domingo, 20 de junho de 2010

Agora ou Nunca




Caros colegas,

Minha peça “Do Fundo do Lago Escuro” só tem mais 2 apresentações: quarta às 21h e quinta às 21h30 no Teatro das Artes, Shopping da Gávea. A peça não seguirá carreira posto que tem cenário grande e um numeroso elenco, difícil de manter. Mas para mim super valeu à pena. Faço questão que vocês vejam. A peça é sobre minha infância e me fez viver uma aventura que só o teatro proporciona. Convivi intimamente nos últimos dois meses com meu pai, minha mãe, minha infância já muito esquecida. E na medida que eu ia entendendo estas pessoas, o teatro obriga entender, eu ia me reconciliando com elas. No final das contas esse trabalho me serviu de meio para reconciliação com a minha infância. E compreender melhor o dito famoso do meu amigo J. P. Sartre “Não importa o que o passado fez de mim, importa o que eu farei com o que o passado fez de mim”.

Quem precisar de desconto na bilheteria, responda esta postagem para entrar na lista amiga (R$15).


Abraços,

Domingos Oliveira.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ATUALIDADE


2. ATUALIDADE
Em pílulas

• Todo mundo diz que a Zona Portuária do Rio de Janeiro vai virar Broadway dentro de no máximo 2 anos. Muita gente investindo lá, muita gente ganhando dinheiro lá, é bem possível que seja sim. No Galpão da Ação e Cidadania, que é enorme, tem um espaço que foi denominado por cortesia do falecido Maurício Andrade, sucessor do Betinho, “Teatro Domingos Oliveira”. Deveria me meter lá para ficar rico daqui a 2 anos, mas é muito longe a Zona Portuária. Com o trânsito ruim, bate 1 hora da minha casa ou muito mais. Resumindo, não tenho tempo pra ficar rico. Não tenho tempo para nada a não ser criar coisas novas. Com ou sem patrocínios. Não agüento mais esperar patrocínios, não tenho tempo! O número de coisas que quero fazer antes de morrer demanda mais uns vinte anos de vida. A não ser que sem saber eu me chame Matusalém, não vai dar tempo. No momento escrevo uma peça nova denominada “Turbilhões”. Pra quê uma peça nova, se há outras na gaveta? Eu não quero saber, escrevo por escrever. Escrevo. Estou exatamente naquela fase que acho tudo muito ruim, que sou medíocre, que engano as pessoas há várias décadas, que não tem vocação eticétera e tal. Eu já começo a vislumbrar a cara dos personagens. Logo logo cessará a angústia do escritor tomando conta a alegria do escritor, cercado pelos seus personagens indagativos e curiosos, sem saberem ainda seu fim, coexistindo como existem aqueles que têm carne e osso. Uma nova turma terá sido posta no mundo e sentirei de novo o prazer desta maternidade.

• No Cinema, não perder Woody Allen - “Whatever Works”, cuja boa tradução seria “Passa a ser correto tudo aquilo que dá certo”. Gostei muito também de “Guerra ao Terror” dirigido pela ex-mulher do Cameron. Filme de macho. Não vejo um filme tão bom assim desde “Invasões Bárbaras”. O assunto é guerra enquanto droga, vício. O que é o único ponto de vista segundo o qual se pode compreendê-la. Fernandinha Torres não gosta, há quem não goste. Sempre com a mesma argumentação, que o final heroiza o personagem fazendo avançar sobre os perigos naquela roupa de astronauta-super-herói. Não concordo. O filme não tem nada de americanista ou de direita. O super-herói é um suicida que lembra Corisco de Glauber quando alguém o alcança no meio do sertão para avisar que as tropas estão chegando e que ele vai morrer. Othon Bastos, o Corisco, vira para ele e, depois de um instante, responde “Eu já morri”. É disso que a Bigelow fala, dos que vivem, embora nascidos, mortos.

• Me parece também imperdível, para quem tem interesse em cinema, o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”. O filme é centrado na feitura de “Quatrocentos Golpes” que traduziram como “Os Incompreendidos” e “No limite do fôlego” (À Bout de Souffle), primeiras obras dos amigos Godard e Truffaut. É imensa a influência dos dois no cinema que veio depois, inescapável. Eram dois homens muito diferentes, importantes na minha vida. Godard me ensinou a liberdade. Ele é um mestre nisso. O “Fôlego” não é um filme, é invenção de um novo cinema. Que, segundo o documentário, assustou o próprio Truffaut, que financiou parte do filme. Embora fosse um homem sem posses. Truffaut me ensinou a montar músicas clássicas em cenas cotidianas. E acima da inspiração livre desses homens, herdeiros de Rossellini, nasceu toda uma nova onda que quebra, espalha sua espuma nas praias da eternidade. Tem até o primeiro teste de Jean Pierre Leaud, onde ele conheceu Truffaut. Godard é homem mais duro, talvez por isso está vivo até hoje. Enquanto Truffaut já se foi há algum tempo. O filme mostra também como vive um jovem inteligente numa sociedade voltada para a cultura, ou melhor, para a arte, aquela que modifica gente e sociedade. Confesso que é de babar de inveja. O movimento liderado pelo Cahiers Du Cinema, uma simples revista de cinema que tinha de 10, 20, 30 rapazes ou velhos, todos com a cabeça fervendo, querendo conversar antes de discutir. Fazer o melhor cinema do mundo e, assim, mudá-lo. Hoje aqui ninguém discute mais. Ninguém vai ver o filme do outro. É cada um por si e o diabo por todos. Eu não consigo ver filmes brasileiros. Quando percebo a existência do filme já 2 ou 3 amigos vieram me dizer para eu não ir ver porque é muito chato. E em geral meus amigos estão com a razão. Mas se não vemo-nos, se não nos damos, estamos entregues ao governo, como agora. E os grandes artistas vão cuidar de coisas mais sérias entregando o Cinema para os industrialistas. Tristeza.
• A Nouvelle Vague provou (Rossellini, antes deles) que não é preciso uma boa técnica para atingir como um punhal o coração dos espectadores. Hoje há toda uma tendência de colocar a “boa técnica” como elemento essencial. O que é uma burrice, com mais muitas outras entre as quais vivemos. Que vivam bem os industrialistas! Que o Deus do dinheiro os proteja! Que os camelos passem pelo buraco da agulha! Que os ricos entrem no Reino dos Céus. Mas deixem lugar e concedam devido respeito ao Filme de Arte. Comunicativo, humano, necessário.

