domingo, 4 de julho de 2010

INÉDITO: LUGARES ESTRANHOS

Lembram-se, leitores do blog, do meu plano de fazer um filme hiperbarato chamado “Lugares Estanhos”? Aí vai mais um episódio.



A SEGUNDA CHANCE
original de Domingos Oliveira

CENA 1: ESCRITÓRIO DE RODRIGO,
ESTÚDIO, INT. NOITE

RETRATO DE LIVIA, GRANDE, NA PAREDE. ENTRE MUITOS OUTROS RETRATOS E POSTERS.
RODRIGO DIANTE DO RETRATO DE LIVIA.

NARRAÇÃO DE RODRIGO/INTROVERTIDO, INTENSO/
Lá fora há uma lua,cheia como um olho. Um antigo grego acreditava na existência de um fogo cósmico, por detrás do céu, sendo o sol e as estrelas
apenas buracos por onde podíamos vê lo.

PLANO GERAL DO ESCRITÓRIO. RODRIGO É UM ESCRITOR.
UMA MESA DE TRABALHO COM MÁQUINA E PAPÉIS. LUZ VINDA DE ABAJURES. MUITOS POSTERS E IMAGENS SOBRE AS PAREDES. UM LUGAR MUITO PESSOAL, LEVE MOVIMENTO DE CÂMERA.

NARRAÇÃO DE RODRIGO ... talvez seja assim, não sei de nada. Sei
apenas que Livia voltou.

CENA 2: RUA, NOTURNO, EXTERNA, CHUVA .

SÃO FLASHES (VIOLENTOS E POUCOS) DO DESASTRE QUE MATOU LIVIA: UM GRITO.O FOGO. LIVIA MORTA NO VOLANTE. LUZES E CHUVA.
RODRIGO CAÍDO NA RUA. RÁPIDO.

CENA 3:
PORTARIA E GARAGEM DO APARTAMENTO DE RODRIGO

É A RECORDAÇÃO DE UMA CENA CONFORME A VEREMOS NO FINAL DA QUARTA PARTE:
RODRIGO PÕE O CARRO NA GARAGEM, ANDA EM DIREÇÃO AO
ELEVADOR. CÂMERA NA MÃO, ANGUSTIADA, INDO SEM CORTAR DO GERAL AO CLOSE.

NARRAÇÃO DE RODRIGO
Minha realidade se espatifou como um espelho. Não tenho mais certezas. Sei apenas que Livia, amada Livia, voltou e que logo virá me buscar. Irei com ela. Com Livia,
minha paixão, para a morte, para o nada, para onde ela me levar.

INSERT 1 O FOGO NO CARRO, O GRITO VIOLENTO, RÁPIDO

CENA 4: SALA DA CASA DE RODRIGO

ELE ABRE A PORTA, ENTRA. A SALA ESTÁ VAZIA E NA PENUMBRA,
CONFORME A VEREMOS NO FINAL DO QUARTO BREAK.

NARRAÇÃO DE RODRIGO/SEMPRE FEBRIL/ -
Sei que tenho cinqüenta anos e que hoje vou morrer. Sei que Livia voltou e que nada vai me separar dela outra vez. Penso, recordo, tento entender, embora entender não importe.
A realidade se espatifou como um espelho, hoje de manhã, perto da hora do almoço.

ESTAS PRIMEIRAS CENAS, AGITADAS E CONTUNDENTES, FUNCIONAM COMO UM
PRÓLOGO DESTA ESTRANHA ESTÓRIA. AGORA CAÍMOS NUM CLIMA "REAL".

CENA 5: ESCRITÓRIO DA FUNDAÇÃO

ESCRITÓRIO LUXUOSO DE UMA FUNDAÇÃO CULTURAL.
AQUILES, UM DOS DIRETORES, CONVERSA COM RODRIGO E COM SEU MELHOR AMIGO, RICARDO.

RODRIGO Não quero mais escrever coisas novas, entende, pelo
menos por enquanto. Compilar tudo que já escrevi é um luxo, eu
sei, mas acho que é minha hora de fazer isso.
RICARDO/PARA AQUILES/-Rodrigo faz cinqüenta anos, amanhã, o senhor
sabia?
AQUILES Não me diga! Que oportuno... Sim, porque o contrato já
está batido, dependendo apenas de detalhes... Quem sabe não
assinamos hoje na reunião de diretoria? Seria um belo presente de
aniversário. Você poderia voltar aqui as quatro? Assim
resolveríamos tudo na reunião.
RICARDO Quatro em ponto estamos aqui.
AQUILES A Fundação ficará muito honrada em publicar a sua obra
através da Lei Sarney. Quanto tempo você acha será preciso para a
compilação?
RODRIGO Largando minhas outras atividades, uns 6 meses de tempo integral. É muita coisa. Creio que pode resultar em dez volumes, contando a prosa e o teatro.
AQUILES E com toda esta produtividade, acha que vai conseguir
ficar seis meses sem ter uma idéia nova?
RICARDO ACHA MUITA GRAÇA NAQUILO.
RODRIGO Não quero mais ter idéias, já tive muitas. Dr. Aquiles,
São arquivos e arquivos de cópias que precisam ser copidescadas,
roteiros, peças que bastava atualizar para ficar bom, alguma
coisa incompleta... Me sinto como um andarilho que foi soltando
coisas na estrada. Coisas pelo caminho, recolher tudo, para
depois seguir adiante. O senhor entende?
RODRIGO Perfeitamente, bravos, coisas de escritor. E entre
esses volumes, naturalmente, está a sua biografia inédita de
Livia Santos?
RODRIGO Naturalmente.
AQUILES Isso nos interessa particularmente. ninguém fez uma
biografia decente de Livia Santos até hoje e ela foi uma figura
marcante e o senhor, tendo sido marido dela, é o único que pode
realizar a tarefa com propriedade.
SOA O INTERFONE
INTERFONE Dr. Aquiles, Dr. Albert pede para o senhor dar um
pulo na sala dele.
AQUILES Agora?
INTERFONE Disse que é urgente.
AQUILES /DESLIGANDO O INTERFONE/ Todos os assuntos do Dr.
Albert são urgentes. Mas, enfim, é o manda chuva! Me dêem licença
um instantinho. De qualquer modo estamos marcados! As quatro?/SAI.
FICAM RODRIGO E RICARDO.
RICARDO Tá na mão, camaradinha, tá na mão. Não é a toa que eu
estou te agenciando isso há mais de um ano. Quando eu agencio é
fogo.
RODRIGO Mas o que eles querem mesmo é a biografia de Livia.
RICARDO /TOMANDO UM CAFEZINHO / Isso é. Você já
devia ter completado essa biografia há muito tempo. Apesar de que
sei que é duro pra você até hoje lembrar a morte de Livia.
RODRIGO Não tenho medo da morte. A morte é uma... namorada.
Perigosa mas atraente. Que convenhamos, Ricardo, viver é ótimo,
mas também é muito cansativo. É muita angústia, muita humilhação,
muito medo. Acho que é Dostoienski, será? "O forte
de Deus não é a justiça, é a misericórdia".
RICARDO Essa é boa, é boa.
RODRIGO Viver, inclusive, é assistir, impotente, as pessoas
queridas que vão embora. Não importa o quão queridas tenham
sido... como aconteceu com a nossa Livia naquele meu outro
aniversário.
RICARDO Você nunca se conformou. Também não é para menos, era
lindo o amor de vocês. Eu também morro de saudades de Livia, ela
era uma pessoa tão alegre...
RODRIGO Não é que não me conforme. Não concordo. Livia adorava
viver. Não concordo com a morte dela, jamais concordarei. Digo
"não".
RICARDO Pra quem?
RODRIGO Pras paredes. Ainda assim é "não".
RICARDO É. É.Será que vocês estariam juntos até
hoje, se ela não tivesse morrido?
RODRIGO Não sei, provavelmente. /NUMA CONFISSÃO QUE SOA
FUNDO/Perdi Livia... para a morte. Nada mais me faria perdê la.
RICARDO Isso já é a crise dos teus cinqüenta, sabia? Eu sei, tenho cinqüenta e um. Não quer mesmo o telefone da minha analista.
RODRIGO SORRI.
RICARDO Vamos almoçar, as quatro a gente volta. Almoça comigo?
RODRIGO Não, vou almoçar em casa.
RICARDO Cintia está animadíssima com teu aniversário. E Bia
também. Ficamos lisongeadíssimos, eu e Fernanda, de você querer
comemorar com um jantar só de nós cinco. Estamos preparando
surpresas sensacionais, prepare se também.
RODRIGO Te conheço.
RICARDO Tudo bem, você e Cintia?
RODRIGO Claro, adoro ela. E é mãe da Bia, né?
RICARDO Paixão que você tem por essa filha.

CENA 5: SALA DA CASA DE RODRIGO. ESTÚDIO. INT. DIA ENSOLARADO.

BIA, UMA MENINA DE 10 ANOS, TIRANDO NO PIANO "IMAGINE", DE LENON.
ELA SENTE A CHEGADA DO PAI E CORRE PARA ABRAÇÁ LO.

BIA Mãe, pai chegou!
RODRIGO O que você estava tirando? "Imagine"?
BIA É.
RODRIGO Foi a professora de piano que te ensinou?
BIA Não, foi mamãe.
CINTIA /SAINDO DO ESCRITÓRIO DELE/ À, amor, demorou... /BEIJA
ELE/ como foi lá na fundação?
RODRIGO Está indo. Volto lá as quatro. É capaz de dar certo.
CINTIA Vai dar. Quero ver teus livros todos naquela estante.
RODRIGO /ABRINDO A PORTA DA COZINHA/ E que movimento é esse na cozinha?
EMPREGADA /PREPARANDO PASTÉIS/ Bom dia, seu Rodrigo.
CINTIA Estamos começando a preparar o jantar.
RODRIGO Não quero festa. Coisa simples, nós, Ricardo e
Fernanda.
CINTIA É simples. Um festão simples.
RODRIGO /VENDO UMA CAIXA/ E isso aqui, o que é?

BIA TENTA CHAMAR A ATENÇÃO PRA ELE NÃO VER A CAIXA.

CINTIA Não seja bisbilhoteiro, vem. Nada que você tenha a ver
com isto. /LEVA ELE PELA MÃO/ Vem ver o que eu fiz no escritório,
uma coisa que eu pus lá. /LEVA ELE ATÉ O ESCRITÓRIO/

CENA 6: ESCRITÓRIO DE RODRIGO. ESTÚDIO. INT. DIA
SOBRE A MESA DE TRABALHO DELE, UM VASO COM UMA ROSA BRANCA.
RODRIGO Uma rosa branca?
CINTIA Não parece uma rosa branca?
BIA Mamãe leu no jornal de um escritor que todo dia a mulher
bota uma rosa branca na mesa dele. E resolveu imitar.
CINTIA /TENDO DE CONFESSAR/ Garcia Marques.
RODRIGO Vocês são as minhas rosas brancas./OLHANDO A AGENDA/
Alguém telefonou pra mim?
CINTIA Que eu saiba não, mas eu estive a manhã inteira na rua,
fazendo as compras do jantar. /INDO ATÉ A COZINHA/ Maria José,
alguém telefonou para Rodrigo?
MARIA JOSÉ /DA COZINHA/ Uma porção de gente! Telefonou seu
Mota, da televisão, aquele que toca sempre... Telefonaram do
jornal pra saber se vai renovar a assinatura... e uma dona Livia.

RODRIGO Livia de quê? /VAI ATÉ A PORTA DA COZINHA/
MARIA JOSÉ Não falou não senhor. Mandou só dizer que era a
Livia que tinha telefonado e que ia telefonar de novo as duas
horas. Falei que as duas horas o senhor já estava em casa.
RODRIGO Não conheço nenhuma Livia. Quer dizer...

ELE E CINTIA SE ENTREOLHAM E SORRIEM DO QUE FOI DITO.

MARIA JOSÉ/FAZENDO PASTÉIS/ Vai telefonar depois das duas.
FUSÃO.


CENA 7: SALA DE RODRIGO, MOMENTOS MAIS TARDE. INT. DIA
VEMOS ELE, CINTIA E BIA, ALMOÇANDO E CONVERSANDO. MAS NÃO OUVIMOS
O DIÁLOGO, MÚSICA CLÁSSICA, EMOCIONADA.

NARRAÇÃO DE RODRIGO /INTENSO INTROVERTIDO/ Foi engraçado ouvir aquilo: "Livia telefonou". Como se pudesse ser verdade, como se
Livia não tivesse morrido há catorze anos atrás, no dia do meu
aniversário. Foi engraçado...

INSERT VIOLENTO, A BATIDA DO CARRO. A CHUVA. LIVIA MORTA NO VOLANTE. UM JORNAL ONDE SE LÊ: "MORTA ATRIZ DE TV", O GRITO.
VOLTAMOS A VER O PLANO COTIDIANO DA MESA, CÂMERA GIRANDO.

NARRAÇÃO DE RODRIGO Eu, Cintia e Bia, nós três na mesa, como
fazíamos todos os dias, naquele pequeno paraíso que havíamos
criado para nós três e onde Livia, amada Livia, não tinha nunca
existido.

ELE OLHA O RELÓGIO.

NARRAÇÃO DE RODRIGO Um tremor inconfessável, leve profundo,
sacudia meu corpo da cabeça aos pés, sem que ninguém percebesse.


CENA 8: ESCRITÓRIO DE RODRIGO
A MESA, A ROSA BRANCA, O TELEFONE. TOCA O TELEFONE.

CENA 9: COZINHA
MARIA JOSÉ /NO FOGÃO/ Atende aí, faz favor, que eu tô no fogão.

CENA 10: SALA DE RODRIGO
RODRIGO Deixa que eu atendo, já acabei de comer.

CENA 11: ESCRITÓRIO DE RODRIGO
ELE ENTRA LÁ E ATENDE. CÂMERA GIRA LENTA AO REDOR DELE. POR UM MOMENTO NINGUÉM FALA NADA DO OUTRO LADO.

