segunda-feira, 31 de maio de 2010

2. INÉDITO





Atualmente não me sai da cabeça a vontade de fazer um filme realmente marginal. Com câmera dos amigos,câmera de telefone, máquina fotográfica etc, com um único carro da produção, e cinco pessoas no máximo da equipe, porque 5 é o que cabe em um carro. Com o som direto da câmera, um gravador talvez, sem continuísta, sem diretor de arte, sem foquista e sem câmera man. Os atores se filmam uns aos outros. Ou eu filmo, não interessa. É o BOAAR (Baixo Orçamento e Alto Astral Radical). Sei que um BOAAR não tem nem entrada no mercado. Vou ter que inventar lugares, circuitos alternativos, para que vejam esse tipo de filme. Chamar-se-á, se Deus quiser, “Lugares Estranhos”, episódios com duração variada. Um tipo de texto que vem de uma faceta minha que o público não conhece. Tem tudo pronto. Qualquer dia começo.
Segue um deles:


“BALÃO”


ROTEIRO SOLO
DE DOMINGOS OLIVEIRA
PARA APENAS UM PERSONAGEM
(duração 5 minutos)

pode também chamar-se

“Longe
da multidão
insensata”


/IMAGEM ZERO : um balão subindo, em close, camera lenta. Ele atravessa edifícios. sobe cada vez mais, afasta-se da cidade lá embaiXo /TRUCAGEM DE COMPUTADOR/

SEQUENCIA 1:
Corredor de um apartamento, de portas. Ouvimos o tocar de uma campainha.
Vemos uma porta entreabrir-se e o ponto de vista: ela no corredor

ELA
tentando controlar um intenso nervosismo/ para a câmera ‘/
Queira me desculpar. Eu sou sua vizinha de cima. Não se lembra de mim? Cruzamo-nos uma ou duas vezes no elevador. Prazer. É que aconteceu uma coisa muito estranha e necessito de sua ajuda. Meu apartamento desapareceu. Como lhe digo: desapareceu. Venha, eu lhe mostro. Moro na cobertura. Chego todos os dias por este elevador e subo uma escada. Onde está a escada? Até hoje de manhã estava aqui e agora não está mais. O senhor se lembra, não? Da escada que estava aqui?

SEQUENCIA 2
NUMA DELEGACIA DA ZONA SUL.
CAMERA SE APROXIMA DO BALCÃO. PONTO DE VISTA.
AGORA VEMOS ELA, DO PONTO DE VISTA DO BALCÃO.

ELA-/ NERVOSA
Eu queria registrar uma queixa. Eu moro na cobertura da rua xxx número x e hoje meu apartamento desapareceu. Queria que meu registro fosse colocado em plano de prioridade, exijo medidas imediatas da polícia. O apartamento não era meu, era alugado. Além disso toda minha família se encontrava dentro dele. Parentes? Claro que tenho parentes. Saiba o senhor que pertenço a uma das famílias mais tradicionais dessa cidade.

SEQUENCIA 3
ORELHÃO NA RUA.
Plano geral, depois próximo: Ela no orelhão.

ELA- /EMOCIONADA/
alô, pai! Eu queria falar com papai. Como não mora ninguém aí com esse nome? Como um engano? Queira desculpar.

SEQUENCIA 4
NUMA RUA QUALQUER.
Ela fala com um guarda. Porem não precisamos mais descrever o geral, basta o contraplano dela falando com o guarda.

ELA - /INDIGNADA/
senhor guarda, posso ter um momento da sua atenção? Já procurei superiores seus e não fui tratada com a consideração devida. Meu apartamento desapareceu hoje pela manhã. E temo que também tenha desaparecido a casa onde mora meu pai. O senhor faz a ronda desse quarteirão há quanto tempo? Ótimo. Então é exatamente a pessoa que necessito. Entre aquela casa amarelada e este edifício não existia uma outra casa? Pense bem. Uma outra casa, baixa, com um portão de ferro?

SEQUENCIA 5
NUM ESCRITORIO DO CENTRO DA CIDADE. LUGAR LUXUOSO, VENDO A CIDADE EMBAIXO. MOVIMENTO MESAS,COMPUTADORES.

