quinta-feira, 17 de julho de 2008


PASSADO

Ainda há muito o que dizer sobre a minha infância. Mas era preciso que eu ouvisse, entrevistasse meu primo distante, o Sergio, filho do tio Jackson, figura boêmia da família que tanto me marcou. Porém, o essencial está realmente contado em “Do fundo do lago escuro”. O essencial é que minha mãe Carmelita, mau grado às suas extraordinárias qualidades, compartilhava de um hábito social comum às famílias burguesas da época. Toda vez que lhe convinha, ela mentia, sem o menor escrúpulo. A família era toda assim. Para crianças, então, era comportamento habitual. A mentira. As mentiras da minha saudosíssima mãe fizeram com que eu menino chegasse a confundir o certo com o errado, o ilusório com o concreto. Mas, leia a peça. Que você compreenderá melhor. Assim sendo, fica combinado assim. Fico devendo da minha infância até encontrar o primo Sergio, que se perdeu na bruma do tempo, tal foi o estilhaçamento da família.
Para não ficar no vazio, avanço se bem que prematuramente para o fim da adolescência. Um dia preencho o buraco.

21 ANOS (1952)

Não que minha família não seja afetiva. É. Mas seu amor dedicam-no à "família" e não a seus membros. Generalizam. Garanto que têm dificuldade de distinguir um sobrinho do outro, um tio do outro. Por mim, tento tratar todos os homens da família como amigos que não vejo há muito tempo. Já com as mulheres procedo ainda com maior eficiência. Trato todas como se fossem mulheres. Das mais novas às mais velhas, elogio os vestidos e chego a beijar com certa (perdão) sensualidade. Na minha família as mulheres são muito mais importantes que os homens.

Hoje fui ao "Farolito". É um bar de prostitutas, daqueles fechados, que sempre me infundiram pavor. De qualquer modo, somente agora fiz os vinte e um anos necessários para me deixarem entrar. Passos inconfortáveis em direção ao bar, quatro ou cinco apenas. Era um lugar vermelho, obscuro. Pedi um uisqui e fiquei sentado lá sem me mover, até ninguém mais olhar para minha cara de menino. Não tinha muita gente, era dez horas da noite. Homem tinha um, mais cinco ou seis mulheres e os garçons. Duas juntas também no bar. A decoração podia ter sido bonita um dia, espanholas dançando e signos do zodíaco, pintados em vidros iluminados por trás. Nomes de "drinks" junto as datas limites de cada signo. Cheiro de desinfetante perfumado. Um homem na mesa tirou do bolso muitas balas e ofereceu, a mulher aceitou. Riram.

22 ANOS.
Descubro um papel rabiscado: "Conflitos a resolver". Creio que eu tinha 22 anos: Morar ou não fora do Rio?
Procurar as prostitutas?
Quero ou não Eliana de volta?
De procurar a Cecilia (por quem, casado e culpadíssimo, me apaixonei nas ladeiras de Petrópolis, no inverno. Ela era filha do prefeito! Nunca nos beijamos)
Devo dar a bunda como experiência?
Que fazer quanto à masturbação?


