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domingo, 7 de setembro de 2008

TOLAS DÚVIDAS DE UM ARTISTA

De vez em quando eu me confundo. Melhorou muito, antigamente era sempre. A razão de minha confusão nesta manhã de domingo é sobre o show. O “show do Domingos.” Por mais que tenha outros nomes, será sempre o show do Domingos. Não sei o que faço com ele. Se tiro de cartaz para sempre ou luto incondicionalmente para fazê-lo. Dúvidas tolas. Mas é assim mesmo. Para quem conhece o filme: Quero fazer do Cabaré um sucesso do mesmo modo que Barry Lindon quis ser marquês. Ou conde, sei lá. Mas para entender melhor, contemos do início. Aos dez anos de idade, minha professora de primário me pedia que eu cantasse baixinho o Hino Nacional, para não atrapalhar os outros mil alunos da escola. Todos com a mão no coração naquele ginásio enorme. Aos vinte, dançava bem, mas não podia abrir a boca para cantar. Era um desafinado. Aos quinze, pedi um piano de presente de aniversário para minha mãe. Meus pais me deram. E comecei a entoar umas coisinhas desafinadissimamente, embora conseguisse tocar “de ouvido”, mal, mas de ouvido. Aos trinta anos, me lembro do Simonal me botando para fora do côro no filme que fazíamos, etc. etc. O filme ficou uma merda. Qualquer dia conto essa estória. Sei que perdi a paciência quando, já nascida minha filha, e morando eu em Teresópolis, comprei um violão. “Se qualquer idiota toca esta porra, eu também posso tocar.” Ledo engano. Até hoje não toco violão. Nunca tive a coordenação necessária. Anos depois, quando dirigia o Teatro Planetário, cantei pela primeira vez, no Cabaré 1, em 96. Portanto, com mais de cinqüenta e cinco anos descobri que tinha a voz grave, entre o barítono e o baixo profundo. E que poderia cantar, se estudasse muito, até direitinho. Depois o Planetário acabou (fizemos quatro Cabarés nessa época, sempre com sucesso). Cantar me dá uma grande alegria. Indescritível, mesmo. De modo que não quis parar. E comecei a fazer esse show, uma forma mais informal, da mesma idéia do Cabaré (filosofia e música). Como sou o homem da palavra, segui Fernando Pessoa, quando diz que “a canção é uma poesia ajudada”. E que ajuda mesmo. Assim começou o show e o fracasso. Um fracasso estranho, pois amigos iam e gostavam muito, sentiam emoções extraordinárias, mas não traziam ninguém. Custei a compreender porque o boca a boca não funcionava, nesse caso. É muito simples: O pessoal do teatro não vai ver shows em bares. E o pessoal dos shows não vai me ver, porque eu não sou cantor. De modo que o espetáculo, por melhor que seja, fica nesse limbo, só vai “diretoria”. Amigos famosos, gente notória, mas o público mesmo, não vai. Fizemos no Bistrô, no Cinemathèque, no Lounge da Lagoa, no Mistura Fina, foi sempre a mesma coisa. Pessoas gostando cada vez mais, porém neca de público. Os cantores não-cantores (Denise Bandeira e Dedina Bernardelli), eu, atrizes, atores etc etc etc, divertindo-se cada vez mais, o show cada vez melhor...
E no mais, ninguém. Como pode uma platéia adorar um espetáculo e não ser um sucesso? Pode tudo. No Show Business, como na vida, vale tudo. O espetáculo transformou-se num “lugar de convidados”. Ou de ingresso barato para os amigos. Ou seja, não se paga. Leva um prejuizozinho. E dá um trabalho danado. Resumo, enchi dessa situação. Adoro cantar, quero morrer cantando, mas assim não dá! Há algo errado. E eu fico pensando o quê. Certamente por causa do já citado “desenfoque mercadológico”. Porém, pensei hoje, não só por isso. Não sei se vai interessar as pessoas ler isso. Nada mais chato que a dúvida dos outros. Por outro lado, podem compreender e até ajudar. O show atualmente tem uma multidão no palco. Tudo gente legal. Nós nos amamos e botamos todo esse amor no palco. É uma das razões do “sucesso”. Somos de 13 a 15, ou seja, financeiramente inviável, num bar pequeno. Num bar grande eu não quero botar. Nem num teatro, tenho certeza que perde a intimidade, a linguagem. De modo que para existir “Sábados do Domingos” ou “Onde é a festa sábado?”, para completar minha experiência sobre o “Teatro-Festa”, é preciso arranjar um patrocínio. Ponto, acabou. Faço os dois últimos no Canequinho sábados 13 e 20 de setembro, e fechamos. Até arranjar um cada vez mais suposto patrocínio. Aconselho que vocês compareçam em um deles, não por causa do dinheiro, isso não me importa mais, mas sim porque vai ser ótimo! É muito afeto em cena, espectador e cantores. Chega a fazer barulho. Claro que eu poderia fazer um pocket-show e reduzir o número de pessoas. Mas não tenho coragem de botar ninguém pra fora e não seria este show. “O Show do Domingos”. Ao contrário, nesse cada vez entra mais gente. Gente irresistível que entra por amor à arte. Todos fariam muita falta. Todos são imprescindíveis e amados. Ficariam decepcionadíssimos. E o teatro não vale tanto. Não seria o mesmo show. Mas como eu ia dizendo antes de tergiversar, o show tem um defeito. Tem vários shows dentro dele. Isso acontece muito com o criador da arte. Ter várias peças numa peça, vários filmes num filme. É sempre muito difícil extrair os intrusos. Quero dizer que esse show contém:
1) O Pocket: eu, piano, bateria e duas inteligentes cantantes, onde inclusive teria a oportunidade de mostrar as minhas músicas, coisa que meu pudor (não é uma surpresa eu ter isso) não me deixa mostrar até agora. E sem filosofia.
2) O Show Temático. Quero dizer: a turma do Domingos, ou melhor, o Grupo Fúria, apresenta Noel Rosa. Ou A História do Samba. Seria maravilhoso este também. E mais fácil de viabilizar, posto que caberia num teatro.
Enfim, eis o que aprendo nestes fracassos (fracasso ou sucesso, é tudo igual). Não tenho que fazer meu show, tenho que fazer três. O grandão, o pocket e o temático. Vejam só que miséria. Estou querendo diminuir os meus planos. Não multiplicá-los. Não tenho mais idade pra isso. Socorro!


terça-feira, 2 de setembro de 2008

ATUALIDADES:

Primeira:


Não sei se é a informalidade que busco nesse espetáculo há muitos anos.
Não sei se é a alegria que nos causa ao fazê-lo.
Não sei se é o repertório.
Ou se funciona como uma lição de liberdade para o espectador que, no fundo, gostaria de ser do teatro.
E não sei se há uma ternura que emana disso tudo.
Sei que o espetáculo do Canequinho, com todos os seus defeitos e acidentes de percursos, está tocando na minha meta final quanto a ele, que sempre foi chegar ao teatro-festa.
As pessoas se divertem muito, invadem o palco e ficam dançando no final por longo tempo e vêm me agradecer emocionadas pelas filosofias.
Detesto me auto elogiar. Mas acho que cheguei lá!
No TEATRO FESTA!
Faltam 3 sábados. E kaput! A vida segue.

ps. Se algum de vocês conhecer um possível patrocinador, leve. É baratinho o patrocínio. E o nome da empresa fica ligado ao acontecimento mais alegre dessa cidade. O espetáculo está saindo por falta de patrocinador (muita gente no palco, muito convidado na platéia...) . Não que não tenha, mas é que não sabemos procurar.


Segunda:

De Gus Von Saints. Nunca tinha ligado o nome à pessoa. Vi o "Kurt Cobain" e detestei. Achei vago, incompreensível. Mas agora pego na prateleira o "Paranoid Park" e caio de quatro. É uma obra prima! Fala dos jovens de hoje como nunca ouvi alguém falar.
Os jovens de hoje de classe média são, mais que tudo, figuras introvertidas. Falam pouco, em geral num dialeto próprio inacessível aos pais não-iniciados. Ele está sempre bem, normal, indiferente, na sua. Parece que ele já viveu tudo muitas vezes. E que mora atrás de um tapume onde está pixado "ninguém se aproxima". São uns amores, porém inatingíveis. Nem o sexo parece entusiasmá-los a ponto de fazer cair-lhe a máscara. Ele é bonito, entediado, parecido com os Beatles, ou melhor, com o Lennon, que morreu assassinado. Não julgam o mundo, não têm opinião, não são dali. Por quê? De onde são, afinal? Por quê?
Os jovens me adeiam, zombam de mim ou têm medo?
As respostas a essas perguntas quando são feitas com compaixão verdadeira surgem claras. Os jovens não falam porque não têm o que dizer dentro de um mundo tão complexo. Os jovens não falam porque têm medo de dizer besteiras, algo que os prejudique. O jovem é indiferente porque não tem lugar no mundo. Os jovens não são amigos dos pais porque os pais são tão fodidos que não podem protegê-los. E ele, sem jamais confessar isso, grita "socorro" internamente. Não há ideais para seguir, guerras para lutar, mesmo um emprego é dificílimo (talvez isso seja o principal). De modo que um adolescente hoje perde-se em suas fantasias.
"Paranoid Park" é muito melhor do que o "Elephant", embora sejam quase o mesmo filme. Diretor genial, poeta de sensibilidade, Von Saints olha de perto não um serial killer, mas um garoto comum que qualquer um de nós gostaria de ter como filho. Mas que não conseguimos proteger dos atalhos muitas vezes cruéis da existência.
Dizem que o final ideal de um filme ou uma peça tem que conter algo que o filme inteiro não teve. E que lance uma luz para trás. Um poderoso foco retrovisor que ilumina a estória inteira. O final de "Paranoid Park", numa época em que os de vanguarda odeiam a dramaturgia, é uma obra prima dramatúrgica. Quando ele queima as cartas na lareira, revela pungentemente para o espectador sensível... que não é capaz de amar. Era isso desde o início. Compreendemos tudo.
É um grande filme. Agora estou procurando rever "Drugstore Cowbói", "Garotos de Programa" etc. Pensei que Von Saints fosse jovem também. Nada, tem 60 e poucos. Puta velha. Não sei como não o percebi antes.


