segunda-feira, 16 de junho de 2008

ATUALIDADES:


O jornal da manhã é sempre eloqüente. Demonstração do nosso país. Sem lei e sem sentido. Leio tudo o que posso, fotografo, e constato cada vez que um grande romance, peça ou filme poderia sair em qualquer uma daquelas notícias. A vida não começa em lugar nenhum. E sim em todos os lugares. Já a morte tem endereço.
Não penso em outras coisas esses dias senão na minha peça "de violência". Baseado na história de Luis Eduardo Soares, de parceria com Marcia Zanelatto. Todo escritor sabe. Há um momento em que a peça deixa de ser escrita pelo autor e bota o autor para escrever por ela. Comanda. Então tece, reina, despoticamente. Estamos chegando a esse momento. No "Sangrenta Madrugada Sangrenta". Decidimos trabalhar amanhã e apresentar uma versão grossa e feia para o Luis Eduardo no fim de semana. Depois conto mais sobre esse processo. O fato é que minhas meditações de sonhos noturnos têm ido todos em direção em entender o que é isso, o PODER. Não é o dinheiro que importa. É o Poder. Dinheiro é apenas o instrumento. Pelo Poder os homens matam, levam vidas inúteis, fazem maldades. E por ele, se suicidam. Na escala de valores da nossa sociedade, o Poder está no campo mais alto, sem dúvida. E cada vez mais. E qual é a graça do Poder? Que encanto irresistível é esse, pelo qual o homem se destrói alegremente? De que serpente é esse veneno? Não responderei suas perguntas. Quem sou eu para respondê-las? Porém me atrevo a bordar observações a respeito.
O medo domina a condição humana. E não sem razões. O próprio infinito diante do qual nos encontramos é terrivelmente apavorante, nada que o homem possa entender, realmente. E também a morte, etc, etc.
Esse medo torna todo o tempo o homem o lobo do homem. Mas deixo esse assunto na superfície. E volto ao ponto. Somente um outro homem mais poderoso do que você pode te matar. Então é preciso que você seja o mais poderoso dos homens.
Enfiados numa caverna na montanha, os primeiros homens vêem, apavorados, trovões e relâmpagos. Trancados em nossas megalômanas cidades, fazemos o mesmo.
Pode também ser lembrado que o Poder é uma nostalgia do Império Romano. Só pode citar um deles. Poder de vida ou morte do outro homem, o levantar e descer do polegar letal. Menos que isso, não é ainda o poder.
A última observação, creio que mais profunda que as anteriores, vem do irônico Kissinger. Que uma vez perguntado sobre o fascínio do poder, respondeu: "Bem, é afrodisíaco. Talvez esteja aí todo o segredo."
E agora saio do blog para pensar nos meus personagens. Ou melhor, deixar que eles pensem em mim.
Até a volta.


PASSADO:

Denuncio que eu não separei direito a infância da pré-adolescência. Que é diferente. Porque começam a sair dos pauzinhos misteriosas gotinhas brancas. No próximo post ainda quero dizer algo sobre minha esquecida infância.

Depoimento do meu amigo DINO:
(a pré-adolescência, o início da adolescência ainda extratos da série: "Como Sobrevivi")