INÉDITO: IPÊ


Atualmente não me sai da cabeça a vontade de fazer um filme realmente marginal. Com câmera dos amigos,câmera de telefone, máquina fotográfica etc, com um único carro da produção, e cinco pessoas no máximo da equipe, porque 5 é o que cabe em um carro. Já postei o "Balão" outro dia. E agora vai, ainda sem roteirização, o IPÊ: uma reflexão sobre a arte contemporânea... Em 2 sequências.


sequência 1:
O IDIOTA PLASTICO
Interior noite num
Restaurante de luxo da zona sul

encontrei o idiota plástico jogado no fundo de uma mesa de um restaurante, onde eu tinha marcado encontro com o pintor contemporâneo ze bechara. ip, o idiota plástico, é uma figura muito conhecida nos bares cariocas, depois das onze. gosto dele, do idiota plástico, apesar de que as vezes bebe muito e fica inconveniente. ou melhor, ele sempre bebe muito e fica inconveniente. mas é um solitário. era setembro de 98, eu tinha marcado um encontro com o zé. o zé preparava então a exposição que fez em outubro no mam, e queria de qualquer jeito que eu visse os trabalhos ainda no ateliê. tinha tido uma idéia sobre o titulo geral do trabalho e queria me consultar a respeito. mas tinha acabado de me celular para avisar que estava uma hora atrasado. estava esperando a babá para deixar a filha, motivo justo.não disse nada mas achei que o acaso tinha obrado bem aquela noite e sentei-me à mesa do idiota plástico. talvez ele pudesse me ensinar alguma coisa sobre a arte contemporânea que depois me ajudasse no papo com o ze. o idiota plástico, todo mundo sabe, agride compulsoriamente qualquer um que senta na mesa dele. pricipalmente artistas contemporâneos, mas tambem teatrógos, cineastas, poetas. seu oficio é esculhambar , agredir é o seu destino, não sei por que gosto dele. ele proprio se nominou:

IP - “Somos muitos no mundo plagiando Nelson Rodrigues, agora quero ser conhecido como o idiota plastico, mas podem me chamar de IP. Não que eu não tenha desmaiado na minha juventude com os meninos azul e rosa de Picasso, enlouquecido com Cezanne, Van Gogh foi pra mim mais que o Kirk Douglas, El Greco me inundou de mistério e até pintor eu já quis ser....Mas já não me agradei tanto de Klee e Mondrian...- confessa o IP abrindo seu sorriso de Jack (Nicholson) - e daí por diante a grande parte de tudo que fizeram me parece esquisito. Ou seja, sou um idiota plastico.” –disse ele dando um gole no seu Jack (Daniels) sem gelo.

IP -“Penso que o abstracionismo é um tipo de perversão.Ficar pintando coisa nenhuma, com tanta coisa bonita pra pintar, meu Deus, meu Deus...”

notei imediatamente que a garrafa de jack já estava pela metade. e que o nosso amigo devia andar solteiro , tal a acuidade com que examinava cada mulher que chegava ao bar. mas como não parava de falar, servi-me tambem do uisque e continuei ali, me distraindo:

IP - -“Gosto muito do trabalho do Bechara, não pensem que não gosto. Aquele menino vai longe.Cada vez mais quadros desse tipo valem milhões- continuou ele. Os ricos compram muito, para botar em hall de elevadores e até nas salas de visita- o que me faz pensar que a Arte Contemporânea é uma coisa inventada pelos Ricos. Como todo mundo sabe, os ricos são, de modo geral, imbecis. E sendo ricos têm necessidade de inventar novos brinquedos. Valores, para poder especular com eles , assim, divertir-se ricamente. É disso que vive a Arte Contemporânea. Jazz , rico tambem gosta muito. E Jazz é uma coisa chatissima. São artes pouco afirmativas, eu acho, então Rico gosta.” Ele estava realmente se esforçando para ser o mais desagradavel possivel. senti um leve arrependimento de ter sentado ali.. o ip notou, estremeceu de medo de ficar sozinho no bar e então , em vez de aliviar,atacou mais forte:

“Impostura,Dominguinhos.. A Impostura ronda o Arte Contemporânea. Nada contra. A impostura tem o seu lugar, cria uma turbulência saudavel.”.

“ Tem muito rico inteligente.”

“ Só aqueles que compram os quadros do Bechara”

A esta altura chegou o macarrão que I.P. tinha pedido e ele tentava come-lo com a maior dificuldade, porque não é facil filosofar e comer macarrão ao mesmo tempo. Uma mocinha morena, vestida de preto, com muitas pernas e outros pedaços de corpo clamando atenção, sentou-se numa mesa por perto. Só I.P não viu, preocupado que estava com a demolição da Arte Contemporânea:

“Mas quando eu leio no jornal ( só para citar um exemplo estrangeiro) que a ultima moda em Londres e cheat-art , o pintor pinta usando seu proprio cocô em vez de tinta e mais ,pinta com as mãos . Esse cara,famosérrimo, não me lembro o nome , tinha feito há alguns anos uma cabeça dele usando o próprio sangue que ia retirando aos poucos e que pra não coagular precisava de uma carissima parafernalia tecnica . Acho que chamava “blood head”. Agora fez um cheat-head, acho mais adequado. Depois não sei se lava as mãos ou expõe no museu. Ou seja , my God, quando ouço essas estórias tambem.empalideço e de novo reafirmo orgulhosamente minha idiotia plastica.E desculpe esse negocio do cocô, sei que não é assunto para restaurante”

Para mim, um ignorante do movimento recente dessas atividades,perguntei:-“Mas porque eles fazem isso? Certamente é para tentar a desmoralizacão do museu , questionar a autoridade do espaço oficial....

-“ Mas eles vão ficar quanto tempo desmoralizando o museu ? Duchamp já fazia isso em 1926. Coisa mais antiga ! Eu é que não vou ver um quadro de merda. Entenda bem , Domingos, não tô dizendo que o pessoal não é legal , nem que tá fazendo de sacanagem. Mas não sei se são propriamente artistas, no sentido lato da palavra” ( apedrejou com firmesa, chegando ao ponto.) “Quer dizer são quase artistas ,mas não completamente( disse num esgar,, começando a reparar na garota de preto.)

-Reenchi meu copo, a situação era tensa, se o Zé estivesse ali começaria a ficar puto..Dizer para um cara que se acha artista que ele não é, é o mesmo que passar a mão na bunda da mãe dele. IP no entanto insitiu na tecla:

-“ Artistas, artistas propriamente, não são não. Têm outras profissões correlatas”.

-Prosseguiu IP, disposto a teorizar

- “São 6 (seis) categorias, segundo meus estudos”(disse tomando um gole de engasgar qualquer um. E declinou com o maior prazer, certo de estar dizendo um piadão.)


-“ Temos os (1) simbólogos,
(2)os novidadeiros evolutivos,
(3)os chocadores de burgueses
(4)os Defensores da Liberdade,
isto para não falar nos (5) incompetentes plásticos
nem nos os (6) cenógrafos sem peça.

- Achei curioso aquilo. Tendo a achar curioso qualquer coisa. Olhei para o relogio, o Zé devia estar chegando. .IP falava quase sem pausas e continuava a sorver uisque com macarrão. E, mais que isso, a morena começava a prestar atenção nele (IP fala alto). Pensei em ir esperar o Ze la embaixo,mas não fui, confesso, estava interessado na catilinaria do IP..

-“Vai lá, idiota, continua!”-disse. (Eu tinha intimidade para chama-lo apenas pelo primeiro nome. Ele continuou, com uma logica digna do velho Gert Bornhei)


-“É importante criar simbolos, sem eles não se pode entender o mundo de hoje. Exemplo barato: pinto com pó de sangue em vez de tinta. É sem duvida um simbolo obvio do meu tipo de entrega à arte. Boto o retrato de meu pai numa redoma de vidro, construo um livro sem palavras, boto um dado dentro de um novelo de lã. Simbolos,facilmente compreensíveis . Interessante. nada contra.
Apesar de que a arte,Arte, não faz isso”- fez um silencio perigoso ao mesmo tempo que notava a tatuagem que a morena tinha -
“A Arte não resume nada , não é simbolo de nada. Quando Beethoven faz a Pastoral, não descreve e explica a floresta, porem o espirito da Floresta, de todas as florestas. A essencia da Floresta. A verdadeira Arte, se é simbolo, é um simbolo do tôdo”

O IP de vez em quando falava bonito,de vez em quando até se emocionava, porisso era dificil manda-lo à merda.. Eu sorri tambem para a morena, e IP prosseguiu a catalogação:

-“Os novidadeiros evolutivos vendem a mãe por uma novidade, algo que antes ninguem fez ainda. Cortam um boi ao meio, põe um tubarão dentro de um aquario, se penduram com anzois no meio do salão, arrebentam o piso do salão. Repito, não fazem isso de sacanagem, eles têm uma filosofia. Acreditam realmente que a Arte sofre uma evolução- acho que foi Mondrian que veio com essa pela primeira vez- e que Deus os incumbiu desta missão. por isto. É um engano, evidentemente, por vezes fertil. Não tem sentido na Arte o conceito de progresso, não há evolução na Arte, há quatro mil anos ou hoje, para a Arte é o mesmo.”