Terceira:

O assunto é política de cinema. Saiu uma nota sobre mim na coluna da Monica Bergamo da Folha de São Paulo que teve repercussão, mas que não corresponde às minhas idéias. É a já velha estória do "Edital do Filme Pronto", da necessidade do "Ministério da Arte". Não quero gastar blog com um assunto tão árido, de modo que simplesmente reproduzo aqui o que eu mandei pra Folha:



CONTRA A DEMOCRACIA

O cinema é o resumo de um país. Ser brasileiro já é ser artista. Poderíamos exportar tanta arte quanto sapatos. Creio que não há nenhum detalhe errado na legislação atual do cinema brasileiro. Porque está tudo errado.
A palavra cultura hoje em dia está desgastada. Significa qualquer coisa. Futebol, televisão, artesanato, esporte, isto está certo. São as emanações criativas do nosso povo brasileiro. Igualmente desgastada está a palavra Arte. Sempre ligada, equivocadamente, a certo elitismo. Ambas consideradas de alguma forma pela maior parte dos homens do poder como lazer e diversão. Ora, num país pobre como o nosso não é possível gastar muito dinheiro em lazer e diversão. Assim sendo, a Cultura/Arte tem a menor verba do orçamento público. Errado. A Arte é formação de caráter, como a cultura, porém tem outros objetivos e poderes. A arte é a mãe da ética, da solidariedade, da honestidade, da cidadania, nasce na pobreza como na riqueza. É um regulador da sociedade sem a qual é a barbárie.
Como não podemos concorrer nos orçamentos, a única chance do cinema brasileiro no mercado externo talvez seja o filme de ARTE, filme de conteúdo. Diversão enquanto ensinamento. A arte é locomotiva. O que seria do Cinema Novo sem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da retomada sem “Central do Brasil”, do Teatro sem Nelson Rodrigues ou Antunes Filho? Da música sem Jobim? São as obras dos bons artistas que elevam a importância da atividade cultural. O problema brasileiro não é a FOME, nem a violência, nem a corrupção nem a impunidade, e sim a indiferença quanto a esses crimes. Ocorre portanto no interior da alma humana. Somente através da Arte estes inimigos podem realmente ser combatidos, somente a Arte tem força e vocação para alcançar esse tipo de região. A violência não funciona.
Tentemos descrever o CAOS em que normalmente vive o cineasta brasileiro. Que é, como o sertanejo, antes de tudo um forte. Faz um filme de três em três anos, quando em geral já perdeu a vontade de fazê-lo. Então logo percebe que, por melhor que seja o seu filme, as rendas provindas da bilheteria são ínfimas. As cartas estão marcadas. O cineasta brasileiro precisa dos patrocínios como um bebê do leite da mãe.
Este patrocínio vem das citadas “leis de renúncia fiscal”, e quase sempre vão, pelos caminhos conhecidos, para os que têm padrinhos fortes; os mais convencionais; os que têm atores da TV reconhecíveis pelos patrocinadores; e o que é mais grave, para os filmes de alto-orçamento de preferência sem intenção artística. Dinheiro atrai dinheiro. E são os empresários que decidem que filmes devem ou não ser feitos.
Estes realizadores patrocinados auferem grossas fatias do orçamento (que já foi inflacionado pra isso) como pagamento do seu trabalho. Eles também não estão errados. Precisam sobreviver durante a longa espera do novo financiamento.
O dinheiro vai também para os filmes intelectuais, sofisticados e complicados que visam principalmente ganhar o mercado externo com nosso exotismo. São os chamados “filmes de festival” e raras vezes para filmes comunicativos como “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, “Os Dois Filhos de Francisco”, “Tropa de Elite”, “Meu nome não é Johnny” e poucos outros. Raras exceções. Em resumo, os filmes de baixo orçamento ficam no vermelho por ter tido pouco lançamento. Os de alto orçamento ficam no vermelho porque o gasto no lançamento é grande demais. Não é negócio pra ninguém, muito menos para o governo, que dá um passo para a frente e dois atrás, no sentido do estabelecimento na indústria de cinema brasileiro. As leis baseadas em renúncia fiscal têm em dois deletérios efeitos imediatos: a) Inflacionam o mercado insuportavelmente, já que o dinheiro não sai do bolso do produtor. b) Divorciam gravemente o filme do seu público. Não importa agradar a platéia e sim ao patrocinador, de quem depende essencialmente.
A diversidade e a descentralização são as maiores virtudes numa política cultural. Em meio a tantas opções, onde deve ser colocado o dinheiro público???
É hora da imaginação no poder. Antes que seja tarde. O que deve ser feito?
1. O governo saber que o destino do Cinema Brasileiro não pode ser resolvido por terceiros. É como terceirizar a polícia ou o a saúde pública.
Cinema é Arte, coisa especializada, da qual só entende os artistas, auxiliados talvez por uns poucos economistas e técnicos interessados no assunto. A prática de colocar burocratas frios e racionais, como no caso do último conselho, sem consultar as bases artistas é inacreditável. Apenas mais um reflexo do autoritarismo do poder atual. E depois o Governo tem de saber que dinheiro público não deve em princípio patrocinar filmes como meta principal.
Filmes são final de processo. Ponta de iceberg. O esporte já sabe disso há muito tempo. Não patrocina jogos, patrocina atletas.
O dinheiro público tem de ser usado naquilo que democratiza o fazer cinematográfico e beneficia a todos. Ou seja, na infra-estrutura da atividade. O que é isso? Ora, qualquer grupo de meia dúzia de profissionais experientes, reunidos algumas horas em torno de uma mesa é capaz de responder essa pergunta sem auxílio de institutos de pesquisa: Reserva de mercado, adicional de renda, criação de mercados alternativos, etc. E, mais que tudo, incentivo e recursos para o artista brasileiro de talento. Em particular, de talento agregador. Este sim, é a infra-estrutura da infra-estrutura. O centro, o fulcro. Claro que a produção de filmes tem que continuar, talvez sendo financeiramente a maior destinação do fundo. Parece estar sendo criado. Alguns filmes de alto ou baixo orçamento incentivam, de um modo ou de outro, toda a atividade. E portanto fazem parte da infra-estrutura.
Descrevemos acima a situação absurda do atual cinema brasileiro. Refratária a novidades, a mente conservadora impede a revolução mais por ceticismo que por autoritarismo. Ela não acredita que o mundo possa mudar.
O que importa fazer filmes num país pobre como o nosso?
Importa apenas fazer bons filmes.
Este trabalho crê que a Democracia é ainda o melhor sistema apesar de seus cruéis defeitos. Ser contra a iniciativa privada é, como sabemos, uma atitude nada democrática. Deveria haver uma linha muito especial de patrocínios para filmes independentes, feitos com recursos próprios. Do próprio bolso, filmes de risco. Sem usar o Governo. Isso significa que o produtor faz o filme por conta própria, livre na criação, e apresenta posteriormente um resultado para as autoridades competentes. Se o filme for considerado útil, de ótima qualidade, o produtor é ressarcido imediatamente das despesas feitas. Podendo assim, realizar o seu trabalho com continuidade. Coisa muito semelhante ao “Capture Venture”, política que está se difundindo nas grandes corporações mundiais e que tem tido incrível êxito em seus investimentos. Medidas assim criariam a indústria cinematográfica. É o “Edital do Filme Pronto”. Em minhas modestas limitações, tenho lutado por essa causa óbvia em muitas instâncias. Me ouvem sempre com atenção, compreendem que tenho razão. Mas nenhuma providência é tomada nesse sentido. Ao contrário. Se um filme chega a ser exibido num festival em cópia digital não pode mais concorrer a editais de finalização e lançamento! É evidente a antipatia da atual legislação pelo filme livre e independente. Não sei a que se deve esse sentimento. É talvez como o do pai que não quer largar os filhos crescidos, um apego natural ao poder.

Domingos Oliveira


ps do blog: Temos de voltar a esse assunto. Nossa legislação sobnre cinema e teatro é autoritária e não ouvem os profissionais que entendem do assunto. Defendem idéias próprias. Muitas delas desastrosas. Enfim, sinal dos tempos.