ALFREDO ESTÁ DIANTE DELA, MAS NÃO O VEMOS DE FRENTE, SOMENTE O CONTRAPLANO

ELA - /EXALTADA/
Alfredo! Graças a deus é você! Até que enfim encontro alguém, você está sempre aqui!. Alfredo, estou precisando muito de você.

/ENTRA NA ESCRITÓRIO, PLANO GERALISSIMO COM PERSPECTIVA DEFORMADA, MOSTRANDO O ESCRITÓRIO DE ALFREDO. NO FUNDO, ELA E ALFREDO./

ELA
Não, por favor, tem de ser agora. Muito obrigada. Obrigada. Esperarei aqui mesmo. Tanto tempo quanto for preciso. Obrigada.


SEQUENCIA 6:
NA SALA DE ALFREDO, ESCRITORIO.

CÂMERA ENTRA NA SALA , NÃO VEMOS ELA NEM ALFREDO, SUBJETIVA.

ELA -/ TENTANDO SER CLARA/
Não sei o que seria de mim se você não tivesse vindo. Não sei como agradecer, você é o único amigo que tenho, detesto incomodar. Você sabe. Meu apartamento desapareceu, Alfredo, a casa de papai também. E Dora! Minha maior preocupação é Dora. Ela estava no apartamento. Se o apartamento desapareceu é porque deve ter ido parar em algum lugar. Imagine como Rogerio deve estar aflito, surgindo assim, de repente, em um lugar estranho. As crianças. Com ele!... Rogerio é tão sem expediente, nunca soube tratar das crianças...

AGORA NUM PLANO PRÓXIMO. NUM QUARTO DO APARTAMENTO DE ALFREDO. ALFREDO ESTÁ DIANTE DELA , SOMENTE O VEMOS EM CONTRAPLANO FECHADO, DETALHE EM SUPERCLOSE.

ELA
O que há com você, Alfredo? Seu rosto parece diferente. Sim, claro, é o bigode. Você sempre usou bigode?

SENTIMOS QUE ELE RESPONDE MAS NÃO OUVIMOS A VOZ.

ELA
Então não sei. Perdoe. É alguma coisa com o seus olhos, talvez as sobrancelhas. Você está diferente.
Hoje. Alfredo querido, me faça um favor. Será que poderíamos ir até a sua casa? Eu gostaria muito de dormir um pouco. Foi uma noite agitada, não durmo há muito tempo, um dia agitado. Estou cansada.

SEQUENCIA 7
NO APRTAMENTO DE ALFREDO.
LUXUOSO.PARECE UM QUARTO DE HOSPEDE, ELE ESTÁ AJUDANDO ELA A DEITAR. NUNCA O VEMOS DE PERTO NEM DE FRENTE. SOMENTE ELA APARECE.

ELA
Obrigada, não. De mais nada. Não. Não sei como agradecer, caro Alfredo. Dormindo um pouco tenho certeza que melhorarei.
/ CONTRAPLANO DELA, ALFREDO DE COSTAS/

ELA
Eu já começava a me sentir leve de novo e não quero que isso se repita. Tudo menos isso. Não lhe contei? Perdoe, conto. Outro dia comecei a me sentir cada vez mais leve. Leve. Sempre muito ocupada, não liguei. Você sabe como a gente cuida pouco da saúde. De repente, sem que eu desse por isso, meus pés se despregaram do chão. Comecei a subir. Como um balão!

INSERT/VEMOS A IMAGEM . PESSOAS NA RUA TENTANDO SEGURAR ELA , QUE SOBE, SAI DO ChÃO (pendurada numa grua, somente vemos os pés e as pessoas)/

ELA OFF-
...algumas pessoas da rua ainda tentaram me segurar, mas foi em vão. subi tanto que a cidade ficou pequena, lá embaixo.

PLANO DE HELICOPERO. INSERT.

ELA
...consegui descer através de um artifício... quero contar-lhe isso também...

/ A CENA VOLTA AO QUARTO, PONTO DE VISTA DE ALFREDO, ELA DEITADA/

ELA
... Mas antes preciso dormir. Um pouco. Sinto-me cansada. Apague a luz antes de sair, por favor.

