sábado, 9 de outubro de 2010

11 motivos para considerar "Tropa de Elite 2" um grande filme


11 (onze)

MOTIVOS PARA CONSIDERAR

“TROPA DE ELITE 2” UM GRANDE FILME

Para José Padilha e Luiz Eduardo Soares

1) A magnífica interpretação de Wagner Moura, insuportavelmente sincero. Wagner será sem dúvida e brevemente ator disputado pelo mercado internacional. Temos de ter cuidado para não perdê-lo.


2) O grande feito de um filme é juntar, como disse Brecht, diversão com ensinamento. “Tropa” é um gol nesse sentido. Eletrizante e profundo.


3) Pela coragem de José Padilha de abordar tão diretamente questões delicadas e presentes como as milícias dos morros. A coragem é uma das maiores virtudes humanas.


4) Pela objetividade de José Padilha ao reger o roteiro fazendo-o chegar a Brasília e depois de alguma forma premiando o Capitão Nascimento com a vida de seu filho. “Tropa” é tão emocionante que pode até influenciar no segundo turno.


5) Pela tenacidade e talento pelos quais José Padilha conseguiu tanto dinheiro para fazer este filme. Certamente vindo de fontes que ele, nem tão sutilmente assim, ataca.


6) Provar a possibilidade de o filme estourar bilheterias mantendo-se como filme de arte.


7) “Tropa de Elite 2” é o arauto, anuncia o futuro. Inaugura uma fase do cinema brasileiro na qual mais uma vez imitaremos os americanos, só que agora em uma das suas melhores virtudes. O grande cinema americano sempre fez filmes (de Grifth a Carlitos, Capra, Spielberg) com ênfase central na crítica de sua própria sociedade. Crítica franca, direta, ofensiva. Que é exatamente o que faz a “Tropa de Elite 2”. Que, sendo um mega sucesso, criará obrigatoriamente seguidores. E que será também benéfico para o nosso país.


8) Pela linguagem cinematográfica de José Padilha, baseada no modo de fazer usual do cinema americano porém com extrema competência, clareza, comunicabilidade e por que não dizê-lo, poesia.


9) Pela magnífica atuação dos atores no filme. Lembra Costa-Gravas nos seus melhores resultados, como é citado em uma cena. Sendo um filme político era preciso que os atores representassem politicamente. E é exatamente o que Padilha consegue. É impossível não destacar alguns, embora sejam todos excelentes: Irandhir Santos, Sandro Rocha, André Mattos, Maria Ribeiro!


10) Pela excelente dramaturgia do final do filme. Dizem que o final ideal de um filme ou peça teatral é aquele que diz algo que não foi dito antes na obra inteira. Algo que ilumina a narrativa para trás, como um farol retrovisor. Esse tipo de final é dificílimo de atingir, como em “O Inimigo do Povo” de Ibsen ou “Romeu e Julieta”. No momento em que o filme do Padilha, surpreendentemente pula para Brasília, cria um final excelente. Lança luz sobre todo o resto.


11) Em meio ao entusiasmo que o filme desperta, vem um sentimento ruim de desesperança e desespero. Posto que o filme nega o poder modificador de qualquer ação individual e, portanto, do próprio filme. Esta é uma questão filosófica grave, importante, que o filme levanta como resultado final. Quando responsabilizamos o sistema considerando-o uma força irreversível, de alguma forma não responsabilizamos ninguém. Muitos sistemas já foram desagregados pela ação individual. Mais um mérito de José Padilha em seu grande filme “Tropa de Elite 2”: levantar esta questão.




Domingos Oliveira


09 de outubro de 2010

10 comentários:

Miriam G Mendes disse...

há décadas...quando jovem :-)..um professor, norteamericano, de Literatura, ao ler meus ensaios, escreveu 'what can one say about the perfect student?..she seems to love poetry..or her teacher...or both!"
Espertinho o tal prof., não?
Hoje, aqui e agora, sobre o que Domingos o genial Oliveira acaba de escrever, poderia encaixar o tal comentário que li há anos; o que se pode dizer da acuidade, sensibilidade e generosidade de uma pessoa como Domingos?!
Acertou na mosca!
Estamos, como o próprio Domingos, todos aguardando bons frutos dessa semente poderosa que é o Tropa de Elite 2, na medida em que, como bem disse, não se farão mais filmes do gênero sem comprometimento, sem a coragem, a audácia e 'le palle' de um Padilha.
Sds cariocas! @MiriamGMendes

Allex Rocha disse...

Prezado Domingos,


No dia 14.10 (quinta-feira), às 18h, no Atelier Carmo Treze, será realizado um encontro com Paulo César de Souza (tradutor das obras de Nietzsche e Freud). Na oportunidade será refletido o tema da “Morte de Deus”, além de uma projeção de vídeo sobre os aforismos 125 e 343 da obra A Gaia e a Ciência.
Tenho a honra de convidá-lo para esse evento.

