quarta-feira, 25 de junho de 2008

ATUALIDADES

Peter Brook está no CCBB com peça de Beckett.
Não sou um fã de Albe, Pinter nem, confesso encabulado, desse mestre de todos: Beckett. Ele escreveu uma ótima peça, “Esperando Godot”. Na hora certa. Depois permaneceu batendo na mesma tecla, penso como poeta do Brasil, do absurdo tedioso, da denúncia vazia. Quem não sabe que o homem sofre dessas coisas? Não são pontos de chegada. E sim, de partida, para algo melhor. Porém muita gente boa gosta, principalmente a geração logo anterior à minha, para quem o senso do absurdo foi uma revelação. Eu não me toco com essa literatura, perdão. Me parece que já fui e já voltei.
Mas possivelmente estou errado. Não devo ter dado a devida atenção.

Se me perguntam o que estou fazendo, respondo: “Você tem tempo pra me ouvir?”
Se eu me pergunto o que estou fazendo, respondo nada. Escrever é quase não fazer nada, tenho escrito muito. Enquanto espero amaldiçoados patrocínios. Fazer envolve contar com os outros. É corporal. Estou com dois filmes prontos, ótimos: “Juventude” e “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, esperando patrocínio para lançamento. Para mim, já foram feitos há décadas. O prazer que resta é dar de vez em quando uma festa para alguns amigos e mostrar na TV. Sem a Priscilla na sala, é claro. Que esta não agüenta mais. Estou com duas peças prontas, ótimas: “Apocalipse, Segundo Domingos Oliveira” e a mais recente, “Confronto”, na qual caio na vala comum e falo das relações do Poder com o Crime Organizado. Pelo menos não tem um tiro. São todos longe da cena. Tem também um roteiro pronto. O melhor que escrevi na vida. Chama-se “Inseparáveis”, também esperando, adivinha o quê? Enquanto isso, para não morrer de tédio aos 71, monto meu show no Canequinho. Um show em que canto e danço. Ou seja, absoluta piração. Tudo piora com a idade. Mas não é que a cabeça fica melhor? Não só mais criativa e profunda. Também mais eficiente. E escrever, reconheço, é uma forte droga. Quando uma peça ou filme te possui, você não é ninguém.

Quero, cada vez mais, ter uma linha de trabalho que não dependa dos livros. Espetáculos ou filmes dimensionados para pagarem os custos e, se forem ótimos, dar um bom lucro. Esse dimensionamento na prática é apavorante. Você vai sendo reduzido a zero, pressionado ao zero, muitas vezes passando para o outro lado. Ou seja, pagando para trabalhar. Mas um homem sempre tem que ter sua segunda linha de trabalho, usando uma palavra gasta, independente.

Estreou o filme formidável. “Escafando e a Borboleta”. Não vejam, ninguém merece.

Hoje acordei sem nenhuma modéstia. Meu programa de televisão “Todos os Homens do Mundo” é, de longe, o melhor programa de entrevista que a televisão brasileira jamais fez. O do prêmio da academia, recentemente exibido, era hilário e montamos um agora de “Tangos e Tragédias”, também muito bom. Estamos vivos, espertos, Priscilla e eu. Mas o programa não repercute! Ninguém telefona no momento que termina, nem comentam no jornal. Provavelmente porque o Canal Brasil tenha pouca audiência, talvez por causa de uma certa Lei Áurea da nossa sociedadezinha atual: Se é bom, elogiar. Se é ruim, denunciar. Se é ótimo, destruir, arrasar. Não me incomodo com isso, não. Mas acho engraçado. O programa vai ao ar na quarta-feira, quarta que é dia de jogo.

Agora, na minha sétima década, penso demais na morte, cometo essa tolice. Acho que tenho pouco tempo, etc. Impressão essa que é desmentida todas as manhãs. Pela lucidez com que acordo, não importa qual a noite anterior. A sensação de que algo interessantíssimo se inicia. Hoje nasceu Enrico, filho de Renata Paschoal. Não conhece a Renata? Não sabe o que está perdendo. Disse de manhã ao telefone para o pai palavras de sempre: “Agora você não é mais um ponto solto no espaço. Você faz parte de uma linha que se estende infinitamente para o futuro e que, para o passado, vai até os protozoários. Parabéns, pai. Agora sua vida não é mais sua.”





PASSADO:



Estou tentando fechar meus recuerdos, minha infância. Cada um tem o Amacord que merece. É pouca coisa, porque todo o resto está contado na minha peça "Do Fundo Do Lago Escuro". E eu não vou ficar aqui repetindo. Se lá está melhor, vocês podem ler. Porém talvez haja algo que não está registrado. Gostaria de falar sobre a foto que vai abaixo, tirada em 1907. Na qual, portanto, todos estão mortos há muito tempo.

Farei isso na próxima postagem. Nessa coloco minha emoção quando esrevi o "Do Fundo Do Lago Escuro" e li num teatro. Leiam, é uma bela estória.