CENA: 12 BAR À BEIRAMAR, EXT. DIA
É UM BAR COM UMA VARANDA QUE DÁ PARA O MAR, NUM ANDAR ALTO DE COPACABANA.
UMA MULHER AO TELEFONE. DE INÍCIO NÃO VEMOS SEU
ROSTO, EMBORA O PLANO PRÓXIMO. É LIVIA.

LIVIA /EMOCIONADA/ Alô, Rodrigo? Sou eu, Livia. Imagino que
seja difícil para você falar comigo. Depois de tanto tempo e na
circunstância em que estamos.

AGORA VEMOS O ROSTO: É LIVIA. TALVEZ UM POUCO DE VENTO NOS CABELOS. FORA DISSO, NENHUM MISTÉRIO. FORA AQUELES QUE VÊM DA EMOÇÃO.

LIVIA Eu vim pra ter ver. Quero te ver.
RODRIGO /SEM SABER O QUE PENSAR/ por favor, se isso é uma
brincadeira...
LIVIA Você não reconhece minha voz?
SABEMOS QUE ELE RECONHECE
LIVIA Sabe onde estou? Aqui, no bar onde a gente vinha sempre,
lembra? "Aquele marzão lá embaixo, que não fica quieto". Você
pode vir cá agora me ver? Eu não tenho muito tempo.
RODRIGO Como você pode saber disso tudo?
LIVIA Sou eu, Rodrigo. Eu, Livia. Tente acreditar. Venha. Eu
vou estar aqui te esperando /DESLIGA/.

CÂMERA GIRA AO REDOR DELE, LENTAMENTE. ELE IMÓVEL, COMO SE O TEMPO TIVESSE PARADO.

FIM DO BREAK.

SEGUNDO BREAK PARTE DOIS

CENA 1: ESCRITÓRIO DE RODRIGO.

CONTINUAÇÃO DA CENA ANTERIOR.

A CÂMERA GIRA AO REDOR DELE, LENTA, COMO SE O TEMPO TIVESSE PARADO. ACABA SOBRE O RETRATO DE LIVIA.

NARRAÇÃO DE RODRIGO Eu sabia que não podia ser ela, mortos não
telefonam na hora do almoço. No entanto era sua voz, o jeito de falar e mais que isso era o amor que nós tínhamos ali, de repente, no telefone.
Meu tremor interno transformou se numa saudade imensa, que curvou
meu corpo.
ELE SE CURVA. A IMAGEM SE CONFUNDE. ELE LEMBRA A MORTE DE LIVIA.

CENA 2: ESTÚDIO. UM FUNDO DE PAREDE.

REPÓRTERES ENTREVISTAM ELE, DEPOIS DA MORTE DE LIVIA. RODRIGO
ESTÁ ABATIDO, SOFRIDO, SOFRENDO, DE VEZ EM QUANDO UM FLASH. OS
REPÓRTERES NÃO DEVEM APARECER, SOMENTE SUAS VOZES. É APENAS UM
PLANO DE RODRIGO CONTRA A PAREDE (É ASSIM QUE ELE SE LEMBRA/AS PERGUNTAS SÃO ÁGEIS, UMA ATRÁS DA OUTRA.
VOZ DE REPÓRTER O senhor era marido dela?
RODRIGO Estávamos juntos há alguns anos.
VOZ DE REPÓRTER Quantos?
RODRIGO Três. Três.
VOZ DE REPÓRTER Quando o senhor a conheceu ela já era atriz de
cinema e TV?
RODRIGO Estava começando.
VOZ DO REPÓRTER Como o senhor explica a rápida popularidade que
ela alcançou?
RODRIGO Não sei explicar. Livia tinha muito talento e todo mundo gostava dela.
VOZ DE REPÓRTER Verdade que o senhor ia dirigir um filme com
ela.
RODRIGO Sim, é verdade.
VOZ DE REPÓRTER Pretendiam casar.
RODRIGO NÃO RESPONDE, NÃO AGUENTA MAIS.
VOZ DE REPÓRTER O senhor conseguiu sair pela porta do carro, no
momento do acidente, como foi isso.
RODRIGO NÃO RESPONDE
VOZ DE REPÓRTER Livia Santos era uma pessoa encantadora, uma
espécie de namorada do Brasil. Fale sobre isso. Verdade que é
hoje seu aniversário?
RODRIGO NÃO RESPONDE
VOZ DE REPÓRTER Neste momento, qual seu desejo?
RODRIGO NÃO RESPONDE

CENA 3: ESCRITÓRIO DE RODRIGO / CONTINUAÇÃO DA CENA 1/
RODRIGO DIANTE DO RETRATO DELA, COMO VIMOS NO INÍCIO.

NARRAÇÃO DE RODRIGO Eu queria morrer, foi só o que eu quis,
durante muito tempo. Morrer no lugar de Livia.

PLANO GERAL DO ESCRITÓRIO. ELE PEGA UM PALETÓ FORA DE SI PASSA PELA AMPULHETA QUE ESTÁ SOBRE A MESA, COM A ROSA BRANCA. E SAI PELA PORTA DOS FUNDOS. ENQUANTO ISSO.

NARRAÇÃO DE RODRIGO Aquele telefonema somente poderia ter vindo
de alguém que nos conheceu muito bem. De alguém que me odeia. Era
preciso que eu fosse lá. Naquele mesmo bar onde nos amamos tanto
e onde eu nunca mais tinha voltado. Livia tinha me chamado, eu
tinha de ir.

CENA 4: CARRO. EXTERNA DIA.

RODRIGO GUIA O CARRO, OBSTINADAMENTE, ENQUANTO GUIA LEMBRA OUTRA VEZ QUE ESTEVE DENTRO DE UM CARRO, COM LIVIA.

CENA 5: CARRO DE LIVIA. EXTERNA NOITE. CHUVA INTENSA.

RODRIGO Não quero festa nenhuma. quero ficar com você o dia
inteiro e só. Vamos ao cinema de tarde, é isso assim quero
comemorar meu aniversário.
LIVIA Não senhor, vamos chamar o amigos, quero dançar,
aniversário é pra comemorar meu Deus, que chuva é essa de
repente?

RODRIGO ESTÁ QUINZE ANOS MAIS JOVEM, LIVIA É CONFORME A VIMOS.
TÊM A ALEGRIA E A VITALIDADE DOS APAIXONADOS. CHOVE MUITO, A VISIBILIDADE É MÁ.

RODRIGO Cuidado aí que hoje é sábado e tá todo mundo bêbado a
essa hora. Esse teu pára brisa não está limpando direito.
LIVIA Não fala mau do meu carrinho, que eu acabei de comprar
ele. E com meu dinheirinho, ganho com meu trabalhinho. O nome
dele é Mickey.

VEMOS O CARRO DE FORA, ANDANDO NA CHUVA. É UM VOLKS NOVO (DE 15 ANOS ATRÁS). É NECESSÁRIO PARA A NARRATIVA QUE SE DEFINA O CARRO.
CHOVE MUITO.

RODRIGO Cuidado assim mesmo.
LIVIA Tô indo devagar, tudo bem.
RODRIGO Lá em São Paulo eu decidi que minha próxima peça é com
você representando. Se bobear eu até dirijo. Pensei um personagem
ótimo pra você.

AGORA O DIÁLOGO EM CLOSES

LIVIA Será que eu me dou bem no Teatro? TV e cinema eu me viro,
mas Teatro é outra coisa.
RODRIGO Vai ser uma maravilha.
LIVIA Como chove! Chuva de verão. Não vejo nada, sabia?
RODRIGO Para aí que eu pego a direção.
LIVIA Precisa não. Quero saber é desse personagem...
RODRIGO /ESQUECENDO O PERIGO/ É uma mãe solteira. Uma mãe
solteira que tem uma filhinha e que vive muito bem com ela,
sozinha, sem homem nenhum. Só não sei se é filhinha ou
filhinho...
LIVIA Que é isso? Um personagem ou uma indireta?
RODRIGO /VENDO/ Cuidado que vem um louco aí meio na contramão.
LIVIA Onde é que esse louco pensa que vai?
RODRIGO /NUM GRITO/ Cuidado, está derrapando.

O OUTRO CARRO VEM EM CIMA DELES. CHOQUE. VIOLÊNCIA. RODRIGO SALTA PELA PORTA NUMA FRAÇÃO DE SEGUNDO. EXPLOSÃO. FOGO.
LIVIA NO CARRO, DESMAIADA E FERIDA. RODRIGO DESMAIADO NA RUA. FARÓIS.
CHUVA.

VOLTA PARA ELE NO CARRO DELE, INÍCIO DO FLASH BACK, SÓ PARA FECHAR.
(INSERT DA CENA 4)

CENA 6: SALA DE RODRIGO

CINTIA ESTÁ VINDO ABRIR A PORTA. CHEGANDO RICARDO E SUA ESPOSA
FERNANDA, QUE AINDA NÃO CONHECÍAMOS. SÃO TODOS MUITO AMIGOS.
RICARDO VEM CHEIO DE EMBRULHOS, FERNANDA TAMBÉM SÃO COISAS PARA
A FESTA DE DE NOITE.
RICARDO Pronto, cheguei. Olha aí, você guarda isso aqui na
cozinha. E eu trouxe também as lâmpadas para os refletores
vamos fazer uma sucessão hoje de noite.
FERNANDA Vim te ajudar aí na cozinha. /BEIJA CINTIA.
CINTIA Fala baixo, senão ele escuta.
RICARDO /BAIXO/ Está no escritório?
CINTIA Desde a hora do almoço.
RICARDO Então vamos tirar ele de lá, que são quase três horas e
eu quero chegar na fundação meia hora antes.

CENA 7: ESCRITÓRIO
RICARDO ENTRA Lã, MAS O ESCRITÓRIO ESTÁ VAZIO. VOLTA A SALA

CENA 8: SALA E COZINHA
RICARDO No escritório não está não.
CINTIA Não está? Rodrigo! Só se ele saiu pela porta dos fundos,
pra comprar cigarros ou coisa assim esquisito, ele sempre
avisa.
RICARDO Se não chegar dentro de cinco minutos, deixo ele aí e
vou na frente atrasado é que eu não chego. Cintia, eu sabia que
eu ia resolver esse assunto da fundação através de amigos que eu
tenho lá. Não tenho nada a ver com isso, não sou agente do teu
marido, sou amigo de infância. Mas se eu fôsse, ele estava rico!
BIA /NA COZINHA/PREPARANDO O BOLO COM A EMPREGADA/ Mãe, só tem 36 velas azuis. Vou ter que misturar com as que sobraram do meu aniversário, mas são cor de rosa.
RICARDO /ENTRANDO COM A CARA LÁ, COM NARIZ DE PALHAÇO/ Tudo pronto para a apresentação desta noite, papel decorado?
BIA /RINDO/ O senhor vai usar esse nariz, tio?
RICARDO Embora seu pai não mereça tanto: quedê ele? Se ele se
atrasar, mato ele diante da diretoria.

CENA 9: EXTERNA, BAR A BEIRA MAR

UM CARRO SE APROXIMA, CARRO DE RODRIGO, PLANO GERAL DE CIMA.
MÚSICA CLÁSSICA, APAIXONADA.
RODRIGO SALTA DIANTE DO BAR E HESITA POR UM INSTANTE. A IMAGENS E TURVA, FLASH BACK.

CENA 10: EXTERNA, NOITE, BAR A BEIRA MAR/INTERIOR DO BAR
Obs.: Pode ser estúdio, talvez.
... LIVIA ESTÁ NUM CANTO DA VARANDA DO BAR, DE COSTAS.

RODRIGO (MAIS JOVEM) ENTRA PROCURANDO ELA, ACHA.
RODRIGO Meu amor...
LIVIA /COMO SE QUISESSE JÁ HÁ ALGUM TEMPO DIZER EXATAMENTE AQUILO/Te amo também.
BEIJAM SE COM SOFREGUIDÃO.
RODRIGO Vinha pensando pela rua...
LIVIA Eu também esta pensando...
OS DOIS ... te amo.
RIEM, BEIJAM SE
NUM CANTO DO BAR, DISTANTES, VEMOS OUTRO CASAL
LIVIA Devem achar que nós somos malucos.
RODRIGO Somos. Pra estar nessa paixão há três anos.
LIVIA /SEMPRE ABRAÇADA NELE/ Você está proibido de viajar. Fico
com muita saudade.
RODRIGO Foi só uma semana. Afinal a peça é minha, eu tive de ir
São Paulo não é tão longe.
LIVIA Pra mim só não é longe quando eu fico abraçada.
RODRIGO Da próxima vez você vem comigo.
LIVIA Só não fui porque eu tinha gravação./ OLHA O RELÓGIO/ Teu
aniversário é daqui a quinze minutos. Se você não viesse passar a
meia noite comigo eu ia chorar, sabia?
RODRIGO Peguei o último avião, dei sorte. Quando eu saltei o
teto fechou, vai chover. Vamos casar? foi o que eu pensei no
avião. Ficar juntos? Pra sempre?
LIVIA Pra sempre.
BEIJAM SE APAIXONADAMENTE.
FUNDE.

