quinta-feira, 12 de junho de 2008

Escrevendo Apressado

PRESENTE, OU MELHOR, ATUALIDADE:

Um blog é o modo mais eficiente de você descobrir que ninguém tem interesse em comentar as coisas que você pensa. Uma lição de humildade e, ao mesmo tempo, é uma fonte de rejeição. Mas não ligo, não. É o rascunho da minha biografia!!!

De repente acordo me sentindo um idiota, insatisfeito com minha vida profissional atual. Não faço nem teatro nem cinema há um tempão. Faço projetos. Entro e reentro em Leis, Certidões, Editais, ou seja, não faço nada, realmente, enquanto gasto meus dias. Em verdade, eu tenho escrito muito, leia a terceira parte desse blog que começa hoje. Mas pra quem faz teatro ou cinema, escrever não é nada, vamos e venhamos. Sei que é o mais importante de tudo. Mas não é “fazer”! Ou seja, não é nada. E é tão fácil cair no abismo das realidades. Peças e filmes precisam de patrocínios que são ariscos. Enquanto há uma multidão de idiotas correndo atrás desses. Quero ser um dos poucos na calçada da corrida de São Silvestre, atrás do tal do dinheiro que, aos 70, ainda não sei bem pra que serve. Quero dizer que, como ateneio há muito tempo e esqueci. Um homem precisa ter dois tipos de atividade. Uma que depende do mundo e outra que só depende dele mesmo. Vou começar a ensaiar. Não sei o quê, mas vou.

Peço desculpas ao leitor do blog por estar escrevendo pouco. É que estou ocupadíssimo com mil bobagens. A verdade é que não podemos relaxar. Temos de ter um contacto e um diálogo constante com a própria morte para não ficar fazendo besteira na vida.

Na minha última postagem, dei, sem querer, um pulo na minha biografia. Estou na infância, como ir ao Municipal com a Ângela??




PASSADO:

Diário dos primeiros anos, que não escrevi, mas poderia ter escrito: (extrato da Série "Como Sobrevivi?")

