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quinta-feira, 7 de agosto de 2008


ATUALIDADES:
Estou em Gramado. Mando notícias.

Nunca esteve tão difícil ganhar dinheiro. Infelizmente minhas atividades, teatro e cinema, têm que ser subsidiados. São, no mundo inteiro. Com exceção dos Estados Unidos. Que sendo o país mais esperto do mundo, há mais de cem anos sacou que esta porra dá dinheiro, a cultura. Aqui não. Duzentos anos se passarão antes que nosso dirigente tenha a inteligência e a tranqüilidade suficientes para considerar a arte uma coisa útil. Os dirigentes, como os russos chamavam o Estado, são via de regra, porque não usar a palavra exata, burros. Burros imediatistas. No momento em que ascendem ao poder, esquecem o que foram fazer lá. E preocupam-se apenas, dedicam todo o seu tempo, em manter-se lá. Ou seja, arranjar verbas para o próprio cargo, para a própria instituição que comanda. De modo que está difícil ser artista no Brasil. Ganhando dinheiro. É preciso ter um certo nível como pessoa para compreender que a arte é necessária socialmente, essencial, e por isso, protegê-la. Difícil compreender que isso não passa de uma mínima obrigação de qualquer homem público. A realidade é essa, convenhamos. Vivemos politicamente abaixo do nível. Por mim, é preciso redescobrir um caminho que já tive muitas vezes. Exercendo uma atividade, ganhando patrocínios, humilhando e concedendo tudo o que é necessário, etc... Mas por outro lado, manter uma segunda atividade depende somente de mim. Esta é uma atitude de sobrevivência para qualquer ser pensante. Tô doido pra criar não mais o BOAA (Baixo Orçamento, Alto Astral) mas o filme ou a peça “Zero”. Auto-sustentável, se necessário, mais barato que os BOAA. Calcula-se a bilheteria possível e daí se deduz o orçamento. Para depois procurar pessoas que topem trabalhar assim. O orçamento será de 2 vinténs. Se forem bons artistas, ótimo. Senão, foda-se. O importante é fazer. Para não morrer de medo ou velho. O teatro é o último reduto da inteligência livre. É preciso prezar isso.
Vi “Copélia”. Fui levar as netas. Nunca tinha visto um ballet, nem no Teatro Municipal. Fui de avô, convicto. Eu também penso que nunca tinha visto Copélia. Das moças bailarinas, com sua feminilidade como não existe mais, sempre gostei. Aquele salto pirueta sempre tive vontade de dar. Mas fora isso, sempre achei muito chato o ballet clássico. A não ser pelo virtuosismo dos seus maiores intérpretes. Gostei da Copélia. Vantagens da idade avançada, curti valores que não tinha curtido antes. O ballet clássico desse tipo não é uma criação. É sempre uma recriação. Uma obediência à tradição. Disse Brecht: “Uma peça deve ser feita exatamente do mesmo modo que ela vem sendo feita nos últimos 2000 anos. Mesmo que tenha sido escrita ontem.” O ballet tem esse tipo de grandeza. Mesmo os bailarinos do Teatro Municipal que, segundo consta, são um bando de funcionários públicos invejosos e fofoqueiros, tomam ali, em meio à Copélia, o Estado de Graça da arte. Não há dúvida de como surgiu aquela arte. A culpa é dos passarinhos. Se uma alma boa, e os pássaros também, por que não os homens? A dança é uma atividade de protesto contra uma inexorável e repressora força: a força da gravidade. Quero escrever um ballet para a Debora Colker. Onde os bailarinos dancem palavras, frases, pensamentos, estórias, aventuras. E que a palavra pareça música e que a música, ela mesma, apareça apenas nos clímaces. Porque, afinal, música não é mais que a palavra, ela mesma, destilada nos tonéis da profundidade, voando assim por cima da inteligência, gerando a consciência nos céus da própria alma humana.
PASSADO:
PAPÉIS SOLTOS
25 ANOS
... tenho vergonha de qualquer análise do sofrimento por que é o sofrimento que me envergonha. Uma vez feita a escolha de viver ou meter uma bala nos cornos, ou pular destas janelas sempre tão perto, perde-se o direito de sofrer, sendo assim, como reage ante o fim do mundo quem sabe que o mundo já acabou?
... O mundo é belo. Esta verdade é tão inegável quanto estas minhas mãos, que batem com raiva na máquina e que eu gostaria de amputar. Por que não o suicídio? Por que não fazer deste sol que me fere a vista, o derradeiro? No dia em que eu morrer, a humanidade acaba. Canso, torno-me um ser sem músculos. Morrerei enfim?

(Já separado da Eliana, fiz minha primeira peça amadora. 25 anos. Chamava-se "Sétimo Ceu", adaptação de um dos mais românticos filmes mudos. A verdade é que sempre gostei do Teatro)

...Estou há doze dias da minha primeira estréia!
G. desce um pau em quem falar mal de mim. De vez em quando canso insuportavelmente desta gente barulhenta de teatro.
Comprei uma garrafa de piper.
Devo adaptar minhas peças para o cinema, me livrando assim, definitivamente, do teatro.
Por que não consigo nunca escrever teatro e sim tetaro? Como M. fica bem de calça comprida e blusa amarrada.
Preciso me curar do parasita que tenho nos pés, apanhado num chinelo de meu pai (Não me curei até hoje)

JÁ CASADO COM LEILA
26 ANOS, provavelmente.

Num caderno antigo encontro o telefone do Passarela...
Hoje de manhã quis muito ter meu passado de volta. Quis que Leila fosse Eliana, que seu Álvaro ainda estivesse vivo, que fossemos todos e passassemos slides.

Flashback da infância.

Quando eu era menino, uns 10 anos, meus pais tinham uma casa em Petrópolis, na rua Marquês de Paraná, 125. Havia 4 quartos. O meu variava, dependendo das pessoas que estavam hospedadas. O quarto de meus pais tinha uma varanda. Eu tinha asma. Na casa ao lado morava o Clarêncio, irmão da Clarice, por quem me apaixonei (eu me apaixonava sempre). No alto da rua havia a casa das meninas, moravam muitas lá. No jardim dos fundos tinha uma grande horta, que depois foi acimentada para fazer uma espécie de quadra de basquete. Costumávamos correr do portão até a garagem, apostando quem chegava primeiro. Havia uns quartos também em cima da garagem e era uma grande liberdade dormir lá, com os amigos. Na casa em frente morava o Alberto, que era mais velho, tinha um pai engenheiro que jogava cartas com meu pai. O Alberto de vez em quando organizava jogos de monopólio, mas não gostavam que eu jogasse porque eu era criança demais. No jardim do Alberto havia uma pequeníssima piscina onde me lembro que um dia caí.

Não há nada mais chato que um sonho. Não significam nada, nem para quem sonha. Qualquer dia alguém escreverá um livro muito importante chamado “A Interpretação dos Sonhos”. Na verdade, ainda não foi escrito esse livro. Freud apenas ensaiou.

Já adulto, sonhei com a Marquês de Paraná. As casas eram altas, no sonho, e as calçadas muito estreitas. Quando saí de casa, o ônibus quase me atropelou. O ônibus corria, quase perdendo o equilíbrio nas curvas e ameaçando destruir-se contra as casas. Eu sabia porém que o resto da cidade permanecia belo e largo e meu maior desejo era levar Leila para passear e conhecer Petrópolis, mas ela não queria ir. Preferia ficar jogando buraco com minha avó e minhas tias.
Nos meus tempos de dar festas em casa (dei muitas) brincávamos de muitos jogos, inclusive de "passar o anel" - sensualíssimo entre adultos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Não tenho tido tempo de completar minhas memórias sobre a infância. Para isso, é preciso entrevistar o meu primo Sérgio. Porque eu era um menino muito maluco naquela época e por isso tenho pouca memória objetiva dessa minha infância. Preciso pelo menos entrevistar o Sérgio sobre o meu tio Jackson. Marido da tia Neném, irmã da minha mãe, e pai do citado Sérgio. O tio Jackson ea o bêbado da família. A família escondia as crianças freqüentemente, trancavam num quarto para que não víssemos, corrompendo assim nossa educação, tio Jackson chegando bêbado em casa. Mas ele era figura notável, cheio de humor e humanidade que, segundo fantasio, me influenciou muito. De modo que para terminar o relato da minha infância eu preciso dele. Minha enorme família já morreu toda ou está muito distante, preciso do Sérgio. Antes de seguir para minha pré-adolescência. Ando fazendo investigações e acho que consigo encontrá-lo nessa semana. A entrevista será sensacional, garanto. Vale a pena esperar. Pelo meu Amacord.
Já leram "Do Fundo do Lago Escuro"?

obs. Enquanto não enconto o Sérgio, a família toda se dispersou. Dedico-me às atualidades.

ATUALIDADES:

Também aqui resolvo dar um balanço. Fazer um retrato completo e detalhado do Domingos hoje. Penso que a graça dessa "blogbiografia" seja justamente assistir o processo. Pelo qual aquele homem de hoje derivou do seu passado...