CENA 11: BAR A BEIRA MAR. EXTERNA DIA.
RODRIGO ESTÁ COMO DEIXAMOS, DIANTE DO BAR. ENTRA NUM ÍMPETO. O BAR ESTÁ VAZIO. ELE PROCURA ALGUÉM. DESISTE, RESOLVE IR EMBORA,
MAS LEMBRA SE DA VARANDA, DA AMURADA. VAI Lã.
... NA AMURADA Hã UMA MULHER, EXATAMENTE COMO VIMOS NA RECORDAÇÃO
ANTERIOR. ELE SE APROXIMA, ENTRE O MEDO E A NECESSIDADE DE SABER QUEM É.
ELA SE VOLTA.
É LIVIA.
ELE SE APROXIMA. MUITO LENTAMENTE, TOCA ELE.
RODRIGO RECUA INSTINTIVAMENTE.
RODRIGO É você?
LIVIA Sim, sou eu.
RODRIGO Enlouqueci? Não pode ser você. Você... morreu
LIVIA Eu morri.
RODRIGO Mas está aqui. De verdade?
LIVIA Estou. Vim te ver.
AMBOS ESTÃO MUITO EMOCIONADOS. É UM REENCONTRO DESESPERADAMENTE
ANSIADO POR AMBOS. NENHUMA FANTASMAGÓRA, NADA DE IRREAL.
RODRIGO Não compreendo.
LIVIA Você deve aceitar. Não posso responder suas perguntas.
Como é bom te ver de novo.
ELE AVANÇA PARA ELA. TOCA EM SEU ROSTO. ESTREMECE. SEM QUE POSSAM CONTROLAR, OS DOIS SE ABRAÇAM E SE BEIJAM. CÂMERA GIRA
RODRIGO Mas como isso pode estar acontecendo? É um sonho? Um
delírio? Eu morri também?
LIVIA Não me olhe como se eu estivesse morta. Hoje estou viva,
pra você. E tenho pouco tempo. Muito pouco tempo.
RODRIGO Quanto?
LIVIA Não posso responder. É uma felicidade... podermos nos ver
de novo não basta?
RODRIGO Eu casei de novo. Quando você... foi embora, eu também
quis morrer. Não vi sentido na vida por muito tempo. Depois
apareceu Cintia e ... Tenho uma filha, chama se Beatriz.
LIVIA Isso não me importa.
BEIJAM SE DE NOVO. AGORA NÃO É MAIS O BEIJO APAIXONADO E SIM AQUELE OUTRO, MAIS CUIDADOSO E INTENSO, DO RECONHECIMENTO QUE TRAZ A AMBOS UMA ENORME EMOÇÃO.
DE REPENTE RODRIGO SE AFASTA DELA
RODRIGO Não. Eu não posso ficar aqui. Eu não devo. Não está
certo...
LIVIA Você só vai ficar se você quiser. Se quiser muito / BAIXA
OS OLHOS COM UMA LÁGRIMA.
RODRIGO HESITA MAS FOGE DE Lã. CORE, NÃO QUER OLHAR PARA TRÁS.
LIVIA FICA NA AMURADA, CÂMERA SE AFASTANDO DELA.
FIM DO BREAK
3º BREAK TERCEIRA PARTE
CENA 1 PORTARIA DO APARTAMENTO DE RODRIGO
A CÂMERA VEM, PRÓXIMA E AGITADA, ACOMPANHANDO ELE. ELE ENTRA NA
GARAGE, COM O AUTOMÓVEL, A CÂMERA ACOMPANHA ATÉ O ELEVADOR, NUMA
CÂMERA QUE CHEGA AO CLOSE E AO PLANO GERAL. ENQUANTO ISSO,
NARRAÇÃO DE RODRIGO.
NARRAÇÃO DE RODRIGO Eu precisava voltar para casa. Eu precisava
ver Cintia, ver Bia, as cadeiras, as paredes da minha casa. Para,
através elas, ter alguma certeza de não ter enlouquecido. Que
pode fazer um homem quando pensa que está louco? Sair gritando e
correndo ele não pode: a loucura corre junto e grita mais alto
ainda. Ele tem de ter coragem e aceitar a loucura como parte de
sua lucidez enquanto isto fôr suportável.
CENA 2 SALA DA CASA DE RODRIGO. ESTÚDIO, INT. DIA.
ELE ABRE A PORTA, CINTIA VEM CORRENDO ATÉ ELE.
CINTIA Meu Deus, que bom que você está aqui? Que que houve? Que
aconteceu? Já te telefonaram dez vezes, fiquei aflitíssima. Como
você está pálido...
RODRIGO Quem me telefonou?
CINTIA O pessoal da fundação, claro! Você não foi na reunião!
RODRIGO /LEMBRANDO AGORA/ É, é verdade. Não fui.
CINTIA Mas por que? Era importantíssimo. A diretoria estava
toda lá, te esperando pra resolver. O Ricardo está segurando
eles, quer que eu toque pra lá pra você falar?
RODRIGO Não. Eu não vou conseguir falar com ninguém.
CINTIA /COMPREENDENDO QUE É UMA SITUAÇÃO GRAVE/ Então vem.
Senta. Se você não foi, foi porque não pôde. Quer um copo d'água?
Um uisque?
RODRIGO NÃO RESPONDE NADA.
CINTIA /AJOELHANDO DIANTE DELE/ Não quer me contar o que está
havendo?
CLOSE DELE. CLOSE DELA, MUITO PRÓXIMOS, COMO SE O TEMPO PARASSE.
NARRAÇÃO DE RODRIGO Resolvi não dizer... a verdade. Ela não
poderia compreender. Eu não mentia nunca para Cintia. Mas senti
naquele momento que se eu falasse... poderia perder Livia para
sempre. Eu não podia arriscar a esse ponto.
RODRIGO Tive um motivo sério, que não posso te contar.
CINTIA Se você não quiser não conta. Mas saiba que eu estou do
teu lado, seja o que fôr. Vejo na tua cara que é coisa séria, te
conheço.
RODRIGO Bia? Onde está?
CINTIA São quatro horas da tarde, Rodrigo. Ela está no colégio.

TOCA O TELEFONE
CINTIA Deve ser Ricardo. Ele está telefonando de dez em dez
minutos. Que que eu digo?
RODRIGO Diz que eu não cheguei.
CINTIA Fala com ele.
RODRIGO Não dá.
CINTIA Alô, Ricardo.
CENA 3 SALA DE ESPERA DE AQUILES, NA FUNDAÇÃO. INT. DIA.
ESTÚDIO.
RICARDO E aí, chegou? Não chegou, é? Teu marido é louco. A não
ser que tenha acontecido o carro enguiçar, ou qualquer coisa
assim. Mas nesse caso porque ele não telefona pra cá? Fiquei uma
hora lá dentro, os homens todos reunidos, olhando para minha
cara, esperando por ele trabalhei tanto pra isso, agora ele não
vem! Me põe tudo a perder...
CENA 4 SALA DE RODRIGO INT. DIA, ESTÚDIO, CONTINUAÇÃO
RICARDO CONTINUA A FALAR SEM PARAR. RODRIGO SENTADO NA POLTRONA.
CINTIA MUITO AFLITA.
CINTIA /DEPOIS DE UNS MOMENTOS/ Ricardo, espera aí um
instantinho que está tocando na porta e eu estou sozinha. Pode
ser ele ou notícia dele. /LARGA O TELEFONE VAI ATÉ RODRIGO/FALA
BAIXO PARA NÃO SER OUVIDA/ Atende lá, meu amor, não quer não?
Atende lá, dá uma desculpa. Estão todos esperando por você. O
Ricardo está histérico, fala pelo menos com ele.
RODRIGO Eu falo.
ELA ENTREGA O TELEFONE A RODRIGO
CENA 5 SALA DE ESPERA / SALA DE RODRIGO CONTINUAÇÃO
RICARDO /TELEFONE/ Meu Deus, é você! Que houve? Vem pra cá
imediatamente, depois você me explica o que houve. Acho que
consigo segurar os homens aqui até as seis.
RODRIGO Hoje não vou poder ir.
RICARDO /APOLÉTICO/ Mas como não vai poder? O que que você
quer? Que eu marque com eles pra amanhã ou pra depois da manhã?
Essa turma daí é importante! Eles demoram seis meses pra
conseguir se encontrar... e você sempre disse que esse OK é a
coisa mais importante da tua vida porque você não fala nada? É
a tua vida, não é a minha. Te espero até as seis. Dá pra você
chegar até as seis?
RODRIGO Está bem. Até as seis eu estou aí. Você não está
entendendo nada porque eu também não estou.
RICARDO Isso não interessa agora. Mas que você se prejudica se
prejudica. Não sei como é que a Cintia aguenta. Passa ela aí um
instantinho.
RODRIGO ENTREGA O TELEFONE A CINTIA.
RICARDO Olha só filha tá brabo hem? Isso é depressão. Surtar
não surta não, que não tem mais idade pra isso. Vê se você
descobre o que que houve, mesmo pra quem faz cinqüenta essa foi
de mais, se você visse a cara dos homens. E bota ele aqui no
máximo até quinze pra seis de qualquer jeito. /ELE FALA SE
ESCONDENDO DA SECRETARIA QUE ESTÁ EM SUA MESA. ESTRAGANDO A CONVERSA.
CINTIA Vou tentar, Ricardo. /COM PRESSA/ Deixa eu desligar que
ele saiu da sala.
ELA SAI ATRÁS DELE, EM DIREÇÃO AO ESCRITÓRIO, QUE ESTÁ COM A PORTA ENTREABERTA.

CENA 6 ESCRITÓRIO DE RODRIGO. INT. DIA.

RODRIGO ACENDEU UM CIGARRO, QUE ESTAVA PRÓXIMO A AMPULHETA. E DEPOIS OLHOU ALGUMA COISA, COMO SE TIVESSE SIDO CHAMADO. VEMOS
AGORA ELE ESTÁ DIANTE DO RETRATO DE LIVIA QUE FICA, ENTRE MUITOS OUTROS, NA PAREDE. CÂMERA SE MOVE LENTAMENTE E VEMOS QUE CINTIA
ESTÁ NA PORTA DO ESCRITÓRIO, OLHANDO SEM CORAGEM DE DIZER NADA.
CINTIA Então é isso? É Livia?
RODRIGO Como e que você sabe?
CINTIA Eu sabia antes. Você nunca esqueceu Livia de verdade,
não é assim.
RODRIGO É.
CINTIA Livia morreu, Rodrigo. Há muito tempo.
RODRIGO Será.
UM SILÊNCIO.
CINTIA /JOGANDO SE NOS BRAÇOS DELE / Eu sei que dentro de você
não, meu amor! E que hoje, no Seu aniversário, você ia se lembrar
dela, eu sabia. E está certo que seja assim. /TENTANDO ANIMÁ LO
Você quer chorar? Chorar nos meus braços? EU aguento bem algumas
lágrimas.
RODRIGO Você tem ciúme de Livia?
CINTIA Não. Como eu poderia?
RODRIGO Você teria razão, se tivesse.
CINTIA /Com emoção/ Como eu posso ter ciúme de uma pessoa
morta? Eu não a conheci. Mas ela é tão importante pra você, que
gosto dela também, acredite. Se fosse viva, tenho certeza que
seriamos grandes amigas. Ela ia gosta de mim e da Bia, tenho
certeza.
RODRIGO Creio que sim.
OBS ESTE É UM DIÁLOGO ESTRANHO, COMO O LEITOR JÁ PERCEBEU.
AMBOS FALAM DA MESMA COISA, DE LIVIA. MAS FALAM DE COISAS
DIFERENTES PORQUE PARA CINTIA, LIVIA ESTã MORTA. E PARA RODRIGO,
ESTÁ VIVA.
CINTIA Você ainda ama ela?
RODRIGO Amo. Muito.
CINTIA Você queria ter morrido também. Não é assim? RODRIGO
Teria sido mais simples.
CINTIA Valeu a pena ficar vivo? Valeu a pena sobreviver sem
ela? Essa é a pergunta que você tem de se fazer.
RODRIGO Se eu tivesse morrido também, não teria te conhecido...

CINTIA Nem Bia existiria.
RODRIGO Isso um mistério.
CINTIA O que?
RODRIGO Durante muito tempo sofri com a morte de Livia...
porque não podia suportar a idéia das coisas que esta estava
deixando de viver. Essa era minha verdadeira dor. Mais que a
falta que ela me fazia. Toda vez que via um filme que eu sabia
que ela ia gostar, ou uma música, ou uma festa, ou conhecia
alguém ou alguma coisa que eu sabia que ia ser importante pra ela
... meu coração partia de dor. E agora você me diz que Bia não
teria talvez vivido a vida dela, e os prazeres dela... se Livia
não tivesse morrido. É uma compensação. Uma misteriosa e cruel
compensação.
CINTIA /COM A DUREZA DE QUEM AMA/ Sem dúvida. É!
RODRIGO /MAIS CALMO/ Cintia, eu hoje vivi ... uma estranha
experiência. Não sei. Não te conto... porque é um segredo meu,
que só faz sentido pra mim.
CINTIA Você tem direito a teus segredos. Não quero saber o que
é.
RODRIGO É alguma coisa que bota diante de mim uma escolha que
na verdade, te confesso com vergonha, eu nunca fiz.
CINTIA Qual.
RODRIGO A escolha entre a morte e a vida.
CINTIA /TOMADA DA REVOLTA GENEROSA/ Você fez sim, ah, você fez!