/VEMOS A CENA AGORA PELA FRESTA DA PORTA/

ELA
Não, não precisa fechar totalmente a porta. Alfredo!

/SUPERCLOSE/

ELA
se alguém me telefonar, por favor me acorde./

FECHA OS OLHOS PARA TENTAR DORMIR/

Funde para imagem zero: um balão com uma forma que lembra ela, subindo sempre, indo embora...
Música triste, porém bela.

FIM

sábado, 22 de maio de 2010

CLIP: ABERTURA DO MEU PROGRAMA ATUAL "COISAS PELAS QUAIS VALE A PENA VIVER"

video

Todas as quartas-feiras, às 21h30, no Canal Brasil (66).

ATUALIDADE: ESTUDO DA DRAMATURGIA DE "WHATEVER WORKS"

(Se não quiser saber a história do filme, não leia este estudo!)



Os roteiros de W.A. têm a consistência de um romance literário. Não são do tamanho do filme. Isso porque ele joga habilidosamente com inimagináveis lapsos de tempo. Não faz uma economia em tramas paralelas. Mas tem uma noção aguda de que parte da estória é dramatizável, sendo o resto narrado por offs e imagens.
Esse filme recente dele, ‘Whatever Works’, leva essa técnica ao paradoxo. Ele vem desenvolvendo a trama e quando esta enfrenta um impasse, quando o resto da trama pode ser adivinhada pelo espectador, ele arma um lapso de tempo e narra o que aconteceu. No filme citado, temos:
1. A descrição do personagem. Utilizando como interlocutores amigos em mesa de bar, ou simplesmente a própria plateia. O personagem é armado com características muito especiais. O mau humor representado por Larry David é desesperado, tem síndrome do pânico, odeia as pessoas (a quem trata mal demais), mora num canto incompreensível de Nova York, um buraco de rato e escolheu, como meio de vida, ser professor de xadrez para crianças. Ele já quase ganhou o prêmio Nobel de física, que é o mesmo que ter ganho o prêmio Nobel de física. A sua principal característica, tratar a pontapés suas crianças e o resto das pessoas, é exercida com um mau humor exemplar. Diz na cara das pessoas que ele é um gênio e que elas são mediocridades ridículas. Observemos aqui o número de dados que o personagem tem para sua apresentação: são 6 dados absolutamente originais e longe do lugar comum. Ele é simpático, não gostaria ser assim com as pessoas, ou melhor, afirma suas posições mais para defender do que para atacar. É desnecessário dizer que antes de qualquer trama, o filme já é engraçado.
Ah, sim. O mais importante dos dados. Ele já tentou o suicídio uma vez, se jogando pela janela. Mas caiu sobre o toldo e não conseguiu morrer. É a presença da morte, imprescindível para a comédia.
Aí acontece a primeira trama. Absolutamente por acaso, ele é abordado na porta da escada por uma bela jovem, burra e desinformada, que diz que não tem onde dormir, que precisa de ajuda, e insiste até ele a levar para dentro de casa. Esta já é um elipse sobre o tempo em que ele conhece a moça e leva para o apartamento. Um cineasta normal levaria 15 minutos para descrever esse processo de persuasão. Allen leva 3. Dentro de casa, a primeira coisa que se pensa é que ele vai comer ela. Ledo engano. Allen trabalha pelo inesperado, e acontece o contrário. Ele não quer saber do amor, do sexo, nada. Está desiludido também nessa. Mas a moça dorme lá naquele dia no sofá da sala, ficam próximos, ele sente uma sensação agradável de calmaria que permaneceria se não fossem seus princípios.
O normal é que ele fique apaixonado, mas W. quer o imprevisível. A garota é que se oferece, apaixonada por ele, que é feio e velho. Como ele resiste, passam a conviver como dois amigos. W. precisa agora de um acontecimento que faça os dois se aproximarem. Ela encontra, para angústia do espectador, absolutamente por acaso, num esbarrão, um jovem da idade dela de botar respeito. Lindo, delicado, apaixonante e sexy. E convida ela pra sair. No que ela se oferece pra sair, sentimos que o Larry sente ciúmes, pois está precisando dela. Mas deixa ir e esconde qualquer reação.
Outro lapso de tempo. O que acontece entre ela e o rapaz, não vemos. Apenas imaginamos. Vemos só sua volta para casa, bêbada e, para surpresa de Larry, tendo detestado o jantar. Porque as pessoas são burras, não sabem das teorias sobre o mundo, que ela está acostumada a viver com um gênio, e diz que não quer mais sair com esse tipo de gente. Ele fica encantado e propõe o casamento.