Domingos ficava horas no telefone com ela naquela conversa amorosa, eles tiveram de fato um início de namoro, muito distante ainda fisicamente. Domingos ficava horas no telefone e eu enchia o saco dele para que ele largasse o telefone e viesse jogar xadrez, jogávamos muito nessa época, e jogamos pôquer, a boite do santuário nessa época existia a pleno vapor. Domingos tinha uma característica quando falava ao telefone que ele pegava qualquer coisa que você botasse na frente dele, então nós pegamos uma moeda com uma pinça, a esquentamos numa vela, até ao rubro, e deixamos ela na frente do Domingos. Bom, ele deu o maior berro (Domingos conversava com a Vitória). Ele ficou com o Dutra tatuado no dedo polegar. Alguns anos antes (13) tinha um cara que sentava atrás do Domingos, chamava-se Kleber, ele levantava os cotovelos do Domingos sutilmente e batia com eles na carteira no meio da aula e o Domingos não podia gritar. Também por ele ser baixinho.
E nós tínhamos um colega muito alto, um tcheco, tinha morado na China, e numa aula de inglês que era a última nós trocamos os casacos dos dois. E ficamos esperando. Quando o Domingos vestiu o casacão caímos na gargalhada. O professor ficou danado e acabou expulsando o Domingos, que era um bom aluno de inglês e tudo. Eu me acusei e acabei tendo de copiar não sei quantas frases.
Por outro lado tinha minhas brigas com Domingos, eu dava petelecos nele, enchia o saco, ele uma vez sacudiu a caneta tinteiro em cima de mim, me manchou todo, eu chamei ele pra briga, mas não dava preu brigar com o Domingos, porque eu era muito maior.
Ele namorou a Vitória mas um namoro muito pouco físico, deu uns beijinhos. Ela tinha uma casa em Nogueira, onde hoje mora minha ex-mulher, a Loly, e nós ficávamos em Petrópolis e íamos visitá-la. Ela tinha aquela irmã que era uma gracinha, eu ficava alucinado por ela e ela não me dava a menor bola. A vitória era cheia de frescurinha, não deixava segurar na mão direito. Houve uma festa em que o Garcia foi e aconteceu o segunite: dois garotos discutiram e desceram pra brigar na rua e nós todos descemos para ver. O Garcia desceu pela escada, eu desci com o Heitor pelo elevador, nós começamos a assistir a briga e de repente parou um táxi e saltou um homem adulto e o Garcia que vinha descendo correndo as escadas viu quando esse homem se aproximou de um dos brigões e puxou o cara de cima do outro. Esse homem era baixinho atravancado, usava terno. O Garcia vendo esse estranho agarrar o amigo dele pegou o embalo e deu um pontapé na cara do sujeito, o cara caiu no chão, de costas perto de mim e do Heitor, assim a uns dois metros e eu vi quando ele meteu a mão na altura da cintura. Eu disse pro Heitor que ele ia puxar uma carteira que ele era da polícia, mas o cara puxou uma arma, deu três tiros, as balas pegaram a um palmo da minha cabeça. Saí correndo no quarteirão e peguei a cena por trás, o cara ainda com a arma na mão. Ele fugiu, saiu a reportagem no jornal. Ele atirou assustado, pra se defender, porque o Garcia quando jogou ele no chão, partiu pra cima dele. Isso foi dois anos antes do Garcia morrer assassinado, só que foi a facadas.
Uma coisa que acontecia naquela época, era a figura do penetra. De repente, numa festa de família, entravam uns oito cafajestes sem serem convidados e passavam a mão na bunda das meninas, enfim, obrigavam que as pessoas se metessem em brigas. Um pouco para impressionar as meninas e também para nos protegermos e nos prepararamos para esse tipo de briga, nós começamos a fazer alteres, o que no caso do Domingos era patético, porque ele tinha um desvio na coluna, uma escoliose, e ele tinha um professor, o Bastiu (campeão mundial de haltererofilismo) depois virou yoga, ele pendurava Domingos numa esteira pra esticar a coluna dele. Não foi um longo período, mas foi um período onde o Domingos saiu-se muito mal. Paralelamente a isso nós tínhamos duas outras atividades esportivas: nós jogávamos sinuca no Cib, isso era um cacife meu, pois para jogar nos bares tinha que ter mais de 18 anos, e o meu tio era presidente do clube e deixava a gente jogar lá. Domingos jogava pessimamente, como aliás até hoje. Ele ficava distraído, gostava de jogar mas nunca ganhava, tinha o xadrez, o pôquer e também o basquete. Nós criamos um clube de basquete, o BAZUCA basquete clube, a primeira vez que o Domingos apareceu lá no Cib para nós jogarmos basquete ele veio de sapato de verniz preto, ficou todo mundo olhando aquela figura. E tinha o Paulinho que era alto mas que também era um péssimo esportista. Bom esportista era o Heitor, e eu também mau esportista mas bom competidor. O Domingos não era competidor nem o Paulinho. Uma vez o Paulinho pegou a bola e fez cesta contra, todo convicto. Nós ficamos olhando, ele indo na direção contrária com a bola quicando, muito alto, e a gente com vontade de dar porrada nele.
Domingos hoje é muito melhor do que foi. Ele tinha muito problema: água fria, areia, tinha asma, medo de dormir no escuro, ele gritava. Ele teve uma ligação com a mãe muito nociva, muito tumultuada. Ele foi um camarada muito frágil, baixinho, asmático, não nadava por causa da água fria, não ficava descalço, não pisava na areia. Ele fazia parte do nosso time de basquete, a gente se divertia. Nós tínhamos só uma camisa do time. A verdade é que a gente dava valor, não tínhamos a fartura que esses meninos tem hoje.