“Os chocadores de burgueses talvez sejam os mais divertidos, moleques. Botam em exposição xoxotas coloridas, todo o arsenal dos Sex-shops, excrementos ,palavrões, todo tipo de ofensas a religião, moral, familia, civismo etc. Chocar burguês sempre foi um dos divertimentos maiores do artista, é um grande barato! Estou com vontade de fazer uma instalação com buracos indicando, “burgueses, dedos aqui”. Ai eles enfiam, levam um choque eletrico. Piada sem graça , eu sei.”.

Agora já quase irmão gemeo do J.Nicholson, IP convida a garota para sentar conosco. Ela aceita e imediatamente descobrimos quem é. Trata-se de uma modelo estudante de filosofia e participante de um grupo de estudos sobre colagem antropofágica, pele muito branca e bastante vulgar,embora gostosíssima.

Agora IP só falava com ela, mas sem perder o fio da meada:
-“Os defensores da liberdade são igualmente uma gente formidavel! Posso colocar alguns elefantes com pinceis na tromba pintando paredes, ou entrar nu na galeria e fazer xixi num chão verde e amarelo, ou mostrar minha bunda pendurada na escotilha de uma nave espacial.. É a afirmação que um Artista pode tudo, que nada lhe é proibido, que a mais brilhante regra antiga não é nada para ele,que, enfim, que sua liberdade é total, como queria Sartre! Isso é bacana. É o que fez Godard com o Cinema, livrando assim para todo o sempre a cara dos cineastas de muitas chateações...
Tento colaborar, pela primeira vez:
“-Existem dois tipos de liberdade : a Liberdade 1 em que o artista prova que tudo lhe é permitido. E a Liberdade 2 , onde o Artista, porque assim exige a sua liberdade, porque quer, entrega toda a massaroca de liberdade 1...aos outros, ao publico. A Liberdade 1 gerou inumeras formidaveis obras de Arte, mas Maiores e mais genuinas provêm sem duvida da Liberdade 2.”
-“ Godard é maravilhoso, mas nunca será Fellini ou Dostoievski! “- continua IP bastante agressivo, do ponto em que estava, como se eu não tivesse dito nada.Dessa vez quase que falando diretamente para as coxas da dama de preto, ele tenta concluir:
- “A grande parte da Arte Contemporânea que vejo nos museus ( aonde vou pouco, porque é muito chato) são mais lições de liberdade que obras de Arte propriamente ditas. É importante dar lições liberdade,num mundo tão reprimido , mas, alem de ser muito chato. não é Arte!!! Nada contra .E gosto muto do trabalho do Bechara, pode dizer pra ele Aquela coisa da lã de aço enferrujado muito interessante..Não pode cortar o dedo, que dá tétano.”
A modelo está fascinada, concorda , ri . IP icentivado redobra:
“-Ensina o Ferreira Gullar, conhecido até bem pouco tempo como “o gatão”, que foi Picasso o culpado do inicio de toda zona! No dia em que colou num quadro um selo postal, afirmando assim que nem tudo que está num quadro foi o pintor que fez. Assim agindo, transformou o quadro em objeto. Passo pelo bosque – será que tem um bosque por aqui?- e vejo uma pedra bonita. Trago e coloco na exposição, ganho o prêmio. O artista é aquele que faz? Mas não é tambem o que acha? Duchamp ,quase que imediatamente trouxe o urinol . Nada mais correto, Duchamp é um gênio. Se arte é objeto , objeto é arte. A faxineira da Galeria esquece num canto a vassoura e o balde, a exposição abre e ela ganha o primeiro prêmio. Já tem vinte pessoas reunidas ao redor.
IP está decidido a liquidar o macarrão teimoso que cai do garfo. Fala mesmo de boca cheia:
“Os incompetentes plasticos”- diz ele, tentando desenhar uma caricatura da garota na toalha da mesa – “O pintor figurativo tem de saber desenhar, entrar numa intimidade muito maior que a dos médicos com a anatomia humana. São estudos árduos, mais que isso, que exigem vocação. Mamãe uma vez me bota um professor particular desenho, eu não tenho jeito,é dinheiro jogado fora, que me resta? O abstracionismo. Será o abstracionismo uma incompetencia? Será que eles são abstratos porque não sabem fazer o figurativo? A arte conceitual ( não tenho nem direito de usar esta expressão tecnica, sou um idiota plastico) , aquela que leva o artista a criar quando “tem uma boa idéia”...é mais um “mind game” que propriamente ela mesma, a Arte. São trabalhos criados a partir de um tesão intelectual. Ao passo que a outra,a Arte eterna, provém sempre de um irresistivel desejo. Como aquele que um homem tem por sua mulher amada”.
Bem, com essa ele comeu a garota, ficou decidido ali! IP pediu a conta sem cafe, riscou a caricatura que não conseguiu fazer e finalizou calmamente:
“- E os cenografos sem peça, que é a turma das instalações. Empilham bodes em engradados, passam videos como na MTV, , esticam fios, enchem o lugar de quinquilharias curiosas, fazem salas de paredes brancas vazias só que as paredes se movem um pouquinho. Parque de diversões pouco eletrizantes.. Cenarios., por vezes bonitos cenarios . Que ficariam melhor com uma peça de Teatro ali dentro, se autor tivesse a paciencia de escrever. Apesar de que Teatro é uma coisa chatissima.”- disse , dessa vez olhando fundo nos MEUS olhos..
Bom. Aquilo era demais. Resolvi defender os artistas plasticos, em nome do Bechara que não estava atrasado e sim atrasadissimo. -“Chatissimo é você” - falei. Não precisa de peça porque não é Teatro.! Uma boa instalação é uma experiencia estética,sensorial, que prescinde de narrativa, é uma experiencia medidativa , sem carater espetacular...Quanto aos simbolos, é uma coisa interessante. Eles chamam de pintar pensamentos. Se eu olho para o novelo de lã que sei ter um dado dentro(Duchamp) , sou obrigado o a pensar imediatamente na complexidade da vida ( novelo) tendo em seu bôjo o acaso (dado). Ou qualquer leitura parecida , mas não muito diferente disso”.
Daí em diante começou um tiroteio:
IP -EnTão porque o Duchamp não diz isso logo para voce em vez de botar no museu?
DO -Porque é mais indireto me provocar a ideia em mim que me dizer!.
IP -Grandes coisas
DO -O que?
IP -. Não vamos comparar isso a um ceu de El Greco por amor de Deus”.
DO -Não estou comparando. E os novidadeiros?. Que que voce tem contra a novidade?O novo tem que ser buscado. Ele estimula, alegra.
IP -Novidade loja é que tem de Ter, pra vender melhor. Coisa pra mulher desocupada. Artista prefere o perene.
DO -Quanto a chocar os burgueses, é uma demanda social,obrigatoria, senão eles permanecem dormindo.
IP -E roncam muito.
DO -Os defensores da liberdade ampliam horizontes, liberam costumes.Quanto a não saber desenhar, isso é muito relativo. Michelangelo disse que Velasquez desenha mal...
IP -Picasso disse que aos 14 pintava como Rafael.
DO - Que ficar esculhambando as coisas com palavras é muito facil, IP! .Tudo é facilmente esculhambavel com palavras, voce que é um especialista sabe!. Quadro tem de ver, instalação tem de ver, é pro olho. Voce vai aos museus e galerias? Voce vê essas coisas que voce esculhamba?
IP responde pagando a conta, a parte dele naturalmente:-“ Nunca , é claro !Não tenho saco de ir a Museu, só ouço falar. Mas do trabalho do Zé Bechara eu gosto”.
Quando vi , estavamos descendo a escada do restaurante em desabalada corrida , eu atras de IP e da morena branca, sendo que agora era eu que falava sem parar:”- Idiota,voce é mesmo um idiota. Em primeiro lugar voce está generalizando Alem disso voce toma como referência uma Arte que o mundo já consagrou,para falar de uma arte de hoje que o olho comum ainda não teve tempo de digerir!”
IP -“O trabalho do Zé é ótimo, balbuciava varias vezes IP, entre um degrau e outro.”Nunca vi ,mas é ótimo”
DO -“Degas, Monet, Pizarro, Manet levaram dez anos tentando convencer a critica e o publico, do valor do se trabalho. Se voce vivesse no inicio do século, IP, estaria dizendo os impressionistas não são, realmente artistas...
IP -“Jamais . O trabalho do Zé é ótimo, dá um beijo nele.”. Já chegavamos lá fora , o manobreiro estava pegando o carro do IP, a modelo branca tatuada sempre na frente. Discuti por honra da firma até eles entrarem no carro:
DO -“Qualquer um pode reduzir a nada qualquer coisa, aqueles borrões vermelhos de Matisse e seus peixes deformados, os erros de escala de Goya,...
“Da janela do carro , IP pediu desculpas: “Domingos, não vai se zangar comigo, acho voce o maior, dizem que voce faz o melhor Teatro do Rio de Janeiro e eu não sei viver sem voce , embora eu nunca vá ao Teatro, porque fora voce, o Teatro é chatissimo”
Nesse momento ele acendeu os farois .Que incidiram sobre uma figura conhecida e sorridente: O Zé tinha chegado. Ele tambem conhecia o IP, quen não conhecia ? Veio cumorimentar:
-“Ô Domingos, desculpe o atrazo. Tá bom IP?”
-“Tô ótimo. Conhece a minha prima – a morena sorriu sacana –Eu tava agora mesmo batendo um papo otimo ai com teu amigo e dizendo que teu trabalho ta cada vez melhor.”
-“Obrigado. Vou te convidar pra proxima exposição”
- “Voce conhece a estoria do Robert Mitchum? – disse o IP , olhando para mim e colocando a chave na ignição. Robert Mitchum,aquele ator de Hollywood dos anos 50 que ficou famoso porque foi o primeiro cara preso por fumar maconha?”
“Não conheço, ”- disse o Bechara, sem entender bem.“Vou contar pra voces, porque tem tudo a ver com a conversa que eu tava tendo como o Domingos.. Numa entrevista pediram ao R. Mitchum pra falar da profissão do Ator. Ele então disse que era uma profissão muito dura, onde se ganha pouco, não são respeitados horarios de trabalho, voce tem sua privacidade invadida, fica exposto à critica de qualquer idiota como eu, não tem garantias na velhice...mas enfim, é melhor do que trabalhar!”
Rindo muito e a morena tambem, arrancou o carro.. O Zé tambem tinha achado muita graça, eu graça nenhuma.
-Esse IP, impagavel.... Te alugou muito?
-Muito, mas foi interessante.
-Que cara séria, Domingos! Como é, vamos ou não vamos a S. Cristovão? Voce tá de carro? Vamos no meu carro.