A trama até aqui já seria suficiente para um filme. Mas W.A. está apenas no início. Ele não enfrenta a fase de recém casados deles. Tudo o que as cenas poderiam render já está dito no filme. Sua fulgurante inteligência permite-lhe perceber isso e dar um pulo no tempo para dois anos depois. Uma rápida narração, sabemos que eles estão felizes, mas que ele continua o mesmo pessimista de sempre. O que a incomoda alguma coisa. Ela quer que ele seja alegre.
Aí batem na porta. Nesse momento em que não havia nada mais para dizer, é preciso trazer um personagem novo. Uma forte estória paralela. É a mãe da menina. Burguesa do interior, que chega na casa disposta a ficar. Quase desmaia quando vê o genro e o odeia com todas as forças. Aí também o escritor fica confortável para continuar. Ele não tem mais o que contar dessa mãe. Não duvida e dá um pulo no tempo.
Um ano depois. A mãe, que era uma reprimida do interior e crente, que abandonou o marido porque ele ficou com a melhor amiga dela, começa a dar pra todos os amigos do velho. Compreende a liberdade nova iorquina.
Aqui Allen tem de inventar uma nova. O engraçado dessa mãe insignificante que detesta o velho é evidentemente se perder, mas não. W.A. sai com uma surpreendente. Um dos amigos intelectuais dele acha as fotografias que ela tirou com uma máquina vagabunda geniais e a lança como uma artista plástica de assuntos eróticos. Ela faz um enorme sucesso, com vernissage e tudo. Seria normal que ela casasse com esse amigo descobridor de seu talento, mas A. prefere a surpresa. Ela casa com dois melhores amigos de Larry. É muito feliz com os dois.
Aqui não há elipse. Posto que há algo de imediato a acontecer. A chegada do marido. Pai da menina, conservador e interiorano! Acha um escândalo tudo, arma um banzé e acaba sendo expulso dali.
Sei que o funcionamento do filme não é a essência do poeta. O poeta necessita que todos os personagens sejam salvos, inocentes, joguetes da vida. Que ninguém seja culpado. De modo que agora começa a terceira trama com vigor, obedecendo a este plano.
Como salvar a menina? A mãe dela que detesta o Larry e vice versa, arranja um ator gostosão e irresistível que arma condições para que ela traia o Larry. Essa corte é tão romântica que compreendemos que ela não poderá resistir. Beija-o, apaixonada. A cena seguinte é dolorosa e da máxima coerência. A menina vai contar para Larry que está apaixonada por outro. Sabemos que Larry sofrerá muito. Mas por que ter pressa para fazer este desenlace se o gancho é tão forte? Quando ela vai falar pro Larry, cortamos para o pai burguês, desesperado, num bar. Ele começa a ter uma conversa com um homem que parece gay. O homem nota que ele se interessa pelo assunto. Ele conta que sempre detestou trepar com mulher e uma nova estória de amor surge. O pai revela-se um gay enrustido, para alegria do seu companheiro de bar. Depois desse hiato genial, voltamos para o apartamento de Larry e a moça diz pra ele que ama outro. Larry não pode trair sua filosofia, não tem um ataque de ciúme desesperado. Sabe que os encontros amorosos são impossíveis por muito tempo. Deixa ela ir, fazendo o espectador chorar.
O filme não descreve a falta que ele sente dela nos dias seguintes. Resume a narrativa em dois planos. Um mostra Larry em casa, triste, e o outro mostra uma janela cheia de vitrais contra a qual Larry se joga impetuosamente, suicidando-se. Mas uma comédia não pode acabar assim. Nem que seja por cortesia ao espectador, Larry falha no segundo suicídio. Cai em cima de uma mulher que passava. Ele não sofre nada e a mulher se arrebenta toda.
Elipse, quatro semanas depois. Num hospital, ele conversa com a mulher que “o amparou”, e sentimos claramente que eles foram feitos um para o outro. O absurdo da situação não incomoda Allen. Ele sabe que o acaso comanda a vida.
Na última cena, somente resta fazer um happy end total e, sem pudor, Allen coloca o rompimento do ano novo. Todos estão felizes. A mãe com os amigos, o pai bichíssima com seu companheiro, a menina completamente apaixonada pelo ator e Larry, comovido com o encontro com seu novo amor, essa mulher culta, inteligente, etc.
Mas não pensem que acabou. O poeta vive em busca do poema. É preciso que algo seja dito no final do filme que ilumine todo o resto. Allen Larry David avisa a todos que tem uma multidão do outro lado da tela olhando eles. Ninguém acredita. Ele fala então com a platéia, sem atrapalhar a festa, dizendo que é preciso aproveitar a vida, dar todo o seu amor, etc., e que ele é o único daquela turma que tem a visão do todo. Dentro e fora da tela. É formidável.