PRESENTE
Um homem que depois dos 40 não tem como preocupação principal a morte... é um imbecil. A frase não é minha, é de Tolstoi. Dizem que existiram civilizações em que a morte não era um assunto tão fora da vida, digamos assim. Mas aqui, fugimos dela o quanto podemos até chegar a uma idade em que se fugirmos é pior. Costumo dizer que o medo da morte é um luxo da juventude.
Li o último livro do Dráuzio Varella, “O médico doente”. Li é modo de dizer porque comecei a ler de noite, acordei às 5 da manhã para ler o resto. O Dráuzio, que mal conheço, porém é marido da Regina, que é muito amiga minha, é um sujeito formidável, como atestam seus livros. Honesto, corajoso, inteligente e solidário. Muito mais do que jamais sonhei ser! Um homem sem medo nem culpas. Profissionalmente é oncologista. Ou seja, alguém que vive na mesma cela que a Besta. “ Carandiru” foi aquele sucessão, o livro seguinte sobre os doentes terminais que ele conheceu como médico, “ Por um fio” era melhor ainda, mas ninguém teve coragem de ler. Deus me livre, diziam. Como se Deus livrasse alguém disso. O estilo do Dráuzio caracteriza-se por aquilo que poderíamos chamar de objetividade comovida, ele não faz rodeios, vai direto ao assunto, com rigor e a profundidade que somente homens sinceros podem ter. Este livro agora trata da sua própria experiência de morte. Dráuzio pegou febre amarela e correu grande risco de vida há pouco tempo atrás e relata isso no livro. Então, vejam senhores. Que manjar dos deuses! Um homem sem máscaras, sem medos ou vergonhas, com a objetividade de um médico nos fala das paragens perto da morte. Dando-nos a certeza que foi o vencedor posto que está escrevendo.
A palavra mais profunda sobre a morte até hoje tem me sido dita no final de “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, um livro realmente terrível. Ivan está na sua cama, de olhos fechados, sente as pessoas ao redor, ouve-as dizerem que ele morreu... e então, morre. Dráuzio vai muito mais longe que isso, é imperdível. O modo com que ele nos conta minuciosamente o processo pelo qual uma doença grave modifica os sentimentos e a consciência da vítima. É um médico, tem consciência de tudo. Sabe que muito provavelmente não sobreviverá. E descreve essa planície larga sem retorno nem avanço com uma precisão que somente pode ser chamada de poesia. De repente uma manhã, ele começa a melhorar, não tenta explicar porque, nem comenta o assunto. É como se ele tivesse sobrevivido por acaso. Deixa para o espectador descobrir e julgar se houve algo que o salvou. Nada aconteceu realmente. Dráuzio está bem e vive com Regina em São Paulo. Note-se apenas que no auge da doença, na véspera da melhora, delirante e confuso pela morfina e pela doença, Dráuzio compreende que morrer é fácil. Grande autor, grande livro.
Fora isso, vi um filme bom. Umas cópias piratas que meu técnico de computador coloca, à minha revelia é claro. Hulk é péssimo. Os outros blockbusters colocados também. Sobrou um no fim da lista, chamado Cinderela’s Man. Pelo título e pelos atores, os sempre desagradabilíssimos Russel Crowse e Renée (não sei dizer o sobrenome dela), tive certeza que era uma comédia da pior qualidade. Ledo engano. Os dois atores estão ótimos, como se tivessem encontrado finalmente seus personagens certos e trata-se de um drama de boxe passado em plena depressão econômica de 29, em NY. Olha, já teve muito filme bom de boxe, “Touro indomável”, inegavelmente uma obra prima e muitos outros. E muita gente que faz a cabeça com Stallone, Rocky. Sabem que esse filme é melhor? Pelo menos nas lutas de boxe... Nunca sofri tanto com os socos. Fui várias vezes à lona, junto com o simpatissíssimo Russel. E como dramaturgo me deslumbrava verificando mais uma vez que não existem histórias velhas. Apenas maus escritores e diretores. Esse filme, dirigido por Ron Howard (Apolo 13 e O Jornal), não tem gângsters, não tem porres de decadência, as apostas não têm tanta importância, porém o motivo pelo qual ele luta é a fome, a necessidade. De comer ou religar o aquecedor para que seu filho tussa menos no rigoroso inverno. O personagem baseado na vida real, apanha e dá por pura sobrevivência. E chega ao fundo do poço. Quando não tem mais saída, emerge vitorioso, bem... não vou contar o fim. Recomendo o filme. É da melhor estirpe do cinema comercial americano, que sempre prezou o homem nos seus sentimentos heróicos e nobres.
Por hoje, é só. A minha digitadora e amiga Marcia Z está exausta.

2 comentários:

fmaatz disse...

rá;
mistura da boa.
filme americano e 22 anos.
o pior é que junto faz um sentido maluco e bom.
mais, mais.

Carolina disse...

Domingos! Você inspirou essa poesia, humilde, porém feita com grande paixão!


Nas controvérsias de estradas distintas
Passeio em busca de antigos “AMORES”
São vidas que um dia se uniram
E que hoje, separaram-se guardando rancores.
“A CULPA” seguirá sempre comigo
Guardada em meu peito; tecendo tragédias.
Porque me deixei vencer por “FEMINICES” alheias?
Porque lhe fiz conhecer as “DELICIOSAS TRAIÇÕES DO AMOR”?
Posso ter “TODAS AS MULHERES DO MUNDO”, mas de que me adianta?
Se entre tantas, você é a única que me rouba carinhos sinceros!
“SEPARAÇÕES” fizeram-se inevitáveis
Sofri como quem deixa escapar uma última gota de água no deserto
“TEU TUA”, eu repetia incessantemente.
Eu te possuía em pensamentos, eu me possuía em solidão.
Cai em prantos, sem mais te encontrar.
Conheci “AS DUAS FACES DA MOEDA”
Vivi paixões com ardor
Amei você sem limites
E entre esses dois sentimentos, conheci a dor.
Dor que lateja em meu peito
Que me arranca a felicidade, trazendo consigo a certeza de um término.

Carolina Prestes - Uma homenagem!


Adoro o seu trabalho! Parabéns!
Um abraço!