a esgrima ela própria no curriculum. A culhoneira voadora passara por cima do tabique e caía com estrondo e escândalo na sala das meninas. E um dia, de repente, Heitor apareceu com uniforme de interno. Eu tinha uma maleta de ferro que prendia direitinho o guaraná, que derramava num guardanapo nojento com os palitos franceses que mamãe botava. E o Miguel jogava bulica comigo. Bulica, Comigo. E havia o inspetor, que se chamava seu Carvalho.


(OBS. Como vê o querido leitor, AMARCORD e mãe não era só Fellini quem tinha. Todo mundo tem. Até o próximo blog, me acompanhem que eu vou longe....)

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