SEQUÊNCIA 2 NA PRÓXIMA POSTAGEM

segunda-feira, 31 de maio de 2010

2. INÉDITO





Atualmente não me sai da cabeça a vontade de fazer um filme realmente marginal. Com câmera dos amigos,câmera de telefone, máquina fotográfica etc, com um único carro da produção, e cinco pessoas no máximo da equipe, porque 5 é o que cabe em um carro. Com o som direto da câmera, um gravador talvez, sem continuísta, sem diretor de arte, sem foquista e sem câmera man. Os atores se filmam uns aos outros. Ou eu filmo, não interessa. É o BOAAR (Baixo Orçamento e Alto Astral Radical). Sei que um BOAAR não tem nem entrada no mercado. Vou ter que inventar lugares, circuitos alternativos, para que vejam esse tipo de filme. Chamar-se-á, se Deus quiser, “Lugares Estranhos”, episódios com duração variada. Um tipo de texto que vem de uma faceta minha que o público não conhece. Tem tudo pronto. Qualquer dia começo.
Segue um deles:


“BALÃO”


ROTEIRO SOLO
DE DOMINGOS OLIVEIRA
PARA APENAS UM PERSONAGEM
(duração 5 minutos)

pode também chamar-se

“Longe
da multidão
insensata”


/IMAGEM ZERO : um balão subindo, em close, camera lenta. Ele atravessa edifícios. sobe cada vez mais, afasta-se da cidade lá embaiXo /TRUCAGEM DE COMPUTADOR/

SEQUENCIA 1:
Corredor de um apartamento, de portas. Ouvimos o tocar de uma campainha.
Vemos uma porta entreabrir-se e o ponto de vista: ela no corredor

ELA
tentando controlar um intenso nervosismo/ para a câmera ‘/
Queira me desculpar. Eu sou sua vizinha de cima. Não se lembra de mim? Cruzamo-nos uma ou duas vezes no elevador. Prazer. É que aconteceu uma coisa muito estranha e necessito de sua ajuda. Meu apartamento desapareceu. Como lhe digo: desapareceu. Venha, eu lhe mostro. Moro na cobertura. Chego todos os dias por este elevador e subo uma escada. Onde está a escada? Até hoje de manhã estava aqui e agora não está mais. O senhor se lembra, não? Da escada que estava aqui?

SEQUENCIA 2
NUMA DELEGACIA DA ZONA SUL.
CAMERA SE APROXIMA DO BALCÃO. PONTO DE VISTA.
AGORA VEMOS ELA, DO PONTO DE VISTA DO BALCÃO.

ELA-/ NERVOSA
Eu queria registrar uma queixa. Eu moro na cobertura da rua xxx número x e hoje meu apartamento desapareceu. Queria que meu registro fosse colocado em plano de prioridade, exijo medidas imediatas da polícia. O apartamento não era meu, era alugado. Além disso toda minha família se encontrava dentro dele. Parentes? Claro que tenho parentes. Saiba o senhor que pertenço a uma das famílias mais tradicionais dessa cidade.

SEQUENCIA 3
ORELHÃO NA RUA.
Plano geral, depois próximo: Ela no orelhão.