PS.: Tenho vontade de dar um Curso de Dramaturgia em um teatro. Os alunos sentam na plateia e ficam olhando. Eu no palco, dito por uma digitadora um peça, conforme faço de verdade. Uso toda a plateia como colaboradora. Aproveitando algumas ideias, dividindo angústias e glórias etc. E o Curso é isso.

MANIFESTO SOBRE A ARTE

Primeira postagem DO NEW BLOG

INÉDITO: MANIFESTO SOBRE A ARTE




“Eu não sei o que é o amor. Mas se vejo um bom filme sobre o amor, aí eu sei o que é o amor. Não sei o que é a guerra. Mas se eu vejo um bom filme de guerra, eu sei o que é a guerra. Não sei bem o que é um girassol, flor estranha e amarela. Mas quando eu vejo um girassol que Van Gogh pintou, aí eu sei o que é um girassol. Não é preciso entender da vida para compreender a Arte. É preciso entender a Arte para saber da vida.”

Existem ideias deletérias que são extremamente difundidas. Uma delas é achar que o julgamento da Arte é subjetivo. Que considerar um filme ou uma peça uma obra de arte é questão de gosto. Isto não é verdade. É uma mentira deslavada e indecente. Os artistas, as crianças e os apaixonados, os inocentes e, porque não dizê-lo, aqueles que foram dotados de verdadeira inteligência... Estes sabem perfeitamente o que é a Arte e o que não é.

No início, era um divertimento. Divertir-se é necessário. A rotina enlouquece. Porém, nessa matéria, muitas atividades ganham do show business. Futebol, carnaval, as mais variadas festas, etc. Uma obrigação sagrada do Poder público é acessar ao cidadão seu divertimento.

Depois (ou terá sido antes?) surgiu uma coisa chamada Arte. Note-se que isso tudo aconteceu em tempos imemoriais. Pertence à essência da humanidade. A Arte, desde as mãos impressas na parede da caverna até o melhor filme da semana passada, apareceu com um poder novo tão ou mais essencial que o divertimento. A Arte ensina aos homens o que é a vida. Ela elogia e exalta as melhores capacidades do ser humano. A honestidade, a espiritualidade, a cidadania, etc. É a Arte que defende as grandes ideias que construíram a civilização humana. A ética, o amor e o pertencimento, etc.

No início, a Arte foi sustentada pelos reis e imperadores. Eles não puderam deixar de perceber que aquilo melhorava o caráter dos homens. Tornava-os mais inteligentes e produtivos, o que era uma coisa justificável em si. Como dizia, rugindo, o leão da Metro: “Ars gratia Artis”, “Arte pela Arte”. No passar geral dos séculos, o entretenimento descobriu que, se ele contivesse arte, seria mais rentável. E aí apareceram as indústrias de cinema, os empresários de teatro, do livro, da música e etc. Creio que foi um acidente de percurso. A Arte, dada sua notória e singular importância, não deve depender do mercado para existir.