RODRIGO Como é que você pode afirmar com tanta certeza?
CINTIA tenho provas! /E OLHANDO AO REDOR, ACHA E PÕE NA MÃO
DELE O RETRATO QUE ESTÁ SEMPRE NA MESA DE TRABALHO DELE: UM
RETRATO DOS 3, ELE, ELA E BIA FELIZES E CONTENTES/ Quer mais?
RODRIGO OLHA O RETRATO. SEUS OLHOS SE EMUDECEM. ELE OLHA PARA
CINTIA.
RODRIGO Estou mais calmo agora. Que bom que você existe. Deixa
eu ficar um pouco sozinho. Depois eu tomo um banho e vou
encontrar o Ricardo na fundação.
CINTIA E eu vou apanhar a Bia no colégio, já estou atrasada.
Vou rápido! Quem sabe a gente chega, você ainda está aqui.
/E ANTES DE SAIR, DA PORTA/ Posso te dizer uma coisa boba, que
você já sabe, mas que numa hora dessas é a única coisa que vale a
pena dizer?
RODRIGO FAZ QUE SIM
CINTIA Te amo. /E SAI/
CENA 7 ESCRITÓRIO DE RODRIGO. CONTINUAÇÃO. EST. INT. DIA.
RODRIGO FICA SOZINHO. A CÂMERA ANDA, SUAVEMENTE, EM TORNO DELE.
NO SILÊNCIO NASCE, DEVAGAR, A MÚSICA DELE E DE LIVIA /LIMELIGHT/.
ELE NÃO QUER OUVIR, MAS A MÚSICA TOCA CADA VEZ MAIS ALTO, DENTRO
DELE, ATÉ SE TORNAR ENSURDECEDORA. ELE SE LEVANTA DE UM SALTO,
FAZENDO A MÚSICA CESSAR. MAS NESSE MOMENTO TOCA O TELEFONE.
RODRIGO ATENDE.
CENA 8 QUARTO DE HOTEL / ESCRITÓRIO DE RODRIGO. EST. INT. DIA
A CÂMERA GIRA LENTAMENTE, NO QUARTO DE HOTEL, COMO FEZ NO
ESCRITÓRIO. LIVIA ESTÁ Lã, FALANDO NO TELEFONE.
LIVIA Rodrigo? Sou eu. Você fugiu de mim. Por que você fugiu de
mim? Não vim para te fazer mal, não quero te fazer mal / ELA ESTÁ
MUITO EMOCIONADA/ A meia noite é seu aniversário, eu tenho pouco
tempo, muito pouco. Vou te dizer onde eu estou. Vem me ver agora.
Estou... no nosso hotel. No nosso quarto de Hotel. Parece o
mesmo, embora tenha se passado tanto tempo, desde que estivemos
aqui. Você vem me ver?
CLOSE DELA
Estou viva, Rodrigo. Um dia na vida. Depois, ontem e amanhã, pra
você e pra todo mundo, eu estarei morta, pra sempre. Mas hoje
estou te esperando. Sei que talvez eu não tenha o direito de te
pedir pra vir. Mas sei também que você somente virá... se quiser.
Tenho muita saudade. Saudade. De nós. É só isso.
RODRIGO /DEPOIS DE UM MOMENTO/ Eu vou, Livia. Amada Livia,
Livia meu grande amor. Meu lugar é aí, eu vou.
DESLIGA O TELEFONE, FORA DE SI, PEGA O PALETÓ SOBRE A MESA E SAI.
A PASSAGEM DO PALETÓ DERRUBA A AMPULHETA, CUJA AREIA SE DERRAMA.
FIM DO BREAK
QUARTO BREAK QUARTA PARTE
CENA 1 RUA DOS MOTÉIS. ENTARDECER. EXTERNA.
A TARDE CAI, COM O SOL PODEROSO NO HORIZONTE. A BOCA DO TÚNEL DA
BARRA. RODRIGO EM SEU CARRO TOMA A DIREÇÃO DOS MOTÉIS. NA RUA DOS
MOTÉIS OS LUMINOSOS COMEÇAM A SE ACENDER.
FUSÃO.
CENA 2 QUARTO DE MOTEL. INTERIOR NOITE.
A MÃO DE RODRIGO BATE NA PORTA. DEPOIS ELE PASSA MÃO NO ROSTO.
TRÊMULO. ELE TEME MUITO, E AO MESMO TEMPO DESEJA MUITO, O QUE VAI
ENCONTRAR ALI.
A MÃO DE LIVIA ABRE A PORTA.
ELE A VÊ, BEM VISTO. SORRI, ENTRA NUM ÍMPETO.
ESTÃO AGORA UM DIANTE DO OUTRO.
RODRIGO Então é verdade.
LIVIA É.
RODRIGO É mesmo você.
LIVIA Como antigamente.
A IMAGEM SE TURVA E SE TRANSFORMA NUM FLASH BACK
CENA 3 QUARTO DO HOTEL. ESTÚDIO. DIA
A LUZ DO DIA ENTRA PELA JANELA, LIVIA ABRE AS CORTINAS NUM
MOVIMENTO ALEGRE, DEPOIS BEIJA ELE. AMBOS SÃO DEZ ANOS MAIS
JOVENS, ACORDARAM FAZ POUCO.
LIVIA /ALEGRE/ Há quantos dias estamos neste quarto de Hotel?
Nós vamos entrar para o livro Guiness de recordes. Ontem eu fui
gravar mas voltei correndo, lembra? Foi ontem?
RODRIGO /DEBAIXO DO CHUVEIRO OU LAVANDO O ROSTO/ Hoje de tarde
tenho de ir trabalhar, juro. Não posso mais enganar o pessoal da
redação. Ontem eu disse que estava gripado, anteontem eu disse
que tinha piorado da gripe acho que eles vão ficar preocupados.

BEIJAM SE, CHEIOS DE DESEJO E VITALIDADE.
LIVIA Há quanto tempo nos conhecemos?
RODRIGO Não sei. Mas é o mesmo tempo que não desgrudamos um do
outro.
LIVIA Não vou sair desse quarto, até me expulsarem. Não é todo
dia que namoro um escritor. Acho tão romântico!
RODRIGO Escritor principiante, desempregado e incompreendido.
LIVIA Não sei se por falta ou por excesso de talento! RODRIGO
Palhaça!
LIVIA Palhaça não, atriz. Atriz de televisão. Quer dizer, se
confirmarem meu papel na novela. /EXAUSTA/ Ah, meu Deus, como fiz
charme em todas as direções pra conseguir esse papel!
RODRIGO /EM PÂNICO O anúncio que você vai gravar não era as
oito hoje?
LIVIA Oito da noite! Ainda dá tempo. Que horas são?
RODRIGO /PEGANDO O RELÓGIO/ Não! Ainda é cedo. Já estou com o
figurino na maleta, não tem problema.
RODRIGO Que figurino?
LIVIA Uma casaca de Carlitos vou fazer o anúncio vestida de
Carlitos, originalíssimo, mas sabe como eles são. /MOSTRA A
CASACA/ Feita sob medida pra mim, devo estar ficando
importantíssima.
RODRIGO Bota. Bota que eu quero ver.
LIVIA Agora?
RODRIGO Se for amanhã não dá tempo.
LIVIA Você manda, eu obedeço. /VAI PONDO A CASACA/.
RODRIGO /PREOCUPADO/ Que horas você disse que eram? Me lembrei
que é hoje que eu tenho de ir na TV, falar com o cara que está
coordenando os textos...
LIVIA /INDO/ Deixa eu ver no relógio.
RODRIGO Deixa, ainda é cedo.
LIVIA Onze e meia.
RODRIGO De qualquer jeito o encontro era as onze. Quarta as
onze.
LIVIA /SE VESTINDO BOTANDO UM BIGODE/ Mas hoje é terça.
RODRIGO Terça? Como, se ontem foi domingo? Me dá outro beijo.
/VAI ATÉ ELA MAS PÁRA, SURPRESO/ Meu Deus, você está linda! Se
ele estivesse aqui, o Carlitos botava você no lugar dele. Juro,
você está linda.
AGORA VEMOS LIVIA, AGORA A CÂMERA MOSTRA. ELA ESTÁ FANTASIADA DE
CARLITOS. NUMA CASACA CHARMOSA, QUE DEIXA AS PERNAS DE FORA.
BIGODINHO, FAZENDO UMA POSE. TOCA O TEMA DOS DOIS: "LIMELIGHT". O
CLIMA FICA SUAVE, APAIXONADO.
RODRIGO Acho que meu caso com você Livia Santos, é um exemplar
típico e nítido de amor à primeira vista.
ELA PISCA PARA ELE, IMITANDO CARLITOS.
LIVIA /BEIJANDO ELE/ "Romeu e Julieta", 2º ato. Fiz Julieta
quando estava na escola sabia?
RODRIGO /OLHANDO O RELÓGIO Acho que não vamos conseguir nunca
sair desse quarto. Está evidentemente encantado. As portas dão a
impressão de portas, mas não abrem. Nunca vamos nos separar.
LIVIA /FAZENDO ADEUSINHO DE VAUDEVILLE E SUMINDO NA PORTA DO
BANHEIRO, COMO SE SOME NUMA COXIA/ Nunca vamos nos separar.
CORTE VIOLENTO NA IMAGEM
CENA 4 RUA DOS MOTÉIS. NOTURNO. CHUVA: A CENA DO DESASTRE,
FLASH BACK.
AGORA VEMOS A CENA MAIS VIOLENTA, COM MAIS DETALHES. O FOGO, O
SANGUE, AS LUZES RODAM. ELE PULANDO PARA FORA DO CARRO E ROLANDO
NA RUA. ELA ENSANGÜENTADA DENTRO DO CARRO.
FUSÃO...
CENA 5 QUARTO DO MOTEL, CONTINUAÇÃO DA CENA 2
ELE DIANTE DELA, VOLTANDO DA RECORDAÇÃO
RODRIGO Então é verdade?
LIVIA É.
RODRIGO É mesmo você?
LIVIA Como antigamente.
RODRIGO /NUM GRITO/ Então me diz COMO É DO LADO DE Lã! Me diz,
você tem de me dizer...
LIVIA /FUGINDO, PROTEGENDO SE/ Não, não posso!
RODRIGO /ABRAÇANDO ELA FORTE/ como pode isso acontecer, se você
está morta, é Livia como pode estar assim nos meus braços...
/BEIJA ELA/ Sua boca, sua boca, é sua boca... e seu corpo, que
saudade, eu me lembro tanto, do seu corpo...
SE ABRAÇAM, SE RECONHECEM, NUM ENCONTRO POR MUITO TEMPO ANSIADO.
RODRIGO Me diz, me diz, e fala de você, como você veio, onde
você estava...
LIVIA /LOUCA DE DESEJO, PERDIDA NOS BEIJOS/ Não me pergunta
mais, senão eu vou embora. Me beija, me abraça, eu também tenho
muita saudade, amor...
RODRIGO Amor...
MÚSICA CLÁSSICA, QUASE SOLENE, PORÉM BELA E APAIXONADA. ELES SE
QUEREM E SE AMAM, ALI, NAQUELA CAMA DE HOTEL. A CENA NÃO PRECISA
NENHUMA NUDEZ, NENHUMA AUDÁCIA ESPECIAL. FUSÕES TALVEZ. E UMA
IMENSA PAIXÃO.
NARRAÇÃO DE RODRIGO /SOBRE AS IMAGENS DELES/ E eu amei Livia,
perdida Livia, ali naquele quarto de Hotel. O amor voltou, mais
intenso e poderoso, porque agora diante da grande dama, ela
mesma, da morte. Não havia mais nada que eu quisesse saber, e
nada mais me assustava. Não sei quanto tempo se passou, o tempo
não existia: eu e Livia num só, somente o amor existia.
FUSÃO, PASSAGEM DO TEMPO.
CENA 6 QUARTO DO MOTEL. INT. NOITE. CONTINUAÇÃO.
RODRIGO E LIVIA DEITADOS LADO A LADO, DEPOIS DO AMOR.
LIVIA Eu queria te pedir uma coisa.
RODRIGO Pede.
LIVIA Me fala da tua filha.
RODRIGO Se chama Beatriz.
LIVIA E como ela é? É alegre? É triste? Parece contigo. Quero
saber.
RODRIGO É muito minha amiga. Lá perto de onde moramos tem um
jardim com flores. Nós sempre vamos lá.
A IMAGEM TURVA E PASSAMOS A OUTRO FLASH BACK.
CENA 7 JARDIM FLORIDO. EXTERNA DIA.
CLOSE DE UM MIOSOTIS. RODRIGO MOSTRA A FLOR PARA A FILHA. BIA É
AGORA MAIS JOVEM QUE A VIMOS, 5 ANOS TALVEZ.
RODRIGO /MOSTRANDO/ Esta se chama miosotis. O nome dessa flor é
miosotis.
BIA JOVEM Miosotis.
RODRIGO Isso.
BIA JOVEM Gosto muito de flor. Os passarinhos bebem nelas, né
pai?
RODRIGO Bebem.
BIA Uma água que alimenta, né pai? É o alimento do passarinho.
RODRIGO Quem te ensinou.
BIA JOVEM A tia do colégio. Que flor você mais gosta?
RODRIGO Não sei. O cravo, talvez.
BIA JOVEM Cravo é muito bonito, também gosto. Mas a que eu mais
gosto é o miosotis.
RODRIGO Sabe, filha, quando você era pequenina, bebê ainda, eu
vi na rua um pai conversando com uma filha. Morri de inveja. Me
lembro que eu estava com pressa e voltar pra casa, pra te ver,
mas fiquei lá na rua, parado, um tempão, de longe vendo o pai
conversar com a filha. E pensando em como ia ser bom no dia em
que a minha crescesse e eu pudesse conversar com ela também.
BIA Também gosto muito de conversar com você, pai.
/BEIJA ELE/ E agora que já estou grande, vou conversar cada vez
mais.
A CENA ONDULA, FUNDE
CENA 8 QUARTO DO MOTEL. INT. NOITE. VOLTA DO FLASH BACK
RODRIGO FALA COM LIVIA, NA CAMA.
RODRIGO É assim a Bia, minha amiga.
NOTA QUE LIVIA ESTÁ CHORANDO.
RODRIGO Porque você está chorando? Por que?
LIVIA Por que eu nunca tive filhos.
LEVANTA DA CAMA E VAI SE VESTIR.
LIVIA Logo vou ter de ir embora.
RODRIGO Quero ficar com você, para sempre. Não posso te perder
pela segunda vez.
LIVIA Então fica comigo. Vem comigo. Vem comigo.
RODRIGO Pra onde?
LIVIA Pra onde eu vou. Você pode ... se quiser. Essa escolha
sempre é possível. Você quer?
RODRIGO HESITA POR SÉRIO INSTANTE (PELO MAIS SÉRIO DOS
INSTANTES). EM SUA MEMÓRIA APARECE (E, PARA NÓS, EM FUSÃO) O
RETRATO QUE ELE VIU ESTA TARDE, ELE, CINTIA E BIA.
RODRIGO /LEVANTANDO OS OLHOS/ Preciso me despedir.
BEIJAM SE, SELANDO UM PACTO.
LIVIA Volta pra casa agora. Eles estão de esperando. Eu passo
pra te apanhar.
RODRIGO /ABRAÇADO COM ELA/ Nunca vamos nos separar.
LIVIA Nunca.
PLANO GERAL DO QUARTO, ELES SE BEIJANDO.
CENA 9 AUTOMÓVEL, EXT. NOITE
ELE NO AUTOMÓVEL, INDO PARA CASA. LUZES DELIRANTES.
MÚSICA INTENSA.
CENA 10 FACHADA DO PRÉDIO DE RODRIGO. EXT. NOITE
CENA 11 SALA DE RODRIGO, ESTÚDIO. INTERIOR NOITE.
MÚSICA INTENSA, ELE ENTRA EM CASA. TODOS VEM RECEBÊ LO. CINTIA,
BIA, RICARDO E SUA ESPOSA FERNANDA. ESTAVAM AFLITOS. BIA CORRE
PARA O PAI. FIM DO BREAK
CENA 1 SALA DA CASA DE RODRIGO. ESTÚDIO. INTERIOR NOITE.
CONTINUAÇÃO DA CENA ANTERIOR.
RODRIGO ENTRA PELA CASA. ESTÁ VAZIA!
UMA VOZ NAS COSTAS DELE.
BIA Pai.
BIA ESTÁ LINDA, COM VESTIDO DE FESTA
RODRIGO Você está sozinha? Onde estão as pessoas? Sua mãe? Você
está linda.
BIA Vestido novo para o aniversário do pai. Você tem de sentar
aqui. /PUXA ELE PARA UMA POLTRONA COLOCADA NO MEIO DA SALA/ e não
pode perguntar nada.
A SALA FOI REARRUMADA, ESVAZIADA UM DOS LADOS PARECE DE ALGUMA
FORMA UM PALCO, CUJA ÚNICA PLATÉIA É A POLTRONA DE RODRIGO. ELE
OLHA TUDO SEM ENTENDER, É COMO SE O SEU DELÍRIO CONTINUASSE. Hã
DOIS OU TRÊS REFLETORES TAMBÉM POR ALI (REFLETORES, SIMPLES,
CASEIROS) E BIA VAI ACENDENDO UM A UM. A CENA É EVIDENTEMENTE
MÁGICA, EMBORA REAL, BIA PARECE UMA FADA, FAZENDO AQUILO. ENTÃO
ELA SENTA NO PIANO TOCA UMA MÚSICA ANIMADA. ENTRAM NO "PALCO",
VESTIDOS A RIGOR RICARDO E SUA MULHER FERNANDA, COMO SE FOSSEM
DOIS APRESENTADORES.
RICARDO Boa noite, caríssima platéia. Palmas, palmas! /BIA BATE
PALMAS/ Esta é uma representação improvisada, uma surpresa de
aniversário!
FERNANDA Os atores são amadores e destituídos de qualquer
talento, porém com muito amor no coração pelo aniversariante que,
aliás, é a única pessoa da platéia.
RICARDO Para nós, a casa está cheia!
BIA RIA MUITO, TAMPANDO A BOCA PARA NÃO ATRAPALHAR
RICARDO Viemos aqui contar a vida de um homem... Um homem igual
aos outros, no entanto, muito diferente. Acontece que eu o
conheço muito bem. Aguento seus defeitos e qualidades há
aproximadamente 40 anos, ele é o meu mais velho amigo... Não que
seja propriamente um velho, mas, confesso, já estamos ficando
antigos eu e ele.
RODRIGO OLHA AQUILO TUDO, COM UM SORRISO DISTANTE E UMA EMOÇÃO NO
FUNDO DOS OLHOS. ELE VEIO ALI PARA SE DESPEDIR.
FERNANDA Segundo me contaram (várias vezes, na cama, antes de
dormir).
RICARDO Fernanda, modos!
FERNANDA ... eles dois se conheceram ainda no colégio primário
num incidente digno de nota!
RICARDO De uma má nota.
FERNANDA O nosso homenageado desta noite não gostava do
professor de matemática que, segundo a lenda, era uma fera
perigosa. E ficava durante a aula jogando pequenos pedaços de giz
nas costas do professor, enquanto este escrevia fórmulas na
lousa.
BIA JOGA PEDAÇOS DE GIZ EM FERNANDO, QUE FAZ O PAPEL DO
PROFESSOR. É CLARO QUE ELES ENSAIARAM TODA ESTA BRINCADEIRA.
FERNANDO /RINDO PARA RODRIGO/ Você tinha razão, Rodrigo, ele
não entendia nada de matemática...
RODRIGO SORRI, QUASE SEM ENTENDER ONDE AQUILO VAI CHEGAR.
FERNANDA Foi quando a fera resolveu suspender a turma toda, se
o culpado não se acusasse. Rodriguinho nosso herói, que sempre
foi dado a responsabilidades sociais, levantou se disse:
BIA /COLOCANDO SE AO LADO DE RODRIGO/ Professor, eu sei quem
foi. Foi...
FERNANDA E nesse exato momento levantou se, do outro lado da
sala, meu futuro marido e fez:
RICARDO /FINGINDO DE LONGE QUE DÁ UM TIRO COM O DEDO Pá!
FERNANDA E BIA BOTAM A MÃO NO CORAÇÃO E FINGEM QUE MORREM.
FERNANDA /NO CHÃO/ Tinham combinado tudo antes da aula. É claro
que o colégio riu inteiro durante alguns anos e assim esses dois
ficaram amigos para o resto da vida. RICARDO VAI ATÉ RODRIGO,
APERTA A MÃO DELE TEATRALMENTE. DEPOIS OBRIGA O A LEVANTAR SE E
Dã LHE DOIS BEIJOS, UM EM CADA FACE.
RICARDO /PARA OS OUTROS/ Em várias ocasiões desta trajetória
foram levantadas suspeitas de homossexualismo entre os dois, mas
eram as más línguas, nunca nada ficou provado.
BIA RI MUITO. CINTIA RI TAMBÉM, ESCONDIDA NA PORTA DA COZINHA,
PREPARADA PARA ENTRAR "EM CENA". AGORA QUEM FALA É FERNANDA,
SENTANDO NO FUNDO. A LUZ MUDA SOBRE ELA (É CINTIA QUEM MEXE
NESTAS LUZES)... E SEU TOM É MAIS ÍNTIMO.
FERNANDA /COM SUAVIDADE/ Depois o tempo passou é uma mania
que o tempo tem. Nosso herói venceu muitas batalhas, empatou
algumas e por que não dizê lo? sofreu também duros revezes,
como acontece com todos os homens. A certa altura o amigo dele
/APONTA PARA RICARDO/ casou com uma Mulher formidável...
OS DOIS MIMETIZAM O CASAMENTO
RICARDO /SEMPRE PALHAÇO/ Concordo com o formidável, afinal hoje
não é dia de falar nos defeitos...
FERNANDA ... e a mulher do amigo ficou sendo grande amiga do
aniversariante herói. /VAI ATÉ RODRIGO E ABRAÇA ELE/ Gosto muito
de você, sabe. Fico muito contente que Cintia tenha arranjado um
marido tão bom parabéns, felicidades, muitos de
RICARDO /INTERROMPENDO/ Assim não vale, ela está saindo do
texto combinado, não vale. Afinal ensaiamos duas semanas.
FERNANDA /IMPLICANDO/ Se eu não tivesse casado com você, casava
com ele...
CINTIA /ENTRANDO EM CENA E CHAMANDO ATENÇÃO/ Gente, agora é a
minha vez!
ELA ESTÁ LINDA, NUM VESTIDO DE COLOMBINA.
CINTIA E depois apareceu uma moça que começou a dar em cima do
herói. Mas ela deu tanto em cima, tanto em cima foi um vexame,
um horror mas perdoem a pobre moça, ela estava
apaixonadíssima... que acabou ele se apaixonando também. Então
eles fizeram aquilo que os apaixonados fazem...
FERNANDA Quantas vezes?
CINTIA ... e a barriga dela começou a crescer, crescer... e lá
de dentro saiu uma coisa maravilhosa, que só não parece uma flor,
só não parece a lua, só não parece um passarinho, porque é mais
bonita que essas coisas todas!
ENQUANTO CINTIA DIZIA ISSO ELES ESTENDERAM UM PANO COLORIDO, BIA
SE ESCONDEU ATRÁS. E AGORA, NA ÚLTIMA PALAVRA, CINTIA SOLTA O
PANO FAZENDO APARECER BIA, NUMA POSE.
BIA CORRE E SE JOGA NOS BRAÇOS DO PAI.
BIA Pai, você é o homem mais importante da minha vida, sabia?
/BEIJA ELE/.
RICARDO /SE COLOCANDO SOLENEMENTE PARA ENCERRAR O "ESPETÁCULO"/
E hoje esses quatro personagens, ou melhor, fãs, reunem se no
aniversário do chamado herói. Ele faz cinqüenta anos! Cinco
décadas! Meio século! Reunem se para dizer que gostam muito dele,
apesar dele ser um cara complicadíssimo, um chato desvairado
SAINDO DO TEXTO/ ... que hoje me deixou numa situação
embaraçosíssima, Rodrigo, diante daquelas múmias da fundação,
azul, verde, amarelo, sem saber explicar porque você não aparecia
explicação essa que agora não tem mais nenhuma importância
porque olha aqui! /PUXA UM PAPEL E Dã PARA RODRIGO/ O contrato da
fundação, com obrigação e publicar tua obra inteirinha num prazo
máximo de seis meses. Eu disse pra eles que isso aqui era tão
importante pra você que você não tinha nem coragem de aparecer
lá. E descorri essa cascata com tanta eloqüência, que eles
mandaram o contrato assinado pra você de presente aniversário!
Incrível! Queria eu ter um amigo como eu! Quero dez por cento
hem? Da obra publicada e de toda obra futura! Alguém acha que eu
não mereço?
E AGORA ESTÃO TODOS REUNIDOS EM TORNO DELE, ESPERANDO QUE ELE
DIGA ALGUMA COISA.
RODRIGO Eu não mereço isso. Não mereço vocês. /PASSA A MÃO
SUAVEMENTE NO ROSTO DE CINTIA/ Obrigado, que mais eu posso dizer?