ELA- /EMOCIONADA/
alô, pai! Eu queria falar com papai. Como não mora ninguém aí com esse nome? Como um engano? Queira desculpar.

SEQUENCIA 4
NUMA RUA QUALQUER.
Ela fala com um guarda. Porem não precisamos mais descrever o geral, basta o contraplano dela falando com o guarda.

ELA - /INDIGNADA/
senhor guarda, posso ter um momento da sua atenção? Já procurei superiores seus e não fui tratada com a consideração devida. Meu apartamento desapareceu hoje pela manhã. E temo que também tenha desaparecido a casa onde mora meu pai. O senhor faz a ronda desse quarteirão há quanto tempo? Ótimo. Então é exatamente a pessoa que necessito. Entre aquela casa amarelada e este edifício não existia uma outra casa? Pense bem. Uma outra casa, baixa, com um portão de ferro?

SEQUENCIA 5
NUM ESCRITORIO DO CENTRO DA CIDADE. LUGAR LUXUOSO, VENDO A CIDADE EMBAIXO. MOVIMENTO MESAS,COMPUTADORES.

ALFREDO ESTÁ DIANTE DELA, MAS NÃO O VEMOS DE FRENTE, SOMENTE O CONTRAPLANO

ELA - /EXALTADA/
Alfredo! Graças a deus é você! Até que enfim encontro alguém, você está sempre aqui!. Alfredo, estou precisando muito de você.

/ENTRA NA ESCRITÓRIO, PLANO GERALISSIMO COM PERSPECTIVA DEFORMADA, MOSTRANDO O ESCRITÓRIO DE ALFREDO. NO FUNDO, ELA E ALFREDO./

ELA
Não, por favor, tem de ser agora. Muito obrigada. Obrigada. Esperarei aqui mesmo. Tanto tempo quanto for preciso. Obrigada.


SEQUENCIA 6:
NA SALA DE ALFREDO, ESCRITORIO.

CÂMERA ENTRA NA SALA , NÃO VEMOS ELA NEM ALFREDO, SUBJETIVA.

ELA -/ TENTANDO SER CLARA/
Não sei o que seria de mim se você não tivesse vindo. Não sei como agradecer, você é o único amigo que tenho, detesto incomodar. Você sabe. Meu apartamento desapareceu, Alfredo, a casa de papai também. E Dora! Minha maior preocupação é Dora. Ela estava no apartamento. Se o apartamento desapareceu é porque deve ter ido parar em algum lugar. Imagine como Rogerio deve estar aflito, surgindo assim, de repente, em um lugar estranho. As crianças. Com ele!... Rogerio é tão sem expediente, nunca soube tratar das crianças...

AGORA NUM PLANO PRÓXIMO. NUM QUARTO DO APARTAMENTO DE ALFREDO. ALFREDO ESTÁ DIANTE DELA , SOMENTE O VEMOS EM CONTRAPLANO FECHADO, DETALHE EM SUPERCLOSE.

ELA
O que há com você, Alfredo? Seu rosto parece diferente. Sim, claro, é o bigode. Você sempre usou bigode?

SENTIMOS QUE ELE RESPONDE MAS NÃO OUVIMOS A VOZ.

ELA
Então não sei. Perdoe. É alguma coisa com o seus olhos, talvez as sobrancelhas. Você está diferente.
Hoje. Alfredo querido, me faça um favor. Será que poderíamos ir até a sua casa? Eu gostaria muito de dormir um pouco. Foi uma noite agitada, não durmo há muito tempo, um dia agitado. Estou cansada.

SEQUENCIA 7
NO APRTAMENTO DE ALFREDO.
LUXUOSO.PARECE UM QUARTO DE HOSPEDE, ELE ESTÁ AJUDANDO ELA A DEITAR. NUNCA O VEMOS DE PERTO NEM DE FRENTE. SOMENTE ELA APARECE.

ELA
Obrigada, não. De mais nada. Não. Não sei como agradecer, caro Alfredo. Dormindo um pouco tenho certeza que melhorarei.
/ CONTRAPLANO DELA, ALFREDO DE COSTAS/

ELA
Eu já começava a me sentir leve de novo e não quero que isso se repita. Tudo menos isso. Não lhe contei? Perdoe, conto. Outro dia comecei a me sentir cada vez mais leve. Leve. Sempre muito ocupada, não liguei. Você sabe como a gente cuida pouco da saúde. De repente, sem que eu desse por isso, meus pés se despregaram do chão. Comecei a subir. Como um balão!

INSERT/VEMOS A IMAGEM . PESSOAS NA RUA TENTANDO SEGURAR ELA , QUE SOBE, SAI DO ChÃO (pendurada numa grua, somente vemos os pés e as pessoas)/

ELA OFF-
...algumas pessoas da rua ainda tentaram me segurar, mas foi em vão. subi tanto que a cidade ficou pequena, lá embaixo.

PLANO DE HELICOPERO. INSERT.

ELA
...consegui descer através de um artifício... quero contar-lhe isso também...

/ A CENA VOLTA AO QUARTO, PONTO DE VISTA DE ALFREDO, ELA DEITADA/

ELA
... Mas antes preciso dormir. Um pouco. Sinto-me cansada. Apague a luz antes de sair, por favor.

/VEMOS A CENA AGORA PELA FRESTA DA PORTA/

ELA
Não, não precisa fechar totalmente a porta. Alfredo!

/SUPERCLOSE/

ELA
se alguém me telefonar, por favor me acorde./

FECHA OS OLHOS PARA TENTAR DORMIR/

Funde para imagem zero: um balão com uma forma que lembra ela, subindo sempre, indo embora...
Música triste, porém bela.

FIM

sábado, 22 de maio de 2010

CLIP: ABERTURA DO MEU PROGRAMA ATUAL "COISAS PELAS QUAIS VALE A PENA VIVER"

Todas as quartas-feiras, às 21h30, no Canal Brasil (66).

ATUALIDADE: ESTUDO DA DRAMATURGIA DE "WHATEVER WORKS"

(Se não quiser saber a história do filme, não leia este estudo!)