25 de março de 1946 (10 anos)
Estou estudando no Anglo-Americano. O colégio é imenso. Hoje na fila fiquei chateado, parece que sou mesmo meio baixinho mas ainda posso crescer muito.
28 de março de 1946
Todo mundo ficou olhando quando o chofer chegou para me buscar. Acho que sou o garoto mais rico daqui.
31 de março de 1946
Que alegria, meu Deus, pegar o bonde andando! A gente tem que correr do lado, segurar e pular. Não é difícil mas se a gente errar o tombo é feio. Isso sem contar que pode ser fatal.
5 de abril de 1946
Finalmente comprei minha coleção de "Guri". Não quero que ninguém mexa, vou guardar em cima do armário. Combinei comigo mesmo, que só vou ler de dois em dois dias, que é pra durar para sempre.
18 de setembro de 1947
Ganhei do Miguel no jogo de Bulica. Fiquei tão contente que dei uns palitos franceses da merenda para ele.
Porque mamãe não troca o guardanapo da minha merendeira? Está simplesmente nojento, todo manchado de guaraná.
20 de outubro de 1947 (11 anos)
Ouvi mamãe comentando com papai que se eu não melhorar da asma não vamos passar as férias em Petrópolis. Preciso ficar bom. Se ao menos eu pudesse suportar a água fria, poderia tentar a natação.
31 de outubro de 1947
A coisa mais importante do dia foi que finalmente consegui ouvir no rádio o tal Dorival Caymmi. É muito bom realmente, tem um vozeirão.
25 de junho de 1948
Estou apaixonado pela Carmem mas não sei porque ela nunca me sorri. Acho até que ela faz cara de enjôo quando me vê. Será que é porque eu sou baixinho?
2 de agosto de 1948
Estou com ódio do Prof. Leon. Isso não se faz. Ele sabe que eu não posso com água fria mas mesmo assim me obrigou a mergulhar com os outros. É um absurdo! Como se já não bastasse o torcicolo que ganhei pulando o cavalo de pau fazendo o tal movimento "peixinho". Todo mundo rindo de mim. O idiota acredita que faz parte da nossa educação física, passar correndo por cima da barriga dos outros. Eu odeio essas aulas.
27 de agosto de 1948
Não sei se foi o Paulinho ou o Heitor. Mas um dos dois melou o banco do carro todo. Sujou o terno do meu pai e quem teve que ouvir fui eu. Assim não vai dar pra continuar dando carona.
8 de novembro de 1948 (12 anos)
Só tem um aluno melhor do que eu. É o Garcia. Só que ninguém gosta dele e todo mundo gosta de mim. Se eu quiser, eu barro ele nas notas.
5 de janeiro de 1949
Já tenho muitos amigos aqui em Petrópolis. O Alberto é mais velho mas é meu amigo assim mesmo. Só não gosta muito é que eu jogue monopólio com ele. Disse que eu sou meio criança. Ele é que é mais velho. O pai dele é engenheiro e joga cartas com o meu pai.
Também estou amigo do Clarêncio, que mora aqui do lado. Acho que me apaixonei pela irmã dele, a Clarice. Não sei se ele vai gostar. Acho melhor não deixar ele descobrir, por enquanto.
10 de janeiro de 1949
Estou muito humilhado. Não sei porque essas coisas acontecem comigo. Estava muito bem olhando a casa, da varanda do quarto de minha mãe, quando vi o Alberto na casa dele e resolvi ir até lá. Ele estava ocupado e me pediu que esperasse um pouco. Então resolvi passar no jardim onde fica aquela piscininha e não sei como fiz, mas escorreguei e caí, de roupa e tudo. Atravessei correndo pra casa mas acho que as meninas que moram ali em cima me viram todo molhado, porque ouvi as gargalhadas delas. Como é que eu vou sair amanhã? Graças à Deus a Clarice não viu.
15 de janeiro de 1949
Zé Roberto pegou uma perereca na horta e trouxe para dentro de casa. Mamãe ficou possessa. Não sei se papai disse só para tranquilizar mamãe mas parece que ele vai mandar cimentar a horta e construir uma quadra de basquete. Não se se eu vou gostar.
5 de agosto de 1949
Hoje o Dino, aquele garoto de óculos, me deu para ler um conto que ele escreveu chamado "Coisas de Importância". É muito bom, ele é um escritor. Falei para ele entrar para o Clube Literário Barão de Macaubas. Afinal, tem pouca gente nesse colégio realmente interessada em literatura, música e cinema. Os imbecis só pensam em esporte. Vai ser bom ficar amigo do Dino, ele é alto e é mais um para me proteger do Garcia, pois seu eu for contar com seu Carvalho, estou perdido. Ele não inspeciona nada, o Garcia anda aí ameaçando todo mundo e ele não faz nada. Até o Prof. Medeiros veio me pedir conselhos sobre como agir com o Garcia. Ele agora se masturba dentro da sala de aula. Isso ainda vai acabar mal.
12 de agosto de 1949
Heitor, Paulinho, Eu e Dino fomos ao Metro ver um filme de ficção científica: "Destination: Moon".
15 de agosto de 1949
Vovó Sinhá me mata se descobrir que estamos nos reunindo no santuário que ela armou aqui em casa. É atualmente meu lugar preferido, com todas aquelas velas e aquele clima de escondidinho. A gente fica horas ali depois da escola ouvindo discos e conversando assuntos importantes. O Dino batizou o lugar de "Boite do Santuário". Vovó mata a gente se descobrir.
O Anglo-Americano tem as meninas mais lindas do Brasil! São deusas gregas de coxas de fora fazendo ginástica. Vamos todos explodir de tanto amor por elas.
29 de agosto de 1949
Tio Jackson hoje deu um trote memorável na vovó. Ele, de costas para ela, falava numa linha os maiores absurdos. E ela, no telefone do lado, gritando, xingando, sem perceber o que estava acontecendo. Nós rolamos de rir. Foi muita cara de pau do tio Jackson.
No jantar, tia Judith estava muito bonita. Até o Heitor comentou comigo que ela deve ter sido uma moça linda. Só acho que ela tem um olhar meio triste. Deve ser por causa dessa coisa de não ter marido direito.
30 de agosto de 1949
Passamos a tarde toda na Boite treinando dança. É importante saber dançar bem, as mulheres dão valor. Ouvimos Doris Day, Harry James, Nora Ney, Dick Farney e Lucio Alves.



(na próxima postagem: "como o mundo me vê", opinião do meu amigo Dino sobre minha pessoa.)


FUTURO:

Estou escrevendo uma parceria com Luiz Eduardo Soares e Marcia Zanelatto. Finalmente caí na vala comum dos escritores falando sobre violência policial e segurança pública. Estamos com 2/3 da primeira versão e estou obcecado. A peça começa a ter vida própria.



Estou escrevendo mais uma versão do meu show para estrear em julho, no Canequinho. Vai ser aos sábados, alternando dois títulos: "Pra Quem Gosta de Mim" e "História Pessoal do Samba".

3 comentários:

Paulo F. disse...

Poxa Domingos, esse ano minha vida tem sido essa também, escrever projetos, enviar, esperar (muito) e descobrir que não foram aprovados. O difícil é a gente lutar tanto e se tornar esses peritos em burocracia pra cavar o modo de fazer aquilo que gostamos. Não é difícil... é triste.
Grande abraço.

Anônimo disse...

Querido Domingos, talvez não se trate de não querer comentar nada, mas de procurar algo inteligente o suficiente para se manter à altura do seu texto. E aí é mais difícil, né? Diante da sua provocação, abro mão dessa busca petulante e escrevo sem almejar tanto, saindo do conforto de só me divertir e aprender contigo. Desta vez foi sobre "ter uma atividade que só dependa de si mesmo". Santa sabedoria... é quase uma meditação. No mais, é viajar em Petrópolis e no seu texto delicioso... vou continuar lendo sempre, comentando só de vez em quando, tá? um beijo grande, Duaia

Liz Ramos disse...

vc tá se sentindo um idiota e eu tô só me sentindo mais uma que te acha fantástico...
quanto aos comentários, sempre leio aqui, mas é a primeira vez que comento...taí, nao sei por que...
Beijo na ponta do nariz
Liz