PASSADO:


Hoje não tenho vontade de falar no passado. Sou "Sartreano". 'Não importa o que o passado fez de mim, e sim o que eu farei com o que o passado fez de mim'. Tenho pelo passado uma simples curiosidade. Embora ele seja uma caixa de surpresas. De Pandora. Revelador, passado revelador. Adianto apenas que tive um encontro longo com meu irmão mais moço, que tem a memória melhor que a minha, e soube me contar a história das fotos no tom com que Garcia Márquez escreveu "Cem Anos de Solidão". Nossos mortos do passado são todos mitos de uma mitologia particular. Também nós seremos mitos, daqui a pouco. Embelezados, adorados, simplificados.

No blog que vem inicio a minha mitologia, ilustrada por fotos.



LEGADO 2:


Meu legado fez sucesso. Meu amigo Joffily e o leitor Bayão demonstraram indícios de pegar o bastão na corrida. Sendo assim, provoco um pouco: aumento o "LEGADO 2".


{Uma mulher com dois amantes. Um muito mais velho e outro muito mais moço que ela. Penso que é uma tragédia. Que o velho planeja matar o moço, que por sua vez, planeja matar o velho, afinal são loucamente apaixonados pela mesma mulher. No desenrolar do crime, é ela quem morre primeiro. O jovem morre também. E fica quem não devia ficar: O velho sobrevive. Ou talvez seja uma comédia.}

A cena mais promissora inicialmente é o encontro do velho, chamemos Henrique com o jovem, chamemos Felipe, digamos numa mesa de bar. Os dois estão com seus assassinatos planejadíssimos e encontram-se para tentar convencer um ao outro de largar a mulher, digamos Lucille. Porque ambos inconfessadamente detestam a idéia de se tornarem assassinos. Estão evitando isso.
Talvez esse encontro seja observado de longe por Lucille que aí toma conhecimento de que os dois sabem de tudo.


Mais um (chamemos LEGADO 3):

A mulher que casou com um homem respeitoso porque ele era respeitoso. E continuou sendo, depois de casado. Então ela é amante de um amigo do filho, um poeta. É o casal educado, que não existe mais. Não se separam nunca, porque são educados. São casais que vivem mal muito bem.



fim do post:



ontem fui ver o "Linha de Passe". Walter Salles e Daniela Thomas. Antes de tudo, que gente agradável! Quanta classe na estréia! Finos, educados, artistas de verdade. Tinham umas 2000 pessoas lá. Não consegui falar com o Waltinho (que admiro e amo muitíssimo), mas consegui mandar recado por Daniela (pessoa tão fascinante que tenho muita vontade de conhecer melhor). "Diga pra ele que o filme de vocês é grave. Uma Via Crucis." Daniela sorriu e foi embora. Esses fazem um cinema que orgulha o Brasil.

terça-feira, 29 de julho de 2008

ATUALIDADES:





Filósofo é diferente de um sábio. Um filósofo pode não ter nenhuma sabedoria, é amigo da sabedoria. Lei: "É preciso viver cada dia como se fosse o último."

Sempre acordo bem, de bom humor, agitado, resolvendo os problemas da véspera como se fossem simples. Hoje acordei diferente. Curioso, não sei o que foi que eu tomei, mas acordei com uma agitação fodida. Há muito tempo que quero criar o Grupo Fúria. Agora eu estou furioso. O motivo da minha fúria é o seguinte: Estou fazendo uma peça... uma não, estou fazendo duas, dez peças e dez filmes. Mas no momento estou fazendo uma peça chamada "Cabaré", no Canequinho, e escrevendo uma peça de teatro muito ambiciosa em parceria com o Luis Eduardo Soares, baseada numa história dele, sobre a violência e o crime organizado, essa coisa absurda que acontece no Brasil. Brasil primitivo e bárbaro. Os problemas que me enfurecem são dois. Na verdade, um. Eu jurei a mim mesmo que nesse ano eu tinha como meta me superar. 73 anos. 72 anos. Com o corpo todo enfraquecido, minado. Creio, há dois anos que não sei como está, não me examino. Mas a idade já me pesa bastante. Não estou me superando porra nenhuma, é dificílimo se superar. Mas pelo menos estou tentando, no momento estou tentando. Estou furioso. O motivo primeiro é o Cabaré, ou o Show, sei lá como aquilo se chama. "Os Sábados do Domingos". Está acontecendo a mesma coisa que aconteceu durante os cinco ou seis anos que faço esse show, diferentemente do que nos Cabarés que eu fiz no teatro acontecia. Lá era uma peça de teatro ensaiada e montada, esse show é mais um improviso. Estou saindo no prejuízo. Não é falta de gente, as pessoas adoram, eu sei como elas se sentem, eu já fiz esse show, é um acontecimento surpreendente, as pessoas ficam gratificadas com a liberdade do espetáculo, com a beleza das canções e das mulheres, etc, etc, etc. Ficam encantadas mas não vão e não levam as outras. Existem dois jeitos: melhorando o espetáculo, ou levando o público lá. Não necessariamente nessa ordem. Outra também que me enfurece é a minha outra peça que estou escrevendo com a Marcia Zanelatto, chama "Sangrenta Madrugada Sangrenta", pelo título já se vê o que é, e que está ótima, muito bem escrita, melhor do que qualquer um escreveria, porém ainda medíocre. É preciso mais loucura, mais loucura. Mais profundidade, mais acuidade, mais lembranças do que é a vida.



Bem, me acalmo. Não há nada demais. Eu não vou matar ninguém, não vou jogar ninguém de nenhum abismo. Vou me acalmar. Acalmo-me. Vejo o sol entrando oblíquo no meio da minha sala, são 7:30 da manhã. É uma bela manhã. Vou ler os jornais. Passar os olhos, que é o que se faz nos jornais. Mais do que isso seria demais desesperador. Para isso preciso dos meus óculos, onde estão os meus óculos?

São 15 para as 8. A Márcia chega às 9 para trabalharmos na peça. Tenho portanto uma hora, uma hora e pouco, para continuar essa loucura, ou melhor, essa fúria.

"Um PM foi morto com a mulher atingido com um tiro no rosto por um bandido em arrastão essa noite na Perimetral, em frente à Polícia Federal." "Domingo à noite duas mulheres foram assaltadas por menores que se passavam por malabaristas num sinal na Lagoa." "Nas ruas, jovens intimidam motoristas para lavar os vidros em troca de dinheiro". Frase: "Agora que passou, tudo está salvo, tudo está bem, pelo menos até o próximo assalto." Ass: Cora Ronai, jornalista, assaltada em arrastão sábado à noite em Botafogo.

Esse é o mundo no qual estou fazendo teatro e cinema.

Somente agüento ler as primeiras páginas dos jornais.

Nelson Sargento, que já foi meu amigo, pintou minha casa nos anos 60, ele era pintor de parede, lança mais um disco. Semana que vem no Canecão. Eu vou lá, eu vou lá. Detesto ir a show, mas eu vou lá. Ou senão ouço na internet o audio do samba-filme do Nelson Sargento com Zeca Pagodinho. www.oglobo.com.br/cultura.

Eu não vou agüentar essa fúria durante muito tempo. Esse é o problema da fúria. Depende do corpo, e o corpo não agüenta. Ainda mais aos 73 anos. Não estou me sentindo muito bem. Fúria mata. Não a quem a obedece, mas a quem a sente.

Falas do filme do "Batman", que eu detestei. Sobre o coringa: "nenhum saber, nenhuma ética, nada vai apagar o animal feroz que nos habita. Eu sou uma vanguarda." Ele diz pro Batman, no filme. "eu não quero te matar porque você me completa" "nada mais atraente do que a psicopatia inteligente" "e aí, pensamos: para que praticar o bem se ele não é mais possível? ele é uma invenção platônica iluminista nesse mundo sujo. E o mal? O mal virou uma necessidade social. Não dá mais para viver sem praticar o mal. O mal é um mecanismo de defesa. Para não denunciar o mal, vivemos dele."

Fala de Obama, antítese de Osama, ele diz:

"E Obama, agora ele surgiu cometendo o bem. Obama é uma antítese simétrica do Osama. Será que depois de uma década que Norma Mailer chamou de tempestade de merda a história deseja um espasmo de mudança para o bem?"

Osama, depois de Obama, depois de Batman, pode não apenas retirar o mal do mundo mas restaurar o bem perdido.

Interrompo a fúria porque meu coração bate forte e eu fico com medo de morrer. A fúria é maravilhosa, prazer imenso.

Fui à internet para me lembrar o que significa a palavra "atman". Significa a alma, mais ou menos. Na religião Hindu. Alma, eu, "you an atman" é o "eu sem alma". Ou seja, aquele integrado no todo. Me pergunto então o que será o Batman, o Catman, o Datman, o Fatman...







PASSADO:





3/1/61.