Atenciosamente,

Alex Rocha

ENDEREÇO:
RUA DO CARMO, Nª13, SANTO ANTÔNIO, CENTRO HISTÓRICO, SALVADOR
REFERENCIA: PROXIMO AO HOTEL SOLAR DO CARMO
MEU CELULAR: 71- 99916-4783

Kito Mello disse...

Acabo de voltar do cinema. Fui ver Tropa de Elite 2. A sensação é de impotência e nojo. Ninguém acredita que isso vai mudar um dia, mas pode piorar ainda mais se as pessoas não entenderem o recado e insitirem com a continuidade de um governo corrupto. A sensibilidade do Mestre Domingos me incitou a ver o filme. Faço minhas, suas palavras. Como roteirista torço para que o cinema brasileiro nâo perca a oportunidade de desenvolver mais filmes com essa qualidade alcaçada pela dupla Padilha e Mantovani.

jbgoldemberg disse...

3ª parte última

Então; segue a vida numa típica tarde de maio, com um sol ameno sob o céu azul-céu na gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A melhor época do ano.

--x--

Porque estava sem idéias e sem trabalho, gastava o tempo surfando nas ondas da Internet quando, através de um blog de letras e artes, encontrei um novo blog do Minguinho: que vem a ser o grande Domingos de Oliveira, sucesso constante como cineasta e dramaturgo, e que no momento destas explicações encena peça sua na qual interpreta uma personagem feminina. Tudo bem, hoje, mas no tempo risonho e franco em que, na escola, éramos da mesma turma, isso daria o maior bafafá (termo de época também risonha e franca) no pátio, na hora do recreio. Duvido que tivesse coragem, então!
Lendo os textos do blog encontrei uma idéia assaz interessante: a do assaltante que se depara com um suicida e a vítima passa a ser mais importante e perigosa que o bandido. Por quê, não diz, mas dá para elucubrar algumas idéias e para quem sem nenhuma estava, foi um maná. A dúvida se o aproveitamento do tema seria plágio ou apropriação indébita se esvaiu, já que o próprio autor afirmava que não o iria utilizar de forma alguma. Ficaria no ar, apenas uma idéia, entre outras.Sem sequência nem consequência.
Então, a partir dali o presente texto. Sem o brilho que teria se do Minguinho fosse; a ser tomado como uma homenagem ao artista e um retorno no tempo, novamente trabalhando juntos em um mesmo assunto, como na sala de aula de um passado já remoto. E mais: o primeiro livro dito “sério” que ganhei foi um presente pelo meu aniversário, naqueles anos dourados: “Robinson Crusoé”, dois volumes, capa dura, vermelha com letras douradas, dado pelo meu introdutor na arte das letras :Minguinho.
Mais uma vez, obrigado. Por então e por agora.

jbgoldemberg disse...

1ª parte
— OK. Vamos então. Esses meliantes não têm sensibilidade. Devia ser proibido assalto em Maio, é crime de lesa-Natureza. Pelo menos no Rio.
— Como é que é, doutor?
— Esquece. Deixa pra lá. Não exija demais do seu bestunto. Vamos.

A sala do apartamento resplandecia sob bem dosada luminosidade. Clean, assim como toda a ambientação, um belo loft, em tamanho, disposição e bom gosto. Elegante e aconchegante. Na varanda, o morador lia o jornal, saboreando uma verde e branca frosen marguerita, lembrança de suas andanças por Cancun e arredores.
A campainha tocou duas vezes. “Eta sonzinho brega! Presente de sogra, mesmo.”, pensou, enquanto levantava-se, preguiçosamente. Dobrou o jornal, chegou à porta e nem se deu o trabalho de olhar pelo olho mágico. “Bobagem, aqui? Sem perigo.”
— Perdeu! Mãos para cima, rabo no chão, já. — ouviu o morador, de supetão, ao mesmo tempo que pulava para dentro um indivíduo armado e encapuzado, tipo ninja, o estilo que vestem bandidos e policiais no Rio, desde que a TV popularizou o modelito. Quase teve um infarto. Outro, a bem da verdade, já que estava em casa convalescente. E nem precisou sentar-se, conforme lhe fora ordenado, porque o bandido deu-lhe tal encontrão, ao tropeçar no tapete, que o jogou no chão.
— Calma, cara! Nada de nervosismo — tentou por ordem no atabalhoado início de assalto.
— Calma é o cacete! Cadê a grana? Passa logo pra cá. Anda, porra. E não abaixa os braços. Eu não mandei levantar?
— Tá, tá bem. Só que cansa. Que grana?
— Grana, companheiro. Money, arame, bufunfa, verba! Não tá me entendendo, ou esse trinta e oito vai ter que explicar? Tá sozinho em casa? Cadê os outro?
— Que outros? Só tem eu.
— Como só tem eu, pensa que eu sou babaca? Eu fiz um levantamento e tem mais gente que mora aqui. Cadê eles, dá logo o serviço.
— Só tem eu no momento. Os filhos casaram, não moram mais aqui e a mulher tá trabalhando.
— E você, não faz nada? É cafetão? E essa papelada em cima da mesa?Quê qui tu é? Desenhista?
— Pera aí, distinto. Assalta mas não avacalha. Desenhista não, eu sou arquiteto.
Naquela altura o assaltado já percebera o nervosismo do assaltante e sua patente inexperiência. Não devia ser um profissional. Com jeito poderia reverter a situação e, quem sabe, sair-se bem, sem a violência sempre latente.
— Seguinte, meu caro, — disse ele — vamos conversar. Se o seu problema é dinheiro ou jóias acho que você apostou mal; porque aqui, nada feito. Atrás disso eu também ando, e muito. Espera um momento que vou fechar as janelas senão os vizinhos vão ouvir o que está acontecendo e a situação pode piorar. Polícia, sacou? Aguenta um momento.
— Tá, vai, anda logo. Você não é um mau sujeito, mas foda-se, tô na pior e você deu azar. Perdeu!
— É isso aí, também vi esse filme. Legal!, o do capitão Nascimento, né?
— É, porra, mas chega de papo, anda fecha logo tudo e vamos resolver essa parada.
O morador fechou todas as janelas e portas, retardando ao máximo a operação, de costas para o assaltante mas observando-o pelo reflexo nos vidros. O sol já começava a fazer efeito. O calor rapidamente aumentava. O suor começava a tomar conta dos dois homens em estados de excitação, ansiedade e medo, cada um por suas razões. A touca ninja começava a pinicar o pescoço e o rosto do assaltante e sua indumentária, imprópria para assaltos no Rio de Janeiro, o fazia suar muito; gotas pingavam no assoalho. O assaltado, agora já se sentindo mais senhor da situação, atacou armado de lábia:

jbgoldemberg disse...

INICIO
Como você é citado, não quiz que fosses o último a saber;tranquilo, são só lembranças que afloraram sem serem chamadas.
Abrç. Jacob

POLICIAL NOIR, A PARTIR DO MINGUINHO,
COM BREVE REVIVAL.

Era uma daquelas vezes em que não mais se podia confiar; havia-se bandeado para o mundo artístico, quiçá surreal, onde não havia compromisso com qualquer verossimilhança que justificasse a necessidade de sua presença. Admitia-se qualquer início, sem sua presença, apesar da tradição consagrada. Havia participado, ludibriada, de tanta barbaridade que se propusera bem intencionada, benéfica mesmo, com seu início, que o desalento era hoje a sua mensagem. Assim, não compareceu. Alegou-se modernidade para que o discorrer startasse — bem moderno,pois. Não mais era uma vez. Era. Então, simplesmente, sem mais nem porque. Os jovens, acostumados com ausências significantes, não estranharam. Não lhes faria a menor falta. Nem a maior. À história, pois.
Então; encostado à balaustrada art deco do velho sobrado, onde ficava a delegacia policial, o delegado olhava para cima, para a grande e escultórica nuvem, branquíssima, que pairava sobre a avenida, naquele esplendoroso céu azul- céu de Maio — a melhor época do ano na mui gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Assoviava a melodia e cantarolava mentalmente “Rio de Janeiro, gosto de você; gosto de quem gosta, deste céu, deste mar, desta gente feliz...” Se sentia o próprio Vinicius, com momentos de Tom... — Olha, tartamudeou, a vida é bela; mesmo sendo delegado. Há que saber separar as coisas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa... E ainda há lugar para um Lupicínio... Sabe das coisa o gauchão, sabe tudo de coração sangrando... E de testa doendo também.
— Doutor, a viatura está pronta; nos trinques. O que vai ser? Levo armamento pesado?
— Nada disso, Vanderson Eusébio. É um assalto em domicilio. Já aconteceu. É só para ver se o elemento ainda anda por lá e tomar as declarações do porteiro e das vítimas. Um B.O., parece que tem seguro.
— Então tá. Quando quiser é só mandar.

Cecilia Fernandes disse...

Interessantes as suas observações. Só acho que você se equivocou ao usar a palavra morro, já que o que mais temos é atuação das milícias em áreas em ruas e planas da cidade que são carentes de atenção do poder público. Já foi época em que crime organizado era sinônimo de morro. O que não faltahoje é 'favela' no asfalto.

Anônimo disse...

Verdade, a interpretação de Wagner Moura é o ápice do filme, sem desmerecer o restante do elenco.
Agora, quanto à ênfase sublinhada por vc, no que toca à colocação do sistema como sujeito maior, lembre-se de que ele foi introduzido no cinema estadunidense em Bullit, de Peter Yates, em 1968!
Saudações Cordiais,
Regina Machado

Anônimo disse...

OPS! Falha minha - leia-se BULLITT, em meu comentário acima.
Regina Machado

daniel muniz disse...

O wagner moura interpretou muito bem... mas dessa vez na minha opniao o sandro rocha no papel de vilão, passou muita verdade em um homem maldoso, e sem piedade com seu olhar do diabo...