Li recentemente que o diretor do departamento cultural da Inglaterra esteve no Brasil e disse coisas surpreendentes de tão óbvias. Coisas que mostram o quanto nos desgarramos, talvez irreversivelmente, do caminho certo. Disse, por exemplo, que deveríamos voltar ao Ministério da Educação e Cultura, posto que essas duas idéias estão ligadas: “Pela simples razão de que você só pode esperar o desenvolvimento cultural de uma sociedade se isso vier acompanhado de uma educação eficaz, que desperte, nas crianças, a apreciação pela arte.” E, igualmente: “É claro que vemos a cultura como algo, por si, importante, mas consideramos natural trabalhar em conjunto com nossos colegas da educação. Só assim conseguimos envolver as crianças em nossos projetos.” E conclui com uma frase que pode causar má impressão a primeira vista: “Política não deve ser feita para os artistas”. Creio que sei o que o Sr. Michael Elliott quer dizer com isso. Penso que o Estado não deve produzir filmes, peças, ou outras obras de arte. Que essa tarefa pertence à iniciativa privada. Que cabe aos Governos, isto sim, cuidar da infra-estrutura da atividade, para que todos possam exercê-la, o maior número possível de pessoas.
O que é a infra-estrutura? Deixemos que o próprio M.E. dê seu exemplo modesto: “Neste momento, estamos trabalhando no direito de cada criança ter cinco horas semanais de atividades culturais. Elas vão aos museus, os museus vão às escolas, enfim, têm experiências com as instituições de cultura nacionais.” Que movimento faz o Brasil nesse sentido? Nenhum.

Ao mesmo tempo, na mesma página do jornal, o Secretário de Cultura de São Paulo João Sayad afirma, para escândalo dos industrialistas: “Na Secretaria de Cultura nosso foco são as Artes. Não estamos preocupados com a educação (...) Também não queremos fazer turismo. Somos pressionados para atrair o turismo, mas nosso foco é a arte. Também não estamos preocupados nem com economia nem com emprego.” Palavras raras vindas de quem vem. Dr. Sayad, o Sr. está com toda razão. Somente a Arte salva, sem a Arte não há salvação. Precisamos encontrar entre nós quem defenda a Arte. Quem saiba reconhecê-la.

Nas concorrência atuais, nas Leis da renúncia fiscal, a Arte não tem nenhum valor. Conta pontos os outros financiamentos que você obteve, apoios, etc, etc, e, naturalmente, se os atores são famosos ou midiáticos. E, o que é mais indignante, quanto você obteve de lucro no seu último filme. Mentalidade que seria adequada se estivéssemos falando de bananas.

O Governo produzir filmes através de suas estatais ou outras renúncias fiscais é injusto, quase imoral. Como posso concorrer lado a lado com o filme igual ao meu, se este já tomou do Governo milhões, ou dezenas de milhões, e eu nada? Diria o Governo: “Mas somos nós que sabemos o que convém ao público assistir.”
O Governo financiar a ponta do processo: filmes, peças, livros, dança, etc., é um absurdo. E mais, um absurdo autoritário e dirigista. Só pode ser explicado um sistema desses se pensarmos no Poder que isto confere aos burocratas do Governo. Burocratas, por mais brilhantes que sejam, não tem a menor capacidade de julgar a Arte. Isto cabe a especialistas. A moral dos executivos e burocratas é sempre a mesma. Rejeitar o novo e antagonizar o revolucionário. E pregar o certo é dar ao público espetáculos que eles já viram. Dar ao público o que ele “quer”. Não é sua função. Sua função é dar ao povo o que ele precisa.

Ouço o riso desagradável dos industrialistas: “Nunca saberemos o que é ou não é Arte. Como poderemos compor uma comissão julgadora isenta?” Não quero responder essa pergunta idiota, qualquer criança, qualquer alma livre, sabe o que é Arte. Deixo de novo a resposta para o M. Elliott: “Repassamos recursos para o Arts Council, que é a agência responsável pelo desenvolvimento das atividades artísticas. Neste caso, damos os recursos e debatemos as prioridades, mas não interferimos nas decisões do Arts Council e no destino do dinheiro. (...) A influência do Governo sobre as decisões das instituições é cada vez menor, até porque os membros do Arts Council têm grande expertise, e temos investido na formação desses líderes no setor cultural.” Existem artistas e até uns poucos intelectuais envolvidos, capazes de julgar o que é bom e o que é ruim, como Arte. Negar essa existência é mais um recurso dirigista.