"Grandes emoções venham ter
Quando o circo aparecer!
Estonteantes atrações:
Girafas, camelos, leões!"



(frase da minha primeira peça profissional, "Estória de Muitos Amores")

Não é fácil dar um balanço de si mesmo aos 72 anos. Certamente terei de mentir muito para evitar narrativas da deprimência da velhice. E é preciso também um método. Método: A profissão, a família, os amigos, as convicções, os planos, a saúde, o mundo e a arte, o homem na solidão. E assim, traço a traço, tentarei desenhar meu perfil atual.
Certamente isso demorará algumas postagens. Só o primeiro capítulo...

A Profissão:

Sempre que alguém me pergunta o que eu estou fazendo profissionalmente, pergunto de volta: "você tem tempo para me ouvir?"

Sou um workahoolic. Embora ache péssima a palavra. Trabalho muito, mas não se trata de uma compulsão, e sim de opção. A gente vai ficando velho, tudo piora no corpo, menos a cabeça. Que também piora mas, de certa forma melhora. Tudo vai ficando muito incômodo pra você, menos o trabalho intelectual. De modo que não há outro jeito senão dedicar-se a ele. Claro que a existência precede a essência, de modo que minha ligação com o mundo é o meu corpo, claro. Mas sou um excelente sublimador em grau dez. Sublimar, para quem não sabe, é uma expressão Freudiana que significa a sua capacidade de utilizar a energia que você ia botar numa coisa, botando em outra. Enfim, é a mentira, é a alma do negócio. Eu e Platão sempre gostamos dessa frase.

Trabalho no cinema, no teatro e na TV. Além de que escrevo, canto e infelizmente danço, mas não sapateio.

Começo o balanço profissional por minhas obras que já estão prontas mas ainda não foram ao ar (penso que essa expressão deve transcender o âmbito da televisão, afinal "the answer, my friend, is blowing in the wind").

Tenho dois filmes prontos para serem lançados e vários roteiros prontos para serem filmados. Falarei muito rapidamente de cada um, só para situar o balanço, as obras não são feitas para serem comentadas e sim realizadas. Por hoje, apenas listo. Acreditando que isso possa ser um gancho para o caro leitor do meu blog. (Já reparou que escrevo uma vez por semana?)

Filmes prontos:

- Juventude
- Todo Mundo Tem Problemas Sexuais
...De alguma forma um documentário que Maria Ribeiro fez sobre mim.

Na gaveta:
(ou seja, buscando dinheiro ou oportunidade)

- Complicações
- Inseparáveis

Roteiros antigos que preciso absolutamente filmar:
(que a julgar por meu número de projetos, deve ocorrer lá pelos 110, 120 anos)

- A Primeira Valsa
- Do Fundo do Lago Escuro
- Doppleganger

E tem mais.

Permitam-me, antes de fechar a postagem de hoje, consultar meu arquivo:
Domingos/diário/antes de partir.

Ei-lo:

Antes de partir, o mínimo. Depois é dádiva, presente, gentileza

1. A Primeira Valsa, filme
2. Complicações, filme
3. No brilho da gota de sangue, filme
4. Inseparáveis, filme
5. Dopplleganger, filme
6. Do fundo do lago escuro, filme
7. Triunfo da razão, filme (inédito de ficção científica)
8. Regiões perigosas: (estórias fantásticas) Algemas; Segunda Chance; A Estrada. filme

1. Dopplleganger, peça
2. Do Fundo do Lago Escuro, peça
3. Cabaré grande, peça
4. Cabaré pequeno, peça
5. Apocalipse Segundo Domingos Oliveira, peça (inédito)
6. Peça infantil: Manhãs de Sol, de Teresa Guimarães
7. Estória de Muitos Amores, peça
8. O Confronto, com Luiz Eduardo Soares, peça
9. As peças Negras – A Causa da Liberdade

1. Tmm montado, edição
2. Thm em caixa de 8, edição
3. Piloto do cabaré, edição
4. Seleção dos melhores momentos da TV

1. Autobiografia, livro
2. FAZER COMO RECURSO OS MELHORES MOMENTOS, LIVRO
3. As testemunhas da criação, livro


GOSTARIA DE VER FEITO POR OUTROS, COM MINHA SUPERVISÃO (pra não deixar fazer besteira):

A Volta Por Cima, filme
O Inimigo Do Povo, MUSICAL
Remasterização do “Todas as Mulheres do Mundo” e do “Princípio e o Fim”
Publicação do “Princípio e o Fim” (o melhor do teatro)
Fábrica de Dramaturgia
Clássicos vistos por, livro
textos para OS GRUPOS, livro
Sétimo Céu, para grupo jovem
Os melhores Anos de Nossas Vidas, filme
Antígona, a origem da tragédia, peça inédita (a única)
Pequena História do Mundo para 100 atores, livro
Filme para crianças: O Dia que os Adultos Desapareceram


Para dar dinheiro:

Todo mundo tem problemas 2, filme
Adorável Júlia, peça
Um caso que eu tive quando me separei de você
Guerreiras do amor
O Imigrante, filme
A Ceia dos Cardeais, peça
...


Fora as idéias que tenho dos os dias embora faça imenso esforço para não tê-las. Que eu me lembra agora, ainda fora dessa lista:

As crônicas do Jabor
A montagem do Farol, do Ubaldo
A peça panorâmica sobre o Millôr


Observo agora, fechando essa postagem, algumas curiosidades:

São quase cinquenta planos, o que prova meu ridículo total. Contando um tempo mínimo para cada plano, mínimo minimorum, de quatro meses para cada plano, são duzentos meses. E contando com a mínima minimíssima dispersão, 250 meses. Trabalho árduo. São mais de 20 anos. Ou seja, tenho de continuar a trabalhar feito um doido até os 92 anos, no mínimo minimorum.

Bem, Carlitos morreu aos cem. Numa noite de Natal.

Sem mais e exausto, me despeço por hoje. Prometo comentar cada um desses planos muito rapidamente e aos poucos. Caso contrário, meu leitor blogueiro mais aficcionado morrerá de tédio.

Na próxima postagem, aventuras internas do meu trabalho atual. Não é nenhum desses anteriores, e sim um show para o Canequinho, anexo do Canecão, que estréia daqui a dois dias, tentando satisfazer o meu grande ego. Apresento e canto no show, sensacional! E ridículo.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Atualidades
“A noviça rebelde”. Ingresso caríssimo, casa lotada, fortunas na bilheteria. Não se esperava menos do Max e do Moisés, donos do Teatro Casa Grande. Que peça deveria estrear o teatro? Escolheram a “Noviça”.
Eu fui levar minhas netas e tentar reviver o encantamento das minhas primeiras idas ao teatro. As meninas ficaram encantadas, isso eu esperava. Mas não esperava que eu mesmo ficasse encantado. Gostei. O valor das coisas depende da natureza do seu olhar. Vi de um jeito que gostei.
Não sei como explicar. Claro que é tudo de um mau gosto exemplar e que os atores, com exceção de alguns amigos, não fazem nada de um modo inimitável. Cada um tem seu microfone sem fio, as moças na cabeça e os homens de “Madonna”. De modo que aquele som sai em bloco, muito “sound and clear” e não se sabe que ator falou. Exatamente como num filme dublado. Os atores não representam teatralmente. Dizem o texto de um modo didático e falso, como numa dublagem. É tão especial que tentei imitar e não consegui.
No entanto, tudo está certo. O teatro tem dessas vantagens. Muitas vezes um espetáculo vulgar se representado de um modo vulgar, montado de modo vulgar, para uma platéia vulgar resulta absolutamente adequado, maravilhoso. Quase como se não fosse importante o que se diz ou que se faz no teatro e, sim, o jogo que se estabelece entre o palco e a platéia. São assim os espetáculos muito populares. Como, por exemplo, o recente “Rádio Nacional” e outros. A platéia adora, se diverte. Como na “Noviça”. Mais que isso, se emociona e aprende em certo nível.