BIA /QUEBRANDO O CÍRCULO/ Nós não queremos que você diga nada
pai, que ainda não acabou. Ainda tem o bolo que também é
surpresa. /CARREGANDO ELE PELA MÃO/ Agora nós queremos que você
fique trancado no escritório onde você gosta tanto de ficar
trancado até a hora da gente trazer o bolo. /BOTA ELE NO
ESCRITÓRIO/ Dá licença.
RICARDO Nada de olhar pelo buraco da fechadura. /E FECHA A
PORTA/.
CENA 2 ESCRITÓRIO DE RODRIGO. ESTÚDIO INTERIOR NOITE.
ELE ESTÁ SUBITAMENTE DIANTE DO RETRATO DE LIVIA, OS OLHOS
BRILHANDO DE LÁGRIMAS. VAI ATÉ A JANELA E OLHA PARA BAIXO.
CENA 4 EXTERNA, RUA, FACHADA DO APARTAMENTO DE RODRIGO, NOTURNO

UM CARRO CHEGA NA PORTA DO PRÉDIO. É LIVIA QUEM VEM GUIANDO O
CARRO. RECONHECEMOS O MESMO CARRO NO QUAL ELA MORREU.
CENA 4 ESCRITÓRIO DE RODRIGO. CONTINUAÇÃO
RODRIGO FECHA OS OLHOS POR UM MOMENTO, NUMA DECISÃO... E SE
PRECIPITA PARA FORA DO ESCRITÓRIO, PELA PORTA OS FUNDOS.
CENA 5 PORTARIA DO APARTAMENTO DE RODRIGO, EXT. NOITE
A CENA É AGORA EM CÂMERA LENTA, MUITO LENTA, COM MÚSICA,
"LIMELIGHT". VEMOS ELE SE APROXIMAR DO CARRO, ONDE LIVIA ESPERA.
DURANTE ESTA AÇÃO / E INTERCALADA COM ELA/ VEMOS ALGUNS "INSERTS"
E INSTANTES QUE VIMOS ANTES.
INSERT 1 CENA 12 PRIMEIRA PARTE
LIVIA Sou eu, Rodrigo. Eu, Livia. Tente acreditar
INSERT 2 CENA 11 2ª PARTE
LIVIA Você só vai ficar se você quiser. Quiser muito.
INSERT 3 QUARTA PARTE CENA 8
LIVIA Vem comigo. Pra onde vou. Você pode, se quiser.
CESSA A CÂMERA LENTA. RODRIGO CHEGA NO CARRO, DEBRUÇA SE NA
JANELA. LIVIA ESTÁ Lã. OLHA PARA ELE. LINDA, AMANTE, GENEROSA.
RODRIGO Livia. Eu não vou. Decidi não ir. Te amo muito, nunca
amei ninguém como te amo. Mas não vou. Prefiro ficar. Tem muita
gente lá em cima esperando... eu tenho uma filha. Vou ficar
enquanto eu puder.
LIVIA Está bem. Adeus.
RODRIGO /SABENDO QUE É PARA SEMPRE/ Adeus.
PLANO GERAL VISTO DO ALTO DO EDIFÍCIO. MÚSICA "LIMELIGHT" LIVIA
PARTE O CARRO, RODRIGO FICA.
O CARRO SE PERDE NA ESCURIDÃO FUNDINDO PARA ... (INSERT) UMA
IMAGEM QUE Já VIMOS DE LIVIA DANDO ADEUSINHOS DE VAUDEVILLE,
VESTIDA DE CARLITOS, SUMINDO NA PORTA DO BANHEIRO.
FUNDINDO PARA LUZES, QUE SÃO AS LUZES DO BOLO DE ANIVERSÁRIO.
CENA 7 SALA DA CASA DE RODRIGO. INT. NOITE.
TODOS SE APROXIMAM DA PORTA DO ESCRITÓRIO (CINTIA, FERNANDA,
RICARDO E BIA) COM UM ENORME BOLO NA MÃO, COM CINQÜENTA VELAS.
RICARDO BATE NA PORTA, BRINCALHÃO.
RODRIGO ABRE. ELE ESTÁ Lã.
RICARDO /MOSTRANDO O BOLO/ Vamos ver, malandro, são só
cinqüenta por enquanto. Vamos ver se você ainda aguenta as
paradas.
RODRIGO OLHA TODOS, ENCHE OS PULMÕES E, EM CÂMARA LENTA, APAGA
TODAS VELAS...
ATÉ A CENA IR AO ESCURO ONDE, COM MÚSICA CLÁSSICA, CORREM OS
LETREIROS FINAIS.
A SEGUNDA CHANCE / original para TV
Domingos de Oliveira

ATUALIDADE: CARTAS MARCADAS

Toda comissão tem cartas marcadas. Não julga pelo mérito. Desde os festivais de cinema até aquela que resolve o orçamento nacional.

Ninguém pode garantir por exemplo o resultado de um festival. O festival é julgado por uma comissão e isso abre uma questão maior, sobre os males que assediam toda e qualquer comissão julgadora.