Sou um ignorante. Não me considerem um rapaz culto.
Estou lendo "Crime e Castigo" há cerca de três meses. Acho sensacional, linha a linha. Porque não leio mais? Não sei, mas devo saber. Reflito um instante.
Uma razão: quando eu leio minha vista cansa, fico com sono. Discutamos esse ponto: eu preciso comprar um par de óculos ou ler em horas menos avançadas da noite? Provavelmente preciso fazer as duas coisas.
Para isso preciso ir ao oculista. Para isso preciso de uma dose de paciência bastante grande. Sinceramente, não acredito que vá senti-la nos próximos tempos. Porque não leio de dia? No tempo em que eu andava de lotação bem que lia, viajante. Bem verdade que era pouco, ficava logo com enjôo. Agora tenho carro, não leio de dia para não perder tempo. Este argumento a primeira vista ridículo e improcedente talvez tenha procedência, senão vejamos: ou bem leio, ou bem trabalho (compreendo por trabalhar escrever, tratar dos meus filmes etc. Neste momento, por exemplo, estou trabalhando. Sei que a denominação não é própria, já que ninguém me paga e só o faço quando tenho vontade. Enfim, já me acostumei a ela. Bem verdade que no início foi um pouco para discutir com mamãe que insistia em me chamar vagabundo). Voltemos então: ou bem leio, ou bem trabalho. Por que não leio parte do dia e trabalho a outra parte? Não dá tempo. Nas poucas horas que me restam, preciso trabalhar, senão não fico famoso. Se quero ficar famoso? Não sei, mas responderei no próximo parágrafo.
A verdade é que gasto 90% do meu tempo em fazer nada, no máximo conversando.
E isso é assim, não tem jeito. Em nove décimos do dia, meus problemas pessoais não me permitem produzir.
Só se eu fosse louco, ou um porco, ou feliz, é que não seria assim.
Sofrer gasta tempo e eu sofro muito, juro que sofro, mas isso é assunto, para daqui há dois parágrafos, sendo assim, fico condenado a uma eterna ignorância. Não exagero: de Dostoievski, por exemplo, li "Crime e Castigo" (o primeiro volume quase inteiro), "Karamazoff" (metade do primeiro volume e "O grande inquisidor") e "Subsolo" (algumas frases). Adoro Dostoievski, como ele ninguém.

A terceira razão pela qual não leio é que gosto mais de escrever que de ler, por melhor que seja a leitura. Criar tornou-se um vício, é preciso saciá-lo e só disponho de 10% do dia. Mas isso não pode continuar assim. Preciso ler. É preciso chegar a uma solução. A única possível é me obrigar, terapeuticamente, a ler um livro por mês. Já tentei fazer isso, sem nenhum resultado.


(Este diário, continuação dos anteriores, é típico do final do meu primeiro casamento. Desencontros absolutos com Eliana, primeiras impotências, culpas terríveis e absolutamente infundadas quanto à Eliana, à minha mãe, a não ser culto, a querer ser artista. Invenções, bobagens criadas por um furor juvenil e pelos sustos diante da condição existencial - hoje igualmente assustadora.
Já tinha morrido "Seu Alvaro" com certeza, mas leia isto em "A primeira Valsa". Não devo ter me separado aos 21, comforme imagino e sim aos 24.)



Excertos de um possível livro denominado "Meu Deus, como sobrevivi?"

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O que você precisa saber para viver adequadamente na sociedade

Em todo grupo, comunidade,ou agrupamento, patota maioria é burra.
(exceção feita aos espectadores deste blog, todos inteligentes)
Urgente afirmar que não vai aqui nenhum julgamento moral.
Os inteligentes não são melhores que os burros.
Nem merecem mais.
Os BURROS também são merecedores de paixão.
Todo homem é esplêndido, BURROS ou inteligente, todo ele contêm o universo.
Umas das primeiras obrigações da inteligência é, exatamente, reconhecer este fato simples.
Excusado igualmente observar que a inteligência nada tem a ver com a cultura ou o nível de informação de cada um.
Pelo contrário, entre homens cultos de modo geral é encontrado um índice de burrice estonteante.
Em contrapartida verifica-se que a ignorância e a pobreza tem constituído campo fértil para o aparecimento das grandes almas.
A propósito, alma é sinônimo de inteligência.

Difícil conceituar a inteligência, porém fácil reconhecer-lhe atributos a primeira delas é, sem dúvida, a humildade. Humildade é sinônimo de inteligência.

O homem sábio sabe que não sabe.
Ao passo que o BURRO é arrogante. Considera-se possuidor de algum saber e, conseqüentemente, superior aos outros BURROS que sabem menos.
Atenção: o BURRO compete, julga,condena e, muitas vezes, mata.
No entanto com a inteligência acontece justo o contrato.
A despeito de si mesmo, ela ama.

Mozart disse que para ser um gênio não basta talento. Nem inteligência. É preciso também um grande amor. A propósito, amor é também, sinônimo de inteligência.

Quem é inteligente sabe que é.
Já o BURRO desconhece sua burrice.
Isto seria um drama, se não fosse uma tragédia.
Posto que o BURRO, no fundo do seu ignorado esplendor, sente que lhe falta algo, algo que o inteligente possui.
Neste momento advém, soberana, a inveja. A inveja dos burros.
Como se não bastasse ser diferente, o BURRO passa a odiar o inteligente.
No entanto com a inteligência acontece justo o contrário. Ela sempre se reconhece! O homem inteligente não inveja e sim compraz-se, exulta quando vê brilhar uma inteligência igual ou maior que a dele.
Os inteligentes, além de terem entre si grande amor e admiração, plageiam-se constantemente, sem o menor pudor.
Não tentam ser originais.
Sabem que são... Um só. Um só acidente da natureza.
Ou terá sido seu recurso de emergência? Do qual a natureza lançou mão para cuidar da sobrevivência da espécie, antes que os burros a destruam?
Concluindo: a imprensa é burra, a tv é burra, o esporte é BURRO, a política é burra. Quase tudo que é considerado importante na sociedade atual não apenas é desimportante - como também é BURRO.
Trata-se do império da burrice, como outrora foi o império romano.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Material da Bravo!





















Blog
Outro dia compreendi o que é um blog. Por isso eu resolvi aceitar este por um mês.
É uma coisa muito mais importante do que eu tenho pensado. É um jeito das pessoas seguirem o pensamento das outras. Do jeito que ele é. Descontínuo. Desordenado. Casual. É uma espécie de diário do escritor do blog. Selecionado aquilo que pode interessar a todos. E a meta do blog é “fazer amigos e influenciar pessoas”, título de um livro do meu tempo que fez um sucesso danado, acho que foi o primeiro de auto-ajuda. Dale Carnegie.

Arte
Também eu tenho vontade de escrever um livro de auto-ajuda, confesso. Só não gosto da expressão. Toda arte ajuda. É para isso que a arte existe, para ajudar. Se vejo um filme ou uma peça que não aprendo nada, que não me faça viver melhor, acho ruim o filme ou a peça. Duvido muito do pessimismo. Em geral, ele pode ser resolvido na psicanálise. Não é uma atitude filosófica, é uma fraqueza. Claro que o otimismo não pode ser cego, a glória não pode esquecer o terror. Entre esses dois oscilamos, pêndulos com alma. Mas ultimamente vejo com grande freqüência filmes e peças que não contém nenhum rastro de esperança, nenhuma indicação de saída. Não é arte isso.

Dramaturgia


Águas turvas
Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque não sejam filósofos.
Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)
Cinema
Não vejo um filme bom há muito tempo, ando exigentíssimo.
Estou muito interessado nos italianos contemporâneos. Pelo menos alguns deles fazem lembrar o grande cinema italiano, filmando em Cine Cittá e tudo.
Gosto muito de L’ultimo Baccio, (“O último beijo”), Um Cuor ALtrove” (“Coração para amar”) e recentemente “Estamos bem sem você”. Os dois primeiros estão em cineclubes. Vejam. Fora isso, o Bardén no filme dos Cohen, é a melhor figura do mal que o cinema já criou. O filme é ótimo, exibe excelente cinematografia, embora turve as águas no final. Poderia ser um grande filme.E NÃO ACRDEITO M ‘VIDA DOS OUTROS”,FAJUTISSIMO É humilhante ser cineasta brasileiro. TENHO DOIS FILMES PRONTOS EM CASA
Dança

O último Débora Colker é interessantérrimo. Buscando descrever a contemporaneidade, a danada pesquisou durante dois anos os gestos tortos e movimentos assimétricos, criando um espetáculo “cruel”, de grande audácia e beleza. Mas já saiu de cartaz. A companhia vai para o Japão, lotam teatros aqui e no exterior. Não é para qualquer um. Claro SÃO abominados por grande parte do pessoal da dança conceituaL LOCAL.
Currículo
Me parece que o blog, afinal, filho do site, deve conter currículo do bloguista. Nasci em 36 (não faça a conta de quantos anos eu tenho),
sofri um bocado na mão da minha mãe possessiva, a saudosíssima Carmelita. Aos 13, 14 anos comecei a fazer teatro no colégio. Minha primeira peça data de 48. Ou seja, há exatamente 50 anos. Ninguém a conhece de modo que a publico aqui para fechar esse primeiro dia de blog. Não leve a mal. Hoje em dia me esforço muitíssimo para que minha obra não pareça séria. Mas jovem eu professava também o esporte espiritual PREDILETO da juventude: a auto-piedade. Mas leiam!!! Achei o original outro dia. GOSTEI, o rapaz tem talento.









ORAÇÃO DIANTE DE UM FILHO MORTO

De Domingos J. S. de Oliveira

Escrito em maio de 58.

À Bolinha,
Que me levou um pedaço de mim.

CASA DE CAMPONESES.
AMANHECEU. A MÃE ARRUMA A MESA DA PRIMEIRA REFEIÇÃO.
ENTRA O FILHO, SENTA-SE PARA COMER.

MÃE – Ainda não. Espere seu pai.