Olhem, não quero tirar meu corpo fora, chorei em vários momentos. Particularmente no final. Mas comecei na cena do casamento, quando ela vem de noiva, o capitão Trapp, fardado, e entram as 7 criancinhas de damas e cavalheiros de honra.
Não quero tirar meu corpo fora. Por que gostei? Explico. Primeiro, a dramaturgia!!! É interessantíssima, fiquei com vontade de escrever uma coisa assim. É o que se poderia chamar de uma dramaturgia sinótica, não há tempo a perder com ela. É preciso deixar o tempo para as canções, concentrar nas canções todo o sentimento e profundidade. O texto é o mínimo, totalmente brechtiano, demonstrativo, distanciado e direto.
É melhor dar um exemplo.
Uma jovem babá, ex-noviça, apaixona-se por um capitão aristocrata, cujos filhos a adoram. No entanto, ela compreende que esse amor pode não ser bom para a família porque ela não é do mesmo nível social e decide voltar para o convento. Ainda que louca de paixão.
Como descrever isso? Muito simples. Se arma uma festa na casa, com os amigos aristocratas do capitão. Para escândalo de todos, o capitão a convida para jantar em sua mesa. Todos se retiram com desculpas esfarrapadíssimas e aí entra o número musical. O capitão dança uma valsa com a babá. O que é um barato, a música é linda, os passos de valsa, etc. A cena termina olhos nos olhos, por um rápido instante. É lindo!
Aí vem a criada e avisa que o jantar está na mesa. Ela diz que tem que mudar de roupa, obviamente para que ele saia e a deixe sozinha. Nesse momento entram as crianças e dizem a ela, sem rodeios que ela está apaixonada pelo papai, coisa que a noviça desconhecia.
E aí entra novo número musical. Com as crianças cantando com ela alegríssimas. Depois da cena aplaudida, é lindo!, desce um telão negro, aberto no meio, por onde vemos ela passar com a aparência antiga de noviça e uma mala na mão.
Música religiosa. Vemos a noviça chegar no convento, onde a madre superiora canta sua ária principal, chamada “Não tenha medo de amar e suba a montanha”, dando trinados agudíssimos que arrancam aplausos entusiasmados da platéia. É lindo!
Ou seja, nos diálogos, a interpretação dos atores e as informações. Nas canções, a emoção e a eventual profundidade. Você olha e vê que tudo aquilo foi planejado longamente. Que é um tipo de dramaturgia definido e afirmativo, como somente um país que venceu Hitler na guerra poderia produzir. O espetáculo parece gritar que Bush é um acidente na história do país.
Quando os atores acertam o tom, como é o caso de Fernando Eiras, magnífico, a coisa é admirável. Brecht puro.
Fico com vontade de escrever uma coisa assim.
Por que descrever o comportamento humano apenas com palavras? Por que não fazê-lo com canções ou danças? Que, na verdade, são artes mais populares posto que menos racionais.
Um musical, uma ópera, um balé, tem sua história contida num libreto. O mistério está em outra forma de expressão.
Debinha Colker quer que eu escreva para ela, quem sabe não faço um musical balé? Dançado em vez de cantado. Com um libreto da pesada, por exemplo, “O inimigo do povo”, de Ibsen.
Por enquanto, limito-me a recomendar sem conseguir explicar direito, uma ida ao Teatro Casa Grande. De preferência arranjando convite posto que ninguém vai pagar tão caro para assistir uma experiência de vanguarda como a que tentei descrever acima.
PS: A música não é muito boa, não há quem agüente por muito tempo aquele dó-ré-mi.

Passado
Eu, menino, mesmo antes de escrever qualquer linha, já dizia que era um escritor quando me perguntavam o que eu ia ser quando crescer. Depois, adolescente, tracei um plano para mim mesmo de descrever em peças de teatro ou filmes as diferentes fases da minha vida. Como se isso fosse útil para os outros. Essa insana convicção íntima de todo artista. Tive a felicidade de conseguir em parte realizar essa tarefa.
Com a infância, que é um assunto de agora nesse blog, foi fácil. Porque me recordo pouco. O essencial está na peça anteriormente citada, “Do fundo do lago escuro”. Eu não posso transmitir em palavras o que está posto ali, de modo que vocês terão de ler. Mas resumindo alguns pontos: trata-se de uma tarde no casarão de Botafogo, no fim dos anos 40, em que uma típica família brasileira se debate enquanto espera a noite num discurso de Carlos Lacerda, o mestre de direita da eloqüência política. Duas tramas seguem paralelas. Uma complicada, que envolve a matriarca da família e confusões financeiras. A outra, o menino Rodrigo, que não sabe mais o que é mentira ou verdade, posto que sua mãe mente todo o tempo, dizendo o que lhe é conveniente. Esse menino é perseguido por um primo mau, que tenta abusar dele.
Posso dizer aqui que meu primo tentou mas não me comeu. Só quase. E que a peça é muito bonita. E talvez até sobreviva a mim. Fora isso, fico devendo a esse blog poucas coisas da minha infância. Mas hoje não tenho tempo para escrever mais. Coloco apenas o poema que antecede a peça, que veio de um sonho de uma canção que fiz nos dias seguintes a ele.

“No fundo do lago escuro
uma bolha de ar puro
vem um dia ter comigo
o passado mais antigo
tão fugaz quanto querido
Foi um gesto, uma cor, um grito
uma queda no infinito
qualquer coisa que não sei
uma promessa de paz
de alguém que muito amei
de quem não me lembro mais
No mergulho mais profundo
na direção mais certa
tiro o mundo dos meus ombros
e descanso finalmente
entre os escombros do fundo
Nada sendo e sendo tudo
Boquiaberto e mudo”

Ok, pessoal. Escrevo mais amanhã! Obrigado pelos comentários.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

ATUALIDADES

Peter Brook está no CCBB com peça de Beckett.
Não sou um fã de Albe, Pinter nem, confesso encabulado, desse mestre de todos: Beckett. Ele escreveu uma ótima peça, “Esperando Godot”. Na hora certa. Depois permaneceu batendo na mesma tecla, penso como poeta do Brasil, do absurdo tedioso, da denúncia vazia. Quem não sabe que o homem sofre dessas coisas? Não são pontos de chegada. E sim, de partida, para algo melhor. Porém muita gente boa gosta, principalmente a geração logo anterior à minha, para quem o senso do absurdo foi uma revelação. Eu não me toco com essa literatura, perdão. Me parece que já fui e já voltei.
Mas possivelmente estou errado. Não devo ter dado a devida atenção.

Se me perguntam o que estou fazendo, respondo: “Você tem tempo pra me ouvir?”
Se eu me pergunto o que estou fazendo, respondo nada. Escrever é quase não fazer nada, tenho escrito muito. Enquanto espero amaldiçoados patrocínios. Fazer envolve contar com os outros. É corporal. Estou com dois filmes prontos, ótimos: “Juventude” e “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, esperando patrocínio para lançamento. Para mim, já foram feitos há décadas. O prazer que resta é dar de vez em quando uma festa para alguns amigos e mostrar na TV. Sem a Priscilla na sala, é claro. Que esta não agüenta mais. Estou com duas peças prontas, ótimas: “Apocalipse, Segundo Domingos Oliveira” e a mais recente, “Confronto”, na qual caio na vala comum e falo das relações do Poder com o Crime Organizado. Pelo menos não tem um tiro. São todos longe da cena. Tem também um roteiro pronto. O melhor que escrevi na vida. Chama-se “Inseparáveis”, também esperando, adivinha o quê? Enquanto isso, para não morrer de tédio aos 71, monto meu show no Canequinho. Um show em que canto e danço. Ou seja, absoluta piração. Tudo piora com a idade. Mas não é que a cabeça fica melhor? Não só mais criativa e profunda. Também mais eficiente. E escrever, reconheço, é uma forte droga. Quando uma peça ou filme te possui, você não é ninguém.

Quero, cada vez mais, ter uma linha de trabalho que não dependa dos livros. Espetáculos ou filmes dimensionados para pagarem os custos e, se forem ótimos, dar um bom lucro. Esse dimensionamento na prática é apavorante. Você vai sendo reduzido a zero, pressionado ao zero, muitas vezes passando para o outro lado. Ou seja, pagando para trabalhar. Mas um homem sempre tem que ter sua segunda linha de trabalho, usando uma palavra gasta, independente.

Estreou o filme formidável. “Escafando e a Borboleta”. Não vejam, ninguém merece.

Hoje acordei sem nenhuma modéstia. Meu programa de televisão “Todos os Homens do Mundo” é, de longe, o melhor programa de entrevista que a televisão brasileira jamais fez. O do prêmio da academia, recentemente exibido, era hilário e montamos um agora de “Tangos e Tragédias”, também muito bom. Estamos vivos, espertos, Priscilla e eu. Mas o programa não repercute! Ninguém telefona no momento que termina, nem comentam no jornal. Provavelmente porque o Canal Brasil tenha pouca audiência, talvez por causa de uma certa Lei Áurea da nossa sociedadezinha atual: Se é bom, elogiar. Se é ruim, denunciar. Se é ótimo, destruir, arrasar. Não me incomodo com isso, não. Mas acho engraçado. O programa vai ao ar na quarta-feira, quarta que é dia de jogo.

Agora, na minha sétima década, penso demais na morte, cometo essa tolice. Acho que tenho pouco tempo, etc. Impressão essa que é desmentida todas as manhãs. Pela lucidez com que acordo, não importa qual a noite anterior. A sensação de que algo interessantíssimo se inicia. Hoje nasceu Enrico, filho de Renata Paschoal. Não conhece a Renata? Não sabe o que está perdendo. Disse de manhã ao telefone para o pai palavras de sempre: “Agora você não é mais um ponto solto no espaço. Você faz parte de uma linha que se estende infinitamente para o futuro e que, para o passado, vai até os protozoários. Parabéns, pai. Agora sua vida não é mais sua.”