Primeiro, a individualidade de cada um dos jurados.
Nenhum filme agrada todo mundo. Se é informal, natural que os formais não gostem. Se é livre os reprimidos não gostarão. Se for muito pessoal será antagonizado pelos amantes do coletivo. Se tiver ótimo astral pode causar invejas. E observem! Tudo isso acontecerá independente da qualidade do filme...

Segundo, a relação pessoal dos jurados com os cineastas. Fulano pode achar que alguém é besta e que não reconheceu aquela festa. Enfim, que paquerou sua mulher... pode ter pessoas que se gostam ou não se gostam. Isso também independente da qualidade do filme.

Terceiro, o homem tem ideologias, um jurado também. Pode ser do centro, da esquerda, da direita, do Flamengo, do Fluminense, de cabeça para baixo ou para cima. Vai sempre defender sua ideologia acima da qualidade do filme em questão. Isso é o normal, eu também faço isso.

Em quarto e último, os jurados ficam amigos entre si. Já fui júri de festival, a gente sai com aquelas pessoas, vê filmes até a exaustão, ri com eles nos engraçados, dorme com eles nos chatos e fica amigo deles. Aí teu amigo acha que o melhor filme, ator ou roteiro é o chinês. Você acha o do Afeganistão. A outra tua amiga, que você tá paquerando, prefere de dez o do José Mojica Marins e sempre detestou essa besteira de Bergman e Fellini. Quem é você para dizer que eles estão errados? Você gosta deles, tomaram um porre juntos ontem de noite. Negociar! O jeito é negociar. Troco o ator do meu chinês pelo diretor do teu argentino. Inclusive pode acontecer, normalmente acontece, que um dos filmes é muito melhor do que os outros e deveria levar quase todos os prêmios. Se o mérito estivesse em jogo. Mas já pensou que situação embaraçosa, os outros todos chateadíssimos, sem estatueta nenhuma na mão e o vencedor com carrinho com dez estatuetas escandalosas?! É triste! E não pode, porque um festival tem que ser alegre. Os prêmios devem ser, na medida do possível, pulverizados. É uma questão de educação. Um pouquinho para cada um, assim todo mundo fica contente. Justiça social.
De modo que o resultado do júri, é uma pizza dessas cortesias e conveniências. Eu sei, já fui júri.
A única coisa que eu não gosto, fico chateado, acho injusto, é perder prêmio porque sou veterano. Sou veterano, fui ficando veterano à medida que os anos se passaram. E temo o preconceito. Já fez muito filme, já ganhou muito prêmio, não precisa mais.
O que é de uma sacanagem absurda. Além disso tenho 73 anos, estou começando agora, velhice é para os outros.
Um homem não pode ser castigado porque trabalhou demais.
Por exemplo os iniciantes, levam uma vantagem enorme. Porque eles não estão se repetindo. Só começam a se repetir no segundo! Outro dia eu estava pensando em redigir um protesto contra esse preconceito, mas desisti.
Fora isso, festival é sempre ótimo! Encontrar tantos amigos, tanta gente que gosta de cinema, coisas que segundo a estatística ninguém gosta...



E ótima notícia: de vez em quando as cartas marcam certo! Priscilla Rozenbaum acaba de ganhar um patrocínio da Eletrobrás para fazer sua segunda direção teatral, desta vez um Dostoievski belíssimo, adaptação assinada por mim. Presente de aniversário para que ela dirigisse! Aguardem.

PS.: É uma história de amizade emocionantérrima e foi dela que certamente mamaram em "Midnight Cowboy". Um dos amigos é baixinho e frágil (Dustin Hoffman) e o outro é ALTO, FORTE, EXTROVERTIDO, EXTREMAMENTE AMOROSO E TEM MENOS DE 25 ANOS. Para o pequenininho já temos um excelente ator que eu oportunamente direi quem é. Mas o outro não temos quem possa fazer a contento. Se você é ALTO, FORTE, EXTROVERTIDO, EXTREMAMENTE AMOROSO E TEM MENOS DE 25 ANOS, apresente-se mandando sua foto e ficha para blogdodomingos@gmail.com

quarta-feira, 23 de junho de 2010

continuação do IP (Idiota Plástico)





O carro rolava por ruas escuras até o Galpão de S. Cristóvão. Era intrincado chegar lá. Sou ruim de caminho além do Rebouças. Passavam as luzes brancas dos postes e as vermelhas dos automóveis, enquanto e eu pensava no papo do IP. Aparentemente certo nas suas estocadas, IP falava apenas dos Artistas que não o são, que existem em todo lugar, não apenas na Arte Contemporânea. No Teatro não faltam simbólogos, defensores da liberdade, incompetentes teatrais, chocadores de burgueses e até cenógrafos sem peça.
Todo esse pessoal, por exemplo, que faz o “espetáculo” em vez de fazer a peça, do brilhante Gerald T. à turma que alguém chamou de “quinteto irreverente”(B. Lessa, Possi N., Ulisses, Gabriel V. e o próprio G. Tomas) eram mais ou menos isso, embora talentosíssimos, são alguma forma isso. Na minha opinião não fazem Teatro propriamente dito. Mas daí a dizer que não são artistas vai uma agressão. Tenho certeza que o mesmo acontece no cinema, na literatura etc. A Arte quando é clara, compreensível, diante da qual um homem de bem não precisa franzir o cenho, tende a ser maior, não há duvida. Mas a Arte Contemporânea não se propõe a isso, porra... Enfim eu continuava discutindo como IP. Mas só por dentro porque por fora eu falava com o Zé, precisava falar, sobre a Arte, enquanto rolava o carro:
-“A única coisa da qual se pode acusar a Arte é de não sê-lo.
A Arte, ela salta, melhor que o gato. Por cima da aparência.
E aquele que recebe a mensagem do Artista salta também, por cima do muro sensorial com que está acostumado a perceber o mundo, recebendo o recado no seu eu mais profundo.
Se alguém quem morrer, morrer mesmo de não ter jeito, toque para ele uma música de Mozart, ou mostre um quadro de Renoir, um bom filme... Se isto não salvá-lo, desista. O homem está morto.
É preciso observar com argúcia as relações entre a Arte e o Tempo.
O tempo da Arte é o tempo eterno, o tempo que não é tempo.
A Arte tenta resumir no tempo o funcionamento do mundo.
Pretende entender numa sinfonia, num quadro ou num livro a inteligência do Mundo.
Portanto deseja destruir o tempo, é inimiga do Tempo.
Há algo de francamente antagônico entre a Arte e o Tempo. Se toda a consciência conduz à compreensão de que tudo é movimento, sendo o Mundo puro fluxo... a Arte tenta fixar numa obra estática esta eterna mudança.
Algo existe dentro da contraditória Alma humana que não é Tempo, que
não é fluxo. É a isto que a Arte se refere!
Se o Tempo é realmente um Deus, como frequentemente parece, então a Arte é um movimento de pura rebeldia."
O carro fez uma curva fechada, derrapando pneus, o Zé estava com pressa de chegar, embora me ouvisse com atenção.
“Terá a arte algum valor objetivo?" -perguntava eu. “Ou seu julgamento será sempre subjetivo, sempre dependendo de um “eu gostei” e “eu detestei”. Multidões de filósofos ao longo do tempo debruçaram-se sobre esta candente questão. A arte tem um valor em si, intrínseco, evidentemente. Só porque não me ocorre outro exemplo, Shakespeare é representado hoje, como era há 100 ou 2OO anos atrás, na Rússia, na Suécia, na Indonésia, no Brasil. Shakespeare tem um valor intrínseco. Ele fala com a alma humana, diretamente, não importa em que época e em que lugar.”
Zé agora rodava por ruas que eu não conhecia e avisou que já estávamos chegando.
-“Uma obra de Arte não é boa porque dez pessoas gostam, um milhão ou apenas uma pessoa gosta. A Nona Sinfonia (prefiro pessoalmente o “Concerto para Violino”), a Vitoria de Samocracia, as flores de Renoir, os auto-retratos de Rembrandt, os filmes de Carlitos, a voz do Frank Sinatra e as milhares de obras de Arte que, enfim, permitem um homem viver, em vez de meter uma bala nos córneos... tem valor em si.
Mesmo que ninguém as tivesse visto jamais! Ainda assim seriam valorosas e imortais. São o patrimônio da Humanidade, enquanto a Humanidade existir serão magníficas obras de arte. E quando a humanidade não existir mais, tendo a Terra sido dominada pelas formigas, ainda assim –reconhecerão as formigas- serão magníficas obras de arte. Pois elas se referem ao Universo e a tudo que existe além dele. Enquanto alguma coisa houver, em vez de simplesmente haver nada, elas serão magníficas obras de Arte.
E não creiam que sejam tão raras. E tão difíceis de reconhecer. O homem que reconhece a obra de Arte chama-se o Artista. E tem muito artista por aí. Voce, com tuas nuvens de ferrugem, tua versão 2000 das paredes de Lascaux, é um deles. Toda geração que veio dos anos 60, que envolve nomes como Cilso, Gerchmann, Vergara, Antonio, Antonio Manuel, Barrio, e mais no mínimo duas dezena de outros também. Não é todo dia. mas de vez em quando acontece. E uma vez Artista, como torcedor do Flamengo, sempre Artista.”
O Zé delirava em calmo entusiasmo, como é de seu estilo:
-“Por que onde começa o abstracionismo e termina a figuração? A pintura ela mesma é uma abstração, a Arte é uma abstração, o mundo e a consciencia são abstrações.”
-“Todo delirio é real, este é o melhor modo de pensar, para evitar o psicanalista”-preconizei. Um homem abre os olhos e codifica o mundo. Não sei o que é um girassol. É uma flor esquecida, um pouco obesa e desajeitada, que está ali no jardim em meio a outras, com pessoas passando por perto, indo e vindo. Não sei bem o que é um girassol, mas quando vejo o girassol que Van Gogh pintou, então sim, eu compreendo o que é um girassol..." O grande acontecimento na História da Pintura é sem duvida o advento da Fotografia, que a libera da função documentária e aponta para o abstracionismo como caminho quase obrigatório. Apesar de que a Pintura, enquanto Arte, nunca documentou nada. Ela respondeu sempre a uma eterna inquietação da humanidade, que nos assalta desde pequeninos: será que o que estou vendo é o mesmo que voce vê? O que eu chamo de vermelho, é o mesmo vermelho teu? Tua VISÃO do mundo é igual a minha? É o mesmo mundo que vemos, habitamos, vivemos? São perguntas de criança e de gente grande também. Observando um bom quadro, vejo o que o pintor vê, ou viu, ou quis ver enquanto pintava. Pela Arte, devasso o indevassável outro, penetro no impenetrável do outro. Sei que para El Grego, o mundo era alongado verticalmente, que para Modigliani as mulheres tinham pescoços de girafa e para Cezanne o ar era azul. E assim me sinto menos só.”
-“A arte contemporânea -disse o Zé- ela se propõe uma tarefa nobre. A de trazer para o mundo não a representação de uma coisa existente mas sim algo de novo, que não existia antes. Ninguem precisa entender um quadro. É coisa para os olhos verem. Por que ninguém reclama de que não entende uma musica???"



Chegamos ao Galpão.
Era uma Fábrica abandonada, assustadoramente vasta e, porque não dizê-lo, muito misteriosa. Eu avançava cauteloso por aqueles lugares escuros, o Zé me orientando, enquanto subia escadas e aravessava alpendres em direção ao quadro de luz. Enquanto isso me falava do seu trabalho:

“As vezes recebo um galerista no meu ateliê e me recuso a vender certo quadro. Não está pronto, digo, o galerista discorda. Mas não vendo. O quadro tem primeiro de espantar a mim, não importa que espante os outros. Se não, não está pronto. Também não deixo levar para casa por uma semana para ver se combina com os móveis -você acredita que me pedem isso?

Este galpão eu saí procurando e aluguei para poder fazer meus “monstros comedores de margaridas”, que vou expor no MAM. Era uma velha fábrica abandonada, onde repousam, talvez para sempre, restos de tudo: Pneus, madeiras, grandes galões ou engradados, até restos de desfiles de Carnaval. Coisas sem valor e esquecidas. Animais também, tem aqui, cachorro velho, gato, cabra, até cobra. Também restos humanos. Umas pessoas suadas e sujas, de bernudas e sem camisa, que dormem por aqui. Aparecem de manhã, me pedem 1 real para tomar café, vão no botequim, depois voltam pra cá e ficam por aí o dia inteiro, quase invisíveis... Devem estar dormindo em algum canto.
Também eu fico aqui o dia inteiro, enquanto meus monstros, alguns já pendurados, se formam.

E em dizendo isso meteu a mão no quadro de luz e desceu uma chave.
Tudo se iluminou de repente.
E lá estava eu, no meio do galpão diante das telas penduradas, com cordas e roldanas.
Telas de talvez 5 metros de altura, por 6 de comprimento. Meia dúzia de telas, formando um conjunto realmente enorme, um canto de outro mundo.

Por um momento eu não disse nada, sob o impacto daquela cena, a estranheza da experiência. Este momento se prolongou talvez por minutos, não sei. Os quadros eram muito bonitos e me silenciavam, assim como silenciavam o espaço. Devoravam-lhe o ar. E o pintor continuava a me contar coisas sobre seu trabalho. -“Cada quadro demora mais ou menos 90 dias para ficar pronto. Primeiro estendo a lona de caminhão. Depois coloco sobre ela, em camadas diferentes “a cabeleira”, a lã de aço, que vêm em bobinas que só eu tenho. Aí molho aquilo tudo (água) e espero a oxidação. Espero. Sem saber o que vai sair ali debaixo. Epero 30, 40 dias, dependendo das condições atmosféricas. Espero. Uma espera cega. Então retiro tudo e vejo o que a oxidação fez, o que resultou na lona. Então começo tudo de novo, desta vez exercendo certas escolhas. Coloco mais ali, menos aqui, cubro tudo de novo, de novo a cegueira. E espero o que a oxidação e o Tempo têm para me oferecer. Uns 90 dias depois descubro tudo e penduro. Eis o quadro, sobre o qual depois exerço outras modificações. Eis o quadro, instável, impermanente. O quadro. A espera é muito importante no meu trabalho, fica certamente impregnada nele. De alguma forma meu trabalho é sobre a Espera.