A Lei Rouanet não deve ser modificada. Deve ser extinta, bem como todas as outras do incentivo fiscal. Devia ser criado, para o bem do Brasil, um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, com notório e comprovado saber. Sei que esse tipo de modificação social tem muitos antagonistas, “os tiranos detestam a Arte”. Entretanto, necessita um longo tempo para ser implementado. Mas não seria uma boa ideia começar???

Lamento dizer que não há detalhes errados na atual legislação do cinema, teatro, etc. Lamento dizer que está tudo errado. E o primeiro homem lúcido que tentar corrigir essa situação de erro, será, em futuro próximo, um herói da Pátria.

A Cultura é a coisa mais importante na vida de um país. É ela que engrandece os homens, tornando-os dignos e moralmente poderosos.
Porém citemos algo perigoso, mas que não pode deixar de ser colocado.
A Cultura não é Arte, embora o oposto seja verdadeiro.
Num país ignorante como o nosso a Cultura se confunde obrigatoriamente com a Educação, já que nos falta a mínima.
Por outro lado, a Arte não. O brasileiro pode, teoricamente, ser o melhor poeta do mundo, o melhor pianista do mundo, o melhor orador, embora jamais possa ser o primeiro homem a pisar em Marte.
Que importância tem a Arte, se não faz pão nem derruba governos? Muito difícil explicar. O artista sabe que é a atividade mais importante do homem. Que não tem nada de elitista, ao contrário.
Os artistas sabem disso, muita gente sabe disso, mas para quem não sabe é muito difícil explicar, falta-nos a Pedagogia.
Talvez porque realmente não seja uma noção que cabe apenas em palavras, porém tentemos. O mais pobre dos mendigos entoa sua canção na calada da noite, o mais feroz dos bandidos dança seu tango, todas as pessoas vêm as novelas por causa da pitada de arte que ainda há nelas, multidões acorrem nos fins de semana aos cinemas, aos teatros. As novas publicações nas livrarias são extraordinariamente freqüentes, fazendo-nos perguntar “Quem afinal lê aquilo tudo?” A Arte é uma fome. Da alma humana. Seu melhor anti-depressivo, importantíssimo na prevenção do enlouquecimento geral.
Sem a Arte, a humanidade logo cederia aos encantos da sua própria brutalidade.
A Arte nasce na pobreza como na riqueza, trata-se de uma atividade de interesse público exatamente como a policia, a saúde pública ou o exército. Tem que ter apoios do governo, naturalmente, posto que não visa lucros materiais e sim espirituais, porém a sua importância inegável somente pode não ser sentida por aqueles que vivem em constante e selvagem competição.
O que seria do Cinema Novo sem “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da retomada sem “Central do Brasil”, do Teatro sem Nelson Rodrigues. São as obras artísticas e autorais que elevam a importância social e econômica das atividades culturais.
No entanto a Arte é vista muitas vezes como entretenimento, recreio de adultos. E os artistas somente conseguem se aproximar dos poderosos na época das eleições, quando as verbas ficam mais generosas. É preciso pensar muito bem no uso do dinheiro público para apoio à Cultura. Cultura, hoje em dia, é qualquer coisa. Futebol é Cultura, televisão é Cultura, artesanato, show de strip tease...
Não estou insinuando que deva ser criado o Ministério da Arte, estou afirmando isso.
Apenas por exemplo, todo apoio dado aos filmes e as peças estão errados politicamente, porque o dinheiro público não pode ser usado na ponta visível do iceberg. Não adianta despriorizar o eixo Rio-São Paulo, o princípio do auxilio está errado. Temos hoje um Cinema e um Teatro que tenta agradar não o seu público, mas a seus patrocinadores.
Não sei como as coisas foram parar aí, muito provavelmente pelos caminhos da vaidade e da vontade do poder. Mas é hora de mudar. Se o governo quer popularizar a Arte, que convoque um colegiado de artistas de indubitável mérito para que estes descubram e nutram os maiores talentos do país sem distinção de cor, raça ou local. O esporte aprendeu isso há muito tempo, não patrocinam jogos e sim jogadores. O que importa fazer filmes ou peças num país pobre como o nosso? Importa apenas fazer bons filmes e boas peças.
E para isso é preciso agir sobre a infra-estrutura, saber onde estão os talentos novos, apoiar os velhos talentos, que são os mestres inegáveis. Criar o Ministério da Arte, ou a Secretaria da Arte. Todas as pessoas do Cinema sabem que as portas do mercado internacional somente poderão ser abertas através dos filmes de autor. Todas as pessoas de Teatro sabem que embora o empresário patrocinador ou o dono do Teatro exija muitas vezes a presença de um astro da televisão, a única coisa que garante sucesso é a peça boa. Agir sobre a infra-estrutura não é a delicia das vaidades. É preciso descer a mina, sujar-se de terra ingloriamente, para armar uma sólida base que permita que em todos os lugares a Arte floresça.
E por favor não venham dizer que eles não sabem o que é a infra-estrutura. No caso do Teatro é a inclusão desta Arte no ensino básico, é a diminuição do preço do ingresso através de adicionais dados pelo governo, é apoiar os grupos e as companhias independentes, é armar o circuito nacional, é trabalhar na formação de platéias e técnicos, etc, etc, etc... E é, principalmente, defender o Artista verdadeiro. Pedra angular de tudo.
No caso do Cinema a infra-estrutura é modificar o esquema de exibição de filme brasileiro tornando assim menos aviltante a concorrência com o produto estrangeiro. Criar o circuito nacional do cinema brasileiro, uma larga reserva de mercado, investir em formação de artistas/ técnicos, baratear o custo do ingresso, etc, etc, etc... Enfim, uma série de medidas importantíssimas com as quais atualmente ninguém se preocupa.
Com o dinheiro existente na atividade, poderíamos obter resultados muito maiores se agíssemos nesta direção certa. O problema é e sempre será o fato de que agir sobre a infra estrutura significa humildade e cidadania. Não traz poder nem votos. Além de tornar muito difícil qualquer dirigismo ou cerceamento da liberdade de expressão.