PASSADO:



Estou tentando fechar meus recuerdos, minha infância. Cada um tem o Amacord que merece. É pouca coisa, porque todo o resto está contado na minha peça "Do Fundo Do Lago Escuro". E eu não vou ficar aqui repetindo. Se lá está melhor, vocês podem ler. Porém talvez haja algo que não está registrado. Gostaria de falar sobre a foto que vai abaixo, tirada em 1907. Na qual, portanto, todos estão mortos há muito tempo.

Farei isso na próxima postagem. Nessa coloco minha emoção quando esrevi o "Do Fundo Do Lago Escuro" e li num teatro. Leiam, é uma bela estória.



DO FUNDO DO LAGO ESCURO
Eu não escrevei uma linha da peça. Eu ouvi vozes com timbres diferentes e tudo era lançado de cá para lá, por duas vezes saí correndo do escritório com medo de certas coisas que eu não sabia e que a peça estava revelando.
O grosso do trabalho foi feito durante uns três meses, aproveitando um tempo no qual a TV, por causa de um desentendimento, me deixou inativo, de castigo. Me contam que foram três meses, porque, na verdade, não tenho idéia. Foi muito rápido escrever o “Lago”. Uma vida inteira, porém muito rápido. Lenita me conta que eu fiquei muito distante de tudo, embora aparentemente normal. Que somente saía do escritório para comer e que qualquer coisinha fazia vir lágrimas aos olhos. Isto é, o escritor. Com uma dignidade que absolutamente eu não tenho...
Antes de começar, andei tomando alguns “impulsos” que hoje me parecem ter tido importância. A peça nasce de um sonho. Um dia tive um sonho muito intenso, porém sem nenhuma “narrativa”. Uma sensação avassaladora, de alguma coisa muito antiga e muito amada, de uma coisa pedida para sempre. Acordei chorando, mobilisadíssimo e alguns dias depois (ou no mesmo dia) fiz uma canção, no violão, a canção que antecede a peça. Depois se passaram alguns anos antes que eu pudesse enfrentar esta “peça sobre minha infância”.
Na verdade tudo o que um escritor escreve é mentira. Como observou Fellini, a mentira é a alma do negócio. Tudo é mentira, por mais vivido ou “autobiográfico” que seja. O escritor sempre mistura muitas coisas em apenas uma, inventa muito, corrige muito o mundo. Permeia com benevolência todas as deformações causadas pela individualidade da sua visão do mundo. E, nesta medida, tudo é verdade.
Para começar juntei todas as fotos que tinha da infância. Eram algumas, o suficiente para um álbum. Fiz o álbum, com uma meticulosidade religiosa,. Transformei-me em objeto de estudo, de observação. Passava horas olhado os fundos das foto, tentando compreender as manchas, sentir as texturas, respirar os ares. Demorei um bom tempo fazendo isso. E antes de lançar-me à máquina, reli, como quem toma o fôlego, a “Longa Jornada” de O’Neill.
Terminando o texto, encontrei no concurso do SNT, sob pseudônimo. Não tinha muita esperança de ganhar. Era talvez a primeira vez que eu havia escrito sem realmente pensar, por nem um momento, em agradar a qualquer tipo de platéia ou leitor. Foi para mim. Eu escrevi pra mim. Dedicado a Lenita e a Mariana, por todo amor que lhes tenho.
A peça não somente ganhou o concurso como agradou aos mais exigentes. Praticamente todas as companhias importantes do Rio quiseram montá-la. Logo depois do concurso entreguei os direitos de representação para Fernanda Montenegro, por motivos claríssimos: “Mocinha” permitirá que Fernanda mostre sua sempre surpreendente grandeza.
Li a peça em voz alta, apenas uma vez, no Teatro Ipanema, numa madrugada, pouco depois do prêmio do concurso. Tinha umas 30 pessoas lá, quarenta talvez. Algumas eram muito queridas: Lenita, Iva de Albuquerque, Susana Faini, Carlos Gregório, Solie Eich e várias outras. Havia um dado curioso à respeito. O texto ganhou o prêmio de melhor COMÉDIA, embora fosse obviamente um drama. Isto se deveu, segundo informações internas, ao fato de não poder dar o prêmio de drama a uma peça que não fosse diretamente “política”, etc, enfim, essa besteira já conhecida de todos. Quando comecei a ler a peça, porém, comecei a verificar que realmente aquilo era engraçado! Eu estava muito emocionado e quanto mais eu me emocionava, por algum caminho estranho, mais engraçada ficavam certas frases da peça. Antes do fim do primeiro ato, suspeitei que não conseguiria chegar ao fim. A voz embargava a cada momento, os olhos marejavam, eu estava emocionadíssimo. Foi quando percebi que minha “platéia” compartilhava da exata emoção. Muitos olhos brilhavam olhando para mim... Não tenho dúvida sobre o que fazer, soltei a emoção, como as rédeas de u cavalo. Li chorando, até o fim da peça. Às vezes o papel ficava até molhado. Chorávamos todos, as vezes rindo muito. Foi inesquecível. Se por mais não fosse, apenas esse momento teria valido o esforço de escrever a peça. Me lembrarei deste dia até o último dos meus momentos. Foi o dia em que eu pude chorar. Chorar, porque estava entre amigos.

Domingos Oliveira, fim de 1979.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Material da Bravo!





















Blog
Outro dia compreendi o que é um blog. Por isso eu resolvi aceitar este por um mês.
É uma coisa muito mais importante do que eu tenho pensado. É um jeito das pessoas seguirem o pensamento das outras. Do jeito que ele é. Descontínuo. Desordenado. Casual. É uma espécie de diário do escritor do blog. Selecionado aquilo que pode interessar a todos. E a meta do blog é “fazer amigos e influenciar pessoas”, título de um livro do meu tempo que fez um sucesso danado, acho que foi o primeiro de auto-ajuda. Dale Carnegie.

Arte
Também eu tenho vontade de escrever um livro de auto-ajuda, confesso. Só não gosto da expressão. Toda arte ajuda. É para isso que a arte existe, para ajudar. Se vejo um filme ou uma peça que não aprendo nada, que não me faça viver melhor, acho ruim o filme ou a peça. Duvido muito do pessimismo. Em geral, ele pode ser resolvido na psicanálise. Não é uma atitude filosófica, é uma fraqueza. Claro que o otimismo não pode ser cego, a glória não pode esquecer o terror. Entre esses dois oscilamos, pêndulos com alma. Mas ultimamente vejo com grande freqüência filmes e peças que não contém nenhum rastro de esperança, nenhuma indicação de saída. Não é arte isso.

Dramaturgia


Águas turvas
Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque não sejam filósofos.
Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)
Cinema
Não vejo um filme bom há muito tempo, ando exigentíssimo.
Estou muito interessado nos italianos contemporâneos. Pelo menos alguns deles fazem lembrar o grande cinema italiano, filmando em Cine Cittá e tudo.
Gosto muito de L’ultimo Baccio, (“O último beijo”), Um Cuor ALtrove” (“Coração para amar”) e recentemente “Estamos bem sem você”. Os dois primeiros estão em cineclubes. Vejam. Fora isso, o Bardén no filme dos Cohen, é a melhor figura do mal que o cinema já criou. O filme é ótimo, exibe excelente cinematografia, embora turve as águas no final. Poderia ser um grande filme.E NÃO ACRDEITO M ‘VIDA DOS OUTROS”,FAJUTISSIMO É humilhante ser cineasta brasileiro. TENHO DOIS FILMES PRONTOS EM CASA
Dança

O último Débora Colker é interessantérrimo. Buscando descrever a contemporaneidade, a danada pesquisou durante dois anos os gestos tortos e movimentos assimétricos, criando um espetáculo “cruel”, de grande audácia e beleza. Mas já saiu de cartaz. A companhia vai para o Japão, lotam teatros aqui e no exterior. Não é para qualquer um. Claro SÃO abominados por grande parte do pessoal da dança conceituaL LOCAL.
Currículo
Me parece que o blog, afinal, filho do site, deve conter currículo do bloguista. Nasci em 36 (não faça a conta de quantos anos eu tenho),
sofri um bocado na mão da minha mãe possessiva, a saudosíssima Carmelita. Aos 13, 14 anos comecei a fazer teatro no colégio. Minha primeira peça data de 48. Ou seja, há exatamente 50 anos. Ninguém a conhece de modo que a publico aqui para fechar esse primeiro dia de blog. Não leve a mal. Hoje em dia me esforço muitíssimo para que minha obra não pareça séria. Mas jovem eu professava também o esporte espiritual PREDILETO da juventude: a auto-piedade. Mas leiam!!! Achei o original outro dia. GOSTEI, o rapaz tem talento.









ORAÇÃO DIANTE DE UM FILHO MORTO

De Domingos J. S. de Oliveira

Escrito em maio de 58.

À Bolinha,
Que me levou um pedaço de mim.

CASA DE CAMPONESES.
AMANHECEU. A MÃE ARRUMA A MESA DA PRIMEIRA REFEIÇÃO.
ENTRA O FILHO, SENTA-SE PARA COMER.