O MENINO TEM UMA ATIRADEIRA EM VOLTA DO PESCOÇO. A MÃE TIRA E PENDURA NUM PREGO DA PAREDE.
ENTRA O PAI, DESPE E PENDURA O CASACO DE TRABLHO. SENTA-SE À MESA.
OS TRÊS BAIXAM A CABEÇA.

PAI – Senhor
À ti agradecemos a comida que nos dás hoje
E também as forças que nos deste para tirá-la da tua terra
E também a terra
Bem como a casa
E a paz que sobre ela reina.

COMEM A REFEIÇÃO RAPIDAMENTE.
O MENINO ACABA PRIMEIRO, LEVANTA-SE E VAI APANHAR A ATIRADEIRA. O PREGO É ALTO PARA ELE. PULA UMA VEZ, OUTRA. NA TERCEIRA SEU PEQUENO CORPO ESTREMECE E ELE CAI. A MÃE CORRE, O PAI TAMBÉM, TOMAM-NO NOS BRAÇOS,S ACODEM, CHAMAM, MAS É EM VÃO. O PAI COLA O ROSTO NO SEU PEITO.

PAI – O coração parou!

MÃE- Meu filho!

PAI – Morreu...

A CENA APAGA-SE AOS POUCOS.
ACENDE-SE AOS POUCOS, MAS NÃO TOTALMENTE. É NOITE E O CORPO DO FILHO MORTO JAZ NO CHÃO, CENTRO DO PALCO. O SILÊNCIO É VARADO PELO PRANTO CONTÍNUO.

MÃE – Morreu...

PAI – Morreu...

MÃE – Meu único filho. O único

PAI – Eu não posso acreditar.

MÃE – Morreu.

PAI – Morreu.

MÃE – Sem ele...

PAI – Se tivéssemos um outro...

MÃE – Por que, meu Deus, por quê?

PAI – Deus!

MÃE – Nunca pensei!

PAI – Eu também, nunca pensei.

MÃE – Ele sabe o que faz.

PAI – Estou tão cansado...

MÃE – Queria guardar... as coisas que eram dele...

MÃE – Logo o levarão.

PAI – Temos pouco tempo...

PAI – Nunca apensei que fosse tão pouco.

MÃE – Meu filho! Sozinho, morto, sozinho!

PAI – Coragem.

MÃE – Deus sabe o que faz.

PAI – Temos de nos convencer que é verdade, que ele morreu.

MÃE – Meu filhinho, tão pequeno... Por que ele, senhor? Porquê? (CHORA)

PAI – Que fiz eu, senhor? Sempre fui como tu querias. As coisas eu amei, sempre que pude. As crianças, os animais, teu mundo, os pobres, todos eu amei. Que mais, senhor. Que mais podia eu fazer?

MÃE – Nosso filho está no céu, perto dele, perto do Senhor.

PAI – No céu.

MÃE – Um dia o veremos.

SILÊNCIO.

PAI – Senhor, perdoa-me, se levanto minha voz para duvidar de Ti. Mas é preciso que me ajudes, porque eu perdi meu filho. Quero acreditar, senhor, no campo verde que nos prometeste, onde brincam as crianças mortas ao lado de Teus anjos. Mas, senhor, três coisas somente fazia esta criancinha na vida: comia, dormia e m amava. Comida Teus campos têm, e muita. Sono, Tu mesmo o ninarás. Mas eu, Senhor, eu? Isso Tu não podes dar! Levai-me então, senhor, levai-me também!

MÃE – Ó vida... desgraçada... sem paz.

PAI – Por que me tiraste o que é meu? O que fiz?

CHORAM MUITO, PORÉM CADA VEZ MENOS, ATÉ O SILÊNCIO

MÃE – Não quero, marido, não quero viver sem ele.

PAI – Eu também não.

SILÊNCIO.

MÃE – Talvez... depois... nos encontraremos os três, no céu.

PAI – Não, mulher. Ele morreu. Nunca mais o veremos.

MÃE – Coragem, marido. Ainda temos um ao outro.

PAI – Mas continuar a viver... sem meu filho... será a tristeza até o fim.

MÃE – Não é possível que seja só isso.

PAI – Você acredita no céu?

MÃE – Nãos ei.

PAI – Eu não acredito.

RELÂMPAGO E TROVÃO. A FÚRIA DOS ELEMENTOS OS AÇOITA. A MÃE CAI AJOELHADA INDEFESA, MAS O PAI ENFRENTA.

PAI – Não temo, senhor! Um filho morreu! Não temo! Eu não acredito, não temo!

O TROVÃO DIMINUI DE INTENSIDADE.

PAI – Como pude eu um dia acreditar na tua bondade, na tua arrogante sabedoria, eu, que tenho um filho morto nos braços! Não peço uma vida feliz, Senhor! Sou um homem humilde. Eu peço, senhor, o inferno! Se é isso que tu queres! Que rasguem minha carne, que minha voz se transforme num uivo, que as pessoas que eu amo me desprezem, me cuspam no rosto, mas DEIXA-ME AMAR, SENHOR! Afasta de mim a Morte, a Morte que me tira os mus... eu não quero morrer, Senhor. Mesmo sem um filho, quero viver. Tenho minha mulher, que me ama. Por ela eu quero viver. Mas também ela, senhor, e Tu sabe, também ela eu deixarei um dia submissa a Teus pés. Tenho meu campo, ainda por cultivar. Quanto mais nada eu tiver, a ele darei meus esforços. Se a chuva inundá-lo, se um fogo descuidado comer a colheita, me fizer recuar e trancar-me na mais pequena parte da minha casa, ainda assim não me queixarei. Enquanto para uma pedra eu puder olhar, e lembrar que com ela brincou meu filho, nele tocou minha mulher, passou o arado com que eu arava meu campo, não me queixarei. Será aí que tu virás, com tua mão pesada, me esmagares! E dirás: toma, a treva, é tua! Não, senhor, não creio nos teus campos verdes (são tão pequenos e escuros os meus).

LUZES SE APAGAM.
LUZES SE ACENDEM. AMANHECE. CANSADOS, DIANTE DO CORPO, O PAI E A MÃE.

MÃE – Há algum tempo passou por aqui um viajante, desses que correm o mundo, e me contou uma história. Ele viajara por uma terra tão rica e tão boa que tudo nasce nela sem que seja preciso plantar uma semente.

PAI – Nossa terra também é boa.

MÃE – Se nossa terra fosse boa assim, não precisaríamos trabalhar tanto. Lá, todos vivem bem. O mais pobre tem seu campo.

PAI – Toda minha vida eu trabalhei.

MÃE – Mas já me sinto cansada...

PAI – Não deve existir terra nenhuma. Esses viajantes sem profissão mentem muito.

MÃE – Talvez exista. Já foi verdade tanta coisa em que não acreditávamos.

PAI – Talvez.

SILÊNCIO.

MÃE – AMANHECEU.

PAI – Estou tão cansado.

SILÊNCIO.

PAI – O corpo me dói.

MÃE – Vai descansar um pouco. Vem.

ELA LEVANTA, AJUDA-O A LEVANTAR-SE E SAI COM ELE. NO PALCO FICA O PEQUENO CORPO MORTO.

(PANO)

Blog 2
Essa é minha segunda postagem neste blog. Sabem que ele já me foi útil? Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

passado. O início.
AQUELE HOMEM, isto é Domingos Oliveira, isto é, eu - aquele homem nasce num dia 28 de setembro de 1936, em Botafogo, na Rua da Matriz, cidade do Rio de Janeiro.






Dizem que se recusava a respirar o ar do mundo, embora fosse devidamente espancado pelo parteiro. Que então foi atirado numa bacia. De onde um instante depois retirado por um tio médico que, mediante inesperado, vigoroso e certeiro golpe de mão espalmada, concedeu-lhe o direito de viver. Parto portanto tortuoso, ao qual a mãe sobreviveu a duras penas, segundo os relatos familiares.

De minha infância não recordo nada.
E desperto para o mundo da minha própria consciência apenas na adolescência, aos 15 ou dezesseis anos de idade.

Esta sensação de borracha-passada-nos-anos, de treva baixada sobre os luminosos-primeiros-dias, é como sinto o início da minha vida. Esparsos instantes acendem-se na memória perdida:

Mãos descarnadas de uma empregada preta e velha,chamada Olivia, baixadas sobre um prato cheio de feijão preto e arroz, para retirar o excesso de caldo sem deixar cair o feijão e arroz. Feijão e arroz que eu seria obrigado a comer. E que comeria, aterrorizado, certo de estar ingerindo a própria doença das mãos descarnadas, envenenando-me.Com o estômago revoltado como até hoje me revolto

A figura de um jardineiro imenso e vigoroso, que me dizia e convencia, ao mesmo tempo que exigia segredo, ser todo o cimento do jardim (o jardim era enorme todo coberto de cimento-ai minha cabeça! - a tampa do subterrâneo, onde viviam os jacarés famintos, que podiam ser vistos através dos ralos, se alguém tivesse coragem de olhar. E eu certamente não tinha !

Os pratos separados. Os talheres separados. O primo Carlinhos, que ia morrer de tuberculose, de quem eu não podia chegar perto, senão também eu ia morrer. Mas que um dia me foi permitido olhar. De longe, na varanda. Sentado na cadeira de vime branco, pálido e espiritual, de olhos translúcidos e bondosos enquanto os de minha mãe marejavam. E o primo Carlinhos me olha, belo, com olhar que não era o da Morte e sim da Bondade. E a o de minha mãe que me pega pelo braço, para me tirar dali.