Os roteiros de W.A. têm a consistência de um romance literário. Não são do tamanho do filme. Isso porque ele joga habilidosamente com inimagináveis lapsos de tempo. Não faz uma economia em tramas paralelas. Mas tem uma noção aguda de que parte da estória é dramatizável, sendo o resto narrado por offs e imagens.
Esse filme recente dele, ‘Whatever Works’, leva essa técnica ao paradoxo. Ele vem desenvolvendo a trama e quando esta enfrenta um impasse, quando o resto da trama pode ser adivinhada pelo espectador, ele arma um lapso de tempo e narra o que aconteceu. No filme citado, temos:
1. A descrição do personagem. Utilizando como interlocutores amigos em mesa de bar, ou simplesmente a própria plateia. O personagem é armado com características muito especiais. O mau humor representado por Larry David é desesperado, tem síndrome do pânico, odeia as pessoas (a quem trata mal demais), mora num canto incompreensível de Nova York, um buraco de rato e escolheu, como meio de vida, ser professor de xadrez para crianças. Ele já quase ganhou o prêmio Nobel de física, que é o mesmo que ter ganho o prêmio Nobel de física. A sua principal característica, tratar a pontapés suas crianças e o resto das pessoas, é exercida com um mau humor exemplar. Diz na cara das pessoas que ele é um gênio e que elas são mediocridades ridículas. Observemos aqui o número de dados que o personagem tem para sua apresentação: são 6 dados absolutamente originais e longe do lugar comum. Ele é simpático, não gostaria ser assim com as pessoas, ou melhor, afirma suas posições mais para defender do que para atacar. É desnecessário dizer que antes de qualquer trama, o filme já é engraçado.
Ah, sim. O mais importante dos dados. Ele já tentou o suicídio uma vez, se jogando pela janela. Mas caiu sobre o toldo e não conseguiu morrer. É a presença da morte, imprescindível para a comédia.
Aí acontece a primeira trama. Absolutamente por acaso, ele é abordado na porta da escada por uma bela jovem, burra e desinformada, que diz que não tem onde dormir, que precisa de ajuda, e insiste até ele a levar para dentro de casa. Esta já é um elipse sobre o tempo em que ele conhece a moça e leva para o apartamento. Um cineasta normal levaria 15 minutos para descrever esse processo de persuasão. Allen leva 3. Dentro de casa, a primeira coisa que se pensa é que ele vai comer ela. Ledo engano. Allen trabalha pelo inesperado, e acontece o contrário. Ele não quer saber do amor, do sexo, nada. Está desiludido também nessa. Mas a moça dorme lá naquele dia no sofá da sala, ficam próximos, ele sente uma sensação agradável de calmaria que permaneceria se não fossem seus princípios.
O normal é que ele fique apaixonado, mas W. quer o imprevisível. A garota é que se oferece, apaixonada por ele, que é feio e velho. Como ele resiste, passam a conviver como dois amigos. W. precisa agora de um acontecimento que faça os dois se aproximarem. Ela encontra, para angústia do espectador, absolutamente por acaso, num esbarrão, um jovem da idade dela de botar respeito. Lindo, delicado, apaixonante e sexy. E convida ela pra sair. No que ela se oferece pra sair, sentimos que o Larry sente ciúmes, pois está precisando dela. Mas deixa ir e esconde qualquer reação.
Outro lapso de tempo. O que acontece entre ela e o rapaz, não vemos. Apenas imaginamos. Vemos só sua volta para casa, bêbada e, para surpresa de Larry, tendo detestado o jantar. Porque as pessoas são burras, não sabem das teorias sobre o mundo, que ela está acostumada a viver com um gênio, e diz que não quer mais sair com esse tipo de gente. Ele fica encantado e propõe o casamento.
A trama até aqui já seria suficiente para um filme. Mas W.A. está apenas no início. Ele não enfrenta a fase de recém casados deles. Tudo o que as cenas poderiam render já está dito no filme. Sua fulgurante inteligência permite-lhe perceber isso e dar um pulo no tempo para dois anos depois. Uma rápida narração, sabemos que eles estão felizes, mas que ele continua o mesmo pessimista de sempre. O que a incomoda alguma coisa. Ela quer que ele seja alegre.
Aí batem na porta. Nesse momento em que não havia nada mais para dizer, é preciso trazer um personagem novo. Uma forte estória paralela. É a mãe da menina. Burguesa do interior, que chega na casa disposta a ficar. Quase desmaia quando vê o genro e o odeia com todas as forças. Aí também o escritor fica confortável para continuar. Ele não tem mais o que contar dessa mãe. Não duvida e dá um pulo no tempo.
Um ano depois. A mãe, que era uma reprimida do interior e crente, que abandonou o marido porque ele ficou com a melhor amiga dela, começa a dar pra todos os amigos do velho. Compreende a liberdade nova iorquina.
Aqui Allen tem de inventar uma nova. O engraçado dessa mãe insignificante que detesta o velho é evidentemente se perder, mas não. W.A. sai com uma surpreendente. Um dos amigos intelectuais dele acha as fotografias que ela tirou com uma máquina vagabunda geniais e a lança como uma artista plástica de assuntos eróticos. Ela faz um enorme sucesso, com vernissage e tudo. Seria normal que ela casasse com esse amigo descobridor de seu talento, mas A. prefere a surpresa. Ela casa com dois melhores amigos de Larry. É muito feliz com os dois.
Aqui não há elipse. Posto que há algo de imediato a acontecer. A chegada do marido. Pai da menina, conservador e interiorano! Acha um escândalo tudo, arma um banzé e acaba sendo expulso dali.
Sei que o funcionamento do filme não é a essência do poeta. O poeta necessita que todos os personagens sejam salvos, inocentes, joguetes da vida. Que ninguém seja culpado. De modo que agora começa a terceira trama com vigor, obedecendo a este plano.
Como salvar a menina? A mãe dela que detesta o Larry e vice versa, arranja um ator gostosão e irresistível que arma condições para que ela traia o Larry. Essa corte é tão romântica que compreendemos que ela não poderá resistir. Beija-o, apaixonada. A cena seguinte é dolorosa e da máxima coerência. A menina vai contar para Larry que está apaixonada por outro. Sabemos que Larry sofrerá muito. Mas por que ter pressa para fazer este desenlace se o gancho é tão forte? Quando ela vai falar pro Larry, cortamos para o pai burguês, desesperado, num bar. Ele começa a ter uma conversa com um homem que parece gay. O homem nota que ele se interessa pelo assunto. Ele conta que sempre detestou trepar com mulher e uma nova estória de amor surge. O pai revela-se um gay enrustido, para alegria do seu companheiro de bar. Depois desse hiato genial, voltamos para o apartamento de Larry e a moça diz pra ele que ama outro. Larry não pode trair sua filosofia, não tem um ataque de ciúme desesperado. Sabe que os encontros amorosos são impossíveis por muito tempo. Deixa ela ir, fazendo o espectador chorar.
O filme não descreve a falta que ele sente dela nos dias seguintes. Resume a narrativa em dois planos. Um mostra Larry em casa, triste, e o outro mostra uma janela cheia de vitrais contra a qual Larry se joga impetuosamente, suicidando-se. Mas uma comédia não pode acabar assim. Nem que seja por cortesia ao espectador, Larry falha no segundo suicídio. Cai em cima de uma mulher que passava. Ele não sofre nada e a mulher se arrebenta toda.
Elipse, quatro semanas depois. Num hospital, ele conversa com a mulher que “o amparou”, e sentimos claramente que eles foram feitos um para o outro. O absurdo da situação não incomoda Allen. Ele sabe que o acaso comanda a vida.
Na última cena, somente resta fazer um happy end total e, sem pudor, Allen coloca o rompimento do ano novo. Todos estão felizes. A mãe com os amigos, o pai bichíssima com seu companheiro, a menina completamente apaixonada pelo ator e Larry, comovido com o encontro com seu novo amor, essa mulher culta, inteligente, etc.
Mas não pensem que acabou. O poeta vive em busca do poema. É preciso que algo seja dito no final do filme que ilumine todo o resto. Allen Larry David avisa a todos que tem uma multidão do outro lado da tela olhando eles. Ninguém acredita. Ele fala então com a platéia, sem atrapalhar a festa, dizendo que é preciso aproveitar a vida, dar todo o seu amor, etc., e que ele é o único daquela turma que tem a visão do todo. Dentro e fora da tela. É formidável.

PS.: Tenho vontade de dar um Curso de Dramaturgia em um teatro. Os alunos sentam na plateia e ficam olhando. Eu no palco, dito por uma digitadora um peça, conforme faço de verdade. Uso toda a plateia como colaboradora. Aproveitando algumas ideias, dividindo angústias e glórias etc. E o Curso é isso.