MÃE – Ainda não. Espere seu pai.

O MENINO TEM UMA ATIRADEIRA EM VOLTA DO PESCOÇO. A MÃE TIRA E PENDURA NUM PREGO DA PAREDE.
ENTRA O PAI, DESPE E PENDURA O CASACO DE TRABLHO. SENTA-SE À MESA.
OS TRÊS BAIXAM A CABEÇA.

PAI – Senhor
À ti agradecemos a comida que nos dás hoje
E também as forças que nos deste para tirá-la da tua terra
E também a terra
Bem como a casa
E a paz que sobre ela reina.

COMEM A REFEIÇÃO RAPIDAMENTE.
O MENINO ACABA PRIMEIRO, LEVANTA-SE E VAI APANHAR A ATIRADEIRA. O PREGO É ALTO PARA ELE. PULA UMA VEZ, OUTRA. NA TERCEIRA SEU PEQUENO CORPO ESTREMECE E ELE CAI. A MÃE CORRE, O PAI TAMBÉM, TOMAM-NO NOS BRAÇOS,S ACODEM, CHAMAM, MAS É EM VÃO. O PAI COLA O ROSTO NO SEU PEITO.

PAI – O coração parou!

MÃE- Meu filho!

PAI – Morreu...

A CENA APAGA-SE AOS POUCOS.
ACENDE-SE AOS POUCOS, MAS NÃO TOTALMENTE. É NOITE E O CORPO DO FILHO MORTO JAZ NO CHÃO, CENTRO DO PALCO. O SILÊNCIO É VARADO PELO PRANTO CONTÍNUO.

MÃE – Morreu...

PAI – Morreu...

MÃE – Meu único filho. O único

PAI – Eu não posso acreditar.

MÃE – Morreu.

PAI – Morreu.

MÃE – Sem ele...

PAI – Se tivéssemos um outro...

MÃE – Por que, meu Deus, por quê?

PAI – Deus!

MÃE – Nunca pensei!

PAI – Eu também, nunca pensei.

MÃE – Ele sabe o que faz.

PAI – Estou tão cansado...

MÃE – Queria guardar... as coisas que eram dele...

MÃE – Logo o levarão.

PAI – Temos pouco tempo...

PAI – Nunca apensei que fosse tão pouco.

MÃE – Meu filho! Sozinho, morto, sozinho!

PAI – Coragem.

MÃE – Deus sabe o que faz.

PAI – Temos de nos convencer que é verdade, que ele morreu.

MÃE – Meu filhinho, tão pequeno... Por que ele, senhor? Porquê? (CHORA)

PAI – Que fiz eu, senhor? Sempre fui como tu querias. As coisas eu amei, sempre que pude. As crianças, os animais, teu mundo, os pobres, todos eu amei. Que mais, senhor. Que mais podia eu fazer?

MÃE – Nosso filho está no céu, perto dele, perto do Senhor.

PAI – No céu.

MÃE – Um dia o veremos.

SILÊNCIO.

PAI – Senhor, perdoa-me, se levanto minha voz para duvidar de Ti. Mas é preciso que me ajudes, porque eu perdi meu filho. Quero acreditar, senhor, no campo verde que nos prometeste, onde brincam as crianças mortas ao lado de Teus anjos. Mas, senhor, três coisas somente fazia esta criancinha na vida: comia, dormia e m amava. Comida Teus campos têm, e muita. Sono, Tu mesmo o ninarás. Mas eu, Senhor, eu? Isso Tu não podes dar! Levai-me então, senhor, levai-me também!

MÃE – Ó vida... desgraçada... sem paz.

PAI – Por que me tiraste o que é meu? O que fiz?

CHORAM MUITO, PORÉM CADA VEZ MENOS, ATÉ O SILÊNCIO

MÃE – Não quero, marido, não quero viver sem ele.

PAI – Eu também não.

SILÊNCIO.

MÃE – Talvez... depois... nos encontraremos os três, no céu.

PAI – Não, mulher. Ele morreu. Nunca mais o veremos.

MÃE – Coragem, marido. Ainda temos um ao outro.

PAI – Mas continuar a viver... sem meu filho... será a tristeza até o fim.

MÃE – Não é possível que seja só isso.

PAI – Você acredita no céu?

MÃE – Nãos ei.

PAI – Eu não acredito.

RELÂMPAGO E TROVÃO. A FÚRIA DOS ELEMENTOS OS AÇOITA. A MÃE CAI AJOELHADA INDEFESA, MAS O PAI ENFRENTA.

PAI – Não temo, senhor! Um filho morreu! Não temo! Eu não acredito, não temo!

O TROVÃO DIMINUI DE INTENSIDADE.

PAI – Como pude eu um dia acreditar na tua bondade, na tua arrogante sabedoria, eu, que tenho um filho morto nos braços! Não peço uma vida feliz, Senhor! Sou um homem humilde. Eu peço, senhor, o inferno! Se é isso que tu queres! Que rasguem minha carne, que minha voz se transforme num uivo, que as pessoas que eu amo me desprezem, me cuspam no rosto, mas DEIXA-ME AMAR, SENHOR! Afasta de mim a Morte, a Morte que me tira os mus... eu não quero morrer, Senhor. Mesmo sem um filho, quero viver. Tenho minha mulher, que me ama. Por ela eu quero viver. Mas também ela, senhor, e Tu sabe, também ela eu deixarei um dia submissa a Teus pés. Tenho meu campo, ainda por cultivar. Quanto mais nada eu tiver, a ele darei meus esforços. Se a chuva inundá-lo, se um fogo descuidado comer a colheita, me fizer recuar e trancar-me na mais pequena parte da minha casa, ainda assim não me queixarei. Enquanto para uma pedra eu puder olhar, e lembrar que com ela brincou meu filho, nele tocou minha mulher, passou o arado com que eu arava meu campo, não me queixarei. Será aí que tu virás, com tua mão pesada, me esmagares! E dirás: toma, a treva, é tua! Não, senhor, não creio nos teus campos verdes (são tão pequenos e escuros os meus).

LUZES SE APAGAM.
LUZES SE ACENDEM. AMANHECE. CANSADOS, DIANTE DO CORPO, O PAI E A MÃE.

MÃE – Há algum tempo passou por aqui um viajante, desses que correm o mundo, e me contou uma história. Ele viajara por uma terra tão rica e tão boa que tudo nasce nela sem que seja preciso plantar uma semente.

PAI – Nossa terra também é boa.

MÃE – Se nossa terra fosse boa assim, não precisaríamos trabalhar tanto. Lá, todos vivem bem. O mais pobre tem seu campo.

PAI – Toda minha vida eu trabalhei.

MÃE – Mas já me sinto cansada...

PAI – Não deve existir terra nenhuma. Esses viajantes sem profissão mentem muito.

MÃE – Talvez exista. Já foi verdade tanta coisa em que não acreditávamos.

PAI – Talvez.

SILÊNCIO.

MÃE – AMANHECEU.

PAI – Estou tão cansado.

SILÊNCIO.

PAI – O corpo me dói.

MÃE – Vai descansar um pouco. Vem.

ELA LEVANTA, AJUDA-O A LEVANTAR-SE E SAI COM ELE. NO PALCO FICA O PEQUENO CORPO MORTO.

(PANO)

Blog 2
Essa é minha segunda postagem neste blog. Sabem que ele já me foi útil? Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

passado. O início.
AQUELE HOMEM, isto é Domingos Oliveira, isto é, eu - aquele homem nasce num dia 28 de setembro de 1936, em Botafogo, na Rua da Matriz, cidade do Rio de Janeiro.






Dizem que se recusava a respirar o ar do mundo, embora fosse devidamente espancado pelo parteiro. Que então foi atirado numa bacia. De onde um instante depois retirado por um tio médico que, mediante inesperado, vigoroso e certeiro golpe de mão espalmada, concedeu-lhe o direito de viver. Parto portanto tortuoso, ao qual a mãe sobreviveu a duras penas, segundo os relatos familiares.

De minha infância não recordo nada.
E desperto para o mundo da minha própria consciência apenas na adolescência, aos 15 ou dezesseis anos de idade.

Esta sensação de borracha-passada-nos-anos, de treva baixada sobre os luminosos-primeiros-dias, é como sinto o início da minha vida. Esparsos instantes acendem-se na memória perdida:

Mãos descarnadas de uma empregada preta e velha,chamada Olivia, baixadas sobre um prato cheio de feijão preto e arroz, para retirar o excesso de caldo sem deixar cair o feijão e arroz. Feijão e arroz que eu seria obrigado a comer. E que comeria, aterrorizado, certo de estar ingerindo a própria doença das mãos descarnadas, envenenando-me.Com o estômago revoltado como até hoje me revolto

A figura de um jardineiro imenso e vigoroso, que me dizia e convencia, ao mesmo tempo que exigia segredo, ser todo o cimento do jardim (o jardim era enorme todo coberto de cimento-ai minha cabeça! - a tampa do subterrâneo, onde viviam os jacarés famintos, que podiam ser vistos através dos ralos, se alguém tivesse coragem de olhar. E eu certamente não tinha !