Fica assim demonstrado que a Cultura e a Arte são coisas muito diferentes, com objetivos diferentes. Não é então estranho que estejam no mesmo Ministério? A Cultura está muito mais perto da Educação do que da Arte. No entanto, tem seu Ministério, tendo a Educação o dela. Proposta ao candidato vencedor: um Ministério da Arte, regido por um colegiado de artistas, eleitos pela classe e periodicamente renovado. Quem fizer isso estará fazendo História. Porque o Brasil é um país de Artistas, ser brasileiro já é meio que uma Arte. Com um bom Ministério da Arte poderíamos exportar tanta Arte quanto sapatos. (O cinema é a segunda renda externa dos E.U.A)

Um país sem artistas não se preza.

O Governo tenta livrar-se do assunto, batata quente. Repassou a responsabilidade do desenvolvimento da Cultura e da Arte brasileira para os empresários e banqueiros, através da lei Rouanet e outras isenções fiscais. Comportamento violento. Esta tarefa é dele, Governo, inalienável. Mesmo porque os banqueiros e empresários, coitados, não entendem nada do assunto, vão ao cinema uma vez por ano e ao Teatro rarissimamente, quando a mulher exige.

Proposta para o candidato vencedor: extinguir imediatamente a lei Rouanet e congêneres, que lei de incentivo fiscal no Brasil não funciona desde a Sudene. Dando um jeito de entregar esses recursos ao Ministério da Cultura e, naturalmente ao bem vindo recém fundado Ministério da Arte!



Domingos Oliveira
Rio, 22 de maio de 2010.

ps.: Bato a cabeça contra a parede com essa ideia já há uns anos. Um dia me ouvem.

A PARTIR DAQUI, SEGUEM POSTAGENS ANTIGAS (ENTRE 26 DE MAIO DE 2008 A 17 DE JANEIRO DE 2009)