MANIFESTO SOBRE A ARTE

Primeira postagem DO NEW BLOG

INÉDITO: MANIFESTO SOBRE A ARTE




“Eu não sei o que é o amor. Mas se vejo um bom filme sobre o amor, aí eu sei o que é o amor. Não sei o que é a guerra. Mas se eu vejo um bom filme de guerra, eu sei o que é a guerra. Não sei bem o que é um girassol, flor estranha e amarela. Mas quando eu vejo um girassol que Van Gogh pintou, aí eu sei o que é um girassol. Não é preciso entender da vida para compreender a Arte. É preciso entender a Arte para saber da vida.”

Existem ideias deletérias que são extremamente difundidas. Uma delas é achar que o julgamento da Arte é subjetivo. Que considerar um filme ou uma peça uma obra de arte é questão de gosto. Isto não é verdade. É uma mentira deslavada e indecente. Os artistas, as crianças e os apaixonados, os inocentes e, porque não dizê-lo, aqueles que foram dotados de verdadeira inteligência... Estes sabem perfeitamente o que é a Arte e o que não é.

No início, era um divertimento. Divertir-se é necessário. A rotina enlouquece. Porém, nessa matéria, muitas atividades ganham do show business. Futebol, carnaval, as mais variadas festas, etc. Uma obrigação sagrada do Poder público é acessar ao cidadão seu divertimento.

Depois (ou terá sido antes?) surgiu uma coisa chamada Arte. Note-se que isso tudo aconteceu em tempos imemoriais. Pertence à essência da humanidade. A Arte, desde as mãos impressas na parede da caverna até o melhor filme da semana passada, apareceu com um poder novo tão ou mais essencial que o divertimento. A Arte ensina aos homens o que é a vida. Ela elogia e exalta as melhores capacidades do ser humano. A honestidade, a espiritualidade, a cidadania, etc. É a Arte que defende as grandes ideias que construíram a civilização humana. A ética, o amor e o pertencimento, etc.

No início, a Arte foi sustentada pelos reis e imperadores. Eles não puderam deixar de perceber que aquilo melhorava o caráter dos homens. Tornava-os mais inteligentes e produtivos, o que era uma coisa justificável em si. Como dizia, rugindo, o leão da Metro: “Ars gratia Artis”, “Arte pela Arte”. No passar geral dos séculos, o entretenimento descobriu que, se ele contivesse arte, seria mais rentável. E aí apareceram as indústrias de cinema, os empresários de teatro, do livro, da música e etc. Creio que foi um acidente de percurso. A Arte, dada sua notória e singular importância, não deve depender do mercado para existir.

Li recentemente que o diretor do departamento cultural da Inglaterra esteve no Brasil e disse coisas surpreendentes de tão óbvias. Coisas que mostram o quanto nos desgarramos, talvez irreversivelmente, do caminho certo. Disse, por exemplo, que deveríamos voltar ao Ministério da Educação e Cultura, posto que essas duas idéias estão ligadas: “Pela simples razão de que você só pode esperar o desenvolvimento cultural de uma sociedade se isso vier acompanhado de uma educação eficaz, que desperte, nas crianças, a apreciação pela arte.” E, igualmente: “É claro que vemos a cultura como algo, por si, importante, mas consideramos natural trabalhar em conjunto com nossos colegas da educação. Só assim conseguimos envolver as crianças em nossos projetos.” E conclui com uma frase que pode causar má impressão a primeira vista: “Política não deve ser feita para os artistas”. Creio que sei o que o Sr. Michael Elliott quer dizer com isso. Penso que o Estado não deve produzir filmes, peças, ou outras obras de arte. Que essa tarefa pertence à iniciativa privada. Que cabe aos Governos, isto sim, cuidar da infra-estrutura da atividade, para que todos possam exercê-la, o maior número possível de pessoas.
O que é a infra-estrutura? Deixemos que o próprio M.E. dê seu exemplo modesto: “Neste momento, estamos trabalhando no direito de cada criança ter cinco horas semanais de atividades culturais. Elas vão aos museus, os museus vão às escolas, enfim, têm experiências com as instituições de cultura nacionais.” Que movimento faz o Brasil nesse sentido? Nenhum.

Ao mesmo tempo, na mesma página do jornal, o Secretário de Cultura de São Paulo João Sayad afirma, para escândalo dos industrialistas: “Na Secretaria de Cultura nosso foco são as Artes. Não estamos preocupados com a educação (...) Também não queremos fazer turismo. Somos pressionados para atrair o turismo, mas nosso foco é a arte. Também não estamos preocupados nem com economia nem com emprego.” Palavras raras vindas de quem vem. Dr. Sayad, o Sr. está com toda razão. Somente a Arte salva, sem a Arte não há salvação. Precisamos encontrar entre nós quem defenda a Arte. Quem saiba reconhecê-la.

Nas concorrência atuais, nas Leis da renúncia fiscal, a Arte não tem nenhum valor. Conta pontos os outros financiamentos que você obteve, apoios, etc, etc, e, naturalmente, se os atores são famosos ou midiáticos. E, o que é mais indignante, quanto você obteve de lucro no seu último filme. Mentalidade que seria adequada se estivéssemos falando de bananas.

O Governo produzir filmes através de suas estatais ou outras renúncias fiscais é injusto, quase imoral. Como posso concorrer lado a lado com o filme igual ao meu, se este já tomou do Governo milhões, ou dezenas de milhões, e eu nada? Diria o Governo: “Mas somos nós que sabemos o que convém ao público assistir.”
O Governo financiar a ponta do processo: filmes, peças, livros, dança, etc., é um absurdo. E mais, um absurdo autoritário e dirigista. Só pode ser explicado um sistema desses se pensarmos no Poder que isto confere aos burocratas do Governo. Burocratas, por mais brilhantes que sejam, não tem a menor capacidade de julgar a Arte. Isto cabe a especialistas. A moral dos executivos e burocratas é sempre a mesma. Rejeitar o novo e antagonizar o revolucionário. E pregar o certo é dar ao público espetáculos que eles já viram. Dar ao público o que ele “quer”. Não é sua função. Sua função é dar ao povo o que ele precisa.

Ouço o riso desagradável dos industrialistas: “Nunca saberemos o que é ou não é Arte. Como poderemos compor uma comissão julgadora isenta?” Não quero responder essa pergunta idiota, qualquer criança, qualquer alma livre, sabe o que é Arte. Deixo de novo a resposta para o M. Elliott: “Repassamos recursos para o Arts Council, que é a agência responsável pelo desenvolvimento das atividades artísticas. Neste caso, damos os recursos e debatemos as prioridades, mas não interferimos nas decisões do Arts Council e no destino do dinheiro. (...) A influência do Governo sobre as decisões das instituições é cada vez menor, até porque os membros do Arts Council têm grande expertise, e temos investido na formação desses líderes no setor cultural.” Existem artistas e até uns poucos intelectuais envolvidos, capazes de julgar o que é bom e o que é ruim, como Arte. Negar essa existência é mais um recurso dirigista.

A Lei Rouanet não deve ser modificada. Deve ser extinta, bem como todas as outras do incentivo fiscal. Devia ser criado, para o bem do Brasil, um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, com notório e comprovado saber. Sei que esse tipo de modificação social tem muitos antagonistas, “os tiranos detestam a Arte”. Entretanto, necessita um longo tempo para ser implementado. Mas não seria uma boa ideia começar???