Meu avô José, mais nobre e querida das memórias ! José que um dia ficou rico com os lucros de uma fábrica de barbantes. O José Pereira, de bigodes opulentos e másculos. Roubava-me da minha mãe, para minha alegria, e me levava para dormir com ele. Na cama imensa do lençol com perfume , do colchão macio que dava vontade de pular. O avô José.

Que me ensinou a rezar e a cantar para a santa, onde a caixinha de música repetia: avê, avê, avê Mariá ... Eu ajoelhado,ele me ensinando a botar juntas minhas mãos, em prece.








PRESENTE
Outro dia entrevistei Felipe Hirsh, o famoso diretor de teatro. Vi alguns de seus espetáculos. São admiráveis sem dúvida, do ponto de vista técnico e plástico. Ele é um verdadeiro mestre. Mas nunca me agradou inteiramente. Por causa dos textos, ou melhor, dos temas dos textos. Como vários outros diretores de vanguarda, seus textos sempre versaram sobre os valores duros da vida. Tédio, falta de sentido, a incomunicação, a inexistência do verdadeiro amor etc. E muito pouca ou nenhuma esperança. Pois é. Detesto esse tipo de texto. Por mais valores outros que eles possam ter. Porque creio que a arte é uma coisa da vida. É auto-ajuda, para ajudar a viver. É diversão e ensinamento, como dizia Brecht. Se uma peça ou um filme, um quadro ou um livro, não me ensinam a viver melhor, não os considero grande arte. É queixume, auto-piedade, lamentação. Às vezes belo mas não é arte. Sei que esse é um ponto de vista radical, porém sou um velho turrão. Penso assim e pronto.
Agora, no último Felipe Hirsch, “Não sobre o amor”, fiquei numa situação difícil. Adorei o espetáculo. Achei mesmo que talvez fosse o espetáculo mais bonito que já vi na vida. Equiparável apenas a alguns de Antunes ou Aderbal. Mas o texto tinha aquele negócio, aquela desesperança que não me interessa. Então, decidi entrevistar o Hirsch. Encontro um rapaz de 36 anos, para mim, um menino. Simpaticíssimo, humaníssimo, inteligente e inspirado. Seu discurso nada tinha a ver com aquilo que me desagradava no espetáculo. Então, tomei coragem e abri o jogo. Disse: Felipe, não gostei do texto. Nem de outros que você montou. Por que você não gosta de textos que apontem mais para o alto das montanhas, a grandeza do homem, a esperança, etc?
Há muito tempo eu queria fazer essa pergunta para os chamados diretores herméticos de vanguarda.
Por que você não faz, por exemplo, uma comédia comovente com todo o talento que você tem?
Felipe estava me olhando muito sério desde que comecei a pergunta. Então pegou no braço e me deu uma resposta histórica, exatamente o que eu queria ouvir. Subi pelas paredes de prazer e compreendi mais por que esses diretores geniais não escolhem bons textos. Felipe disse: Domingos, eu chego lá! E que por enquanto eu sou muito moço, sofro muito, a vida ainda me é difícil. Então trabalho com vários temas, o exílio, a solidão, o desamor, etc. Mas pretendo chegar um dia a ter um tema só em todas as minhas peças. Esse que você falou aí: o amor!
Estou convencido que o Hirsch se já não é, será um dos maiores diretores brasileiros de todos os tempos. Um homem que não mente. 120


Se Deus existe, o problema é dele. (Edu, coração de ouro)



Terceiro Post.

Presente.

Acabo de verificar que parte da minha postagem não entrou no blog. De modo que começo com elas.


Dramaturgia

}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}}Tenho notado também, particularmente no cinema americano, uma tendência de complicar as coisas. De truncar a narrativa. De desprezar a clareza. São os filmes das águas turvas (nunca turve as águas para que elas pareçam profundas). A turma das águas turvas é cada vez mais numerosa. E me fez dormir na cadeira cinema, no teatro, na literatura, evidentemente, na política ou na economia. Essa turma não compreende que a clareza é a gentileza do filósofo. Talvez porque eu sejam filósofos
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Filosofia

A filosofia não é uma coisa vaga como a fumaça de um cigarro. É o momento de evitar a dúvida antes que pernas decidam caminhar uma para cada lado. Gosto muito da filosófico.Filosofo compulsivamente. Dizem os inimigos que não falo, conceituo. Minhas duas frases prediletas: “Ó, minha alma, não aspira avida imortal porém esgota o campo do possível !”(Píndaro);
“Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos” (Goethe)


Uma divida
Hoje começa uma homenagem que O Tablado resolveu me fazer. São 24 turmas lá. Todos vão montar somente textos meus, até o final do ano. O título da brincadeira é: “Investigação Sobre o Artista Acima de Qualquer Suspeita”. Pretendem fazer isso nos anos seguintes, com outros autores. Achei bacana. Não dá dinheiro, mas é uma honra, sem dúvida. Mais que isso, é a chance de ver como bate nos jovens toda essa escrivinhação que fiz ao longo da vida.
O jovem de hoje é muito diferente do da minha geração. “Em 68 jovens lutavam por ideais. Hoje, lutam por emprego.” Dizem os jornais. Repletos de estudos sobre o 68. Também eu tenho vontade de escrever sobre isso. A Revolução Hippie foi o evento social mais importante ocorrido na humanidade desde 1917. E ele ainda não foi realmente contado. Expressou-se em música divina, sem dúvida, mas não afirma nem em peça nem livro realmente bons sobre o assunto. É quase um segredo. Something Unspoken. O Bertolutti sobre o assunto, que não me lembro o nome, fui ver correndo. Mas quase não toca no assunto. O que houve ali, em 68, ou melhor, de 68 a 72, 73, foi uma tomada de consciência das potencialidades humanas. Da existência do paraíso. Da possibilidade concreta de mudar o mundo. De definir, apontar, destruir a mente formatada, o preconceito e a mentira, naquele tempo chamado de “caretice”. Era sério o negócio. E muito bonito!
Como tudo o que é bom, dura pouco. E não deixou saudades. Deixou esperanças. Pontos de reflexão. O novo pensamento, que nem um bom nome tem, o melhor é Contracultura, que parece coisa acadêmica, chegou ao Rio de verdade nos fins de 70. 68, pra nós, não tem barricadas na rua. E sim ato institucional.
Mas isso talvez não tenha sido mau. Quem viveu a colorida Contracultura em meio ao cinza-chumbo do golpe, pôde vê-la com uma especial nitidez.
Tento não ter vontade de escrever mais peças. Já bastam as que tenho prometido a mim mesmo. Mas sou até hoje hippie. Sei o que foi aquilo. Vou ter de contar, uma hora dessas. Da tempestade de besteiras que a esquerda, o Socialismo, cometeu, talvez a maior tenha sido a não-compreensão de que a Contracultura não é o seu oposto, e sim sua única continuação possível.
“Oh, boy. Você vai ter de carregar esse peso.”


Vi um filme ótimo em área 1 (DVD). Que não aconselho a ninguém ver. É uma porrada. Eu não sofria assim com um filme desde o “Dançando no Escuro”, que é outro insuportável. Estou falando do “O Escafando e A Borboleta”. É genial. Você vai sofrendo, sofrendo, com a certeza de que algo de bom vai acontecer... e não acontece! Então você apaga a televisão, está na hora de dormir. E sua alma está devorada, consumida. Acho que bons filmes não tinham o direito de ser assim. Em “Roma, Cidade Aberta”, por exemplo, o padre morre torturado e fuzilado. Mas atrás das grades do jardim, há crianças olhando. Que depois saem pela estrada da vida. Uma vez vi em Nova York (!!!) uma sessão dupla de cinema. Acabava “Roma, Cidade Aberta” e imediatamente começava “La Estrada”. Eram gente boa, Fellini e Rossellini. Embora acho que seja insidiosa com essa coisa da esperança. “Escafando” tem duas cenas tão bonitas que quase compensam a infinita dor. A da enfermeira que faz “falar” com um olho só, fala da compaixão. Depois outra, com o pai (Max Von Sidow) comenta diretamente a miséria da condição humana. Gostei muito do filme. Mas não aconselho ninguém a ir ver. Se eu não tivesse visto, não veria.


Passado:
Tenho 10 anos, ou oito.
Minha mãe doente. Ausente. O pânico, o medo. O momento em que me permitem vê-la, sem me aproximar. Minha mãe num porta entreaberta. Ela olha para mim, aponta,ela chora. No chão, quase debaixo da cama, aquilo que me lembro como uma bacia cheia de sangue. E fecham a porta, porque é impressionante para uma criança. Alguém me explica a doença de minha mãe. É um irmãozinho, que se perdeu, mas eu não tinha ouvido falar que ela estava grávida!

O portão, mil vezes olhado, por onde chegará meu avô (ou seria meu pai?) ,com o presente. O presente nosso da casa dia. Talvez fossem balas de côco.