Os pratos separados. Os talheres separados. O primo Carlinhos, que ia morrer de tuberculose, de quem eu não podia chegar perto, senão também eu ia morrer. Mas que um dia me foi permitido olhar. De longe, na varanda. Sentado na cadeira de vime branco, pálido e espiritual, de olhos translúcidos e bondosos enquanto os de minha mãe marejavam. E o primo Carlinhos me olha, belo, com olhar que não era o da Morte e sim da Bondade. E a o de minha mãe que me pega pelo braço, para me tirar dali.

Meu avô José, mais nobre e querida das memórias ! José que um dia ficou rico com os lucros de uma fábrica de barbantes. O José Pereira, de bigodes opulentos e másculos. Roubava-me da minha mãe, para minha alegria, e me levava para dormir com ele. Na cama imensa do lençol com perfume , do colchão macio que dava vontade de pular. O avô José.

Que me ensinou a rezar e a cantar para a santa, onde a caixinha de música repetia: avê, avê, avê Mariá ... Eu ajoelhado,ele me ensinando a botar juntas minhas mãos, em prece.








PRESENTE
Outro dia entrevistei Felipe Hirsh, o famoso diretor de teatro. Vi alguns de seus espetáculos. São admiráveis sem dúvida, do ponto de vista técnico e plástico. Ele é um verdadeiro mestre. Mas nunca me agradou inteiramente. Por causa dos textos, ou melhor, dos temas dos textos. Como vários outros diretores de vanguarda, seus textos sempre versaram sobre os valores duros da vida. Tédio, falta de sentido, a incomunicação, a inexistência do verdadeiro amor etc. E muito pouca ou nenhuma esperança. Pois é. Detesto esse tipo de texto. Por mais valores outros que eles possam ter. Porque creio que a arte é uma coisa da vida. É auto-ajuda, para ajudar a viver. É diversão e ensinamento, como dizia Brecht. Se uma peça ou um filme, um quadro ou um livro, não me ensinam a viver melhor, não os considero grande arte. É queixume, auto-piedade, lamentação. Às vezes belo mas não é arte. Sei que esse é um ponto de vista radical, porém sou um velho turrão. Penso assim e pronto.
Agora, no último Felipe Hirsch, “Não sobre o amor”, fiquei numa situação difícil. Adorei o espetáculo. Achei mesmo que talvez fosse o espetáculo mais bonito que já vi na vida. Equiparável apenas a alguns de Antunes ou Aderbal. Mas o texto tinha aquele negócio, aquela desesperança que não me interessa. Então, decidi entrevistar o Hirsch. Encontro um rapaz de 36 anos, para mim, um menino. Simpaticíssimo, humaníssimo, inteligente e inspirado. Seu discurso nada tinha a ver com aquilo que me desagradava no espetáculo. Então, tomei coragem e abri o jogo. Disse: Felipe, não gostei do texto. Nem de outros que você montou. Por que você não gosta de textos que apontem mais para o alto das montanhas, a grandeza do homem, a esperança, etc?
Há muito tempo eu queria fazer essa pergunta para os chamados diretores herméticos de vanguarda.
Por que você não faz, por exemplo, uma comédia comovente com todo o talento que você tem?
Felipe estava me olhando muito sério desde que comecei a pergunta. Então pegou no braço e me deu uma resposta histórica, exatamente o que eu queria ouvir. Subi pelas paredes de prazer e compreendi mais por que esses diretores geniais não escolhem bons textos. Felipe disse: Domingos, eu chego lá! E que por enquanto eu sou muito moço, sofro muito, a vida ainda me é difícil. Então trabalho com vários temas, o exílio, a solidão, o desamor, etc. Mas pretendo chegar um dia a ter um tema só em todas as minhas peças. Esse que você falou aí: o amor!
Estou convencido que o Hirsch se já não é, será um dos maiores diretores brasileiros de todos os tempos. Um homem que não mente. 120


Se Deus existe, o problema é dele. (Edu, coração de ouro)



Terceiro Post.

Presente.

Acabo de verificar que parte da minha postagem não entrou no blog. De modo que começo com elas.


Dramaturgia

}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque eu sejam filósofos
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Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)


Uma divida
Hoje começa uma homenagem que O Tablado resolveu me fazer. São 24 turmas lá. Todos vão montar somente textos meus, até o final do ano. O título da brincadeira é: “Investigação Sobre o Artista Acima de Qualquer Suspeita”. Pretendem fazer isso nos anos seguintes, com outros autores. Achei bacana. Não dá dinheiro, mas é uma honra, sem dúvida. Mais que isso, é a chance de ver como bate nos jovens toda essa escrivinhação que fiz ao longo da vida.
O jovem de hoje é muito diferente do da minha geração. “Em 68 jovens lutavam por ideais. Hoje, lutam por emprego.” Dizem os jornais. Repletos de estudos sobre o 68. Também eu tenho vontade de escrever sobre isso. A Revolução Hippie foi o evento social mais importante ocorrido na humanidade desde 1917. E ele ainda não foi realmente contado. Expressou-se em música divina, sem dúvida, mas não afirma nem em peça nem livro realmente bons sobre o assunto. É quase um segredo. Something Unspoken. O Bertolutti sobre o assunto, que não me lembro o nome, fui ver correndo. Mas quase não toca no assunto. O que houve ali, em 68, ou melhor, de 68 a 72, 73, foi uma tomada de consciência das potencialidades humanas. Da existência do paraíso. Da possibilidade concreta de mudar o mundo. De definir, apontar, destruir a mente formatada, o preconceito e a mentira, naquele tempo chamado de “caretice”. Era sério o negócio. E muito bonito!
Como tudo o que é bom, dura pouco. E não deixou saudades. Deixou esperanças. Pontos de reflexão. O novo pensamento, que nem um bom nome tem, o melhor é Contracultura, que parece coisa acadêmica, chegou ao Rio de verdade nos fins de 70. 68, pra nós, não tem barricadas na rua. E sim ato institucional.
Mas isso talvez não tenha sido mau. Quem viveu a colorida Contracultura em meio ao cinza-chumbo do golpe, pôde vê-la com uma especial nitidez.
Tento não ter vontade de escrever mais peças. Já bastam as que tenho prometido a mim mesmo. Mas sou até hoje hippie. Sei o que foi aquilo. Vou ter de contar, uma hora dessas. Da tempestade de besteiras que a esquerda, o Socialismo, cometeu, talvez a maior tenha sido a não-compreensão de que a Contracultura não é o seu oposto, e sim sua única continuação possível.
“Oh, boy. Você vai ter de carregar esse peso.”


Vi um filme ótimo em área 1 (DVD). Que não aconselho a ninguém ver. É uma porrada. Eu não sofria assim com um filme desde o “Dançando no Escuro”, que é outro insuportável. Estou falando do “O Escafando e A Borboleta”. É genial. Você vai sofrendo, sofrendo, com a certeza de que algo de bom vai acontecer... e não acontece! Então você apaga a televisão, está na hora de dormir. E sua alma está devorada, consumida. Acho que bons filmes não tinham o direito de ser assim. Em “Roma, Cidade Aberta”, por exemplo, o padre morre torturado e fuzilado. Mas atrás das grades do jardim, há crianças olhando. Que depois saem pela estrada da vida. Uma vez vi em Nova York (!!!) uma sessão dupla de cinema. Acabava “Roma, Cidade Aberta” e imediatamente começava “La Estrada”. Eram gente boa, Fellini e Rossellini. Embora acho que seja insidiosa com essa coisa da esperança. “Escafando” tem duas cenas tão bonitas que quase compensam a infinita dor. A da enfermeira que faz “falar” com um olho só, fala da compaixão. Depois outra, com o pai (Max Von Sidow) comenta diretamente a miséria da condição humana. Gostei muito do filme. Mas não aconselho ninguém a ir ver. Se eu não tivesse visto, não veria.


Passado:
Tenho 10 anos, ou oito.
Minha mãe doente. Ausente. O pânico, o medo. O momento em que me permitem vê-la, sem me aproximar. Minha mãe num porta entreaberta. Ela olha para mim, aponta,ela chora. No chão, quase debaixo da cama, aquilo que me lembro como uma bacia cheia de sangue. E fecham a porta, porque é impressionante para uma criança. Alguém me explica a doença de minha mãe. É um irmãozinho, que se perdeu, mas eu não tinha ouvido falar que ela estava grávida!

O portão, mil vezes olhado, por onde chegará meu avô (ou seria meu pai?) ,com o presente. O presente nosso da casa dia. Talvez fossem balas de côco.

E um dia, quando já não existia meu avô, vão sair meu pai e minha mãe para uma festa. Vestem-se de gala e aparecem, lindos, como nunca os vi, mas eu não quero que eles vão embora, menino chato. Choro, grito, esperneio. E quanto mais choro, grito e esperneio, mais corro o perigo do abandono. E quanto mais corro perigo, mais importante se torna o jogo, mais insuportável é suportar que meus pais saiam para a festa. Enfim, jogo a vida, e perco. E o choro vira soluço, e depois já nem cansa mais.