Lamento dizer que não há detalhes errados na atual legislação do cinema, teatro, etc. Lamento dizer que está tudo errado. E o primeiro homem lúcido que tentar corrigir essa situação de erro, será, em futuro próximo, um herói da Pátria.

A Cultura é a coisa mais importante na vida de um país. É ela que engrandece os homens, tornando-os dignos e moralmente poderosos.
Porém citemos algo perigoso, mas que não pode deixar de ser colocado.
A Cultura não é Arte, embora o oposto seja verdadeiro.
Num país ignorante como o nosso a Cultura se confunde obrigatoriamente com a Educação, já que nos falta a mínima.
Por outro lado, a Arte não. O brasileiro pode, teoricamente, ser o melhor poeta do mundo, o melhor pianista do mundo, o melhor orador, embora jamais possa ser o primeiro homem a pisar em Marte.
Que importância tem a Arte, se não faz pão nem derruba governos? Muito difícil explicar. O artista sabe que é a atividade mais importante do homem. Que não tem nada de elitista, ao contrário.
Os artistas sabem disso, muita gente sabe disso, mas para quem não sabe é muito difícil explicar, falta-nos a Pedagogia.
Talvez porque realmente não seja uma noção que cabe apenas em palavras, porém tentemos. O mais pobre dos mendigos entoa sua canção na calada da noite, o mais feroz dos bandidos dança seu tango, todas as pessoas vêm as novelas por causa da pitada de arte que ainda há nelas, multidões acorrem nos fins de semana aos cinemas, aos teatros. As novas publicações nas livrarias são extraordinariamente freqüentes, fazendo-nos perguntar “Quem afinal lê aquilo tudo?” A Arte é uma fome. Da alma humana. Seu melhor anti-depressivo, importantíssimo na prevenção do enlouquecimento geral.
Sem a Arte, a humanidade logo cederia aos encantos da sua própria brutalidade.
A Arte nasce na pobreza como na riqueza, trata-se de uma atividade de interesse público exatamente como a policia, a saúde pública ou o exército. Tem que ter apoios do governo, naturalmente, posto que não visa lucros materiais e sim espirituais, porém a sua importância inegável somente pode não ser sentida por aqueles que vivem em constante e selvagem competição.
O que seria do Cinema Novo sem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da retomada sem “Central do Brasil”, do Teatro sem Nelson Rodrigues. São as obras artísticas e autorais que elevam a importância social e econômica das atividades culturais.
No entanto a Arte é vista muitas vezes como entretenimento, recreio de adultos. E os artistas somente conseguem se aproximar dos poderosos na época das eleições, quando as verbas ficam mais generosas. É preciso pensar muito bem no uso do dinheiro público para apoio à Cultura. Cultura, hoje em dia, é qualquer coisa. Futebol é Cultura, televisão é Cultura, artesanato, show de strip tease...
Não estou insinuando que deva ser criado o Ministério da Arte, estou afirmando isso.
Apenas por exemplo, todo apoio dado aos filmes e as peças estão errados politicamente, porque o dinheiro público não pode ser usado na ponta visível do iceberg. Não adianta despriorizar o eixo Rio-São Paulo, o princípio do auxilio está errado. Temos hoje um Cinema e um Teatro que tenta agradar não o seu público, mas a seus patrocinadores.
Não sei como as coisas foram parar aí, muito provavelmente pelos caminhos da vaidade e da vontade do poder. Mas é hora de mudar. Se o governo quer popularizar a Arte, que convoque um colegiado de artistas de indubitável mérito para que estes descubram e nutram os maiores talentos do país sem distinção de cor, raça ou local. O esporte aprendeu isso há muito tempo, não patrocinam jogos e sim jogadores. O que importa fazer filmes ou peças num país pobre como o nosso? Importa apenas fazer bons filmes e boas peças.
E para isso é preciso agir sobre a infra-estrutura, saber onde estão os talentos novos, apoiar os velhos talentos, que são os mestres inegáveis. Criar o Ministério da Arte, ou a Secretaria da Arte. Todas as pessoas do Cinema sabem que as portas do mercado internacional somente poderão ser abertas através dos filmes de autor. Todas as pessoas de Teatro sabem que embora o empresário patrocinador ou o dono do Teatro exija muitas vezes a presença de um astro da televisão, a única coisa que garante sucesso é a peça boa. Agir sobre a infra-estrutura não é a delicia das vaidades. É preciso descer a mina, sujar-se de terra ingloriamente, para armar uma sólida base que permita que em todos os lugares a Arte floresça.
E por favor não venham dizer que eles não sabem o que é a infra-estrutura. No caso do Teatro é a inclusão desta Arte no ensino básico, é a diminuição do preço do ingresso através de adicionais dados pelo governo, é apoiar os grupos e as companhias independentes, é armar o circuito nacional, é trabalhar na formação de platéias e técnicos, etc, etc, etc... E é, principalmente, defender o Artista verdadeiro. Pedra angular de tudo.
No caso do Cinema a infra-estrutura é modificar o esquema de exibição de filme brasileiro tornando assim menos aviltante a concorrência com o produto estrangeiro. Criar o circuito nacional do cinema brasileiro, uma larga reserva de mercado, investir em formação de artistas/ técnicos, baratear o custo do ingresso, etc, etc, etc... Enfim, uma série de medidas importantíssimas com as quais atualmente ninguém se preocupa.
Com o dinheiro existente na atividade, poderíamos obter resultados muito maiores se agíssemos nesta direção certa. O problema é e sempre será o fato de que agir sobre a infra estrutura significa humildade e cidadania. Não traz poder nem votos. Além de tornar muito difícil qualquer dirigismo ou cerceamento da liberdade de expressão.


Fica assim demonstrado que a Cultura e a Arte são coisas muito diferentes, com objetivos diferentes. Não é então estranho que estejam no mesmo Ministério? A Cultura está muito mais perto da Educação do que da Arte. No entanto, tem seu Ministério, tendo a Educação o dela. Proposta ao candidato vencedor: um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, eleitos pela classe e periodicamente renovado. Quem fizer isso estará fazendo História. Porque o Brasil é um país de Artistas, ser brasileiro já é meio que uma Arte. Com um bom Ministério da Arte poderíamos exportar tanta Arte quanto sapatos. (O cinema é a segunda renda externa dos E.U.A)

Um país sem artistas não se preza.

O Governo tenta livrar-se do assunto, batata quente. Repassou a responsabilidade do desenvolvimento da Cultura e da Arte brasileira para os empresários e banqueiros, através da lei Rouanet e outras isenções fiscais. Comportamento violento. Esta tarefa é dele, Governo, inalienável. Mesmo porque os banqueiros e empresários, coitados, não entendem nada do assunto, vão ao cinema uma vez por ano e ao Teatro rarissimamente, quando a mulher exige.

Proposta para o candidato vencedor: extinguir imediatamente a lei Rouanet e congêneres, que lei de incentivo fiscal no Brasil não funciona desde a Sudene. Dando um jeito de entregar esses recursos ao Ministério da Cultura e, naturalmente ao bem vindo recém fundado Ministério da Arte!



Domingos Oliveira
Rio, 22 de maio de 2010.

ps.: Bato a cabeça contra a parede com essa ideia já há uns anos. Um dia me ouvem.

A PARTIR DAQUI, SEGUEM POSTAGENS ANTIGAS (ENTRE 26 DE MAIO DE 2008 A 17 DE JANEIRO DE 2009)