E um dia, quando já não existia meu avô, vão sair meu pai e minha mãe para uma festa. Vestem-se de gala e aparecem, lindos, como nunca os vi, mas eu não quero que eles vão embora, menino chato. Choro, grito, esperneio. E quanto mais choro, grito e esperneio, mais corro o perigo do abandono. E quanto mais corro perigo, mais importante se torna o jogo, mais insuportável é suportar que meus pais saiam para a festa. Enfim, jogo a vida, e perco. E o choro vira soluço, e depois já nem cansa mais.

Que terei eu feito de tão errado? Escorregado pelo corrimão da escada da sala grande? Onde ninguém ia, onde o mármore do chão parecia um espelho, se não parecesse com o tabuleiro de xadrez? Não sei, não lembro da falta. E depois, como teria eu ido parar exatamente ali, naquele corredor escuro e amedrontador que conduz à capela, no coração da casa? Talvez estivessem me obrigando a caminhar ali, por aquele corredor, em direção à capela, simplesmente porque eu não quisesse e me recusasse a ir lá. Eu tinha tanto medo da capela, e dos santos dentro do santuário, por trás do vidro. Daquele lugar sem janelas, no coração e no centro da casa, onde todos tinham de ajoelhar-se naquela cadeira engraçada e grená, que não era para sentar e sim para ajoelhar. Onde ninguém falava alto e, ao menor descuido, ao leve acaso, Deus castigava? Me lembro apenas do corredor, que mil passos não atravessariam. De meu pai que me arrastava pela mão, e eu perdia o equilíbrio, e berrava, e ele mandava calar... e me batia, para que eu parasse de chorar! E doia tanto, era horrível a dor, posso senti-la até hoje. A mão dele em mim, doía e ardia, mais do que eu podia suportar. Talvez me furava e quebrava. Talvez me matava, em direção à capela. Meu pai, uma criatura tão bondosa e doce. Devem tê-lo enlouquecido, para que ele chegasse a me tratar assim, de modo tão covarde.

Havia um chofer bigodudo, seu Corrêa, português, que me falava umas tremendas sacanagens.

E houve o dia que eu não quis ficar no colégio. Meu avô José já tinha morrido há algum tempo, o luto ainda imperava na familia. Ele próprio tinha comprado para mim os quadradinhos com letras e eu logo pude perceber o mundo que havia por trás daquilo. Minha avó (é dos poucos contatos reais que me lembro ter tido com ela), ensinou-me uma ou duas vezes como brincar com aqueles quadradinhos. O “beabá” é para mim uma recordação mágica.


(Sempre tenho a impressão que recordações de infância não interessam absolutamente a ninguém. Mas continuarei a colocá-las aqui no blog. Que afinal, ninguém precisa ler, maravilha tecnológica! Minha infância eu já contei, em síntese, na profundidade. Numa peça chamada “Do Fundo Do Lago Escuro”. Essa vocês devem ler. Tem na livraria. A arte é a vida sem as partes chatas.)



segunda-feira, 19 de maio de 2008

Há anos tento escrever minha auto-biografia, afinal tem sido uma vida venturosa. Por mais que talvez exatamente por causa disso não seja fácil resumir. Sempre me parecem superficiais as biografias. Não contam o homem inteiro. Um homem não é só seu passado, é também o seu presente. Esse blog me sugere uma forma de escrever. Sempre no início, o passado. Sempre no fim, o presente. O passado avança, o futuro recua. Se por acaso um dia se encontrarem estará feita a biografia.

Presente:
Vi ontem no DVD o velho “12 Homens e Uma Sentença”. Pecinha bem feita para televisão por Reginaldo Ross nos anos 50. Era impressionante a dramaturgia do início da TV americana. O “One Hour Play”. Quatro ou cinco escritores notáveis, dos quais o patrono chamava Paddy Chaievsky, de quem hoje pouca gente se lembra ou conhece. É uma espécie de Neo-Realismo Norte Americano que tive a oportunidade de dirigir na TV, ainda em preto e branco. Chaievsky tem um filme famoso, “Martin”, que é a história de um açougueiro, uma história de amor, com o qual Ernest Borgnine ganhou um Oscar. Aconselho também vivamente “O Grande Negócio”, “Despedida de Solteiro”. Ninguém tem esses textos. Mas tem em inglês. É bom ler pra lembrar como se escrevia bem. A “Peça de Uma Hora” foi o ramo mais nobre na TV e depois desapareceu, preterido pelas novelas e minisséries cada vez mais longas ou, quando muito, séries, que são os gêneros bastardos por obrigar o escritor a ser prolixo. Por anular o poder da síntese. Nem sabemos mais o que é isso. A nova geração, que eu saiba, escreve mal por falta de dramaturgia. Que jovem bom anda escrevendo, profunda e simplesmente? Verdadeira e interessantemente? Ninguém, penso. Mas estou doido para mudar de opinião.

Sobre a nova geração, os que têm menos de 25, há muito o que discutir. Nos jornais pode ser lido que os jovens de 68 lutavam por idéias e os de hoje por emprego. Realmente é impressionante. Os sensíveis são bastante raros e os produtivos quase inexistentes. Penso que o sonho não acabou. Mas os jovens não sonham.
Escrevo essas linhas de velho com espírito de provocador, é claro. Me parece também que assim como falta no jovem de hoje a ânsia do conhecimento e o desejo artístico, falta-lhe também por extensão o desejo sexual. No que posso ver ao meu redor sexo anda bem fora de moda, particularmente entre os jovens. Vejo cada menina por aí sem namorado... No meu tempo, não tinha disso não. Eram dez fazendo fila. No meu tempo um “quer trepar comigo” suscitava uma resposta, um “sim” ou um “não’. Atualmente a resposta parece ser “trepar contigo? Para quê?”...
Não me acusem por esses sentimentos. Estamos num blog. São provocações.

A vida de todo mundo tem fases, marcadas por isso ou por aquilo. Tive por ambição, desde jovem, escrever uma peça ou fazer um filme sobre cada uma das fases da minha vida. Tive a felicidade de quase conseguir alcançar esta meta. “Do Fundo Do Lago Escuro” contém a essência da minha criança. “Os Melhores Anos Das Nossas Vidas” da minha adolescência. “A Última Valsa” da minha passagem para a idade adulta. Meus amores estão espalhados por vários filmes, de “Todas As Mulheres Do Mundo” à “Separações”. E também, disfarçadamente, todas as outras peças e filmes...
Mas tem pelo menos uma fase sobre a qual não escrevi ainda e sinto cada vez mais vontade e obrigação de fazê-lo. Que é a época que vai entre 68 e 72, quando já com quase 40 anos virei hippie, da melhor estirpe, andava de jaqueta verde, botas longas e rabo de cavalo. E acreditava na Contracultura como salvação do mundo. Durou pouco, mas foi bom.
Hoje penso que vivi uma Contracultura muito especial. Vianinha dizia que eu era “o verdadeiro hippie”. Lendo esses jornais todos sobre 68, não encontro eco do que eu senti. O grande livro ou filme da Contracultura ainda não foi escrito ou filmado. Talvez haja rastros disso em “Easy Rider” e “2001” e outros pouquíssimos. Claro que a música retratou os tempos. Com grandeza. Mas só. “Seja razoável, exija o impossível”, “a imaginação no poder”, “drop out”, são palavras que pedem para ser pichadas. Existirão palavras assim hoje em dia?

Não admito que ninguém que lê esse blog pense que sou um saudosista ou um pessimista. Esses dois sentimentos são burros. Minha frase principal nunca foi pichada em nenhum muro, é: “Tenho uma noção profunda da minha extrema felicidade. Mesmo quando estou triste de querer morrer, tenho uma extrema noção da minha profunda felicidade.”



PASSADO:

Um dia me prepararam e me mandaram para o colégio e eu não quis ir, e chorei. Isso lembro-me bem !
As freiras que, sisudas e malcheirosas, receberam-me de minha mãe e me levaram para dentro do colégio.
É como a imagem refletida do espelho quebrada (deveria existir uma palavra única para esta imagem, tão comum a todos os delírios). É assim, “não-inteira”, que me recordo da sala do colégio das freiras. Imensa e muito clara, com gravuras fascinantes, cavalos pastando perto de uma árvore em um verde gramado. Uma beleza complexa, imensa e amedrontadora, fascinante mas que não me pertencia, assim eu me lembro da sala do colégio.
A falta da minha mãe, insuportável - com os olhos eu procurava quem pudesse substituí-la, um rosto de mãe no meio das freiras, mas não encontrava. Em meio a tudo isto, como se não bastasse meu sofrimento, ainda queriam que eu brincasse com as outras crianças, mas o sol queimava, talvez fizesse mal, talvez me matasse o sol. Foi quando veio a hora de dormir. As janelas se fecharam, o escuro tombou sobre a sala. Uma freira me agarrou e me pôs numa cama, um berço, onde eu deveria ficar imóvel, dormir. Como podia, se tinha medo? Medo?
Depois o pátio, hora do recreio e subitamente, na porta do colégio, no portão de ferro intransponível que me separava do mundo, surge meu avô paterno! O outro avô, o avô que estava vivo, o pai do meu pai, vovô Odorico!!! Eu pedi a ele, implorei, que me levasse embora, para casa. Corri para o portão, escapando das mãos vigorosas das freiras, desobedeci, me subverti e corri para o portão, para implorar... porém meu avô me respondeu com aquele mesmo sorriso que meu pai teve todo tempo que viveu. Um sorriso de quem não pode se meter, do humilde criado, mas quem manda é o patrão e foi embora meu avô. E as freiras de novo me devoraram.
Na manhã seguinte procurei diretamente minha avó, a matriarca e dona do dinheiro, e disse a ela (premeditadamente, tudo tinha sido planejado: "Minha avó, se meu avô fosse vivo, eu não ia ao colégio, ele não ia deixar.” Então todos se comoveram, e... nunca mais me mandaram para o colégio! Estudei anos dentro de casa, com uma professora particular, D. Adalgisa. Todo o curso primário eu fiz em casa, com excelentes notas.