Mas a voz do Zé já soava para mim baixa e distante. Eu não ouvia mais as explicações, não tinha importância, os quadros não deixavam. Eu tinha sentimentos:

Memória, espera, Isolamento, Resto, Sobra, imperfeição, imprecisão ...Eram telas grandes, ou melhor, diante delas eu era pequeno. E me olhavam, abandonadas como todo resto. Os quadros eram a face férrea do mundo, a porta intransponível, a caverna do futuro, a cortina de ferro que impede o incêndio nos Teatros.
E devoravam meu tempo, minha vida, devoravam o meu abandono e o abandono daquele lugar. Súbito entendi o absolutamente título, aparentemente gratuito, que o Zé propunha... Eram monstros bobos. Comendo Margaridas. Margaridas do meu coração.

O Zé tambem estava calado, andava por ali a esmo, conhecia bem o lugar. O silêncio foi quebrado por mim:

-“Parabéns” -eu disse. Zé, é um bom trabalho. Só vendo, eu não fazia idéia. Não só seus quadros são gigantescos. As aventuras da Arte Contemporânea também. Aventura gigantesca...
Vocês são um bando de malucos, artistas, uns melhores, outros piores, mas todos experimentando na border line do ser humano. Brincalhões, sem medo de ser incopreendidos, de ser criticados por um idiota plástico qualquer... Uma turma elegante e charmosa, braviamente tentando livrar-se das teias poderosas do Realismo. Atacando com os dentes tudo que foi sacralizado, indo ao limite do esforço para entrar no perigoso curto-circuito com o inconsciente. As vezes acertando, na maior parte das vezes errando, mas sempre, tentando e tentando sempre a mais silenciosa, a mais meditativa das artes, uma arte talvez mais sublime que a própria sonora música: aquela que não existe no escuro, feita para a Luz e para o Olhar Humano. Bela aventura essa tal da Arte Contemporânea. Sem dúvida melhor do que trabalhar.

domingo, 20 de junho de 2010

Agora ou Nunca




Caros colegas,

Minha peça “Do Fundo do Lago Escuro” só tem mais 2 apresentações: quarta às 21h e quinta às 21h30 no Teatro das Artes, Shopping da Gávea. A peça não seguirá carreira posto que tem cenário grande e um numeroso elenco, difícil de manter. Mas para mim super valeu à pena. Faço questão que vocês vejam. A peça é sobre minha infância e me fez viver uma aventura que só o teatro proporciona. Convivi intimamente nos últimos dois meses com meu pai, minha mãe, minha infância já muito esquecida. E na medida que eu ia entendendo estas pessoas, o teatro obriga entender, eu ia me reconciliando com elas. No final das contas esse trabalho me serviu de meio para reconciliação com a minha infância. E compreender melhor o dito famoso do meu amigo J. P. Sartre “Não importa o que o passado fez de mim, importa o que eu farei com o que o passado fez de mim”.

Quem precisar de desconto na bilheteria, responda esta postagem para entrar na lista amiga (R$15).


Abraços,

Domingos Oliveira.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ATUALIDADE


2. ATUALIDADE
Em pílulas

• Todo mundo diz que a Zona Portuária do Rio de Janeiro vai virar Broadway dentro de no máximo 2 anos. Muita gente investindo lá, muita gente ganhando dinheiro lá, é bem possível que seja sim. No Galpão da Ação e Cidadania, que é enorme, tem um espaço que foi denominado por cortesia do falecido Maurício Andrade, sucessor do Betinho, “Teatro Domingos Oliveira”. Deveria me meter lá para ficar rico daqui a 2 anos, mas é muito longe a Zona Portuária. Com o trânsito ruim, bate 1 hora da minha casa ou muito mais. Resumindo, não tenho tempo pra ficar rico. Não tenho tempo para nada a não ser criar coisas novas. Com ou sem patrocínios. Não agüento mais esperar patrocínios, não tenho tempo! O número de coisas que quero fazer antes de morrer demanda mais uns vinte anos de vida. A não ser que sem saber eu me chame Matusalém, não vai dar tempo. No momento escrevo uma peça nova denominada “Turbilhões”. Pra quê uma peça nova, se há outras na gaveta? Eu não quero saber, escrevo por escrever. Escrevo. Estou exatamente naquela fase que acho tudo muito ruim, que sou medíocre, que engano as pessoas há várias décadas, que não tem vocação eticétera e tal. Eu já começo a vislumbrar a cara dos personagens. Logo logo cessará a angústia do escritor tomando conta a alegria do escritor, cercado pelos seus personagens indagativos e curiosos, sem saberem ainda seu fim, coexistindo como existem aqueles que têm carne e osso. Uma nova turma terá sido posta no mundo e sentirei de novo o prazer desta maternidade.

• No Cinema, não perder Woody Allen - “Whatever Works”, cuja boa tradução seria “Passa a ser correto tudo aquilo que dá certo”. Gostei muito também de “Guerra ao Terror” dirigido pela ex-mulher do Cameron. Filme de macho. Não vejo um filme tão bom assim desde “Invasões Bárbaras”. O assunto é guerra enquanto droga, vício. O que é o único ponto de vista segundo o qual se pode compreendê-la. Fernandinha Torres não gosta, há quem não goste. Sempre com a mesma argumentação, que o final heroiza o personagem fazendo avançar sobre os perigos naquela roupa de astronauta-super-herói. Não concordo. O filme não tem nada de americanista ou de direita. O super-herói é um suicida que lembra Corisco de Glauber quando alguém o alcança no meio do sertão para avisar que as tropas estão chegando e que ele vai morrer. Othon Bastos, o Corisco, vira para ele e, depois de um instante, responde “Eu já morri”. É disso que a Bigelow fala, dos que vivem, embora nascidos, mortos.

• Me parece também imperdível, para quem tem interesse em cinema, o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”. O filme é centrado na feitura de “Quatrocentos Golpes” que traduziram como “Os Incompreendidos” e “No limite do fôlego” (À Bout de Souffle), primeiras obras dos amigos Godard e Truffaut. É imensa a influência dos dois no cinema que veio depois, inescapável. Eram dois homens muito diferentes, importantes na minha vida. Godard me ensinou a liberdade. Ele é um mestre nisso. O “Fôlego” não é um filme, é invenção de um novo cinema. Que, segundo o documentário, assustou o próprio Truffaut, que financiou parte do filme. Embora fosse um homem sem posses. Truffaut me ensinou a montar músicas clássicas em cenas cotidianas. E acima da inspiração livre desses homens, herdeiros de Rossellini, nasceu toda uma nova onda que quebra, espalha sua espuma nas praias da eternidade. Tem até o primeiro teste de Jean Pierre Leaud, onde ele conheceu Truffaut. Godard é homem mais duro, talvez por isso está vivo até hoje. Enquanto Truffaut já se foi há algum tempo. O filme mostra também como vive um jovem inteligente numa sociedade voltada para a cultura, ou melhor, para a arte, aquela que modifica gente e sociedade. Confesso que é de babar de inveja. O movimento liderado pelo Cahiers Du Cinema, uma simples revista de cinema que tinha de 10, 20, 30 rapazes ou velhos, todos com a cabeça fervendo, querendo conversar antes de discutir. Fazer o melhor cinema do mundo e, assim, mudá-lo. Hoje aqui ninguém discute mais. Ninguém vai ver o filme do outro. É cada um por si e o diabo por todos. Eu não consigo ver filmes brasileiros. Quando percebo a existência do filme já 2 ou 3 amigos vieram me dizer para eu não ir ver porque é muito chato. E em geral meus amigos estão com a razão. Mas se não vemo-nos, se não nos damos, estamos entregues ao governo, como agora. E os grandes artistas vão cuidar de coisas mais sérias entregando o Cinema para os industrialistas. Tristeza.
• A Nouvelle Vague provou (Rossellini, antes deles) que não é preciso uma boa técnica para atingir como um punhal o coração dos espectadores. Hoje há toda uma tendência de colocar a “boa técnica” como elemento essencial. O que é uma burrice, com mais muitas outras entre as quais vivemos. Que vivam bem os industrialistas! Que o Deus do dinheiro os proteja! Que os camelos passem pelo buraco da agulha! Que os ricos entrem no Reino dos Céus. Mas deixem lugar e concedam devido respeito ao Filme de Arte. Comunicativo, humano, necessário.

INÉDITO: IPÊ


Atualmente não me sai da cabeça a vontade de fazer um filme realmente marginal. Com câmera dos amigos,câmera de telefone, máquina fotográfica etc, com um único carro da produção, e cinco pessoas no máximo da equipe, porque 5 é o que cabe em um carro. Já postei o "Balão" outro dia. E agora vai, ainda sem roteirização, o IPÊ: uma reflexão sobre a arte contemporânea... Em 2 sequências.


sequência 1:
O IDIOTA PLASTICO
Interior noite num
Restaurante de luxo da zona sul

encontrei o idiota plástico jogado no fundo de uma mesa de um restaurante, onde eu tinha marcado encontro com o pintor contemporâneo ze bechara. ip, o idiota plástico, é uma figura muito conhecida nos bares cariocas, depois das onze. gosto dele, do idiota plástico, apesar de que as vezes bebe muito e fica inconveniente. ou melhor, ele sempre bebe muito e fica inconveniente. mas é um solitário. era setembro de 98, eu tinha marcado um encontro com o zé. o zé preparava então a exposição que fez em outubro no mam, e queria de qualquer jeito que eu visse os trabalhos ainda no ateliê. tinha tido uma idéia sobre o titulo geral do trabalho e queria me consultar a respeito. mas tinha acabado de me celular para avisar que estava uma hora atrasado. estava esperando a babá para deixar a filha, motivo justo.não disse nada mas achei que o acaso tinha obrado bem aquela noite e sentei-me à mesa do idiota plástico. talvez ele pudesse me ensinar alguma coisa sobre a arte contemporânea que depois me ajudasse no papo com o ze. o idiota plástico, todo mundo sabe, agride compulsoriamente qualquer um que senta na mesa dele. pricipalmente artistas contemporâneos, mas tambem teatrógos, cineastas, poetas. seu oficio é esculhambar , agredir é o seu destino, não sei por que gosto dele. ele proprio se nominou:

IP - “Somos muitos no mundo plagiando Nelson Rodrigues, agora quero ser conhecido como o idiota plastico, mas podem me chamar de IP. Não que eu não tenha desmaiado na minha juventude com os meninos azul e rosa de Picasso, enlouquecido com Cezanne, Van Gogh foi pra mim mais que o Kirk Douglas, El Greco me inundou de mistério e até pintor eu já quis ser....Mas já não me agradei tanto de Klee e Mondrian...- confessa o IP abrindo seu sorriso de Jack (Nicholson) - e daí por diante a grande parte de tudo que fizeram me parece esquisito. Ou seja, sou um idiota plastico.” –disse ele dando um gole no seu Jack (Daniels) sem gelo.

IP -“Penso que o abstracionismo é um tipo de perversão.Ficar pintando coisa nenhuma, com tanta coisa bonita pra pintar, meu Deus, meu Deus...”

notei imediatamente que a garrafa de jack já estava pela metade. e que o nosso amigo devia andar solteiro , tal a acuidade com que examinava cada mulher que chegava ao bar. mas como não parava de falar, servi-me tambem do uisque e continuei ali, me distraindo:

IP - -“Gosto muito do trabalho do Bechara, não pensem que não gosto. Aquele menino vai longe.Cada vez mais quadros desse tipo valem milhões- continuou ele. Os ricos compram muito, para botar em hall de elevadores e até nas salas de visita- o que me faz pensar que a Arte Contemporânea é uma coisa inventada pelos Ricos. Como todo mundo sabe, os ricos são, de modo geral, imbecis. E sendo ricos têm necessidade de inventar novos brinquedos. Valores, para poder especular com eles , assim, divertir-se ricamente. É disso que vive a Arte Contemporânea. Jazz , rico tambem gosta muito. E Jazz é uma coisa chatissima. São artes pouco afirmativas, eu acho, então Rico gosta.” Ele estava realmente se esforçando para ser o mais desagradavel possivel. senti um leve arrependimento de ter sentado ali.. o ip notou, estremeceu de medo de ficar sozinho no bar e então , em vez de aliviar,atacou mais forte:

“Impostura,Dominguinhos.. A Impostura ronda o Arte Contemporânea. Nada contra. A impostura tem o seu lugar, cria uma turbulência saudavel.”.

“ Tem muito rico inteligente.”

“ Só aqueles que compram os quadros do Bechara”

A esta altura chegou o macarrão que I.P. tinha pedido e ele tentava come-lo com a maior dificuldade, porque não é facil filosofar e comer macarrão ao mesmo tempo. Uma mocinha morena, vestida de preto, com muitas pernas e outros pedaços de corpo clamando atenção, sentou-se numa mesa por perto. Só I.P não viu, preocupado que estava com a demolição da Arte Contemporânea:

“Mas quando eu leio no jornal ( só para citar um exemplo estrangeiro) que a ultima moda em Londres e cheat-art , o pintor pinta usando seu proprio cocô em vez de tinta e mais ,pinta com as mãos . Esse cara,famosérrimo, não me lembro o nome , tinha feito há alguns anos uma cabeça dele usando o próprio sangue que ia retirando aos poucos e que pra não coagular precisava de uma carissima parafernalia tecnica . Acho que chamava “blood head”. Agora fez um cheat-head, acho mais adequado. Depois não sei se lava as mãos ou expõe no museu. Ou seja , my God, quando ouço essas estórias tambem.empalideço e de novo reafirmo orgulhosamente minha idiotia plastica.E desculpe esse negocio do cocô, sei que não é assunto para restaurante”

Para mim, um ignorante do movimento recente dessas atividades,perguntei:-“Mas porque eles fazem isso? Certamente é para tentar a desmoralizacão do museu , questionar a autoridade do espaço oficial....