DO FUNDO DO LAGO ESCURO
Eu não escrevei uma linha da peça. Eu ouvi vozes com timbres diferentes e tudo era lançado de cá para lá, por duas vezes saí correndo do escritório com medo de certas coisas que eu não sabia e que a peça estava revelando.
O grosso do trabalho foi feito durante uns três meses, aproveitando um tempo no qual a TV, por causa de um desentendimento, me deixou inativo, de castigo. Me contam que foram três meses, porque, na verdade, não tenho idéia. Foi muito rápido escrever o “Lago”. Uma vida inteira, porém muito rápido. Lenita me conta que eu fiquei muito distante de tudo, embora aparentemente normal. Que somente saía do escritório para comer e que qualquer coisinha fazia vir lágrimas aos olhos. Isto é, o escritor. Com uma dignidade que absolutamente eu não tenho...
Antes de começar, andei tomando alguns “impulsos” que hoje me parecem ter tido importância. A peça nasce de um sonho. Um dia tive um sonho muito intenso, porém sem nenhuma “narrativa”. Uma sensação avassaladora, de alguma coisa muito antiga e muito amada, de uma coisa pedida para sempre. Acordei chorando, mobilisadíssimo e alguns dias depois (ou no mesmo dia) fiz uma canção, no violão, a canção que antecede a peça. Depois se passaram alguns anos antes que eu pudesse enfrentar esta “peça sobre minha infância”.
Na verdade tudo o que um escritor escreve é mentira. Como observou Fellini, a mentira é a alma do negócio. Tudo é mentira, por mais vivido ou “autobiográfico” que seja. O escritor sempre mistura muitas coisas em apenas uma, inventa muito, corrige muito o mundo. Permeia com benevolência todas as deformações causadas pela individualidade da sua visão do mundo. E, nesta medida, tudo é verdade.
Para começar juntei todas as fotos que tinha da infância. Eram algumas, o suficiente para um álbum. Fiz o álbum, com uma meticulosidade religiosa,. Transformei-me em objeto de estudo, de observação. Passava horas olhado os fundos das foto, tentando compreender as manchas, sentir as texturas, respirar os ares. Demorei um bom tempo fazendo isso. E antes de lançar-me à máquina, reli, como quem toma o fôlego, a “Longa Jornada” de O’Neill.
Terminando o texto, encontrei no concurso do SNT, sob pseudônimo. Não tinha muita esperança de ganhar. Era talvez a primeira vez que eu havia escrito sem realmente pensar, por nem um momento, em agradar a qualquer tipo de platéia ou leitor. Foi para mim. Eu escrevi pra mim. Dedicado a Lenita e a Mariana, por todo amor que lhes tenho.
A peça não somente ganhou o concurso como agradou aos mais exigentes. Praticamente todas as companhias importantes do Rio quiseram montá-la. Logo depois do concurso entreguei os direitos de representação para Fernanda Montenegro, por motivos claríssimos: “Mocinha” permitirá que Fernanda mostre sua sempre surpreendente grandeza.
Li a peça em voz alta, apenas uma vez, no Teatro Ipanema, numa madrugada, pouco depois do prêmio do concurso. Tinha umas 30 pessoas lá, quarenta talvez. Algumas eram muito queridas: Lenita, Iva de Albuquerque, Susana Faini, Carlos Gregório, Solie Eich e várias outras. Havia um dado curioso à respeito. O texto ganhou o prêmio de melhor COMÉDIA, embora fosse obviamente um drama. Isto se deveu, segundo informações internas, ao fato de não poder dar o prêmio de drama a uma peça que não fosse diretamente “política”, etc, enfim, essa besteira já conhecida de todos. Quando comecei a ler a peça, porém, comecei a verificar que realmente aquilo era engraçado! Eu estava muito emocionado e quanto mais eu me emocionava, por algum caminho estranho, mais engraçada ficavam certas frases da peça. Antes do fim do primeiro ato, suspeitei que não conseguiria chegar ao fim. A voz embargava a cada momento, os olhos marejavam, eu estava emocionadíssimo. Foi quando percebi que minha “platéia” compartilhava da exata emoção. Muitos olhos brilhavam olhando para mim... Não tenho dúvida sobre o que fazer, soltei a emoção, como as rédeas de u cavalo. Li chorando, até o fim da peça. Às vezes o papel ficava até molhado. Chorávamos todos, as vezes rindo muito. Foi inesquecível. Se por mais não fosse, apenas esse momento teria valido o esforço de escrever a peça. Me lembrarei deste dia até o último dos meus momentos. Foi o dia em que eu pude chorar. Chorar, porque estava entre amigos.

Domingos Oliveira, fim de 1979.

4 comentários:

Paulo F. disse...

Domingos, teu blog tá ficando cada vez melhor. É sempre ótimo (ou seria terrível?) saber que na sétima década de vida, temos as mesmas questões que na terceira.
E Todos os homens do mundo realmente é o melhor programa de entrevista. Pena que nem todos possam bancar um canal Brasil.
grande abraço!

Paulo F. disse...

P.S. Leio esse post logo depois de assistir "Confissões das Mulheres de 30". Que texto... que peça...

borboletaavoada disse...

Domingos,
estou viciada em você, não consigo mais parar de te ler, seu blog é essencial.
Débora ALmeida

Marcelo Mota disse...

Domingos, eu assisto o canal BRASIL! e quando teu programa acaba, fico louco para ligar! huahaua! Oxalá que pintem todo o PATROCINIO (vou jogar na MEGASENA, se ganhar te procuro, Ok?)
sorte
saúde e
sucesso