Que terei eu feito de tão errado? Escorregado pelo corrimão da escada da sala grande? Onde ninguém ia, onde o mármore do chão parecia um espelho, se não parecesse com o tabuleiro de xadrez? Não sei, não lembro da falta. E depois, como teria eu ido parar exatamente ali, naquele corredor escuro e amedrontador que conduz à capela, no coração da casa? Talvez estivessem me obrigando a caminhar ali, por aquele corredor, em direção à capela, simplesmente porque eu não quisesse e me recusasse a ir lá. Eu tinha tanto medo da capela, e dos santos dentro do santuário, por trás do vidro. Daquele lugar sem janelas, no coração e no centro da casa, onde todos tinham de ajoelhar-se naquela cadeira engraçada e grená, que não era para sentar e sim para ajoelhar. Onde ninguém falava alto e, ao menor descuido, ao leve acaso, Deus castigava? Me lembro apenas do corredor, que mil passos não atravessariam. De meu pai que me arrastava pela mão, e eu perdia o equilíbrio, e berrava, e ele mandava calar... e me batia, para que eu parasse de chorar! E doia tanto, era horrível a dor, posso senti-la até hoje. A mão dele em mim, doía e ardia, mais do que eu podia suportar. Talvez me furava e quebrava. Talvez me matava, em direção à capela. Meu pai, uma criatura tão bondosa e doce. Devem tê-lo enlouquecido, para que ele chegasse a me tratar assim, de modo tão covarde.

Havia um chofer bigodudo, seu Corrêa, português, que me falava umas tremendas sacanagens.

E houve o dia que eu não quis ficar no colégio. Meu avô José já tinha morrido há algum tempo, o luto ainda imperava na familia. Ele próprio tinha comprado para mim os quadradinhos com letras e eu logo pude perceber o mundo que havia por trás daquilo. Minha avó (é dos poucos contatos reais que me lembro ter tido com ela), ensinou-me uma ou duas vezes como brincar com aqueles quadradinhos. O “beabá” é para mim uma recordação mágica.


(Sempre tenho a impressão que recordações de infância não interessam absolutamente a ninguém. Mas continuarei a colocá-las aqui no blog. Que afinal, ninguém precisa ler, maravilha tecnológica! Minha infância eu já contei, em síntese, na profundidade. Numa peça chamada “Do Fundo Do Lago Escuro”. Essa vocês devem ler. Tem na livraria. A arte é a vida sem as partes chatas.)



segunda-feira, 19 de maio de 2008

Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

Presente:
Vi ontem no DVD o velho “12 Homens e Uma Sentença”. Pecinha bem feita para televisão por Reginaldo Ross nos anos 50. Era impressionante a dramaturgia do início da TV americana. O “One Hour Play”. Quatro ou cinco escritores notáveis, dos quais o patrono chamava Paddy Chaievsky, de quem hoje pouca gente se lembra ou conhece. É uma espécie de Neo-Realismo Norte Americano que tive a oportunidade de dirigir na TV, ainda em preto e branco. Chaievsky tem um filme famoso, “Martin”, que é a história de um açougueiro, uma história de amor, com o qual Ernest Borgnine ganhou um Oscar. Aconselho também vivamente “O Grande Negócio”, “Despedida de Solteiro”. Ninguém tem esses textos. Mas tem em inglês. É bom ler pra lembrar como se escrevia bem. A “Peça de Uma Hora” foi o ramo mais nobre na TV e depois desapareceu, preterido pelas novelas e minisséries cada vez mais longas ou, quando muito, séries, que são os gêneros bastardos por obrigar o escritor a ser prolixo. Por anular o poder da síntese. Nem sabemos mais o que é isso. A nova geração, que eu saiba, escreve mal por falta de dramaturgia. Que jovem bom anda escrevendo, profunda e simplesmente? Verdadeira e interessantemente? Ninguém, penso. Mas estou doido para mudar de opinião.

Sobre a nova geração, os que têm menos de 25, há muito o que discutir. Nos jornais pode ser lido que os jovens de 68 lutavam por idéias e os de hoje por emprego. Realmente é impressionante. Os sensíveis são bastante raros e os produtivos quase inexistentes. Penso que o sonho não acabou. Mas os jovens não sonham.
Escrevo essas linhas de velho com espírito de provocador, é claro. Me parece também que assim como falta no jovem de hoje a ânsia do conhecimento e o desejo artístico, falta-lhe também por extensão o desejo sexual. No que posso ver ao meu redor sexo anda bem fora de moda, particularmente entre os jovens. Vejo cada menina por aí sem namorado... No meu tempo, não tinha disso não. Eram dez fazendo fila. No meu tempo um “quer trepar comigo” suscitava uma resposta, um “sim” ou um “não’. Atualmente a resposta parece ser “trepar contigo? Para quê?”...
Não me acusem por esses sentimentos. Estamos num blog. São provocações.

A vida de todo mundo tem fases, marcadas por isso ou por aquilo. Tive por ambição, desde jovem, escrever uma peça ou fazer um filme sobre cada uma das fases da minha vida. Tive a felicidade de quase conseguir alcançar esta meta. “Do Fundo Do Lago Escuro” contém a essência da minha criança. “Os Melhores Anos Das Nossas Vidas” da minha adolescência. “A Última Valsa” da minha passagem para a idade adulta. Meus amores estão espalhados por vários filmes, de “Todas As Mulheres Do Mundo” à “Separações”. E também, disfarçadamente, todas as outras peças e filmes...
Mas tem pelo menos uma fase sobre a qual não escrevi ainda e sinto cada vez mais vontade e obrigação de fazê-lo. Que é a época que vai entre 68 e 72, quando já com quase 40 anos virei hippie, da melhor estirpe, andava de jaqueta verde, botas longas e rabo de cavalo. E acreditava na Contracultura como salvação do mundo. Durou pouco, mas foi bom.
Hoje penso que vivi uma Contracultura muito especial. Vianinha dizia que eu era “o verdadeiro hippie”. Lendo esses jornais todos sobre 68, não encontro eco do que eu senti. O grande livro ou filme da Contracultura ainda não foi escrito ou filmado. Talvez haja rastros disso em “Easy Rider” e “2001” e outros pouquíssimos. Claro que a música retratou os tempos. Com grandeza. Mas só. “Seja razoável, exija o impossível”, “a imaginação no poder”, “drop out”, são palavras que pedem para ser pichadas. Existirão palavras assim hoje em dia?

Não admito que ninguém que lê esse blog pense que sou um saudosista ou um pessimista. Esses dois sentimentos são burros. Minha frase principal nunca foi pichada em nenhum muro, é: “Tenho uma noção profunda da minha extrema felicidade. Mesmo quando estou triste de querer morrer, tenho uma extrema noção da minha profunda felicidade.”



PASSADO:

Um dia me prepararam e me mandaram para o colégio e eu não quis ir, e chorei. Isso lembro-me bem !
As freiras que, sisudas e malcheirosas, receberam-me de minha mãe e me levaram para dentro do colégio.
É como a imagem refletida do espelho quebrada (deveria existir uma palavra única para esta imagem, tão comum a todos os delírios). É assim, “não-inteira”, que me recordo da sala do colégio das freiras. Imensa e muito clara, com gravuras fascinantes, cavalos pastando perto de uma árvore em um verde gramado. Uma beleza complexa, imensa e amedrontadora, fascinante mas que não me pertencia, assim eu me lembro da sala do colégio.
A falta da minha mãe, insuportável - com os olhos eu procurava quem pudesse substituí-la, um rosto de mãe no meio das freiras, mas não encontrava. Em meio a tudo isto, como se não bastasse meu sofrimento, ainda queriam que eu brincasse com as outras crianças, mas o sol queimava, talvez fizesse mal, talvez me matasse o sol. Foi quando veio a hora de dormir. As janelas se fecharam, o escuro tombou sobre a sala. Uma freira me agarrou e me pôs numa cama, um berço, onde eu deveria ficar imóvel, dormir. Como podia, se tinha medo? Medo?
Depois o pátio, hora do recreio e subitamente, na porta do colégio, no portão de ferro intransponível que me separava do mundo, surge meu avô paterno! O outro avô, o avô que estava vivo, o pai do meu pai, vovô Odorico!!! Eu pedi a ele, implorei, que me levasse embora, para casa. Corri para o portão, escapando das mãos vigorosas das freiras, desobedeci, me subverti e corri para o portão, para implorar... porém meu avô me respondeu com aquele mesmo sorriso que meu pai teve todo tempo que viveu. Um sorriso de quem não pode se meter, do humilde criado, mas quem manda é o patrão e foi embora meu avô. E as freiras de novo me devoraram.
Na manhã seguinte procurei diretamente minha avó, a matriarca e dona do dinheiro, e disse a ela (premeditadamente, tudo tinha sido planejado: "Minha avó, se meu avô fosse vivo, eu não ia ao colégio, ele não ia deixar.” Então todos se comoveram, e... nunca mais me mandaram para o colégio! Estudei anos dentro de casa, com uma professora particular, D. Adalgisa. Todo o curso primário eu fiz em casa, com excelentes notas.