-“ Mas eles vão ficar quanto tempo desmoralizando o museu ? Duchamp já fazia isso em 1926. Coisa mais antiga ! Eu é que não vou ver um quadro de merda. Entenda bem , Domingos, não tô dizendo que o pessoal não é legal , nem que tá fazendo de sacanagem. Mas não sei se são propriamente artistas, no sentido lato da palavra” ( apedrejou com firmesa, chegando ao ponto.) “Quer dizer são quase artistas ,mas não completamente( disse num esgar,, começando a reparar na garota de preto.)

-Reenchi meu copo, a situação era tensa, se o Zé estivesse ali começaria a ficar puto..Dizer para um cara que se acha artista que ele não é, é o mesmo que passar a mão na bunda da mãe dele. IP no entanto insitiu na tecla:

-“ Artistas, artistas propriamente, não são não. Têm outras profissões correlatas”.

-Prosseguiu IP, disposto a teorizar

- “São 6 (seis) categorias, segundo meus estudos”(disse tomando um gole de engasgar qualquer um. E declinou com o maior prazer, certo de estar dizendo um piadão.)


-“ Temos os (1) simbólogos,
(2)os novidadeiros evolutivos,
(3)os chocadores de burgueses
(4)os Defensores da Liberdade,
isto para não falar nos (5) incompetentes plásticos
nem nos os (6) cenógrafos sem peça.

- Achei curioso aquilo. Tendo a achar curioso qualquer coisa. Olhei para o relogio, o Zé devia estar chegando. .IP falava quase sem pausas e continuava a sorver uisque com macarrão. E, mais que isso, a morena começava a prestar atenção nele (IP fala alto). Pensei em ir esperar o Ze la embaixo,mas não fui, confesso, estava interessado na catilinaria do IP..

-“Vai lá, idiota, continua!”-disse. (Eu tinha intimidade para chama-lo apenas pelo primeiro nome. Ele continuou, com uma logica digna do velho Gert Bornhei)


-“É importante criar simbolos, sem eles não se pode entender o mundo de hoje. Exemplo barato: pinto com pó de sangue em vez de tinta. É sem duvida um simbolo obvio do meu tipo de entrega à arte. Boto o retrato de meu pai numa redoma de vidro, construo um livro sem palavras, boto um dado dentro de um novelo de lã. Simbolos,facilmente compreensíveis . Interessante. nada contra.
Apesar de que a arte,Arte, não faz isso”- fez um silencio perigoso ao mesmo tempo que notava a tatuagem que a morena tinha -
“A Arte não resume nada , não é simbolo de nada. Quando Beethoven faz a Pastoral, não descreve e explica a floresta, porem o espirito da Floresta, de todas as florestas. A essencia da Floresta. A verdadeira Arte, se é simbolo, é um simbolo do tôdo”

O IP de vez em quando falava bonito,de vez em quando até se emocionava, porisso era dificil manda-lo à merda.. Eu sorri tambem para a morena, e IP prosseguiu a catalogação:

-“Os novidadeiros evolutivos vendem a mãe por uma novidade, algo que antes ninguem fez ainda. Cortam um boi ao meio, põe um tubarão dentro de um aquario, se penduram com anzois no meio do salão, arrebentam o piso do salão. Repito, não fazem isso de sacanagem, eles têm uma filosofia. Acreditam realmente que a Arte sofre uma evolução- acho que foi Mondrian que veio com essa pela primeira vez- e que Deus os incumbiu desta missão. por isto. É um engano, evidentemente, por vezes fertil. Não tem sentido na Arte o conceito de progresso, não há evolução na Arte, há quatro mil anos ou hoje, para a Arte é o mesmo.”

“Os chocadores de burgueses talvez sejam os mais divertidos, moleques. Botam em exposição xoxotas coloridas, todo o arsenal dos Sex-shops, excrementos ,palavrões, todo tipo de ofensas a religião, moral, familia, civismo etc. Chocar burguês sempre foi um dos divertimentos maiores do artista, é um grande barato! Estou com vontade de fazer uma instalação com buracos indicando, “burgueses, dedos aqui”. Ai eles enfiam, levam um choque eletrico. Piada sem graça , eu sei.”.

Agora já quase irmão gemeo do J.Nicholson, IP convida a garota para sentar conosco. Ela aceita e imediatamente descobrimos quem é. Trata-se de uma modelo estudante de filosofia e participante de um grupo de estudos sobre colagem antropofágica, pele muito branca e bastante vulgar,embora gostosíssima.

Agora IP só falava com ela, mas sem perder o fio da meada:
-“Os defensores da liberdade são igualmente uma gente formidavel! Posso colocar alguns elefantes com pinceis na tromba pintando paredes, ou entrar nu na galeria e fazer xixi num chão verde e amarelo, ou mostrar minha bunda pendurada na escotilha de uma nave espacial.. É a afirmação que um Artista pode tudo, que nada lhe é proibido, que a mais brilhante regra antiga não é nada para ele,que, enfim, que sua liberdade é total, como queria Sartre! Isso é bacana. É o que fez Godard com o Cinema, livrando assim para todo o sempre a cara dos cineastas de muitas chateações...
Tento colaborar, pela primeira vez:
“-Existem dois tipos de liberdade : a Liberdade 1 em que o artista prova que tudo lhe é permitido. E a Liberdade 2 , onde o Artista, porque assim exige a sua liberdade, porque quer, entrega toda a massaroca de liberdade 1...aos outros, ao publico. A Liberdade 1 gerou inumeras formidaveis obras de Arte, mas Maiores e mais genuinas provêm sem duvida da Liberdade 2.”
-“ Godard é maravilhoso, mas nunca será Fellini ou Dostoievski! “- continua IP bastante agressivo, do ponto em que estava, como se eu não tivesse dito nada.Dessa vez quase que falando diretamente para as coxas da dama de preto, ele tenta concluir:
- “A grande parte da Arte Contemporânea que vejo nos museus ( aonde vou pouco, porque é muito chato) são mais lições de liberdade que obras de Arte propriamente ditas. É importante dar lições liberdade,num mundo tão reprimido , mas, alem de ser muito chato. não é Arte!!! Nada contra .E gosto muto do trabalho do Bechara, pode dizer pra ele Aquela coisa da lã de aço enferrujado muito interessante..Não pode cortar o dedo, que dá tétano.”
A modelo está fascinada, concorda , ri . IP icentivado redobra:
“-Ensina o Ferreira Gullar, conhecido até bem pouco tempo como “o gatão”, que foi Picasso o culpado do inicio de toda zona! No dia em que colou num quadro um selo postal, afirmando assim que nem tudo que está num quadro foi o pintor que fez. Assim agindo, transformou o quadro em objeto. Passo pelo bosque – será que tem um bosque por aqui?- e vejo uma pedra bonita. Trago e coloco na exposição, ganho o prêmio. O artista é aquele que faz? Mas não é tambem o que acha? Duchamp ,quase que imediatamente trouxe o urinol . Nada mais correto, Duchamp é um gênio. Se arte é objeto , objeto é arte. A faxineira da Galeria esquece num canto a vassoura e o balde, a exposição abre e ela ganha o primeiro prêmio. Já tem vinte pessoas reunidas ao redor.
IP está decidido a liquidar o macarrão teimoso que cai do garfo. Fala mesmo de boca cheia:
“Os incompetentes plasticos”- diz ele, tentando desenhar uma caricatura da garota na toalha da mesa – “O pintor figurativo tem de saber desenhar, entrar numa intimidade muito maior que a dos médicos com a anatomia humana. São estudos árduos, mais que isso, que exigem vocação. Mamãe uma vez me bota um professor particular desenho, eu não tenho jeito,é dinheiro jogado fora, que me resta? O abstracionismo. Será o abstracionismo uma incompetencia? Será que eles são abstratos porque não sabem fazer o figurativo? A arte conceitual ( não tenho nem direito de usar esta expressão tecnica, sou um idiota plastico) , aquela que leva o artista a criar quando “tem uma boa idéia”...é mais um “mind game” que propriamente ela mesma, a Arte. São trabalhos criados a partir de um tesão intelectual. Ao passo que a outra,a Arte eterna, provém sempre de um irresistivel desejo. Como aquele que um homem tem por sua mulher amada”.
Bem, com essa ele comeu a garota, ficou decidido ali! IP pediu a conta sem cafe, riscou a caricatura que não conseguiu fazer e finalizou calmamente:
“- E os cenografos sem peça, que é a turma das instalações. Empilham bodes em engradados, passam videos como na MTV, , esticam fios, enchem o lugar de quinquilharias curiosas, fazem salas de paredes brancas vazias só que as paredes se movem um pouquinho. Parque de diversões pouco eletrizantes.. Cenarios., por vezes bonitos cenarios . Que ficariam melhor com uma peça de Teatro ali dentro, se autor tivesse a paciencia de escrever. Apesar de que Teatro é uma coisa chatissima.”- disse , dessa vez olhando fundo nos MEUS olhos..
Bom. Aquilo era demais. Resolvi defender os artistas plasticos, em nome do Bechara que não estava atrasado e sim atrasadissimo. -“Chatissimo é você” - falei. Não precisa de peça porque não é Teatro.! Uma boa instalação é uma experiencia estética,sensorial, que prescinde de narrativa, é uma experiencia medidativa , sem carater espetacular...Quanto aos simbolos, é uma coisa interessante. Eles chamam de pintar pensamentos. Se eu olho para o novelo de lã que sei ter um dado dentro(Duchamp) , sou obrigado o a pensar imediatamente na complexidade da vida ( novelo) tendo em seu bôjo o acaso (dado). Ou qualquer leitura parecida , mas não muito diferente disso”.
Daí em diante começou um tiroteio:
IP -EnTão porque o Duchamp não diz isso logo para voce em vez de botar no museu?
DO -Porque é mais indireto me provocar a ideia em mim que me dizer!.
IP -Grandes coisas
DO -O que?
IP -. Não vamos comparar isso a um ceu de El Greco por amor de Deus”.
DO -Não estou comparando. E os novidadeiros?. Que que voce tem contra a novidade?O novo tem que ser buscado. Ele estimula, alegra.
IP -Novidade loja é que tem de Ter, pra vender melhor. Coisa pra mulher desocupada. Artista prefere o perene.
DO -Quanto a chocar os burgueses, é uma demanda social,obrigatoria, senão eles permanecem dormindo.
IP -E roncam muito.
DO -Os defensores da liberdade ampliam horizontes, liberam costumes.Quanto a não saber desenhar, isso é muito relativo. Michelangelo disse que Velasquez desenha mal...
IP -Picasso disse que aos 14 pintava como Rafael.
DO - Que ficar esculhambando as coisas com palavras é muito facil, IP! .Tudo é facilmente esculhambavel com palavras, voce que é um especialista sabe!. Quadro tem de ver, instalação tem de ver, é pro olho. Voce vai aos museus e galerias? Voce vê essas coisas que voce esculhamba?
IP responde pagando a conta, a parte dele naturalmente:-“ Nunca , é claro !Não tenho saco de ir a Museu, só ouço falar. Mas do trabalho do Zé Bechara eu gosto”.
Quando vi , estavamos descendo a escada do restaurante em desabalada corrida , eu atras de IP e da morena branca, sendo que agora era eu que falava sem parar:”- Idiota,voce é mesmo um idiota. Em primeiro lugar voce está generalizando Alem disso voce toma como referência uma Arte que o mundo já consagrou,para falar de uma arte de hoje que o olho comum ainda não teve tempo de digerir!”
IP -“O trabalho do Zé é ótimo, balbuciava varias vezes IP, entre um degrau e outro.”Nunca vi ,mas é ótimo”
DO -“Degas, Monet, Pizarro, Manet levaram dez anos tentando convencer a critica e o publico, do valor do se trabalho. Se voce vivesse no inicio do século, IP, estaria dizendo os impressionistas não são, realmente artistas...
IP -“Jamais . O trabalho do Zé é ótimo, dá um beijo nele.”. Já chegavamos lá fora , o manobreiro estava pegando o carro do IP, a modelo branca tatuada sempre na frente. Discuti por honra da firma até eles entrarem no carro:
DO -“Qualquer um pode reduzir a nada qualquer coisa, aqueles borrões vermelhos de Matisse e seus peixes deformados, os erros de escala de Goya,...
“Da janela do carro , IP pediu desculpas: “Domingos, não vai se zangar comigo, acho voce o maior, dizem que voce faz o melhor Teatro do Rio de Janeiro e eu não sei viver sem voce , embora eu nunca vá ao Teatro, porque fora voce, o Teatro é chatissimo”
Nesse momento ele acendeu os farois .Que incidiram sobre uma figura conhecida e sorridente: O Zé tinha chegado. Ele tambem conhecia o IP, quen não conhecia ? Veio cumorimentar:
-“Ô Domingos, desculpe o atrazo. Tá bom IP?”
-“Tô ótimo. Conhece a minha prima – a morena sorriu sacana –Eu tava agora mesmo batendo um papo otimo ai com teu amigo e dizendo que teu trabalho ta cada vez melhor.”
-“Obrigado. Vou te convidar pra proxima exposição”
- “Voce conhece a estoria do Robert Mitchum? – disse o IP , olhando para mim e colocando a chave na ignição. Robert Mitchum,aquele ator de Hollywood dos anos 50 que ficou famoso porque foi o primeiro cara preso por fumar maconha?”
“Não conheço, ”- disse o Bechara, sem entender bem.“Vou contar pra voces, porque tem tudo a ver com a conversa que eu tava tendo como o Domingos.. Numa entrevista pediram ao R. Mitchum pra falar da profissão do Ator. Ele então disse que era uma profissão muito dura, onde se ganha pouco, não são respeitados horarios de trabalho, voce tem sua privacidade invadida, fica exposto à critica de qualquer idiota como eu, não tem garantias na velhice...mas enfim, é melhor do que trabalhar!”
Rindo muito e a morena tambem, arrancou o carro.. O Zé tambem tinha achado muita graça, eu graça nenhuma.
-Esse IP, impagavel.... Te alugou muito?
-Muito, mas foi interessante.
-Que cara séria, Domingos! Como é, vamos ou não vamos a S. Cristovão? Voce tá de carro? Vamos no meu carro.

SEQUÊNCIA 2 NA PRÓXIMA POSTAGEM