Nós tínhamos uma amizade muito profunda, amávamos as mesmas meninas, mas naturalmente a gente também se sacaneava. O Heitor já conseguia ir ao cinema com uma, dava umas bolinadas, a gente morria de inveja. Tinha também aquela piada do Berkel: Tem uma alemãzinha, linda, que pra dar uma trepada nela não custa quase nada, ela é uma gracinha, você topa? O cara ficava alucinado, "porra me leva me leva", o cara levava você por uma rua, por outra, até depois de meia hora chegava num prédio que tinha uma farmácia embaixo e dizia é aqui, aí entrava na farmácia e se pesava, você ia e se pesava também aí o cara te perguntava, e aí gostou de trepar na Berkel, você ficava confuso, Berkel era a marca da balança, quer dizer uma sacanagem, o cara todo arrumado, perfumado, ansioso pela trepada com a alemãzinha, morrendo de medo.
A noite saíamos para comer pizza, tomávamos muita cachaça e as conversas giravam sempre em torno das meninas, claro. Aí eu fiz uma viagem, não me lembro bem para onde eu fui, mas quando eu voltei, Domingos estava namorando uma menina aparentemente mais beijoqueira, chamada Nazareth. O pai dela era almirante, foi diretor do Loyd, ela tinha dois irmãos que eram verdadeiras feras. Só que o Domingos não levou durante muito tempo esse namoro. Era evidente que ele namorava a Nazareth não porque estivesse apaixonado por ela mas porque ela foi a menina que lhe deu bola. Ele rompeu com ela e voltou ao período das paixões inacessíveis. Mas nessa época já conseguíamos alguma reciprocidade, não das meninas que queríamos, mas de outras. O Domingos tinha uma amiga chamada Rachel Levy, que é amiga minha inclusive e que tinha um pai muito rico nós íamos ao Quitandinha, ela tinha um belíssimo ap lá, e nos servia coisas. Eu me lembro que uma vez a gente comeu um melão espanhol inteiro, servia bebida, coca-cola com cachaça, saint peterguine, e o Quitandinha tinha um bar embaixo, o Quitandinha era um lugar deslumbrante, era uma loucura, os bailes, os bailes de carnaval ia a Kim Novak, o teatro Silveira Sampaio, a piscina térmica.
A Rachel tinha uma amiga de corpo bonito mas feinha, boca feia, dentes feios. E a Rachel me disse que ela queria me namorar, mas eu como sempre estava apaixonado por outra inacessível, a Suzana, e então a Rachel falou com o Domingos, que começou a namorar a tal feinha. Acontece que ela era uma moça muito carente e que imediatamente permitiu uma permissividade sexual até para compensar sua insegurança e eu fiquei putérrimo de ter perdido essa. Só não treparam porque o Domingos não quis, respeitou a virgindade dela, essas merdas. Só que o Domingos tinha uma angústia, porque ela não era a amada. Havia a busca pela mulher total, aquela que reunisse o amor e o sexo. Domingos e Beatriz era aquela coisa nitidamente incompleta.
Aqui caminhamos para os 17 anos, a escolha da profissão. Domingos resolveu fazer engenharia, Paulinho engenharia, Heitor medicina e eu, direito. Domingos mudou de colégio, do 2º para o 3º ano foi para o Guanabara, que era um colégio de passagem para o pré-vestibular, uma baderna, ninguém ia a aula e eu fiquei no Anglo-Americano (o único). Mas mesmo assim nos encontrávamos sempre. Apesar de estudarmos para o vestibular, nessa época arranjamos uma mesa de ping-pong e colocamos na boite do santuário.
Minha mãe tinha uma amiga, cuja filha andava um pouco conosco e era apaixonada por mim e eu naturalmente não tinha o menor interesse por ela mas por uma outra que devia ser noiva, não me dava bola, enfim, e essa moça que se chamava Irene tinha uma amiga que deu uma festa e fomos, o Domingos, eu e o Heitor. Essa amiga se chamava Eliane, era uma baixinha, estava de boina, muito bonitinha, fumava, era avantgarde, e nós três ficamos interessados nela e houve uma competição amigável entre nós, eu tive um flerte com ela, ela se apaixonou pelo Heitor e o Domingos gostava dela, e no frigir dos ovos ela acabou namorando o Domingos. Mas ele namorava a Beatriz. Criou-se um triângulo. O Domingos na verdade não assumia a Beatriz como sua namorada, tinha uma certa vergonha dela, porque ela era feinha, ele mais usava ela pra sacanagem. Mas ela era apaixonadíssima pelo Domingos. Eu ficava numa situação muito chata porque ele vinha falar comigo, aquelas coisas. Eliana era muito ciumenta e não sabia da existência da Beatriz. Uma vez na minha casa o Domigos estava esperando a Eliana chegar e aí chegou a Beatriz. O Domingos acabou rompendo com a Beatriz de uma maneira meio drástica, radical, ela tentou o suicídio, aos 16 anos. Ela chegou a propor ao Domingos que ficasse com a Eliana mas continuasse com ela que ela aceitava assim mesmo mas o Domingos não quis.
E no meio disso tinha o vestibular que nos levaria a uma mudança substancial e também começava a acontecer as correspondências amorosas, o fato maravilhoso da gente amar uma garota e ser correspondido, ser amado por ela.


Mas essas últimas estórias já fazem parte de uma peça minha que teve três títulos e foi meu primeiro sucesso. No próximo post falo dessa peça, cada um tem o 'Amacord' que merece.

Domingos.

3 comentários:

Roberto Queiroz disse...

Domingos,
sou grande fã do seu trabalho e se for por falta de comentário você não deixa de levar o que escreve aqui pra sua biografia (salientando o que você postou no texto anterior). Sabia que você me deu até um conselho bom? vou pensar assim com os meus blogs também.

Abraços cinéfilos,
Roberto.

P.s: meu outro blog:
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Tadeu Salgado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Domingos querido, descobri os blogs recentemente, tenho acompanhado alguns ( Adriana Lisboa, Tom Zé...) e agora o seu, suas belíssimas crônicas diárias...
Deixo um grande beijo e vou poupa-lo dos adjetivos para "Carreiras"...e tudo mais o que fez, o que faz. Até mais...Tati