O fascínio dos quadrados de madeira com o desenho das letras. A suspeita do mundo que havia por trás daquilo. O prazer, válido em si, de compreender e controlar as combinações das letras, de unir a elas um significado. A atividade lógica de aprender a ler. Imensa alegria, primeira alegria adulta.




Quarta postagen:


terça-feira, 27 de maio de 2008

PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE PRESENTE

Hoje me despeço do Blog da Bravo!. Mas gostei da coisa. Está me parecendo um bom modo de rascunhar a minha biografia conforme expliquei na postagem anterior.
Eu uma vez fiz um espetáculo chamado “Pra Quem Gosta de Mim”, título que não deixou dúvidas. Pois bem, o Blog me parece também um modo de descobrir quem são meus discípulos, fãs, admiradores, amigos, que andam por aí e eu não sei. Um modo de fazer a minha mala direta afetiva. Por esses dois motivos, continuo, fora da Bravo!, a quem sou muito agradecido pelo ensinamento blogueiro. Meu novo blog é

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

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As despedidas, dizem com razão os ingleses, quanto mais curtas, melhores. Porém, como eu não sou inglês, farei essa especialmente longa.

PRESENTE
Breno Silveira.

Breno Silveira é o diretor de “2 Filhos de Francisco”. Que deu 6 milhões de espectadores. Um bom filme brasileiro atual dá 80 mil espectadores. Um mau filme brasileiro vulgar popularesco atual pode chegar a 1 milhão de espectadores. E o Breno não é vulgar nem popularesco nem mal intencionado nem manipulador. Ao contrário. É um rapaz fino e bem nascido. Que, não sei como, tem sua consciência de artista identificada com as classes menos privilegiadas, ou seja, usando uma palavra horrivelmente gasta, com o povo. Em consonância com a sociedade em que vive, poderia ser dito assim. Fazer um filme com a dupla caipira de qualidade musical possivelmente duvidosa e contendo tramas altamente sentimentais, para não dizer sentimentalóide, tem todas as características de uma atitude picareta. Breno teve uma idéia original sobre o assunto. Inteligentemente desviou a atenção da dupla popular para a história do pai deles. E os filhos de Francisco estouraram. Agora havia de sair para um segundo filme. O que fazer quando seu primeiro deu 6 milhões de espectadores? É certo no mundo inteiro, mas no Brasil é certíssimo, que ninguém pode fazer dois sucessos seguidos. Depois do primeiro as marretas intelectuais e midiáticas levantam-se, prontas para baixar a porrada. Seu segundo filme, mesmo que seja uma obra prima, será considerado pior do que o primeiro. O valor da novidade na nossa sociedade é imenso. A atriz novata que arrebenta numa novela só vai fazer sucesso de novo daqui há dez anos, quando esquecerem o sucesso inicial. O cineasta tem que construir uma obra para ser “novo” de novo. Aconteceu exatamente assim comigo e nos meus 70 anos de batida nunca havia acontecido diferente. É comum dizer, porém verdadeiro, que não vai ser preciso matar seu leão de cada dia. Mas a alma bondosa e generosa de Breno conseguiu vencer seu espírito sofisticado e internacional, resolveu fazer o “Era Uma Vez”. Quando ele me disse do que se tratava, quase caí para trás: Um “Romeu e Julieta” na favela. Um menino favelado apaixona-se por uma menina da Vieira Souto, seu romance não é permitido na sociedade e acabam morrendo os dois, baleados pela polícia. Não podia haver nada mais banal. “O roteiro trará um tratamento original, uma visão nova”, pensei. Li o roteiro. Além de banal era absolutamente previsível. Sem nenhuma novidade. No entanto ali já conhecia o mistério com o qual desejo fechar essa primeira parte do meu blog. Era um roteiro escrito com tanta sinceridade, tanta boa vontade, tanto romantismo, tanto amor ao próximo, que não era possível dizer que era um roteiro ruim. Embora fosse. Ontem vi o filme. Tudo é realizado com muito capricho, porém do modo esperado. Sem novidade de linguagem, previsível, banal. E no entanto é ótimo! Um gol de placa capaz até de quebrar a “maldição do segundo filme”. Chorei como uma vaca nos vinte minutos finais. Embora soubesse exatamente o que ia acontecer. Se uma obra alcança esse nível de emoção, é uma obra de arte. A gente que não respeita o seu próprio pranto, incrível. Se um filme me faz chorar, é um bom filme. Que eu não sou idiota, não choro com besteira. É o amor que Breno tem com suas criaturas que realiza esse milagre. Fenômeno curiosíssimo que vocês poderão verificar nos cinemas daqui a pouco tempo. Dispam-se de todos os seus preconceitos, comprem sua entrada e venham chorar com Breno Silveira nas dores básicas do mundo do amor. A arte tem caminhos que a própria razão desconhece.


PASSADO

Então um dia quis o impossível. Desejei captar e estar presente ao momento exato em que passava de acordado para dormindo! Ter consciência da perda de consciência, foi o que desejei muito criança ainda. E o estado de alerta que esta pesquisa me obrigava, me impedia de dormir. E no entanto eu não queria abrir mão do jogo. Me dava tanto medo! Não poder colocar sobre meu domínio este instante mágico... No qual eu perdia o domínio de mim mesmo e, dominado pela inconsciência do sono, tornava-me um ser desprotegido, do qual os maiores perigos podiam aproximar-se sem que eu ao menos me desse conta. E nessa beira de delírio tive muitas noites, talvez anos de insônia. Foi através dessa experiência que tive minha primeira noção da Morte.

(Depois, muito muito mais tarde escrevi uma peça sobre minha infância, através de muitos processos e um vigor de escritor que absolutamente não tenho mais, escrevi "Do fundo do lago escuro". Então penetrei brabo nesta terra escura da minha infância. Descobrindo lá uma assustadora e inesperada sensualidade, entre muitas outras coisas.
Sobre meu avô paterno, o da porta com grades, pouco escrevi. Mas talvez tudo que sabia. A velhice dele foi interessantíssima, totalmente louco, gagá. E naquele tempo era vergonhoso ser louco. O trabalho chama-se "A ordem natural das coisas”, um roteiro premiado de cinema que não filmei nunca mas que ficou sob a forma de um especial de Tv, sem duvida dos melhores que fiz.
Tenho também uma fonte fértil, se alguma hora quiser escrever sobre aquela gente que me viu nascer. Que é uma foto de toda família da minha mãe, foto onde ela deve ter uns 3 anos . São 1O pessoas naquela foto e sei muita lenda sobre aquela gente toda. Mas não creio que ninguém se interesse por isto)


Me lembro do dia em que peguei o bonde andando pela primeira vez. Que alegria. E do dia em que ouvi Caymmi pela primeira vez e a coleção de "Guri" que comprei e botei em cima do armário, uma pilha enorme, da qual eu só me permitia ler dois dias, economizando o prazer.

Certa vez subi sem querer a escada do vestuário das meninas internas. Nunca dei sorte com elas, era cruelmente desprezado.
Mas no "show" do colégio, primeiro e único pois depois ninguém conseguiu organizar outro, eu dançava com todas as meninas no final, apoteose de teatro revista. Até hoje a música me vem ao ouvido: "Nós voltamos a apresentar, este show para você!". Eu dançava, até com a Carmem, que tinha um namorado muito mais velho.
Minhas músicas prediletas eram "Good Night Sweetheart" (que minha mãe falou que era música do noivado dela) e "Jambalaya".

Minha primeira investida como produtor teatral foi a montagem de "O dote", de Artur Azevedo. Confesso que com a finalidade precípua de beijar a Ângela, conforme mandava a rubrica. Deus, como eu amava a Ângela! Tenho certeza que não tenho mais a menor idéia do quanto eu amava a Ângela! Que não me dava a menor bola, claro. Eram tempos violentos: o Garcia se masturbava dentro da sala de aula. O prof. Medeiros um dia me pediu conselhos sobre o que fazer com ele! Já o professor de inglês, recém chegado ao Brasil, pedia autógrafos aos alunos. O Prof. Leon, de educação física, tentava introduzir a esgrima ela própria no curriculum. A culhoneira voadora passara por cima do tabique e caía com estrondo e escândalo na sala das meninas. E um dia, de repente, Heitor apareceu com uniforme de interno. Eu tinha uma maleta de ferro que prendia direitinho o guaraná, que derramava num guardanapo nojento com os palitos franceses que mamãe botava. E o Miguel jogava bulica comigo. Bulica, Comigo. E havia o inspetor, que se chamava seu Carvalho.


(OBS. Como vê o querido leitor, AMARCORD e mãe não era só Fellini quem tinha. Todo mundo tem. Até o próximo blog, me acompanhem que eu vou longe....)

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