O fascínio dos quadrados de madeira com o desenho das letras. A suspeita do mundo que havia por trás daquilo. O prazer, válido em si, de compreender e controlar as combinações das letras, de unir a elas um significado. A atividade lógica de aprender a ler. Imensa alegria, primeira alegria adulta.




Quarta postagen:


terça-feira, 27 de maio de 2008

PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE

Hoje me despeço do Blog da Bravo!. Mas gostei da coisa. Está me parecendo um bom modo de rascunhar a minha biografia conforme expliquei na postagem anterior.
Eu uma vez fiz um espetáculo chamado “Pra Quem Gosta de Mim”, título que não deixou dúvidas. Pois bem, o Blog me parece também um modo de descobrir quem são meus discípulos, fãs, admiradores, amigos, que andam por aí e eu não sei. Um modo de fazer a minha mala direta afetiva. Por esses dois motivos, continuo, fora da Bravo!, a quem sou muito agradecido pelo ensinamento blogueiro. Meu novo blog é

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

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As despedidas, dizem com razão os ingleses, quanto mais curtas, melhores. Porém, como eu não sou inglês, farei essa especialmente longa.

PRESENTE
Breno Silveira.

Breno Silveira é o diretor de “2 Filhos de Francisco”. Que deu 6 milhões de espectadores. Um bom filme brasileiro atual dá 80 mil espectadores. Um mau filme brasileiro vulgar popularesco atual pode chegar a 1 milhão de espectadores. E o Breno não é vulgar nem popularesco nem mal intencionado nem manipulador. Ao contrário. É um rapaz fino e bem nascido. Que, não sei como, tem sua consciência de artista identificada com as classes menos privilegiadas, ou seja, usando uma palavra horrivelmente gasta, com o povo. Em consonância com a sociedade em que vive, poderia ser dito assim. Fazer um filme com a dupla caipira de qualidade musical possivelmente duvidosa e contendo tramas altamente sentimentais, para não dizer sentimentalóide, tem todas as características de uma atitude picareta. Breno teve uma idéia original sobre o assunto. Inteligentemente desviou a atenção da dupla popular para a história do pai deles. E os filhos de Francisco estouraram. Agora havia de sair para um segundo filme. O que fazer quando seu primeiro deu 6 milhões de espectadores? É certo no mundo inteiro, mas no Brasil é certíssimo, que ninguém pode fazer dois sucessos seguidos. Depois do primeiro as marretas intelectuais e midiáticas levantam-se, prontas para baixar a porrada. Seu segundo filme, mesmo que seja uma obra prima, será considerado pior do que o primeiro. O valor da novidade na nossa sociedade é imenso. A atriz novata que arrebenta numa novela só vai fazer sucesso de novo daqui há dez anos, quando esquecerem o sucesso inicial. O cineasta tem que construir uma obra para ser “novo” de novo. Aconteceu exatamente assim comigo e nos meus 70 anos de batida nunca havia acontecido diferente. É comum dizer, porém verdadeiro, que não vai ser preciso matar seu leão de cada dia. Mas a alma bondosa e generosa de Breno conseguiu vencer seu espírito sofisticado e internacional, resolveu fazer o “Era Uma Vez”. Quando ele me disse do que se tratava, quase caí para trás: Um “Romeu e Julieta” na favela. Um menino favelado apaixona-se por uma menina da Vieira Souto, seu romance não é permitido na sociedade e acabam morrendo os dois, baleados pela polícia. Não podia haver nada mais banal. “O roteiro trará um tratamento original, uma visão nova”, pensei. Li o roteiro. Além de banal era absolutamente previsível. Sem nenhuma novidade. No entanto ali já conhecia o mistério com o qual desejo fechar essa primeira parte do meu blog. Era um roteiro escrito com tanta sinceridade, tanta boa vontade, tanto romantismo, tanto amor ao próximo, que não era possível dizer que era um roteiro ruim. Embora fosse. Ontem vi o filme. Tudo é realizado com muito capricho, porém do modo esperado. Sem novidade de linguagem, previsível, banal. E no entanto é ótimo! Um gol de placa capaz até de quebrar a “maldição do segundo filme”. Chorei como uma vaca nos vinte minutos finais. Embora soubesse exatamente o que ia acontecer. Se uma obra alcança esse nível de emoção, é uma obra de arte. A gente que não respeita o seu próprio pranto, incrível. Se um filme me faz chorar, é um bom filme. Que eu não sou idiota, não choro com besteira. É o amor que Breno tem com suas criaturas que realiza esse milagre. Fenômeno curiosíssimo que vocês poderão verificar nos cinemas daqui a pouco tempo. Dispam-se de todos os seus preconceitos, comprem sua entrada e venham chorar com Breno Silveira nas dores básicas do mundo do amor. A arte tem caminhos que a própria razão desconhece.


PASSADO

Então um dia quis o impossível. Desejei captar e estar presente ao momento exato em que passava de acordado para dormindo! Ter consciência da perda de consciência, foi o que desejei muito criança ainda. E o estado de alerta que esta pesquisa me obrigava, me impedia de dormir. E no entanto eu não queria abrir mão do jogo. Me dava tanto medo! Não poder colocar sobre meu domínio este instante mágico... No qual eu perdia o domínio de mim mesmo e, dominado pela inconsciência do sono, tornava-me um ser desprotegido, do qual os maiores perigos podiam aproximar-se sem que eu ao menos me desse conta. E nessa beira de delírio tive muitas noites, talvez anos de insônia. Foi através dessa experiência que tive minha primeira noção da Morte.

(Depois, muito muito mais tarde escrevi uma peça sobre minha infância, através de muitos processos e um vigor de escritor que absolutamente não tenho mais, escrevi "Do fundo do lago escuro". Então penetrei brabo nesta terra escura da minha infância. Descobrindo lá uma assustadora e inesperada sensualidade, entre muitas outras coisas.
Sobre meu avô paterno, o da porta com grades, pouco escrevi. Mas talvez tudo que sabia. A velhice dele foi interessantíssima, totalmente louco, gagá. E naquele tempo era vergonhoso ser louco. O trabalho chama-se "A ordem natural das coisas”, um roteiro premiado de cinema que não filmei nunca mas que ficou sob a forma de um especial de Tv, sem duvida dos melhores que fiz.
Tenho também uma fonte fértil, se alguma hora quiser escrever sobre aquela gente que me viu nascer. Que é uma foto de toda família da minha mãe, foto onde ela deve ter uns 3 anos . São 1O pessoas naquela foto e sei muita lenda sobre aquela gente toda. Mas não creio que ninguém se interesse por isto)


Me lembro do dia em que peguei o bonde andando pela primeira vez. Que alegria. E do dia em que ouvi Caymmi pela primeira vez e a coleção de "Guri" que comprei e botei em cima do armário, uma pilha enorme, da qual eu só me permitia ler dois dias, economizando o prazer.

Certa vez subi sem querer a escada do vestuário das meninas internas. Nunca dei sorte com elas, era cruelmente desprezado.
Mas no "show" do colégio, primeiro e único pois depois ninguém conseguiu organizar outro, eu dançava com todas as meninas no final, apoteose de teatro revista. Até hoje a música me vem ao ouvido: "Nós voltamos a apresentar, este show para você!". Eu dançava, até com a Carmem, que tinha um namorado muito mais velho.
Minhas músicas prediletas eram "Good Night Sweetheart" (que minha mãe falou que era música do noivado dela) e "Jambalaya".

Minha primeira investida como produtor teatral foi a montagem de "O dote", de Artur Azevedo. Confesso que com a finalidade precípua de beijar a Ângela, conforme mandava a rubrica. Deus, como eu amava a Ângela! Tenho certeza que não tenho mais a menor idéia do quanto eu amava a Ângela! Que não me dava a menor bola, claro. Eram tempos violentos: o Garcia se masturbava dentro da sala de aula. O prof. Medeiros um dia me pediu conselhos sobre o que fazer com ele! Já o professor de inglês, recém chegado ao Brasil, pedia autógrafos aos alunos. O Prof. Leon, de educação física, tentava introduzir a esgrima ela própria no curriculum. A culhoneira voadora passara por cima do tabique e caía com estrondo e escândalo na sala das meninas. E um dia, de repente, Heitor apareceu com uniforme de interno. Eu tinha uma maleta de ferro que prendia direitinho o guaraná, que derramava num guardanapo nojento com os palitos franceses que mamãe botava. E o Miguel jogava bulica comigo. Bulica, Comigo. E havia o inspetor, que se chamava seu Carvalho.


(OBS. Como vê o querido leitor, AMARCORD e mãe não era só Fellini quem tinha. Todo mundo tem. Até o próximo blog, me acompanhem que eu vou longe....)

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